A D. Lurdes empurrou a filha contra a porta da casa de banho. A Cristina ficou parada a olhar para ela. A mãe tinha sido a pessoa mais doce que conheceu na vida. Cantava na cozinha, fazia leite-creme sempre que ela ia visitar, nunca tinha levantado a voz a ninguém. Agora estava ali, com a mão erguida, a tremer e muito nervosa.
A Cristina contou-me isto numa consulta. Disse a frase que ouço quase sempre: «Não a reconheço.» E depois aquela outra, mais difícil de dizer em voz alta: «Acho que ela me odeia.»
Não odeia. Mas explicar isso a alguém cujo familiar com Alzheimer ficou agressivo de repente nem sempre é fácil. A verdade é que a agressividade nunca é o início de nada. É o fim de uma sequência que começou antes, muitas vezes muito antes, e que a família não viu.
As famílias chegam a perguntar porque é que o familiar com Alzheimer ficou agressivo, como se fosse uma mudança que aconteceu num dia. Quase nunca aconteceu num dia. Aconteceu durante semanas em que a pessoa foi sendo contrariada, corrigida, apressada e tratada como incapaz, sem que ninguém percebesse que essa era a forma mais segura de a empurrar para o ponto em que já não consegue responder de outra maneira.
Este artigo não é sobre como acalmar um episódio no momento em que acontece. Sobre isso já escrevi noutro artigo "O seu familiar é agressivo? 8 estratégias para lidar com a situação".
Este é sobre o que está por trás. O que mudou no cérebro, o que dispara cada episódio, porque é que muda consoante a pessoa que está à frente, e como descobrir o que está a acontecer em sua casa em concreto. Porque não há uma resposta única, há a sua.
⏳ Tempo de Leitura: 20 minutos
A pergunta certa não é «porque é que o meu familiar com Alzheimer ficou agressivo». A pergunta certa é «o que veio antes que eu não vi».
Vou começar por aqui porque é o que mais magoa, e porque sem isto nada do resto se consegue ler com a cabeça fria.
Quando o seu familiar com Alzheimer ficou agressivo consigo, doeu mais do que doeria de qualquer outra pessoa. Doeu porque era a sua mãe, era o seu pai, era a pessoa que sempre o protegeu. Doeu porque, no meio de tudo o que está a fazer, em vez de gratidão recebeu uma palavra ríspida ou um empurrão. E doeu porque, no fundo, ficou aquela pergunta que ninguém diz: «será que ela já não gosta de mim?».
Não é contra si. E o que parece confirmar que é, é exactamente o que prova que não é. A pessoa com demência tende a ficar mais agressiva com quem está mais perto, não porque goste menos, mas porque é com essa pessoa que se sente suficientemente segura para deixar sair o que está a sentir.
O mesmo acontece connosco ao longo da vida, certo? Os estranhos recebem a versão composta, a que sobrou da educação antiga e do que sempre nos ensinaram à luz das normas sociais. A família recebe a versão verdadeira, a sem filtro, a exausta. Não a recebe por castigo, recebe-a porque é nela que a pessoa confia o suficiente para baixar a guarda.
Guarde isto, porque vai precisar para ler o resto sem se ferir.
O cérebro de uma pessoa com Alzheimer não funciona como o seu, nem como o que ela própria tinha há cinco anos ou há 2.
Estas várias coisas acontecem ao mesmo tempo. A família vê só o resultado, o empurrão, e não vê a sequência que levou até lá. Compreender isto não muda a doença, mas muda tudo na forma de cuidar, porque deixa de se ver a agressividade como ataque e passa a ver-se como sinal de que algo está mal e a pessoa já não tem outra forma de o dizer. Às vezes, nem ela própria percebe bem.
Convém parar um segundo. Muitas famílias chamam «Alzheimer» a qualquer demência, e no dia a dia isso passa. Mas para perceber a agressividade, a distinção importa, porque ela não aparece da mesma maneira em todas.
