Quando um familiar com demência é agressivo, a família fica em choque.
Um empurrão, um grito, uma palavra que magoa - vindos de alguém que sempre foi carinhoso e pacífico.
"Ele nunca foi assim", "Não reconheço a minha mãe" - são frases que ouvimos diariamente nas consultas.
Lidar com um familiar com demência agressivo é um dos desafios mais difíceis de enfrentar, não só pelo impacto físico, mas sobretudo pelo impacto emocional.
É importante perceber que a agressividade não é a pessoa. É a doença a manifestar-se quando já não há palavras para expressar medo, dor, confusão ou frustração.
A agressividade é um dos comportamentos desafiantes na demência mais difíceis de gerir - mas também um dos que mais beneficia de uma abordagem informada.
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A pessoa com demência não escolhe reagir assim - está a defender-se de algo que não compreende.
O objetivo não é "corrigir" o comportamento nem fazer com que ele desapareça por completo.
É compreender o que está por trás, reduzir os gatilhos e criar um ambiente onde a pessoa se sinta segura. É isso que diminui a frequência e a intensidade dos episódios.
Quando a pessoa com demência fica agressiva, é natural a família sentir choque, medo ou até culpa.
Mas importa lembrar que a agressividade não é "a pessoa" - é a doença a manifestar-se através do único canal disponível.
A demência compromete as áreas do cérebro responsáveis pelo raciocínio lógico, pelo controlo das emoções e pela capacidade de comunicar. A pessoa pode sentir dor, medo ou frustração intensos, mas já não consegue verbalizar o que está a acontecer.
O comportamento agressivo surge como uma reação instintiva de defesa perante algo que não compreende ou que a assusta.
Este ponto é fundamental. A pessoa com demência não escolhe estar agitada ou agressiva. Está a reagir a algo que está a acontecer - seja interno (dor, confusão) ou externo (ambiente, abordagem do cuidador). Olhar para a agressividade como uma tentativa de comunicação muda completamente a forma como respondemos.
Antes de aplicar qualquer estratégia, é essencial compreender o que pode estar a desencadear o comportamento agressivo. Na prática, identificamos estas causas com maior frequência:
A pessoa pode ter uma dor de cabeça, dor de dentes, dor abdominal ou qualquer desconforto físico. Como não consegue verbalizá-lo, a agitação e agressividade tornam-se a única forma de "mostrar" que algo está mal.
Sinais: protege uma zona do corpo, recusa tocar, caretas em movimento.
Necessidades básicas não satisfeitas provocam irritabilidade em qualquer pessoa. Na demência, onde a capacidade de identificar e comunicar estas necessidades está comprometida, o resultado pode ser um comportamento agressivo aparentemente inexplicável.
Se o seu familiar não quer beber água, a desidratação pode ser um gatilho frequente.
Sinais: lábios secos, urina escura, tonturas ao levantar.
Certos medicamentos, ou interações entre medicamentos, podem causar agitação como efeito secundário. É fundamental rever a medicação com o médico assistente sempre que houver uma alteração súbita de comportamento.
Se o seu familiar não quer tomar a medicação, isso pode agravar ainda mais a situação.
Ruído excessivo, muitas pessoas em simultâneo, mudanças de ambiente ou rotinas alteradas sobrecarregam um cérebro já comprometido. A resposta pode ser agressividade como mecanismo de defesa.
Sinais: olha em volta agitado, “pede para ir embora”, tapa os ouvidos e a cabeça.
Quando a pessoa não reconhece onde está, quem são as pessoas à sua volta, ou não compreende o que lhe estão a fazer (por exemplo, durante a higiene), sente-se ameaçada.
A agressão surge como tentativa de proteção. É também por isso que muitas vezes a pessoa com demência recusa cuidadores externos.
Sinais: pergunta “onde está a minha mãe?”, “quero ir para casa”.
A forma como nos aproximamos, o tom de voz que usamos, a pressa que demonstramos - tudo isto é captado pela pessoa com demência, mesmo quando já não compreende as palavras. Um cuidador tenso ou impaciente pode, inadvertidamente, fazer com que a pessoa com demência fique agressiva.
Sinais: aumenta a agressividade quando apressa, dá várias instruções, fala alto.
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Perante um comportamento agressivo, a reação mais comum é responder com mais confronto. Resista a esse impulso.
Pare. Respire fundo. Pergunte-se: o que pode estar a causar isto? Será dor física? Frustração? Cansaço? Confusão com o ambiente? Esta pausa de alguns segundos permite-lhe sair do modo reativo e entrar no modo investigativo.
Quando a agressividade está no auge, insistir só piora a situação. Recue fisicamente, dê espaço à pessoa e retome mais tarde.
Isto não é desistir - é reconhecer que naquele momento específico não há condições para uma interação positiva. Muitas vezes, passados alguns minutos, a pessoa já não se lembra do que aconteceu e a abordagem pode ser reiniciada de forma diferente.
Em vez de corrigir ou contradizer, reconheça a emoção que a pessoa está a sentir.
Substitua a insistência pela validação: "Eu percebo que está chateado" funciona muito melhor do que "Não fique assim" ou "Não há razão para isso".
A pessoa sente-se compreendida, o que por si só já reduz a tensão.
O que evitar
O que funciona melhor
Por mais doloroso que seja ouvir palavras agressivas ou sofrer um gesto brusco, lembre-se: não é contra si. É contra aquilo que a doença está a fazer - a confusão, o medo, a perda de controlo.
