O seu familiar com demência acorda durante a noite? 7 Estratégias Práticas

Introdução

Quando a pessoa com demência acorda durante a noite de forma repetida, toda a família entra numa espiral de exaustão. 

A noite transforma-se num campo de batalha silencioso: a pessoa levanta-se dezenas de vezes, chama, tenta sair de casa, procura algo que não sabe nomear. 

Ou, pelo contrário, passa o dia inteiro a dormir no sofá e à noite está completamente desperta.

O que a maioria das famílias faz é esperar. Espera que a pessoa fique tão cansada que adormeça. Espera que o corpo se autorregule sozinho. Espera que amanhã seja diferente.

⚡ Resumo Rápido

O sono desorganizado não é teimosia - é neurologia e falta de estrutura
O cérebro perde a capacidade de distinguir dia e noite
Rotinas previsíveis são a chave para reorganizar os ciclos
Dormir em excesso durante o dia pode ser sinal de alerta clínico

⏳ Tempo de Leitura: 11 minutos

Mas o corpo já não se autorregula. E quanto mais se espera, mais o ciclo se desorganiza.

O erro não está em esperar demasiado tempo. Está em acreditar que o sono voltará sozinho, quando na verdade é preciso reconstruí-lo, dia após dia, com pistas externas que o cérebro da pessoa com demência já não consegue gerar sozinho.

O que muda no sono com o envelhecimento e por que razão a pessoa com demência acorda durante a noite

Mudanças esperadas no sono da pessoa idosa

À medida que envelhecemos, o sono torna-se naturalmente mais leve e fragmentado. É normal acordar mais vezes durante a noite e ter um sono menos profundo do que na juventude. Isto, por si só, não é doença. É uma mudança fisiológica do envelhecimento.

O problema começa quando a pessoa com demência acorda durante a noite muito agitada e confusa, quando já não consegue distinguir se é dia ou noite, ou quando o sono é tão mau que interfere com o humor, a memória, o equilíbrio e aumenta o risco de quedas.

Sinais de que o sono precisa de atenção médica

Há situações em que o sono deixa de ser apenas "leve" e passa a ser um problema clínico que exige intervenção. Fique atento se o seu familiar com demência acorda durante a noite com estes sinais:

Passa a maior parte da noite acordado, desorientado ou agitado
Dorme praticamente o dia inteiro, sem energia para actividades simples
Apresenta episódios de confusão intensa ao final da tarde ou à noite
Acorda com dores, gemidos ou sinais de desconforto não verbalizados.

💡 O sono não é um detalhe, é um pilar da saúde

Uma má qualidade de sono em pessoas idosas está associada a:

Maior risco de declínio cognitivo
Pior controlo de doenças já existentes
Mais irritabilidade, confusão e apatia
Mais risco de quedas

O que acontece ao sono na demência

Por que motivos a pessoa com demência acorda durante a noite: quando o cérebro perde o relógio interno

Dentro do nosso cérebro existe uma região que funciona como um relógio biológico. É esta estrutura que nos ajuda a sentir sono à noite, fome a determinadas horas e mais energia durante o dia. 

Na demência, especialmente no Alzheimer, na demência vascular e na demência por corpos de Lewy, este sistema começa a falhar.

O resultado é desconcertante para quem cuida. A pessoa pode estar completamente desperta às quatro da manhã, como se fosse meio-dia. Pode ficar extremamente sonolenta durante o dia, mesmo sem ter feito qualquer esforço. 

E pode apresentar períodos de grande confusão e agitação ao final da tarde.

A Síndrome do Pôr-do-Sol

Este padrão de agitação no final do dia é tão comum que tem um nome técnico: síndrome do pôr-do-sol, ou sundowning em inglês. É uma das principais razões pelas quais a pessoa com demência acorda durante a noite desorientada.

Não é "mania". Não é "má vontade". É o cérebro a perder a capacidade de perceber quando é suposto estar acordado e quando é suposto descansar.

Por isso, quando a pessoa com demência acorda durante a noite e começa a mexer em gavetas de madrugada, a tentar sair pela porta ou a vestir-se como se fosse manhã, não é porque decidiu dificultar a sua vida. 

