A Olinda chegou a casa da mãe a meio da tarde e foi direita à varanda.
O chinelo estava ali, pousado no chão, sozinho. A D. Lurdes estava sentada na cadeira, um pé calçado, o outro completamente descalço, sem perceber que tinha perdido o chinelo pelo caminho.
Não tinha caído. Desta vez.
Mas a cena repetia-se, e a Olinda já não sabia quantas vezes aquilo tinha acontecido sem ela estar a ver. O problema não era a teimosia da mãe em querer usar os mesmos chinelos de sempre. O problema era que os chinelos abertos atrás não prendem o pé de ninguém, muito menos de alguém com demência que já não sente quando o calçado está a escorregar.
E pode não conseguir dizer que está.
O calçado na demência não é apenas uma questão de conforto. É uma das adaptações com maior impacto directo na prevenção de quedas, e uma das mais ignoradas, precisamente porque parece um detalhe.
⏳ Tempo de Leitura: 9 minutos
Com o envelhecimento, os pés mudam mesmo. A gordura natural que amortece a planta do pé vai diminuindo, os ossos ficam mais salientes, a pele torna-se mais fina e sensível.
A Olinda descrevia exactamente isto ao falar da mãe: a pele tão fina que a própria meia deixava marca.
Mas na demência há algo que vai além do envelhecimento normal. O processamento sensorial altera-se. A pessoa pode não sentir a dor de forma clara, pode não reconhecer que o pé está a escorregar, pode não perceber que o calçado não está bem calçado. E, sobretudo, pode já não conseguir dizer, com palavras, que algo está mal.
A marcha também muda ao longo das fases da demência. Os passos tornam-se mais curtos e arrastados. Um calçado que prende demasiado no chão pode fazer a pessoa tropeçar, um calçado que desliza pode provocar uma queda sem aviso.
Há um pormenor que as famílias raramente associam: uma pessoa com demência pode estar com dor nos pés há dias, ou semanas, e isso manifestar-se apenas como agitação, recusa em caminhar, ou resistência a calçar.
A dor não detectada é uma das causas mais comuns de comportamentos que parecem inexplicáveis.
Este é o critério mais importante, e o mais frequentemente ignorado. O pé tem de estar fechado atrás, seja num sapato, numa sapatilha, numa sandália com tira no calcanhar, ou numa pantufa fechada.
O calçado aberto atrás escorrega, e uma pessoa com demência pode não sentir quando isso acontece até já ser tarde.
O que dizer: "Vamos experimentar estas, que ficam melhores no pé."
O que evitar: "Tens de deixar os chinelos porque és capaz de cair."
A sola deve ter textura e aderência. Solas lisas, de plástico ou de couro polido, são as mais perigosas. A borracha texturada é a melhor opção para uso dentro e fora de casa.
Uma excepção a ter em conta: solas com borracha muito espessa na ponta podem "agarrar" no chão quando a pessoa arrasta os pés, e o passo pára de repente.
A sola deve aderir sem resistir.
Num estadio de demência moderada, atar e desatar atacadores pode já não ser possível. A apraxia, que é a dificuldade em executar sequências de movimentos aprendidos, afecta acções que pareciam automáticas como fazer um nó.
O velcro permite ajustar o calçado sem essa dificuldade e mantém o pé bem preso ao longo do dia. É também mais fácil de ajustar quando os pés incham.
A pele de uma pessoa idosa com demência pode ser muito fina e sensível. Costuras internas criam pontos de pressão que, ao longo de horas, provocam feridas que a pessoa pode não sentir a tempo de avisar. Ao escolher calçado seguro para pessoa com demência, vale a pena verificar sempre o interior à mão antes de comprar, passando o dedo por todo o forro.
O sapato não deve "dançar" no pé. Modelos demasiado flexíveis, que dobram facilmente em qualquer direcção, não oferecem o suporte necessário para uma pessoa cujo equilíbrio já está comprometido.
O contraforte, que é a parte traseira mais rígida do calçado que segura o calcanhar, deve ser firme. Um modelo que se dobra por completo ao meio com uma mão é demasiado mole para uso seguro.