Na doença de Alzheimer, que é a mais frequente, a agressividade costuma surgir sobretudo na fase moderada, e tem quase sempre por trás confusão, medo, dor, ou sobrestímulo. Quase tudo o que está neste artigo serve para esta situação.
Se ainda não tem clareza sobre o diagnóstico, falar com o médico assistente é o primeiro passo. Não para mudar o que sente, para mudar a forma de cuidar.
Aqui está a primeira ferramenta prática deste artigo, e a mais importante de todas. Antes de procurar o gatilho exato, faça-se uma pergunta que separa duas situações completamente diferentes.
A resposta aponta para caminhos opostos.
Se o seu familiar com Alzheimer ficou agressivo de uma semana para a outra, se está mais reativo o dia inteiro, se a irritação aparece logo de manhã e de forma marcada, se vem acompanhada de outras mudanças, dorme pior, come menos, está mais confuso, não evacua há dias, então o problema quase de certeza não é, provavelmente, relacional, é físico.
Quando o corpo todo está em sofrimento, a pessoa fica globalmente mais reativa, e basta um nada para explodir. Não passou a ser agressiva por feitio, está doente, ou com dor, ou desidratada, ou a reagir a um medicamento, e já não consegue dizer-nos de outra maneira.
O Sr. Augusto era um homem calmo. Numa terça-feira começou a gritar com a mulher logo ao pequeno-almoço, coisa que nunca fazia, e manteve-se irritado o dia todo, todos os dias dessa semana. A mulher achou que a doença tinha «dado um salto». Não tinha. Era uma infeção urinária que ainda não dava febre. Tratada a infeção, voltou o homem de sempre.
Quando o padrão é este, agressividade nova, generalizada, com alterações no sono e no apetite, o primeiro passo não é mudar a forma de comunicar, é investigar o que se passa no corpo. Mais à frente digo exatamente o que fazer e por que ordem.
Se, pelo contrário, o seu familiar com Alzheimer ficou agressivo de forma que se foi instalando ao longo de meses, e aparece em momentos identificáveis, à hora do banho, quando chega uma visita, quando alguém lhe pede para se vestir, ao final do dia, e é dirigida sobretudo a uma pessoa, então estamos noutro território. Aqui o gatilho é quase sempre uma situação concreta ou a forma como se está a comunicar.
A D. Glória só ficava agressiva com o marido. Com a filha, com a vizinha, com a auxiliar, nunca. Só com ele. O marido não percebia, e magoava-se imenso. Quando fomos ver, percebemos que era ele quem mais a corrigia, com a melhor das intenções, o dia inteiro: «não é assim», «já comeste», «essa não é a tua camisola». Cada correção, sozinha, era pequena. Somadas, eram um «estás errada» repetido cinquenta vezes por dia, e ela respondia da única forma que lhe restava.
Estes dois mundos pedem respostas diferentes, por isso esta pergunta vem primeiro. Veja em qual se reconhece, e leve isso consigo para o resto do artigo.
Vou à parte mais difícil de ouvir, mas a que mais muda episódios quando se trabalha nas consultas. Em muitas casas, o gatilho mais frequente não é a dor, nem o ruído, nem o medo, é a forma como o familiar mais próximo fala com a pessoa. Não por mal, por amor, por preocupação, por cansaço. Mas é. E como ninguém quer ouvir isto, fica por dizer. Eu digo.
Imagine que diz uma coisa que para si faz todo o sentido, «a minha mãe vem cá jantar», ou «tenho de ir trabalhar», e alguém em quem confia lhe responde que isso não é verdade. Que a sua mãe morreu há vinte anos. Que está reformado há quinze. Como é que isso o faria sentir?
Para a pessoa com demência, aquilo que ela diz é a realidade dela. Não está a inventar nem a mentir, está a viver dentro de uma realidade que o cérebro lhe dá como verdadeira. Quando a contrariamos, o que ela ouve é «estás errada», «estás maluca», «não percebes nada». E claro que se defende, claro que se torna agressiva quando lhe estão a atirar à cara uma realidade que já não consegue suportar. Não é por teimosia, é alguém a proteger-se de algo que o deixa em pânico, e qualquer um de nós faria o mesmo.
