O seu familiar com demência troca a medicação? Saiba como a farmácia pode ajudar

Introdução

A Carla chegou a casa da mãe numa tarde de terça-feira e encontrou os comprimidos da manhã ainda dentro da caixinha semanal. Todos. 

A mãe, a D. Ermelinda, tinha 73 anos, Alzheimer em fase inicial, problemas cardíacos e diabetes. Cada comprimido que faltava podia significar uma crise. Cada comprimido a mais, o mesmo. 

A Carla ficou ali parada na cozinha, com a caixinha na mão, a tentar perceber se a mãe não tinha tomado, ou se tinha tomado o dobro mais cedo, e onde é que ela podia descobrir isso às seis da tarde de uma terça-feira.

Foi nesse momento que lhe ocorreu, pela primeira vez, que havia um sítio mesmo ali à esquina que podia ter ajudado muito antes. A farmácia onde a mãe levantava a medicação há vinte anos. E que podiam ajudar a gerir se a mãe comprava a medicação ou se anda mais confusa, uma vez que a encontram várias vezes na semana.

O farmacêutico que conhecia a D. Ermelinda, com quem esta conversava todas as semanas, sabia que ela era cardíaca e que nos últimos meses começou a tomar alguns medicamentos para o mais recente diagnóstico - Doença de Alzheimer.

Isto acontece com mais frequência do que as famílias imaginam. A farmácia é, muitas vezes, a primeira linha de ajuda e quem pode dar suporte às famílias em muitas situações. 

⚡ Resumo Rápido

Porque é que a demência torna a gestão da medicação genuinamente perigosa
O que o farmacêutico pode fazer que a maioria das famílias desconhece
Como construir uma relação de confiança com a farmácia de bairro
O papel da farmácia dentro de uma rede de apoio mais alargada
O que nunca fazer com a medicação de um familiar com demência

⏳ Tempo de Leitura: 13 minutos

Vou contar-lhe uma coisa que vejo com frequência nas consultas: as famílias que chegam até mim já esgotadas, já com episódios de urgência, já com medicação trocada ou duplicada, quase sempre me dizem a mesma coisa quando lhes falo da farmácia.

"Nunca me ocorreu que podia pedir isso." 
"Ah não, eu estou habituada a fazer a medicação... não me importo." 

O problema é que gerir a medicação não é só preparar as caixinhas. É o controlo das receitas, é ir buscar a medicação à farmácia, é fazer o controlo da medicação, é preparar as caixinhas, é garantir que há sempre medicação. Enfim... são muitas tarefas pequenas e simples que se vão adensado à medida que a complexidade do cuidado vai aumentando. 

Quando a demência e a medicação se cruzam, o risco cresce

O que acontece no cérebro com demência que torna a gestão da medicação tão difícil

A demência afeta, entre muitas outras coisas, a memória de trabalho, que é a capacidade de manter informação ativa para a usar de imediato. 

Tomar medicação exige exatamente isso: lembrar que já se tomou, ou que ainda falta tomar, ou distinguir o comprimido da manhã do comprimido da noite. 

Para alguém com Alzheimer ou com outro tipo de Demência, este processo pode tornar-se muito difícil ou impossível, mesmo quando a pessoa ainda parece razoavelmente orientada no resto do dia.

O que torna isto particularmente difícil para as famílias é que o problema é invisível. A pessoa parece presente, responde, faz perguntas. E só se desconfia que a pessoa não tomou a medicação quando começou a ficar mais confusa, mais debilitada emocionalmente, desorientada... 

Quando se pergunta, diz que tomou porque a memória de ter tomado os comprimidos há quarenta minutos já não está lá. E, como a pessoa não sabe que não sabe, toma novamente - talvez do dia seguinte - e não avisa que tomou outra vez. Não há sinal. Há só um cuidador que chega à noite ou monitoriza à distância e tenta perceber o que aconteceu.

Pessoas com demência tomam muitas vezes cinco, oito, dez medicamentos diferentes por dia. A combinação de medicamentos para a tensão, para o colesterol, para a diabetes, para a ansiedade, para dormir, e ainda os específicos para a demência, cria uma complexidade que seria difícil de gerir para qualquer pessoa saudável. 

Para alguém com défice cognitivo ou com demência, é simplesmente impossível gerir sozinha com segurança e de forma eficaz.

Os erros mais comuns que a família não vê até ser tarde

O erro mais frequente não é a dose a mais. É a dose que falta, dia após dia, sem que ninguém repare. 