Couro macio, tecido arejado ou materiais sintéticos de qualidade são boas opções. Materiais que não respiram provocam transpiração excessiva, maceração da pele e, a prazo, feridas.
Modelos muito pesados cansam mais rapidamente e aumentam o risco de arrastar os pés.
Os pés incham ao longo do dia, e incham mais com medicação para a tensão ou para a circulação. Por isso, comprar calçado para pessoa com demência ao fim do dia, com as meias habituais calçadas, garante que o ajuste é real.
Deve haver cerca de um centímetro entre o dedo mais longo e a ponta do sapato. O calçado não deve apertar os dedos nem o peito do pé, mas também não deve ser grande ao ponto de o pé escorregar dentro.
Quando há inchaço crónico nos pés, modelos com velcro ajustável ou um número acima do habitual podem ser necessários.
O salto ideal tem no máximo dois a três centímetros e é largo o suficiente para distribuir o peso de forma estável. Salto alto ou cunha desestabiliza. Salto completamente plano pode ser problemático em pessoas com dores no arco do pé ou fascite plantar.
Um salto pequeno e largo é, na maioria dos casos, a melhor opção.
A palmilha deve oferecer algum acolchoamento, especialmente na zona do calcanhar e da planta, para compensar a perda de gordura natural que acontece com o envelhecimento.
Em casos específicos, como joanetes, dedos em garra, neuropatia ou pé diabético, um podologista pode indicar palmilhas ortopédicas personalizadas, que se adaptam ao formato exacto do pé. A diferença em termos de conforto, e de adesão ao calçado, pode ser significativa.
Se for possível, ir à loja com a pessoa é sempre melhor. Não porque o calçado online seja inferior, mas porque há coisas que só se percebem ao calçar: a largura real, a firmeza do contraforte, o interior à mão.
Muitas famílias evitam a loja por conveniência, ou porque levar a pessoa é trabalhoso. É compreensível.
Quando a compra online for a única opção, aplicar estes critérios com rigor e verificar a política de trocas antes de encomendar. O primeiro uso deve ser supervisionado, e os pés devem ser verificados ao retirar o calçado no fim do dia.
Há erros frequentes na escolha de calçado para pessoa com demência que valem a pena nomear, não para criticar quem os comete, mas porque a maioria acontece com a melhor das intenções.
São confortáveis, fáceis de calçar, conhecidos. Mas o pé sai. Sem que a pessoa dê por isso. A D. Lurdes não perdeu o chinelo na varanda por distracção. Perdeu porque o chinelo não estava a fazer o seu trabalho. O mesmo vale para aquelas que são de sola rasteirinha e sandálias sem tira no calcanhar, mesmo que sejam anatómicas.
Modelos com a frente muito elevada, mesmo que sejam anatómicos, dificultam o passo a quem já arrasta os pés. A biqueira fica presa no chão e o passo pára de repente.
Nos momentos sem calçado dentro de casa, como na saída do banho ou na troca de roupa, meias lisas num chão de cerâmica ou de madeira são um risco real. As meias antiderrapantes com borracha na planta são uma alternativa simples e barata.
Quando a pessoa já não consegue fazer o nó, calça o sapato e deixa os atacadores soltos. O laço torna-se um obstáculo à frente do próprio pé. Os modelos com atacadores elásticos resolvem o problema sem alterar o aspecto.
A família compra um número a mais "para dar espaço", mas um calçado grande escorrega no pé tanto quanto um calçado aberto. O pé tem de estar contido, não comprimido.
Fivelas decorativas na ponta, adornos que se projectam para fora do sapato, superfícies irregulares que podem prender no chão. Quanto mais simples o modelo, menor a distracção ao calçar e menor o risco de queda.
Fivelas decorativas na ponta, adornos que se projectam para fora do sapato, superfícies irregulares que podem prender no chão. Quanto mais simples o modelo, menor a distracção ao calçar e menor o risco de queda.