A alternativa não é mentir. É entrar na realidade dela e conduzi-la dali com calma. Se diz que a mãe vem jantar, pergunte como é que a mãe fazia o bacalhau. Se diz que tem de ir trabalhar, pergunte o que costumava fazer lá. Não a arranca à força do mundo onde está, acompanha-a até um sítio onde ela se sente bem. E depois redirecione para algo que a pessoa goste de fazer ou se sinta útil. Se a insistência continuar, resolva o problema da pessoa. Diga-lhe que a mãe está atrasada, que deve voltar entretanto. Há situações em que não há mesmo outra hipótese. E muitas são as famílias que o comprovam.
Esta é das que mais vejo e das que mais custa parar. «Mãe, não é assim, é assim.» «Pai, já te disse que não é hoje.» «Não, isso não é a tua escova.»
Pare e pergunte-se: porque é que está a corrigir? O que está a tentar fazer? Trazê-lo de volta? Convencê-lo de quê? E corrigir para quem, para ele, ou para si própria, que não consegue aceitar que ele já não é o mesmo?
Quase todas as correções que vejo são desnecessárias. Não muda nada que ela pense que é segunda quando é quinta. Não muda nada que conte a mesma história pela quarta vez. O que muda, e muito, é que cada correção é um pequeno «estás errada» repetido dezenas de vezes por dia.
Ela já não se lembra do que disse há cinco minutos, mas sempre que está a ser corrigida, sente e essa sensação acumulada não vai desaguar num lugar bom. Nem lhe faz bem a nível emocional. Corrigir o que não tem importância é uma forma de ir apagando a pessoa que ainda ali está.
Se queremos que a pessoa seja cada vez mais funcional e capaz, mas por outro lado, estamos sempre a apontar-lhe o dedo, então não vai funcionar. É contraproducente.
Os papéis não se invertem nunca. Olhe para a sua mãe como mãe, para o seu pai como pai. Por muito que cuide dele, continua a ser o seu pai, e ninguém, com a cabeça boa ou sem ela, gosta de levar ordens de um filho.
«Vai tomar banho.» «Come a sopa.» «Senta-te.» «Não toques nisso.»
Lembre-se da última vez que alguém lhe falou assim, como se mandasse. Lembra-se de como se sentiu? Diminuída, tratada como criança, sem voz. É exatamente isto que a pessoa com demência sente, e com mais força ainda, porque já anda todos os dias a lutar contra a sensação de se estar a perder.
Eu sei que as ordens vêm de um lugar de proteção, de querer evitar a queda, a queimadura, a roupa molhada. Vêm de um sítio bom. Mas ela não sabe disso. O que ela ouve é «já não confiam em mim», «já não sou ninguém nesta casa». E o orgulho continua intacto muito depois de a memória se ir. Ela quer mostrar-se bem à sua frente, porque também para ela é difícil encarar a própria fragilidade, e dar-lhe ordens à frente dos outros é ainda mais humilhante.
A alternativa muda episódios e é simples. Em vez de ordem, sugestão. «Mãe, o banho está pronto, vamos juntas? Faz-me companhia...» em vez de «vai tomar banho». «Pai, vamos almoçar?» em vez de «come a sopa». E quando ela toca no que não devia, desviar a atenção em silêncio, sem nomear o erro.
Este erro é dos mais bem-intencionados. Com medo de que a doença avance, a família decide «estimular», e estimular, para a maior parte das pessoas, é mandar procurar, pedir para se esforçar, insistir para tentar outra vez. O problema é que isto não estimula nada, só vai somando frustração em cima de frustração até a pessoa não aguentar.
Quando o seu pai anda pela casa à procura de uma coisa que não consegue nomear, a abrir e fechar gavetas com cara de aflição, o que ele precisa não é que lhe digam «procura, esforça-te, tu consegues». Precisa que alguém pergunte «o que é que procuras, pai? Posso ajudar?». Precisa de opções, «são os óculos? É a carteira?». Precisa que alguém vá buscar a coisa e lha ponha na mão.
