"Não quero."
"Não me apetece."
"Deixa-me em paz."
Se estas frases se tornaram a resposta habitual do seu familiar com demência - ao banho, à medicação, às refeições, às saídas, a praticamente tudo - então sabe do que falo.
Não é uma recusa pontual. É um padrão. Uma postura constante perante quase tudo o que lhe propõe.
E provavelmente já tentou de tudo: explicar com calma, insistir, apelar à razão, lembrar as consequências. Nada resulta. Ou pior, quanto mais tenta, mais a resistência aumenta.
Este é um dos comportamentos que mais desgasta as famílias com quem trabalhamos.
Porque quando alguém que amamos recusa sistematicamente a nossa ajuda, é difícil não levar a peito.
É difícil não sentir frustração, impotência e até rejeição.
⏳ Tempo de Leitura: 13 minutos
Mas aqui está o que precisa de compreender antes de avançar: esta resistência generalizada não é teimosia.
Não é falta de vontade de colaborar. Não é contra si.
É o cérebro a proteger-se de um mundo que se tornou confuso, imprevisível e assustador. E quando compreende isto, a forma como responde muda, e a resistência também.
Quando a capacidade de processar informação diminui, o mundo torna-se um lugar difícil de navegar.
Cada proposta nova - sair de casa, vestir outra roupa, tomar a medicação, receber uma visita - exige um esforço cognitivo que a pessoa já não consegue fazer sem desconforto.
Imagine que acorda num país estrangeiro, sem falar a língua, sem compreender os códigos sociais, com pessoas que esperam que faça coisas que não percebe o motivo.
A sua reação natural seria recuar, proteger-se, dizer "não" até perceber o que se passa.
É isto que acontece no cérebro de uma pessoa com demência. A diferença é que essa confusão não passa. E a única ferramenta que ainda domina para manter algum controlo sobre a sua vida é proteger-se, dizendo 'Não'.
O "não" não é um ataque. É uma defesa. É a forma que o cérebro encontrou para dizer: "Isto é demasiado. Preciso de parar. Preciso de me sentir seguro."
Quando a pessoa recusa o banho, não está necessariamente a recusar a higiene. Pode estar a recusar a vulnerabilidade de se despir, o frio da casa de banho, a confusão de não saber o que vem a seguir.
Quando recusa a medicação, pode não estar a recusar o tratamento propriamente. Pode estar a recusar engolir algo que não reconhece, oferecido por alguém que, naquele momento, não consegue identificar com clareza. Pode não compreender a importância.
O 'não' também pode surgir quando a pessoa sente que estão a impor vontades que a própria pessoa não reconhece importância e/ou não entende o que significam.
Cada "não" tem uma razão. Nem sempre conseguimos identificá-la. Mas reconhecer que existe muda a forma como respondemos.
A maioria das famílias faz o que sempre resultou com pessoas sem comprometimento cognitivo: explicar, argumentar, apelar à lógica.
"Tens de tomar banho, estás sujo há dois dias."
"Precisas de sair de casa, faz-te bem apanhar ar."
"O médico disse que tens de tomar a medicação, é importante."
"Olha, faz o que quiseres... depois não te queixes."
São abordagens razoáveis.
O problema é que não funcionam, e muitas vezes pioram a situação.
Quando há comprometimento cognitivo, a capacidade de entender a relação causa-efeito diminui.
A pessoa não consegue antecipar consequências. Não consegue perceber por que razão aquilo que lhe está a ser imposto é "bom para ela".
O que ela sente é pressão. Ameaça. Alguém a dizer-lhe que não é capaz de decidir por si. E isso dói. Assusta. E gera uma defesa automática: mais resistência.
Este é o ponto central que muitas famílias não compreendem.
A pessoa não está a resistir ao banho, à medicação, à saída ou aquilo que lhe está a pedir. Está a resistir à sensação de que já não controla a própria vida. À perda de autonomia. À perda de identidade. À confirmação de que precisa de ajuda para coisas que sempre fez sozinha.
Quando alguém insiste que a pessoa "tem de" fazer algo, está, sem querer, a reforçar essa sensação de incapacidade.
E a resposta natural é defender-se com a única arma disponível: o "não".
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A pergunta mais útil não é "como faço para ela aceitar?".
É: "como posso propor isto de uma forma que não ameace a sensação de controlo?"
Aqui estão as estratégias que recomendo às famílias com quem trabalho.
Esta é a primeira mudança, e a mais difícil. Argumentar com lógica é ineficaz quando a lógica já não é processada da mesma forma.
Em vez de explicar "porquê", crie um contexto em que a ação acontece de forma natural.
Não diga "vamos tomar banho". Diga "vamos só lavar as mãos antes do lanche". Comece pelo passo mais pequeno, sem anunciar a sequência toda.
Peça colaboração, peça ajuda. Não imponha. Nem confronte.
A pergunta "queres tomar banho?" convida a um "não". Está a dar à pessoa a oportunidade de recusar, e ela vai usar essa oportunidade.
Mas "preferes tomar banho depois do pequeno-almoço ou agora?" muda o enquadramento. A pessoa sente que está a decidir. Tem controlo sobre o momento.
E isso reduz significativamente a resistência.