A família organiza a caixinha semanal ao domingo. Na quarta-feira, a pessoa tomou o comprimido da quinta-feira porque achou que era esse. Na sexta-feira, tomou dois da manhã porque se esqueceu que já tinha tomado. 

A caixinha fica vazia mais cedo do que devia. A família compra a medicação mais cedo do que a receita previa. A farmácia entrega sem perguntar nada porque a receita é válida. Às vezes os comprimidos não estão na caixinha e perderam-se pelo chão quando com a pontinha dos dedos se tentou tirar dos compartimentos. 

Há um caso que me foi contado por um filho que acompanhei: o pai com demência saía todos os dias, visitava várias farmácias do concelho, e comprava sempre a mesma coisa em cada uma. 

Havia dezenas de embalagens acumuladas em casa. O filho só percebeu quando começou a encontrar as embalagens escondidas em gavetas, por baixo da cama, na mesa de cabeceira. A solução não foi proibir as saídas. Foi falar com cada farmácia, explicar a situação, e combinar uma resposta: quando o pai aparecesse, a farmácia dizia que estava esgotado por hoje. 

O filho enviava o produto para casa periodicamente e espalhava-o em sítios visíveis para que o pai visse que tinha e não ficasse ansioso. 

O pai deixou de estar ansioso por achar que não tem a sua cola para os dentes. 

Isto é o que a demência faz com a medicação: cria padrões repetitivos que a família não vê como problema até serem demasiado grandes para ignorar. E que podem desencadear situações muito complicadas de gerir.

A farmácia é muito mais do que o sítio onde se levanta a receita

Ouço isto constantemente nas consultas: "Eu só lá vou buscar os medicamentos." E percebo o motivo. Durante décadas, foi mesmo isso. 

A farmácia era um balcão. Chegava-se, entregava-se a receita, recebia-se a caixa, ia-se embora. Na realidade, é muito isto que ainda acontece, principalmente nos grandes centros. Mas nos lugares mais interiores do país, a farmácia já assume um papel de muita importância que pode significar um aliado dos familiares de pessoas com Demência.

O que o farmacêutico pode fazer que a família desconhece

O farmacêutico pode ter quatro funções que mais nenhum profissional de saúde tem em simultâneo, e que são especialmente valiosas para quem cuida de um familiar com demência.

A primeira é detetar. O farmacêutico vê a pessoa com regularidade, no seu contexto de vida, sem preparação. O médico vê-a quando ela já foi ao médico. O farmacêutico vê-a quando ela foi sozinha buscar a medicação e talvez não devesse ter ido sozinha. 

Aquela confusão ao balcão, aquela repetição de perguntas, aquela irritação sem razão aparente, são sinais que só se vêem quando se está presente no dia a dia.

A segunda é registar. Uma nota com data, comportamento observado e contexto. Permite sinalizar a pessoa e é esse registo sistemático que, levado ao médico de família, pode desencadear uma avaliação formal quando a família não sabe como pedir ajuda.

A terceira é orientar. Saber quando a situação está fora da sua competência e saber para onde encaminhar, sem alarmar a família nem infantilizar a pessoa. A farmácia não diagnostica. Mas identifica, e identificar já é ajudar. E muito!!! Sendo que uma das maiores pandemias que vivemos é o diagnóstico ser tardio porque se identifica sinais de alarme tarde demais. 

A quarta é sustentar. O cuidador que aparece no balcão exausto precisa de alguém que o note. A farmácia é muitas vezes o único profissional de saúde que vê o cuidador e a pessoa doente periodicamente. A farmácia pode apoiar muito os familiares-cuidadores, nomeadamente com serviços como a Preparação Individual da Medicação que pode ser entregue em casa ou levantada no balcão, com produtos de apoio para auxiliar no cuidado em Casa, com orientação para serviços e entidades públicas e privadas. 

O esquema de cores: uma ferramenta que muda tudo

Se se optar por continuar a gerir a medicação em casa, uma das ferramentas mais simples e mais eficazes que existe para a gestão da medicação de uma pessoa com demência não precisa de tecnologia nem de dinheiro. Precisa de uma tabela e de uma caneta colorida. 

Expliquei à minha avó como podia organizar a sua medicação desta forma, e desde aí, que não foi preciso saber nomes complicados de medicamentos.