Uma sola que foi segura pode deixar de o ser. Com o uso diário do mesmo par, a borracha desgasta-se e fica tão lisa quanto uma sola de plástico. A família raramente nota porque o desgaste acontece de forma gradual. Verificar a sola periodicamente, passando o dedo pela parte de baixo: se já não se sente textura, está na hora de substituir.
A pessoa que se levanta de noite raramente vai calçar um sapato. Para estes momentos, duas opções funcionam bem: meias antiderrapantes com borracha na planta, ao pé da cama, facilmente acessíveis; ou uma pantufa fechada atrás, colocada sempre no mesmo sítio no caminho para a casa de banho. Não é preciso calçar tudo, é preciso que o pé não esteja em piso liso quando o equilíbrio está mais frágil, a meio da noite, ainda com sono.
😔 Sente que nada está a funcionar?
Podemos ajudar com orientação personalizada adaptada à vossa realidade. Clique no botão abaixo 👇
Este é o momento em que muitas famílias desistem. Compram o calçado seguro para a pessoa com demência, trazem para casa, a pessoa recusa, e o sapato fica na caixa.
Convém perceber o que está a acontecer.
Os chinelos de há doze anos não são só conforto. São os chinelos de sempre, são os que já se moldam ao formato do pé, que a pessoa reconhece ao olhar para eles.
Substituí-los por algo desconhecido é, para uma pessoa com demência, uma intrusão num mundo que já é difícil de perceber. A resistência não é teimosia. É uma tentativa de manter o que ainda é familiar.
O que costuma funcionar nas famílias que acompanho:
Em períodos curtos, como se fosse um teste. "Mãe, experimenta estes uns minutos enquanto almoçamos." Sem anunciar que os chinelos antigos vão ser substituídos.
Se sempre usou pantufas fechadas de veludo, procurar uma pantufa fechada atrás com sola antiderrapante no mesmo estilo. A mudança é menor e a resistência é menor.
Esta é uma abordagem que surpreende pela eficácia e que poucas famílias experimentam. Não uma imposição disfarçada, mas uma escolha genuína, oferecida com antecedência.
Trazer dois pares para mostrar, como se fossem prendas que se estivessem a pensar dar. Deixar a pessoa escolher entre os dois. A quem pertence a escolha, pertence também o objecto.
E quem escolhe tem muito menos razão para recusar. A oferta de duas opções é importante: mais do que duas cria confusão; menos do que duas não dá sensação de escolha.
Há também uma abordagem mais subtil, que funciona especialmente quando há resistência a "coisas para velhos":
"Comprei estas para mim, são tão confortáveis... nem imaginas. Queres experimentar?"
A pessoa não está a ser convencida de nada. Está a ser convidada a partilhar uma experiência. É totalmente diferente.
Argumentos como "vais cair com esses chinelos" não funcionam com uma pessoa com demência que já não consegue antecipar consequências. O que funciona é a regularidade: calçar sempre o calçado seguro nas horas de maior actividade e não transformar esse momento num confronto diário.
Esta é uma situação que encontro com frequência, especialmente em mulheres que sempre se preocuparam com a aparência e que associam calçado bonito a elegância, a saídas, à pessoa que foram.
Dizer que já não pode usar saltos é, para algumas pessoas, uma perda que vai muito além dos pés.
Não há uma regra única. O que funciona é negociar sem confronto: guardar os sapatos mais bonitos para saídas especiais, com supervisão, e usar o calçado seguro no dia-a-dia.
Ou procurar modelos que tenham algum elemento estético que a pessoa valorize, como uma cor, um material mais elegante, ou um detalhe que faça sentido para quem ela é. Há calçado seguro que não precisa de parecer ortopédico.
"Estes são tão bonitos para quando sairmos juntas. Para casa tens estes, que ficam mesmo bem no pé."
Se a pessoa ainda se lembra dos sapatos bonitos e os procura, escondê-los sem explicação vai gerar mais perturbação do que a conversa difícil.
Mas se já não se recorda deles, não faz sentido tê-los à vista: são mais uma fonte de confusão do que de prazer.