Faça o exercício. Imagine-se em casa, à procura de algo que sabe que existe mas não sabe onde está, e que nem o nome consegue dizer. Quando pergunta se alguém viu, espera ajuda. Não era mais fácil que lhe dessem logo o que procura? Não estava a fazer um exame, não estava a treinar a memória, estava só a precisar de ajuda.
Pense em alguém que perdeu uma perna. Não lhe pede que corra para «exercitar o músculo», dá-lhe o braço, trás-lhe a cadeira, ajuda. Na demência é igual, a diferença é que a lesão não se vê, mas está lá. Facilitar a vida ao seu familiar é a forma mais directa de ajudar, e ajudar reduz muito os episódios de ansiedade, agressividade e agitação.
A pessoa com demência vive tudo a um ritmo mais devagar que o nosso. Precisa de tempo para perceber, para decidir, para responder. Quando alguém chega a correr, fala depressa e espera resposta imediata, ela não acompanha, entra em pânico, e o pânico vira agressividade.
Eu sei que há pressa, há sempre pressa, o trabalho, os filhos, o supermercado a fechar. Mas se entra em casa do seu pai a correr e tenta despachar o banho em dez minutos, não vai despachar nada, vai ter um episódio que demora outros vinte a passar. Perde tempo e perde relação.
A alternativa não é deixar de ter pressa, é ajustar o que espera. Se o banho dele demora quinze minutos, não conte com dez. Peça licença antes de entrar, diga-lhe com calma o que vão fazer, prepare tudo antes de começar, a roupa, a toalha, a água na temperatura certa, para não interromper a meio. A pressa do cuidador é uma agressão silenciosa, não é gritada, mas ela sente, e responde.
Há um gatilho que quase ninguém associa à agressividade: o vazio. Uma pessoa sentada horas a fio sem nada para fazer, sem ninguém a falar com ela, sem nada que reconheça à volta, acumula uma inquietação que tem de sair por algum lado. O tédio, na demência, não é só aborrecimento, é angústia, e a angústia descarrega em agitação, em deambulação, em agressividade.
Muitas vezes ouço «mas ele não faz nada o dia todo, está sossegado, e mesmo assim explode sem razão». Raramente é sem razão, é antes o resultado de horas de vazio sem ponto de descarga. Uma tarefa simples e familiar, dobrar toalhas, descascar batatas, folhear um álbum, ouvir as músicas do tempo dele, organizar as ferramentas da garagem, cortar a relva... algo que dê sentido às horas do dia e que baixe a pressão antes de ela rebentar.
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Aqui está outra coisa que faz toda a diferença e que quase nunca se explica. A agressividade não significa o mesmo conforme a pessoa a quem é dirigida. Ler isto bem ajuda a perceber o que está realmente a acontecer quando o familiar com Alzheimer ficou agressivo com uns e não com outros.
O marido e a mulher partilham uma vida inteira, e isso, na demência, é uma faca de dois gumes. Por um lado, o cônjuge é a referência mais funda de segurança. Por outro, é quem mais sente na pele a perda, e quem mais facilmente, sem dar conta, corrige e insiste, porque ainda fala com a pessoa que conheceu, não com a que tem à frente.
O Sr. Fernando subia o tom com a mulher sem perceber o motivo. Ela tinha começado a tratá-lo como se ele fosse incapaz de tudo, a vesti-lo sem perguntar, a responder por ele à frente das pessoas, a corrigir cada coisa que ele dizia. Vinha do amor e do medo. Mas o que ele sentia era que tinha deixado de ser homem na própria casa, e defendia-se.
Quando o familiar com Alzheimer ficou agressivo sobretudo com o cônjuge, vale a pena olhar para a relação no dia a dia. Quem decide o quê. Quantas vezes se corrige. Se ainda se pede a opinião da pessoa, mesmo que depois se faça de outra maneira. Pequenos gestos de devolver alguma decisão costumam baixar muito a tensão. Se falam sobre a pessoa à frente dela... Qual é a expetativa que se tem do familiar com demência?