A lógica é esta: a pessoa idosa com ou sem demência pode não conseguir processar o nome do medicamento. "Donepezilo" não significa nada quando a memória de trabalho está comprometida. Mas "comprimido vermelho ao pequeno-almoço" é concreto, visual, e repetível.

O farmacêutico pode ajudar a criar uma tabela simples com os compartimentos do dia: jejum, pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar, ceia. 

Cada medicamento recebe uma cor. 

A tabela indica a hora, a cor, e a dosagem. O nome do fármaco é substituído pelo nome da cor que atribuiu a cada medicamento. O que fica é um sistema que a pessoa ainda consegue seguir, e colmata-se aquela dificuldade em que existem várias caixas e não se sabe muito bem o que se toma a cada hora do dia. 

A revisão da medicação, a preparação em blister, e a entrega ao domicílio

Três serviços concretos que a maioria das farmácias oferece e que a maioria das famílias nunca pediu.

A revisão da medicação é uma análise de todos os medicamentos que a pessoa toma, incluindo os de venda livre e os suplementos que a família compra por iniciativa própria.

O farmacêutico identifica duplicações, interações, e medicamentos que podem estar a causar confusão, tonturas, ou sonolência que é confundida, muitas vezes, com a progressão da demência.

A preparação do medicamento em blister semanal ou mensal remove completamente da pessoa com demência a necessidade de distinguir qual o comprimido, quando, em que quantidade. 

A caixinha que a família preparava ao domingo em casa pode ser preparada na farmácia com mais rigor, mais clareza visual, e com verificação técnica. 

A entrega ao domicílio significa que a família não precisa de fazer deslocações semanais com uma pessoa que pode ter dificuldade em sair de casa, ou deixá-la sozinha para ir levantar a medicação. 

Muitas farmácias de bairro fazem esta entrega para clientes habituais. Verifique nas farmácias ao pé de si ou no site das farmácias portuguesas

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Como construir uma relação de confiança com a farmácia de bairro

O que contar ao farmacêutico na primeira conversa

A primeira conversa com o farmacêutico, não a transação de balcão, mas a conversa, pode ser curta. Não precisa de ser uma consulta, propriamente.

"A minha mãe tem demência e eu gostava que ficasse registado aqui. Ela toma estes medicamentos. Há coisas que devo saber sobre como os gerir melhor em casa?"

Esta frase abre espaço para que se alargue a rede de apoio. Que não tem de ser só a família como comunmente se associa. O farmacêutico fica com contexto. Numa próxima visita, já não é preciso explicar tudo de novo. E a farmácia começa a funcionar como um ponto de apoio continuado, que pode alertar sempre que for necessário - o que dará muito contexto ao corpo clinico que acompanha o seu familiar. 

Eu, por exemplo, sei que se a minha avó começar a ficar mais desorientada, com mais esquecimentos, o farmacêutico do bairro onde vive, saberá primeiro do que eu. Porque eu não vivo com a minha avó e ela ainda faz a sua vida completamente autónoma e independente.

De qualquer forma, se começar a notar algumas coisas, vale a pena ter esta conversa com a farmácia onde o seu familiar costuma ir, levar a lista completa de medicamentos na primeira conversa e explicar todas as preocupações. Disponibilize os seus contactos para ser alertada quando oportuno. 

O que perguntar em cada levantamento de medicação

Não é preciso fazer perguntas longas. Em cada levantamento, uma pergunta curta é suficiente para manter a relação ativa e a informação atualizada.

"Começámos há duas semanas um medicamento novo para a ansiedade. Há alguma interação que deva saber?"
"O meu pai anda com mais tonturas desde a semana passada. Pode ser algum destes medicamentos?"
"Preciso de organizar isto em blister, ou com um esquema de cores. Como faço?"

A farmácia de bairro tem, neste contexto, uma vantagem que os grandes serviços de saúde não têm: está perto, está disponível sem marcação, e conhece a família ao longo do tempo. Essa continuidade é um recurso. Basta aproveitá-la.

A farmácia como parte de uma rede maior

O médico de família, o farmacêutico e a família: quem faz o quê

Um dos erros mais comuns que vejo não é ninguém fazer nada. É toda a gente fazer a mesma coisa sem saber o que os outros já fizeram.

O médico de família prescreve. A família gere em casa. A farmácia entrega. E ninguém fala com ninguém.

A rede de apoio para cuidar de um familiar com demência funciona melhor quando cada pessoa tem um papel claro e quando se funciona em rede. Eu digo muitas vezes que só em rede conseguimos ajudar mais e melhor. 

