O seu familiar com demência diz que não a tudo? 6 Estratégias Práticas

Introdução

"Não quero."
"Não me apetece."
"Deixa-me em paz."

Se estas frases se tornaram a resposta habitual do seu familiar com demência - ao banho, à medicação, às refeições, às saídas, a praticamente tudo - então sabe do que falo. 

Não é uma recusa pontual. É um padrão. Uma postura constante perante quase tudo o que lhe propõe.

E provavelmente já tentou de tudo: explicar com calma, insistir, apelar à razão, lembrar as consequências. Nada resulta. Ou pior, quanto mais tenta, mais a resistência aumenta.

Este é um dos comportamentos que mais desgasta as famílias com quem trabalhamos.

Porque quando alguém que amamos recusa sistematicamente a nossa ajuda, é difícil não levar a peito. 

É difícil não sentir frustração, impotência e até rejeição.

⚡ Resumo Rápido

A resistência generalizada na demência não é teimosia - é uma resposta de proteção a um cérebro sobrecarregado.
Insistir, explicar ou argumentar com lógica tende a intensificar a recusa
A pessoa não resiste à tarefa em si, mas sim à sensação de perda de controlo e autonomia.
Estratégias eficazes: criar contexto, oferecer escolhas fechadas, associar tarefas a momentos positivos.
Recuar temporariamente não é desistir, é dar espaço para que seja aceite noutro momento.
A abordagem deve ser ajustada à fase da demência

⏳ Tempo de Leitura: 13 minutos

Mas aqui está o que precisa de compreender antes de avançar: esta resistência generalizada não é teimosia.

Não é falta de vontade de colaborar. Não é contra si.

É o cérebro a proteger-se de um mundo que se tornou confuso, imprevisível e assustador. E quando compreende isto, a forma como responde muda, e a resistência também.

Por que razão a pessoa com demência diz que não a tudo

Quando a capacidade de processar informação diminui, o mundo torna-se um lugar difícil de navegar. 

Cada proposta nova - sair de casa, vestir outra roupa, tomar a medicação, receber uma visita - exige um esforço cognitivo que a pessoa já não consegue fazer sem desconforto.

Imagine que acorda num país estrangeiro, sem falar a língua, sem compreender os códigos sociais, com pessoas que esperam que faça coisas que não percebe o motivo. 

A sua reação natural seria recuar, proteger-se, dizer "não" até perceber o que se passa.

É isto que acontece no cérebro de uma pessoa com demência. A diferença é que essa confusão não passa. E a única ferramenta que ainda domina para manter algum controlo sobre a sua vida é proteger-se, dizendo 'Não'.

O "não" como mecanismo de defesa

O "não" não é um ataque. É uma defesa. É a forma que o cérebro encontrou para dizer: "Isto é demasiado. Preciso de parar. Preciso de me sentir seguro."

Quando a pessoa recusa o banho, não está necessariamente a recusar a higiene. Pode estar a recusar a vulnerabilidade de se despir, o frio da casa de banho, a confusão de não saber o que vem a seguir.

Quando recusa a medicação, pode não estar a recusar o tratamento propriamente. Pode estar a recusar engolir algo que não reconhece, oferecido por alguém que, naquele momento, não consegue identificar com clareza. Pode não compreender a importância.

O 'não' também pode surgir quando a pessoa sente que estão a impor vontades que a própria pessoa não reconhece importância e/ou não entende o que significam. 

Cada "não" tem uma razão. Nem sempre conseguimos identificá-la. Mas reconhecer que existe muda a forma como respondemos.

Por que é que a abordagem tradicional não funciona

A maioria das famílias faz o que sempre resultou com pessoas sem comprometimento cognitivo: explicar, argumentar, apelar à lógica.

"Tens de tomar banho, estás sujo há dois dias."
"Precisas de sair de casa, faz-te bem apanhar ar."
"O médico disse que tens de tomar a medicação, é importante."
"Olha, faz o que quiseres... depois não te queixes."

São abordagens razoáveis.
O problema é que não funcionam, e muitas vezes pioram a situação.

O cérebro já não processa argumentos da mesma forma

Quando há comprometimento cognitivo, a capacidade de entender a relação causa-efeito diminui. 