A pessoa que o insulta ou empurra não é a mesma pessoa que conheceu antes da doença. É alguém a lutar contra um cérebro que já não funciona como antes. Esta perspetiva não elimina a dor, mas ajuda a não a levar como um ataque pessoal - mesmo quando surgem acusações de roubo ou outras situações dolorosas.
A sua postura, expressão facial e tom de voz comunicam muito mais do que as palavras. Se está tenso, agitado ou a falar alto, a pessoa com demência capta isso - e responde em espelho.
Fale devagar, com voz baixa e calma. Mantenha um semblante tranquilo. Mesmo que a pessoa não compreenda as palavras, compreende a energia que está a transmitir.
A previsibilidade é uma ferramenta poderosa na prevenção da agitação. Quando o dia segue uma rotina consistente, a pessoa sente-se mais segura porque "sabe" o que esperar, mesmo que não o consiga verbalizar.
Reduza estímulos desnecessários: baixe o volume da televisão, evite muitas visitas em simultâneo, mantenha a iluminação adequada. Um ambiente calmo reduz significativamente a probabilidade de episódios agressivos.
A distração é uma ferramenta eficaz, mas tem de ser usada no momento certo. Se tentar mudar o foco sem primeiro reconhecer o que a pessoa está a sentir, não vai funcionar.
Primeiro, valide: "Percebo que está irritado." Depois, proponha algo diferente: "Que tal irmos ver as flores no jardim?" ou "Acabei de fazer um chá, quer experimentar?".
Observe e registe: a que horas do dia ocorrem mais episódios? Há situações específicas que parecem desencadear a agressividade? Certas pessoas provocam mais agitação do que outras?
Com o tempo, começa a identificar padrões. Talvez o seu familiar com demência fique agressivo sempre à hora do banho (medo, invasão da privacidade).
Ou ao final do dia (síndrome do pôr do sol). Ou quando há visitas inesperadas. Conhecer os gatilhos permite preveni-los.
Um cuidador exausto, frustrado e no limite das suas forças tem muito mais dificuldade em manter a calma perante um comportamento agressivo. E a pessoa com demência sente esse desgaste.
Cuidar de si não é egoísmo - é uma necessidade para que o cuidado continue a ser possível. Procure ajuda, partilhe responsabilidades, descanse quando puder.
A sua saúde mental influencia diretamente a qualidade do cuidado e a frequência dos episódios difíceis.
Algumas reações, embora naturais, agravam significativamente a situação:
Procure ajuda profissional se:
Quando a pessoa com demência está agressiva, importa lembrar: a doença compromete o raciocínio lógico, mas não compromete a capacidade de sentir.
A pessoa com demência sente medo, tristeza, frustração, alegria - tudo o que nós sentimos. A mesma paciência que aplicamos quando repete a mesma pergunta é necessária quando surge agressividade.
A diferença é que já não consegue expressar esses sentimentos de forma convencional.
Quando nos colocamos no lugar da pessoa, quando tentamos imaginar como seria não reconhecer a própria casa, não saber quem são as pessoas à nossa volta, não conseguir fazer compreender o que sentimos, a compaixão surge naturalmente.
E dessa compaixão nasce uma forma de cuidar que é, em si mesma, terapêutica.
Ter um familiar com demência agressivo é um dos desafios mais difíceis de enfrentar, mas também é um dos que mais beneficia de uma abordagem informada e empática.
Lembre-se: por trás de cada comportamento agressivo há sempre uma causa. Procure-a. Valide o sentimento antes de tentar resolver. Não personalize. Cuide de si para poder continuar a cuidar.
O primeiro passo pode ser simplesmente isto: da próxima vez que surgir um episódio, em vez de reagir, pare. Respire. E pergunte-se: o que é que ele está a tentar dizer-me?
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Paradoxalmente, a pessoa com demência fica mais agressiva com quem está mais próximo.
Isto acontece porque se sente suficientemente segura para "deixar sair" a frustração. Não significa que gosta menos de si, pode até significar o contrário.
Não necessariamente. A pessoa com demência tende a ficar mais agressiva nas fases moderadas da doença.
Em fases mais avançadas, à medida que a mobilidade e a energia diminuem, os comportamentos agressivos também tendem a diminuir.
Cada pessoa é diferente.
A medicação pode ser necessária em alguns casos, mas nunca deve ser a primeira resposta. Muitos sedativos causam efeitos paradoxais em pessoas idosas (aumentam a agitação em vez de a reduzir) e têm riscos significativos.
A medicação deve ser sempre prescrita e monitorizada por um médico.
É humano. Cuidar de alguém com demência é extremamente desgastante e há momentos em que a frustração atinge o limite. Se isto acontece com frequência, é um sinal de que precisa de mais apoio. Procure ajuda antes de chegar ao ponto de rutura.
Priorize segurança. Afaste-se, chame ajuda, não retome o tema nesse momento. Reagende a tarefa noutra janela do dia com abordagem mais suave.
Reduza estímulos 30–45 min antes, ofereça um snack e uma bebida, mude a atividade para algo automático e repetitivo. Registe se ajudou.
Partilhe informação sobre a demência. Muitas pessoas ainda acreditam que o comportamento agressivo é intencional ou "birra". Explique que a pessoa não escolhe agir assim - é o cérebro afetado pela doença que já não consegue funcionar de outra forma.
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