1. O médico de família avalia, ajusta, prescreve e encaminha. 

2. O farmacêutico revê a medicação, deteta problemas, explica, regista e alerta. 

3. A família observa no dia a dia e reporta o que vê, ao médico e ao farmacêutico. Quando estes três elos comunicam, mesmo que de forma simples, o risco de erros de medicação cai de forma significativa.

O médico de família pode referenciar para o serviço social do centro de saúde, onde se pode pedir apoio domiciliário. 

A Carta Social permite encontrar serviços de apoio domiciliário, centros de dia, e outros serviços disponíveis na zona de residência.

Quando a rede funciona e quando falha

A rede falha quase sempre pelo mesmo motivo: não porque os recursos não existam, mas porque ninguém coordenou os papéis

A família assume que o médico sabe tudo o que a farmácia sabe. O farmacêutico assume que a família já falou com o médico. O médico assume que a família está a gerir bem em casa. 

E entretanto, a D. Ermelinda toma dois comprimidos de manhã há três semanas porque a caixinha não estava organizada, e ninguém sabe porque ninguém perguntou.

O que nunca fazer com a medicação de um familiar com demência

Deixar a responsabilidade de tomar a medicação com a pessoa com demência

Por mais que a pessoa pareça capaz, a pessoa com demência pode trocar a medicação de formas que não são detetáveis pela própria. Numa fase pode estar a cumprir direitinho e de um momento para o outro, começar com dificuldades. Deve ser sempre monitorizado e nunca delegando essa responsabilidade a 100%. 

Comprar medicamentos de venda livre sem perguntar ao farmacêutico.

Analgésicos, antigripais, suplementos de cálcio ou vitaminas podem interagir com medicamentos que a pessoa já toma. O farmacêutico precisa de saber antes.

Partir ou esmagar comprimidos sem verificar se é seguro

Alguns medicamentos têm revestimento especial que controla a libertação ao longo do tempo. Partir esses comprimidos altera completamente como o medicamento age no organismo. O farmacêutico e o médico sabem quais podem ser partidos e quais não.

Guardar medicamentos antigos por precaução

É comum as famílias guardarem caixas de medicamentos que sobraram. Com uma pessoa com demência em casa, isto é um risco: a pessoa pode tomar o que encontra. Os medicamentos que já não são necessários devem ser devolvidos à farmácia para destruição.

Mudar doses por iniciativa própria

Mesmo que a pessoa pareça mais agitada ou mais sonolenta, a resposta não é ajustar a dose sem indicação médica. A resposta é descrever ao médico ou ao farmacêutico o que está a observar.

Ignorar padrões repetitivos de compras ou pedidos

Se a pessoa com demência vai à farmácia várias vezes por semana, ou parece sempre convicta de que não tomou a medicação, não é teimosia. É um sinal de que o sistema de gestão da medicação precisa de ser revisto. Fale com o farmacêutico antes que o padrão se instale. E pergunte de que forma a farmácia pode ajudar neste sentido.

Quando procurar ajuda com urgência

Há situações que não podem esperar pela próxima consulta marcada.
Se a pessoa tomou uma dose muito superior à prescrita, por confusão, ligar imediatamente para o INEM (112) ou para o Centro de Informação Antivenenos (808 250 250, disponível 24 horas). 

Não esperar para ver se passa.

Se a pessoa começou um medicamento novo e nas horas seguintes está muito diferente, muito confusa, muito sonolenta, ou com dificuldade em respirar, não é para aguardar. É para ligar ao médico ou ir a uma urgência.

Se a família percebe que a pessoa não tem tomado a medicação há vários dias, não gerir sozinha a situação. Contactar o médico de família para perceber o impacto e como retomar o regime de forma segura com outra metodologia de administração da medicação.

Se ainda assim, as dificuldades com a medicação estão a tornar impossível gerir os cuidados em casa, pedir ao médico de família a referenciação para o serviço social do centro de saúde. 

Podem ser acionados apoios de enfermagem domiciliária ou serviços de apoio domiciliário que incluam gestão da medicação.

Síntese final

A Carla reorganizou a medicação da mãe. Falou com o farmacêutico da farmácia da esquina. 

Perguntou-lhes de que forma podiam ajudar a dinâmica familiar, não só a D. Ermelinda, mas a Carla também. Desta forma decidiu-se que seria a farmácia, a entidade responsável por lhes fazer chegar a medicação preparada, organizada em doses por momentos do dia. Sem haver necessidade de controlar stocks e fazer caixinhas semanalmente. 