A pessoa não consegue antecipar consequências. Não consegue perceber por que razão aquilo que lhe está a ser imposto é "bom para ela".

O que ela sente é pressão. Ameaça. Alguém a dizer-lhe que não é capaz de decidir por si. E isso dói. Assusta. E gera uma defesa automática: mais resistência.

A resistência não é contra a tarefa, é contra a sensação de perda

Este é o ponto central que muitas famílias não compreendem.

A pessoa não está a resistir ao banho, à medicação, à saída ou aquilo que lhe está a pedir. Está a resistir à sensação de que já não controla a própria vida. À perda de autonomia. À perda de identidade. À confirmação de que precisa de ajuda para coisas que sempre fez sozinha.

Quando alguém insiste que a pessoa "tem de" fazer algo, está, sem querer, a reforçar essa sensação de incapacidade. 

E a resposta natural é defender-se com a única arma disponível: o "não".

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6 estratégias práticas para quando o seu familiar com demência diz que não a tudo

A pergunta mais útil não é "como faço para ela aceitar?".
É: "como posso propor isto de uma forma que não ameace a sensação de controlo?"

Aqui estão as estratégias que recomendo às famílias com quem trabalho.

1. Não tentar convencer

Esta é a primeira mudança, e a mais difícil. Argumentar com lógica é ineficaz quando a lógica já não é processada da mesma forma.

Em vez de explicar "porquê", crie um contexto em que a ação acontece de forma natural.

Não diga "vamos tomar banho". Diga "vamos só lavar as mãos antes do lanche". Comece pelo passo mais pequeno, sem anunciar a sequência toda.

Peça colaboração, peça ajuda. Não imponha. Nem confronte. 

2. Oferecer escolhas fechadas

A pergunta "queres tomar banho?" convida a um "não". Está a dar à pessoa a oportunidade de recusar, e ela vai usar essa oportunidade.

Mas "preferes tomar banho depois do pequeno-almoço ou agora?" muda o enquadramento. A pessoa sente que está a decidir. Tem controlo sobre o momento.
E isso reduz significativamente a resistência.

O mesmo se aplica a outras situações:

"Queres vestir a camisola azul ou a cinzenta?"
"Preferes tomar o comprimido com água ou com sumo?"
"Vamos à padaria agora ou daqui a bocado?"

A escolha é limitada, e a pessoa continua a sentir que toma decisões. 

💬 Frases que ajudam vs. frases que aumentam a resistência

Em vez de: "Tens de tomar banho, estás sujo."
Experimente: "Vamos só refrescar um bocadinho antes do lanche."

Em vez de: "Toma o comprimido, o médico mandou."
Experimente: "Trouxe o teu pudim, e os comprimidos para tomares com ele."

Em vez de: "Vamos sair, precisas de ar."
Experimente: "Gostava que viesses comigo à padaria buscar o pão... toma o casaco"

Em vez de: "Não podes ficar o dia todo em casa."
Experimente: "Apetece-me ir ali abaixo. Gostava da tua companhia."

A diferença está no enquadramento, não no objetivo.

3. Associar a tarefa a algo positivo

Se a medicação vier acompanhada do pudim preferido, deixa de ser uma obrigação e passa a ser parte de um momento agradável.

Se a saída de casa significar ir buscar pão à padaria habitual, e não "dar uma volta porque faz bem", passa a ter um propósito concreto que a pessoa reconhece. 

Use isso a seu favor.

4. Usar o efeito espelho

Quando o familiar também come, também se levanta para sair, também "toma os comprimidos", a ação deixa de parecer uma imposição dirigida apenas à pessoa com demência.

Passa a ser algo partilhado. Normal. Parte da rotina da casa.

Normalizar é mais eficaz do que ordenar. Mostrar é mais eficaz do que pedir.

5. Recuar quando necessário

Se a resistência for intensa, insistir só piora. O confronto ativa a resposta de defesa — e quanto mais pressão, mais resistência.

Melhor recuar. Esperar 15 a 30 minutos. Mudar de divisão. Mudar de assunto. E voltar a tentar mais tarde, com outro tom, outra abordagem, ou até através de outra pessoa.

Muitas vezes, a mesma proposta feita pelo cônjuge é recusada, mas aceite quando vem do filho. Ou vice-versa. 