Com os filhos entra uma camada a mais, a inversão de papéis que nunca devia acontecer. A filha que dá ordens à mãe está, sem querer, a dizer-lhe «agora mando eu», e a mãe, mesmo doente, sente e sabe que não quer perder o controlo da própria vida. Há também a história toda da relação, as feridas antigas que a doença às vezes traz à superfície sem filtro.
Quando o familiar com Alzheimer ficou agressivo sobretudo com os filhos, isso é muitas vezes a forma de a pessoa dizer «ainda sou tua mãe». Tratá-la como mãe, pedir-lhe coisas em vez de mandar, deixá-la sentir que ainda tem um lugar de autoridade na relação, costuma fazer mais do que qualquer técnica. Se pedir ajuda à mãe, são poucos os casos que vi em que a mãe recusa. Mude a forma de comunicar, peça colaboração.
Com a auxiliar ou o cuidador contratado, a história é outra. Aqui a agressividade vem quase sempre de a pessoa não reconhecer aquela cara, e de essa cara fazer logo coisas muito íntimas, dar banho, mudar a fralda, despir. Imagine um desconhecido a entrar em sua casa e, em cinco minutos, a tentar despi-lo. Era estranho mesmo com a cabeça boa.
A D. Aurora batia na auxiliar todas as manhãs. A auxiliar era competente e dedicada, mas chegava, cumprimentava à pressa e ia directa à higiene. Quando passou a sentar-se cinco minutos primeiro, a conversar, a deixar-se reconhecer antes de tocar, as agressões quase desapareceram. O que mudou não foi a forma de dar banho, foi a maneira de entrar. Quando o familiar com Alzheimer ficou agressivo com os cuidadores formais, a chave costuma estar na apresentação e no ritmo, dar tempo para a pessoa reconhecer antes de tocar, ser sempre o mesmo cuidador quando possível, e explicar cada passo antes de o fazer.
Nunca tentar convencer da importância nem entrar e dizer: "estou aqui para a ajudar, para a senhora não cair...". Nunca! A pessoa com Alzheimer luta todos os dias para não a percecionarem como dependente, não a confronte com essa realidade.
No centro de dia juntam-se vários gatilhos ao mesmo tempo, muita gente, muito ruído, um sítio que não é o dela, rotinas que não são as suas, e o cansaço de um dia inteiro fora de casa. Não admira que muitas pessoas cheguem a casa irritadas, ou que tenham episódios lá a meio da tarde. Se o familiar com Alzheimer ficou agressivo sobretudo nos dias de centro de dia, ou no regresso a casa, é provável que esteja a chegar ao limite do que consegue tolerar de estímulo.
Isto não quer dizer que o centro de dia seja mau, longe disso, é um apoio precioso para muitas famílias. Quer dizer que a adaptação tem de ser gradual, que vale a pena falar com a equipa sobre os momentos de maior agitação, e que o regresso a casa deve ser calmo, sem mais exigências por cima de um dia já cheio. É importante perceber-se o que precipita esses momentos. Há sempre um padrão.
Para além da comunicação e de quem está presente, há um conjunto de gatilhos físicos e ambientais que precisam de ser conhecidos um a um, porque sempre que um familiar com Alzheimer ficou agressivo, há quase sempre um destes por trás.
Vale a pena parar para imaginar como é estar do outro lado, porque foi isso que mais mudou a forma como cuido.
O sentimento mais constante na demência não é a tristeza, como muitos pensam, é o medo. Medo de não reconhecer, de não conseguir, de estar sozinha, de fazer algo mal, de ser apanhada em falta.
Há também a frustração de não conseguir dizer. Imagine ter uma palavra na ponta da língua e não a alcançar, e que isso lhe acontece com todas as palavras, o dia inteiro. Querer dizer que tem sede e não conseguir. A raiva não é com a família, é com o cérebro que já não a deixa dizer.