A D. Ermelinda não precisa de saber o nome de nenhum deles. Precisa de saber a cor e a hora. E consegue.

A entrega não é ao domicílio para não alterar muito a rotina da D. Ermelinha, então ficou como responsável ir buscar a medicação todas as semanas à farmácia e assim mantém a farmácia como um ponto ativo na rede de apoio desta família. Quando os farmacêuticos dão conta de alguma coisa, contactam a Carla. 

Não é um sistema perfeito. Não existe sistemas perfeitos quando se cuida de alguém com demência. Mas é um sistema que já não depende só de uma pessoa nunca falhar.

A medicação trocada não é um sinal de que a família falhou. É um sinal de que a doença avançou para um ponto em que a família precisa de mais apoio do que tem. 

A farmácia é um dos lugares onde esse apoio existe, está disponível, e quase nunca é pedido.

Comece esta semana. Na próxima vez que for à farmácia levantar a medicação, conte o que se está a passar em casa.

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FAQs - Perguntas Frequentes

O meu familiar com demência troca a medicação frequentemente. É normal?

Sim, é muito comum.  À medida que a doença avança, a gestão autónoma da medicação torna-se impossível para a maioria das pessoas. A solução não é corrigir a pessoa, mas facilitar ou retirar-lhe essa responsabilidade de forma gradual e com dignidade, com sistemas alternativos. 

O que posso pedir à farmácia para ajudar na gestão da medicação de um familiar com demência?

Pode pedir a preparação do medicamento em blister semanal, com cada dose individualizada por hora do dia. Pode pedir entrega ao domicílio. Pode pedir uma revisão da medicação completa. E pode simplesmente pedir para falar com o farmacêutico sobre o que está a observar em casa.

Preciso de levar receita para falar com o farmacêutico sobre a medicação do meu familiar com demência?

Não. A conversa com o farmacêutico não exige receita. O que ajuda é ter consigo a lista completa de medicamentos que a pessoa toma, incluindo os de venda livre e os suplementos. Quanto mais informação o farmacêutico tiver, mais útil pode ser.

A farmácia pode entregar a medicação em casa?

Muitas farmácias de bairro fazem entrega ao domicílio, especialmente para clientes habituais. Vale a pena perguntar directamente à farmácia onde habitualmente se levanta a medicação. Existe também a Linha de Assistência Farmacêutica da Associação Nacional de Farmácias que pode ajudar a encontrar uma farmácia com esse serviço na área de residência.

O meu familiar com demência vai à farmácia várias vezes por semana buscar o mesmo produto. O que faço?

Este é um padrão comum na demência: a pessoa não recorda que já comprou, e a ansiedade de "não ter o que precisa" leva-a a procurar repetidamente. Fale com o farmacêutico e explique a situação. Uma farmácia informada pode ajudar a gerir estas visitas de forma digna, sem confrontar a pessoa, e a comunicar à família a frequência com que isso acontece. Em casa, ter o produto bem visível pode reduzir a ansiedade que está na origem do comportamento.

O meu familiar com demência troca a medicação e o médico diz que é normal. Devo fazer alguma coisa na mesma?

O facto de ser comum não significa que não precise de ser gerido. O que o médico provavelmente quer dizer é que o comportamento é esperado na progressão da doença. Mas a gestão activa, com a ajuda da farmácia e de um sistema organizado como o esquema de cores ou o blister semanal, é sempre possível e sempre recomendada.

A demência pode ser agravada por medicamentos mal tomados?

Sim. Alguns medicamentos para a tensão, para o coração ou para a diabetes, quando não são tomados de forma consistente, podem provocar episódios de confusão aguda, tonturas, ou quedas que são frequentemente confundidos com progressão da demência. Estabilizar a medicação é uma das primeiras coisas a fazer quando se observa deterioração súbita. O farmacêutico pode ajudar a identificar se há algum medicamento que pode estar a contribuir para os sintomas que está a observar.

Quem mais, além da farmácia, pode ajudar a cuidar de um familiar com demência em casa?

A farmácia é um aliado de proximidade, mas há outros. O médico de família pode referenciar para serviços de apoio domiciliário que incluam gestão de medicação e cuidados de enfermagem. A Alzheimer Portugal tem uma linha de apoio (963 604 626) e gabinetes em várias zonas do país. A Carta Social permite encontrar serviços sociais na área de residência.

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