Não leve isto como rejeição pessoal, é apenas o funcionamento imprevisível de um cérebro em mudança.

6. Adequar a abordagem à fase da doença

O que funciona numa fase funciona menos noutra.

Numa fase inicial, ainda é possível apelar à colaboração: "Ajudas-me com isto?" pode resultar.

Na fase moderada, funcionam melhor as rotinas previsíveis, a linguagem simples e as tarefas apresentadas em passos pequenos.

Na fase mais avançada, o tom de voz, o toque, o ambiente, a expressão facial - tudo isto comunica mais do que qualquer argumento.

O que evitar quando a pessoa com demência diz que não a tudo

Tão importante como saber o que fazer é saber o que não fazer.

Não insista repetidamente no mesmo momento

Se a pessoa disse "não" três vezes, a quarta tentativa não vai ser diferente. Vai apenas aumentar a frustração - a sua e a dela.

Não use a culpa como argumento

"Faço tanto por ti e nem isto consegues fazer" pode parecer legítimo no momento de exaustão, mas destrói a relação e não muda o comportamento.

Não trate a recusa como afronta pessoal

A pessoa não está a recusar a si. Está a reagir a uma sensação interna de ameaça que nem ela consegue explicar.

Não espere consistência

O que funciona hoje pode não funcionar amanhã. E o que foi recusado de manhã pode ser aceite à tarde. Esta imprevisibilidade é frustrante, mas faz parte da doença.

Quando procurar ajuda profissional

A resistência generalizada, por si só, não é motivo de alarme. 

É um comportamento comum em várias fases da demência e, na maioria dos casos, pode ser gerido com ajustes na comunicação e na abordagem.

No entanto, há situações em que deve procurar orientação profissional:

Quando a recusa compromete a segurança da pessoa (recusa total de medicação essencial, recusa de alimentação prolongada, recusa de cuidados básicos de higiene com risco de infeção).
Quando o cuidador está em exaustão e já não consegue manter uma abordagem calma e adaptada.

Nestes casos, uma avaliação especializada pode ajudar a identificar causas médicas subjacentes (dor, infeção, efeitos secundários de medicação) ou a reajustar a estratégia de cuidado com apoio profissional.

Síntese Final

A resistência generalizada é um dos desafios mais presentes no dia a dia de quem cuida de uma pessoa com demência

Não há fórmulas mágicas nem soluções universais. 

Mas há uma mudança de perspetiva que faz diferença: compreender que o "não" não é contra si, é uma tentativa de manter algum controlo num mundo que se tornou confuso.

Quando ajusta a sua abordagem, com menos pressão, mais escolhas, mais contexto positivo, está a criar as condições para que a colaboração aconteça.

E isso protege o mais importante: a relação com quem cuida.

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FAQs - Perguntas Frequentes

O que fazer quando a pessoa com demência diz que não a tudo?

Primeiro deve refletir sobre a forma como está a comunicar com o seu familiar com demência. Evite insistir ou argumentar com lógica. Recue, mude o contexto e volte a tentar mais tarde com outra abordagem. Ofereça escolhas fechadas em vez de perguntas abertas e associe as tarefas a momentos positivos.

A resistência generalizada significa que a demência está a piorar?

Não necessariamente. A resistência pode surgir em qualquer fase e flutuar ao longo do tempo. Está mais relacionada com a sensação de perda de controlo do que com a progressão da doença em si.

Devo forçar a pessoa a fazer algo que recusa?

Apenas em situações de risco imediato para a saúde ou segurança. Fora dessas exceções, forçar tende a aumentar a resistência e a deteriorar a relação. É preferível adaptar a abordagem ou adiar a tarefa.

Por que razão a pessoa aceita fazer algo com uma pessoa mas recusa com outra?

O cérebro com demência processa as interações de forma imprevisível. A pessoa pode sentir-se mais segura com determinado familiar, ou simplesmente reagir de forma diferente conforme o momento, o tom de voz ou o contexto.

Como posso manter a calma quando a pessoa recusa tudo?

Lembre-se de que a recusa não é pessoal. Faça pausas quando sentir frustração a acumular. E procure apoio, seja através de outros familiares, grupos de cuidadores ou acompanhamento profissional. 

Cuidar de si é parte de cuidar bem do outro.

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