É porque, para o cérebro dele, o corpo está a dizer que o dia começou. A desorientação temporal é real e profundamente perturbadora.

😔 Sente que nada está a funcionar?

Podemos ajudar com orientação personalizada adaptada à vossa realidade. Clique no botão abaixo 👇

7 estratégias práticas quando a pessoa com demência acorda durante a noite

Quando a pessoa com demência acorda durante a noite de forma repetida, a solução não passa por medicação imediata. 

A chamada "higiene do sono" não é nada de complexo ou místico. São hábitos e rotinas concretas que ajudam o corpo a voltar a reconhecer o dia e a noite. 

Organizámos estas estratégias por áreas práticas, para facilitar a aplicação quando o seu familiar acorda muitas vezes à noite.

1. Estruturar o dia como se fosse um mapa

O cérebro da pessoa com demência precisa de horas previsíveis, sequência previsível e ambiente previsível. Quanto mais caótico for o dia, mais confusão interna o cérebro experimenta.

Na prática, isto significa acordar sempre à mesma hora, mesmo que a noite tenha sido má. Levantar da cama, abrir as cortinas, lavar a cara e vestir a roupa de dia - não deixar a pessoa de pijama o dia todo. 

Ter horas fixas para as três refeições principais. Distribuir pequenas atividades que o façam sentir-se útil ao longo do dia: dobrar panos, escolher fruta, ouvir música, regar plantas, folhear fotografias, limpar talheres... E ter uma hora de deitar relativamente consistente, mesmo ao fim de semana.

A consistência é mais importante do que a perfeição. Não precisa de ser rígido ao minuto, mas a estrutura tem de existir.

2. Usar a luz natural

A luz é o sinal mais poderoso que o cérebro recebe para "acordar". Aproveite este detalhe a seu favor. Logo pela manhã, sente o seu familiar junto a uma janela com muita luz natural durante 20 a 30 minutos. 

Se for possível e seguro, faça um pequeno passeio na rua. Mantenha a casa bem iluminada durante todo o dia.

À noite, o oposto: a partir das 19h30, comece a reduzir a intensidade da luz. Desligue luzes fortes, feche cortinas, crie um ambiente mais aconchegante. 

O cérebro precisa destes contrastes claros entre dia e noite para reorganizar os ciclos.

3. Alimentação, cafeína e álcool: pequenos detalhes que atrapalham muito

Evite refeições pesadas à noite - o desconforto digestivo pode fragmentar o sono.

Elimine café, chá preto e chá verde a partir das 14h. 

Na pessoa com demência, a cafeína pode permanecer ativa no organismo durante muitas horas. Reduza ou elimine o álcool ao final do dia. 

Embora o álcool possa induzir sonolência inicial, fragmenta o sono durante a noite e piora os despertares.

Opções seguras para a noite incluem chás sem cafeína (camomila, tília), leite morno ou água morna com uma colher de mel.

4. Atividade física e estímulo durante o dia

Não é preciso muito. Pequenas atividades já ajudam o corpo a reconhecer que o dia está a "acontecer". Inclua a pessoa nos afazeres domésticos: dobrar toalhas, descascar batatas, varrer a varanda, regar plantas - sempre de acordo com o que ela sempre fez.

O objetivo não é cansá-la até à exaustão, mas mantê-la moderadamente ativa e envolvida.

Evite o erro oposto: deixar a pessoa sentada no sofá o dia inteiro, sem qualquer estimulação. Um dia vazio cria uma noite caótica.

5. Gerir as sestas com critério

A sesta pode ser útil, mas tem de ser controlada. A regra prática é simples: sesta de 20 a 40 minutos, preferencialmente depois do almoço. Evite sestas muito longas. Evite sestas depois das 16h. E nunca deixe a pessoa dormir a tarde toda no sofá.

Dormir em excesso durante o dia destrói a noite. Se o seu familiar adormecer no sofá, acorde-o gentilmente, leve-o a dar uns passos, ofereça água, mude de ambiente. Mas apresente sempre um objetivo em como a pessoa o vai ajudar em alguma coisa. 