O mesmo se aplica a outras situações:
A escolha é limitada, e a pessoa continua a sentir que toma decisões.
Em vez de: "Tens de tomar banho, estás sujo."
Experimente: "Vamos só refrescar um bocadinho antes do lanche."
Em vez de: "Toma o comprimido, o médico mandou."
Experimente: "Trouxe o teu pudim, e os comprimidos para tomares com ele."
Em vez de: "Vamos sair, precisas de ar."
Experimente: "Gostava que viesses comigo à padaria buscar o pão... toma o casaco"
Em vez de: "Não podes ficar o dia todo em casa."
Experimente: "Apetece-me ir ali abaixo. Gostava da tua companhia."
A diferença está no enquadramento, não no objetivo.
Se a medicação vier acompanhada do pudim preferido, deixa de ser uma obrigação e passa a ser parte de um momento agradável.
Se a saída de casa significar ir buscar pão à padaria habitual, e não "dar uma volta porque faz bem", passa a ter um propósito concreto que a pessoa reconhece.
Use isso a seu favor.
Quando o familiar também come, também se levanta para sair, também "toma os comprimidos", a ação deixa de parecer uma imposição dirigida apenas à pessoa com demência.
Passa a ser algo partilhado. Normal. Parte da rotina da casa.
Normalizar é mais eficaz do que ordenar. Mostrar é mais eficaz do que pedir.
Se a resistência for intensa, insistir só piora. O confronto ativa a resposta de defesa — e quanto mais pressão, mais resistência.
Melhor recuar. Esperar 15 a 30 minutos. Mudar de divisão. Mudar de assunto. E voltar a tentar mais tarde, com outro tom, outra abordagem, ou até através de outra pessoa.
Muitas vezes, a mesma proposta feita pelo cônjuge é recusada, mas aceite quando vem do filho. Ou vice-versa.
Não leve isto como rejeição pessoal, é apenas o funcionamento imprevisível de um cérebro em mudança.
O que funciona numa fase funciona menos noutra.
Numa fase inicial, ainda é possível apelar à colaboração: "Ajudas-me com isto?" pode resultar.
Na fase moderada, funcionam melhor as rotinas previsíveis, a linguagem simples e as tarefas apresentadas em passos pequenos.
Na fase mais avançada, o tom de voz, o toque, o ambiente, a expressão facial - tudo isto comunica mais do que qualquer argumento.
Tão importante como saber o que fazer é saber o que não fazer.
Se a pessoa disse "não" três vezes, a quarta tentativa não vai ser diferente. Vai apenas aumentar a frustração - a sua e a dela.
"Faço tanto por ti e nem isto consegues fazer" pode parecer legítimo no momento de exaustão, mas destrói a relação e não muda o comportamento.
A pessoa não está a recusar a si. Está a reagir a uma sensação interna de ameaça que nem ela consegue explicar.
O que funciona hoje pode não funcionar amanhã. E o que foi recusado de manhã pode ser aceite à tarde. Esta imprevisibilidade é frustrante, mas faz parte da doença.
A resistência generalizada, por si só, não é motivo de alarme.
É um comportamento comum em várias fases da demência e, na maioria dos casos, pode ser gerido com ajustes na comunicação e na abordagem.
No entanto, há situações em que deve procurar orientação profissional:
Nestes casos, uma avaliação especializada pode ajudar a identificar causas médicas subjacentes (dor, infeção, efeitos secundários de medicação) ou a reajustar a estratégia de cuidado com apoio profissional.
A resistência generalizada é um dos desafios mais presentes no dia a dia de quem cuida de uma pessoa com demência.
Não há fórmulas mágicas nem soluções universais.
Mas há uma mudança de perspetiva que faz diferença: compreender que o "não" não é contra si, é uma tentativa de manter algum controlo num mundo que se tornou confuso.
Quando ajusta a sua abordagem, com menos pressão, mais escolhas, mais contexto positivo, está a criar as condições para que a colaboração aconteça.
E isso protege o mais importante: a relação com quem cuida.
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Primeiro deve refletir sobre a forma como está a comunicar com o seu familiar com demência. Evite insistir ou argumentar com lógica. Recue, mude o contexto e volte a tentar mais tarde com outra abordagem. Ofereça escolhas fechadas em vez de perguntas abertas e associe as tarefas a momentos positivos.
Não necessariamente. A resistência pode surgir em qualquer fase e flutuar ao longo do tempo. Está mais relacionada com a sensação de perda de controlo do que com a progressão da doença em si.
Apenas em situações de risco imediato para a saúde ou segurança. Fora dessas exceções, forçar tende a aumentar a resistência e a deteriorar a relação. É preferível adaptar a abordagem ou adiar a tarefa.
O cérebro com demência processa as interações de forma imprevisível. A pessoa pode sentir-se mais segura com determinado familiar, ou simplesmente reagir de forma diferente conforme o momento, o tom de voz ou o contexto.
Lembre-se de que a recusa não é pessoal. Faça pausas quando sentir frustração a acumular. E procure apoio, seja através de outros familiares, grupos de cuidadores ou acompanhamento profissional.
Cuidar de si é parte de cuidar bem do outro.
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