Há a vergonha, mais presente do que se imagina. A D. Fátima dizia-me, no início da doença, «a pior coisa não é esquecer, é os outros perceberem que eu esqueci». A pessoa sente quando alguém revira os olhos, quando alguém suspira de cansaço, quando se comenta o seu estado à frente dela como se não estivesse ali.
E há a solidão de quem fica cada vez mais sozinho dentro da própria cabeça, mesmo rodeado de gente, porque já não consegue partilhar o que vive por dentro. Quando, por cima disto, chega alguém com pressa, correcções e ordens, ela sente-se ainda mais sozinha, porque até a pessoa que devia ser o seu porto seguro a está a tratar como problema.
E ainda, quando a pessoa sente que falam nas suas costas, que há conspirações entre família, que falam dela como se ela não estivesse a ouvir. Que toda a gente evidencia as suas falhas, a pessoa fica muito mais atenta/desconfiada e quer, cada vez mais, não se sentir de parte. Pede mais atenção porque este ambiente lhe diz, todos os dias, que não é capaz e que está a perder o controlo sobre o que se passa à sua volta. Quando esta atenção não é dada, é normal que haja reações mais impulsivas e agressivas que muitas vezes não se compreende.
A agressividade quase nunca aparece sem aviso. O corpo dá sinais nos minutos, às vezes nas horas, anteriores, e quem aprende a vê-los consegue desactivar o episódio antes de ele acontecer. Reparar nestes sinais ajuda a perceber porque é que o seu familiar com Alzheimer ficou agressivo num momento e não noutro.
Os sinais que mais vejo, a pessoa fica mais calada do que o costume, não por estar calma, mas por estar a juntar tensão.
Quando reconhecer qualquer um destes sinais, está a tempo. A tempo de baixar o som, de reduzir as pessoas à volta, de propor algo calmo, de adiar o que estava prestes a pedir.
A teoria não chega. Para perceber o que dispara os episódios na sua casa em concreto, é preciso registar. Nada de diários extensos, algo que se faz em dois minutos, no telemóvel ou num caderno.
Por cada episódio da próxima semana, anote cinco coisas.
Ao fim de uma semana, abra os registos lado a lado. O padrão aparece quase sempre. «É sempre depois das cinco da tarde.» «É sempre quando volta da casa de banho.» «É sempre quando lhe peço para se vestir.» «É sempre quando estou ao telefone.» E quando o padrão aparece, a estratégia aparece com ele.
Se é ao final do dia, há um problema de sobrestímulo acumulado, e há um artigo dedicado a isto na agitação ao final do dia. Se é à hora do banho, é a forma como o banho está a ser proposto. Se é quando está ao telefone, ela sente-se invisível e responde como sabe. O registo não é só para si, é também para o médico, levar uma semana de registos a uma consulta muda a qualidade da conversa toda.
Se a sua resposta àquela pergunta lá atrás foi «começou de repente, está em todo o lado, e há outras mudanças», então isto é para si, e é para hoje, sem esperar pela próxima consulta.
Quando um familiar com Alzheimer ficou agressivo desta forma súbita, o tempo conta e muito.
Se a agressividade for grave, se houver risco para si ou para a pessoa, e não conseguir falar com o médico, vá à urgência. Não fique a aguentar sozinho em casa. Há mais detalhe no artigo sobre a pioria súbita na demência.
Procure ajuda profissional se a agressividade surgiu de forma súbita e sem explicação, se houve alteração recente na medicação, se suspeita de infeção mesmo sem febre clara, se a agressividade compromete a segurança da pessoa ou dos cuidadores, se sente que já não consegue lidar com a situação, se aparecem alucinações ou delírios novos, se a pessoa começou a magoar-se a si própria, ou se há agressões físicas que deixam marcas.
A pergunta «porque é que o meu familiar com Alzheimer ficou agressivo» não tem uma resposta única, tem camadas. O que mudou no cérebro, os filtros que se foram. O padrão, se veio de repente e está no corpo, ou devagar e está na situação. Os gatilhos, sendo o mais ignorado de todos a forma como falamos. Quem está à frente, porque o mesmo gesto muda de sentido com o cônjuge, com os filhos, com a auxiliar, no centro de dia. E o que a pessoa sente por dentro, o medo, a frustração, a vergonha, a solidão.