6. Criar um ritual de transição para a noite

A noite precisa de "pistas" que sinalizem ao cérebro que é hora de desacelerar. A partir das 19h30, comece a reduzir estímulos. Diminua a luz. Reduza o barulho. Desligue a televisão. 

Se a pessoa tolerar, ofereça um banho com água morna.
Ponha música calma. Prepare o quarto: temperatura confortável, roupa de cama limpa, ambiente tranquilo. Deite a pessoa sempre mais ou menos à mesma hora.

Este ritual não precisa de ser longo ou complicado. Precisa, sim, de ser consistente e previsível. O cérebro aprende por repetição.

7. Verificar desconfortos físicos escondidos

Muito do que parece insónia é, na realidade, desconforto físico não verbalizado. Antes de deitar a pessoa, faça uma verificação. 

Verifique se há dor. Leve-a à casa de banho. Confirme se a fralda está limpa e seca. Verifique se tem frio ou calor. Certifique-se de que a roupa não está a apertar. Ofereça água. Verifique se há sinais de refluxo. Confirme se o colchão e a almofada são confortáveis.

A agitação é muitas vezes a única forma que a pessoa com demência encontra para comunicar desconforto. Aprenda a "ler" estes sinais antes que se transformem em noites impossíveis.

💡 A rotina é a linguagem que o cérebro ainda compreende

O cérebro da pessoa com demência consegue ainda reconhecer padrões repetidos: a luz da manhã, o cheiro do café, a cadeira que sempre utilizou, a música ao final da tarde. A rotina não é monotonia, é segurança.

Quando o problema é o excesso de sono durante o dia

Dormir demais não é normal

É um erro comum acreditar que "pessoas idosas dormem muito por natureza". Dormir excessivamente não é normal na maioria dos casos. 

Se o seu familiar passa o dia inteiro a dormir, mal se aguenta acordado à mesa, adormece em qualquer cadeira, isto pode indicar um problema subjacente que precisa de investigação médica.

Noites mal dormidas
Apneia do Sono
Dor crónica não controlada
Infeções silenciosas
Problemas na tiróide
Anemia
Diabetes descontrolada
Desidratação
Nutrição pobre e défices vitamínicos (especialmente Vitamina D e B12)
Efeitos secundários de medicamentos
Depressão

Na pessoa com demência, a depressão manifesta-se frequentemente como cansaço extremo e apatia, não necessariamente como tristeza.

O que fazer quando o sono preocupa

O primeiro passo é observar e registar. 

Durante uma ou duas semanas, anote a que hora a pessoa se deita, quanto tempo demora a adormecer, quantas vezes se levanta durante a noite, a que horas acorda, como dorme durante o dia, se houve alterações recentes na medicação, e se há sinais de dor, apatia, irritabilidade ou confusão.

Depois, leve este registo ao médico. Não tenha receio de parecer "demasiado preocupado". 

Pergunte: "Este padrão de sono é esperado nesta fase da demência?", "Alguma medicação pode estar a piorar isto?", "Devemos despistar apneia do sono, dor, infeções ou depressão?".

Muitas vezes, o problema tem solução, mas só se for investigado.

E o cuidador no meio disto tudo?

A exaustão de quem cuida é real

Nada disto é simples. E sem descanso adequado, ninguém aguenta meses de noites partidas. Reconhecer que está no limite não é falhar, é ser humano. 

Peça ajuda sempre que possível. Divida as noites com outro familiar. Considere apoio externo em períodos críticos. Cuide do seu próprio sono e da sua saúde mental. Reconheça os sinais de exaustão antes de chegar ao colapso.

Não normalize o insustentável. Se as noites estão a destruir a sua saúde, algo tem de mudar. E mudar pode significar reorganizar horários, partilhar responsabilidades, ou procurar apoio profissional temporário.

A mudança é gradual, mas real

Melhorar o sono de um familiar com demência não acontece de um dia para o outro. Não há soluções mágicas nem fórmulas universais. 

Mas pequenas mudanças diárias, acordar à mesma hora, usar luz natural, criar rotinas previsíveis, verificar desconfortos, acumulam efeito ao longo das semanas. 