A Olinda dizia que a mãe não conseguia dizer se tinha calor ou frio. O mesmo acontece com a dor. Uma pessoa com demência moderada ou avançada pode ter uma ferida no pé, uma pressão, uma costura a roçar, e não ter as palavras para o comunicar.
Há sinais indirectos que valem a pena observar com regularidade: agitação invulgar nas horas em que o calçado está calçado há mais tempo; recusa em caminhar ou em levantar-se sem causa aparente; tentativas repetidas de tirar o calçado logo após calçar; alteração no padrão de marcha, como uma ligeira coxeadura; vermelhidão, calos, bolhas ou feridas ao verificar os pés.
Verificar os pés diariamente deve fazer parte da rotina de higiene, não como uma tarefa extra, mas como informação. Numa pessoa com demência que tenha também neuropatia, diabetes ou circulação periférica comprometida, uma ferida que não dói pode tornar-se grave sem que haja qualquer sinal comportamental claro.
A inspecção deve incluir os espaços entre os dedos e as unhas, onde os problemas começam e demoram mais a ser vistos.
O calçado seguro para pessoa com demência resolve mais do que parece. Resolve quedas sem causa aparente. Resolve agitação que ninguém conseguia explicar. Resolve resistência a caminhar que a família atribuía à doença e que era, afinal, dor.
A D. Lurdes ainda resistia às sandálias fechadas. A Olinda foi introduzindo aos poucos, durante as refeições, até se tornarem o calçado daquelas horas. Não foi imediato. O chinelo solitário na varanda deixou de aparecer.
O primeiro passo concreto para esta semana: verificar o calçado que a pessoa usa habitualmente em casa. Se o calcanhar não está preso, é por aí que se começa.
❤️ Precisa de apoio?
Podemos trabalhar consigo para criar estratégias personalizadas que protejam o bem-estar do seu familiar sem comprometer a dignidade. Clique abaixo 👇
Pode, desde que a pantufa cumpra os critérios de segurança. Uma pantufa segura para pessoa com demência é fechada atrás, com sola antiderrapante e sem costuras internas que possam roçar na pele. Pantufas abertas atrás, mesmo que sejam confortáveis e conhecidas, devem ser substituídas porque o pé sai sem que a pessoa se aperceba.
A abordagem mais eficaz é apresentar o calçado para pessoa com demência como uma prenda, com escolha entre dois modelos. A pessoa que escolhe tem muito menos razão para recusar. Outra estratégia que funciona é o cuidador experimentar primeiro e dizer: "São tão confortáveis, queres experimentar?" Evitar argumentos de segurança, que raramente resultam, e preferir a regularidade discreta.
Não necessariamente. O calçado ortopédico pode ser indicado quando há condições específicas como joanetes, dedos em garra, fascite plantar ou neuropatia diabética. Para a maioria das situações, um calçado fechado e antiderrapante para pessoa com demência, com velcro e sem costuras internas, cumpre os critérios essenciais. Em caso de dúvida, um podologista pode orientar sem necessidade de receita médica.
Observar sinais indirectos: agitação ao calçar, tentativas repetidas de tirar o calçado, mudança na marcha, recusa em caminhar, vermelhidão ou feridas ao verificar os pés. Verificar os pés diariamente durante a higiene, incluindo os espaços entre os dedos, é a forma mais fiável de detectar problemas antes de se agravarem.
Sim, quando cumprem os critérios certos. Há modelos de ténis com velcro, sola antiderrapante, interior sem costuras e calcanhar bem estruturado que são das melhores opções de calçado seguro para pessoa com demência para uso diário, dentro e fora de casa.
Escolher calçado seguro para pessoa com demência é mais difícil do que parece. Saiba o que observar, o que evitar e como mudar sem resistência.
Colesterol alto pode agravar a demência depois do diagnóstico. Saiba o que observar, o que perguntar ao médico e o que fazer concretamente.
A pessoa com demência piorou de repente: agitada, confusa, agressiva? Pode ser infeção, dor ou desidratação. Saiba o que verificar em casa.