Para esta semana, comece o caderninho dos cinco campos, e ao fim de sete dias procure o padrão. Durante uma tarde, conte as vezes que contraria, corrige ou dá uma ordem, e na tarde seguinte experimente não fazer nenhuma das três. E aprenda os sinais de que o episódio se aproxima, para conseguir desacelerar antes de ele rebentar.
Ainda vai a tempo.
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Não é normal. Quando o familiar com Alzheimer ficou agressivo de repente, há quase sempre uma causa específica, e as mais frequentes são infeção urinária, dor não detectada, alteração de medicação ou desidratação. O primeiro passo é falar com o médico e fazer uma análise de urina. A agressividade que se instala devagar, ao longo de meses, é mais consistente com a evolução da doença.
Porque é consigo que ele se sente seguro para deixar sair o que sente. O facto de o seu familiar com Alzheimer ficou agressivo consigo e não com os outros não é castigo, é confiança. Os outros recebem a versão composta, a família recebe a verdadeira. É também consigo que ele mais convive e quem mais lhe pede coisas, por isso há mais ocasiões de tensão.
Não se trata de deixar fazer tudo, trata-se de escolher o que vale a pena contrariar. Se ele diz que a mãe vem cá jantar, e a mãe morreu há vinte anos, contrariar não a traz de volta, só causa angústia. Em vez disso, entre na conversa dele. O segredo é perceber que técnicas de comunicação funcionam melhor com a pessoa em particular. Pedir colaboração ao invés de se dizer: "não podes", ajuda muito.
Se foi isolado, num contexto identificável, e a pessoa acalmou depois, é pouco provável que se torne padrão se as causas forem trabalhadas. Se acontece com frequência, se há agressões que deixam marcas, ou se sente medo real de estar sozinha com a pessoa, é sinal de que precisa de apoio profissional já. Não há mérito nenhum em aguentar sozinho. A sua segurança conta tanto como a dela.
Não há resposta única. Avalie a frequência dos episódios, a intensidade, se é verbal ou física, a força e mobilidade da pessoa, e a sua capacidade de sair de casa depressa se precisar. Se algum destes pontos a preocupa, organize-se para não estar sozinha nos momentos de maior risco, sobretudo o banho, a hora de deitar e o final do dia.
Não necessariamente. Costuma ser mais intensa na fase moderada, quando a pessoa ainda tem energia mas já perdeu muitos filtros. Em fases avançadas, com a perda de mobilidade, a agressividade física tende a diminuir, embora a verbal possa manter-se. Cada pessoa evolui à sua maneira.
Sempre que um familiar com Alzheimer ficou agressivo à hora do banho, é porque esse momento junta exposição, sensação de perda de dignidade, sensações físicas desconfortáveis e a presença de outra pessoa num momento íntimo. Ajuda pedir licença, preparar tudo antes de começar, manter a água confortável, cobrir o corpo com a toalha sempre que possível e falar com calma sem comentar o estado físico. Há mais no artigo sobre a pessoa com demência que não quer tomar banho.
A medicação pode ser necessária em alguns casos, mas nunca como primeira resposta. Antes de medicar, é preciso perceber o que está a desencadear os episódios. Muitos calmantes têm efeito contrário nas pessoas idosas, agitam em vez de acalmar, e têm riscos. Qualquer medicação para acalmar deve ser prescrita e acompanhada por um médico.
Se o seu familiar com alzheimer ficou agressivo, descubra o que mudou no cérebro e os gatilhos mais comuns nestas situações desafiantes.
Como proteger pessoa com demência de burlas e aproveitamentos. Estratégias práticas e o que fazer se já aconteceu.
Escolher calçado seguro para pessoa com demência é mais difícil do que parece. Saiba o que observar, o que evitar e como mudar sem resistência.