E transformam a forma como se vive a demência dentro de casa.

O objetivo não é a perfeição. É reduzir o sofrimento. É criar condições para que tanto a pessoa com demência como quem cuida consigam descansar minimamente. É devolver alguma previsibilidade a dias que parecem caóticos.

Comece por um passo. Escolha uma estratégia desta lista e aplique-a durante uma semana. Observe. Ajuste. E continue.

A Catarina e o pai partilham como, depois de semanas sem descanso, a avó voltou finalmente a dormir durante a noite.

O que parecia um detalhe transformou-se num ponto de viragem: mais serenidade, menos desgaste e uma nova rotina que trouxe tranquilidade à casa e à família.

Demência em estadio avançado - 90 anos, Sintra

❤️ Precisa de apoio?

Clique no botão abaixo para desenvolvermos estratégias específicas que funcionem para o seu familiar e para a sua família 👇

FAQs - Perguntas Frequentes

O que fazer quando a pessoa com demência acorda durante a noite e não quer voltar para a cama?

Não force, não argumente, não ligue todas as luzes. Mantenha a casa escura, fale num tom calmo e baixo. 

Deixe-a sentar-se numa cadeira confortável durante 15-20 minutos. Ofereça água morna ou leite morno. Depois de alguns minutos, volte a tentar com frases simples: "Vamos descansar um bocadinho na cama?". 

Se resistir, não insista.

É normal quando a pessoa com demência acorda durante a noite de forma repetida?

Alguma fragmentação do sono é comum no envelhecimento e na demência. Mas se a pessoa com demência acorda durante a noite de forma repetida, prolongada e acompanhada de confusão ou agitação, vale a pena investigar causas tratáveis: dor, infeções, apneia do sono ou efeitos de medicamentos.

Devo acordar o meu familiar se adormecer durante o dia?

Depende. Uma sesta curta (20-40 minutos) após o almoço pode ser benéfica. Mas se a pessoa está a dormir a tarde toda, sim, deve acordá-la gentilmente. O excesso de sono diurno compromete o sono noturno. Acorde-a, ofereça água, mude de ambiente e proponha uma tarefa com propósito. 

Como sei se o sono excessivo do meu familiar é preocupante?

Se a pessoa dorme a maior parte do dia, tem dificuldade em manter-se acordada durante as refeições, ou apresenta apatia extrema, isto não é "normal da idade". Pode indicar infeções, anemia, problemas de tiróide, depressão ou efeitos de medicamentos. Fale com o médico.

O meu familiar com demência acorda durante a noite - a medicação para dormir é segura?

Alguns medicamentos para o sono podem aumentar confusão, risco de quedas e dependência, especialmente em pessoas com demência. Nunca medique por conta própria. 

Se o médico prescrever, questione sobre efeitos secundários, duração do tratamento e alternativas não farmacológicas.

Quanto tempo demora até as rotinas começarem a funcionar?

Geralmente, são necessárias uma a três semanas de consistência para que o cérebro comece a responder às rotinas. Não desista nos primeiros dias. A mudança é gradual, mas real. Mantenha horários estáveis e observe pequenos progressos ao longo do tempo.

Artigos Relacionados

Estratégias e explicações simples para o dia a dia de quem cuida de um familiar com demência, escritas para quem precisa de respostas práticas, não de teorias.

Descubra como lidar com o seu familiar com demência quando tem alucinações e acha que está a ver ou a ouvir pessoas que não existem.

Descubra como a mentira terapêutica protege o bem-estar emocional e a dignidade da pessoa com demência. Como adaptar a comunicação.

A forma como falamos com uma pessoa com demência pode desencadear resistências e conflitos. Saiba adaptar a comunicação com o seu familiar

Para quem não quer cuidar às cegas...

Uma carta por semana com estratégias práticas para lidar com os desafios reais de cuidar de um familiar com demência, diretamente no seu email, todas as terças.

Política de Privacidade

Copyright 2025 © Filipa da Fonseca Dias - Consultoria de Envelhecimento - Unipessoal, Lda

E178616