Quando a pessoa com demência não quer ir para o Centro de Dia, a recusa é firme. Categórica. E em muitos casos, repete-se durante meses.
A resposta é quase sempre a mesma: "Não vou para lá, isso é só para velhos."
Este momento desgasta muitas famílias. Há quem desista. Há quem insista até ao conflito. E há quem acredite que é apenas teimosia ou birra.
Mas raramente é só isso.
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Este artigo oferece 16 estratégias práticas para transformar essa resistência numa aceitação gradual, respeitando a história de vida da pessoa e ajustando a abordagem ao estadio da demência.
A resistência ao Centro de Dia não é contra o espaço em si. É sobre o medo de perder o pouco controlo que ainda resta. É sobre não compreender o que vai acontecer. É sobre sentir que está a ser "depositado" num lugar desconhecido, sem ter voz sobre a decisão.
Quando uma pessoa com demência diz "não", muitas vezes não consegue explicar porquê.
A forma de processar informação já não é a mesma. Pode não conseguir avaliar vantagens futuras ou projetar benefícios a médio prazo.
O que prevalece é a sensação imediata: medo, desconforto, insegurança.
Muitas vezes, uma pessoa com demência não quer ir para o Centro de Dia porque sente que vai perdendo progressivamente a capacidade de tomar decisões sobre a própria vida.
Decide cada vez menos o que veste, o que come, para onde vai.
Aceitar, pode ser sentido como mais uma perda de autonomia.
Quando a família insiste repetidamente, a pessoa pode interpretar isso como: "já não confiam em mim para estar sozinho", "acham que não consigo cuidar de mim", "querem livrar-se de mim".
Este medo é real e profundo. E raramente é expresso em palavras - manifesta-se em recusa, irritação ou ansiedade.
Em alguns casos, a pessoa com demência não quer ir para o Centro de Dia porque a sua capacidade de compreender o que vai acontecer está comprometida.
Não entende quanto tempo vai durar, quem vai estar presente.
A pessoa pode não conseguir reter a explicação que lhe deu há 10 minutos. Ou pode reter apenas fragmentos: "vou para um sítio", "vão deixar-me lá".
Sem conseguir processar a informação completa, a ansiedade aumenta. E a forma mais segura de lidar com essa ansiedade é dizer "não" a tudo o que é novo ou desconhecido.
Por isso, insistir com argumentos racionais ("vai fazer-lhe bem", "vai conhecer pessoas") raramente funciona.
A pessoa não está a recusar por teimosia - está a proteger-se de algo que não consegue compreender totalmente.
Noutras situações, a pessoa com demência não quer ir para o Centro de Dia porque este representa a confirmação pública de que "já estou velho", "já não sirvo para nada", "agora sou como os outros velhos que vi lá".
Se a pessoa ainda preserva alguma consciência da sua situação, pode resistir exatamente para não aceitar esse rótulo. É uma forma de tentar manter a identidade que tinha antes da demência.
Frases como "isso é só para velhos" ou "eu não preciso disso" não são arrogância. São tentativas de preservar dignidade e auto-imagem numa fase em que ambas estão profundamente ameaçadas.
Se o seu familiar sempre foi reservado, evitou grupos, preferiu ambientes tranquilos ou pequenos círculos de amizade, é natural que seja o tipo de pessoa que não quer ir para um Centro de Dia - um espaço com muitas pessoas e atividades em grupo.
A demência não apaga completamente a personalidade. Em muitos casos, até a intensifica. Alguém que sempre foi discreto pode tornar-se ainda mais avesso a ambientes barulhentos ou socialmente exigentes.
Respeitar estes traços é fundamental. Forçar uma pessoa naturalmente introvertida a estar num grupo grande pode causar sofrimento desnecessário - e reforçar a recusa.
Se já houve uma tentativa de ida ao Centro de Dia que correu mal - sem preparação adequada, sem acolhimento cuidadoso, com atividades inadequadas ou com reações desadequadas dos profissionais - a pessoa pode guardar essa memória emocional, mesmo que não se lembre dos detalhes.
O cérebro retém a sensação de desconforto, medo ou rejeição. E isso é suficiente para criar resistência duradoura.
Nestes casos, pode ser necessário começar praticamente do zero: visitar um Centro diferente, preparar melhor a equipa, ajustar completamente a abordagem.
Nem todas as pessoas beneficiam do Centro de Dia da mesma forma. E nem todas vão aceitar, mesmo com as melhores estratégias.
Se o seu familiar sempre foi muito reservado, evitou convívio social ou nunca se sentiu confortável em grupos, o Centro de Dia pode não ser a solução ideal - pelo menos não no formato tradicional com muitas pessoas e atividades em grupo.
Nestes casos, vale a pena ponderar alternativas: apoio domiciliário com atividades individualizadas, pequenos grupos, ou atividades ao ar livre em contexto mais tranquilo.
Mas se acredita que o Centro de Dia faz sentido - pelo estímulo cognitivo, pela socialização ou pelo alívio da sobrecarga do cuidador - então as estratégias que se seguem podem ajudar a facilitar a aceitação.
Se o seu familiar com demência não quer ir para o centro de dia, todas estas estratégias podem funcionar, mas tudo depende do perfil da pessoa e do estádio da demência.
O que resulta numa família pode não resultar noutra. E está tudo bem.
O importante é ajustar, testar e manter consistência ao longo das semanas.
Quando a pessoa ainda preserva bastante consciência e capacidade de decisão, estas abordagens tendem a resultar melhor.
Resulta muito bem quando o próprio Centro envia um convite formal - escrito ou transmitido por um técnico - a pedir colaboração numa atividade específica.
Pode ser ensinar algo que fez ao longo da vida profissional, ajudar na horta, orientar um jogo ou participar numa atividade de música ou teatro. Assim, a pessoa sente-se chamada a participar e não apenas "levada para lá".
Exemplo prático: "Sr. António, o Centro de Dia está a começar uma horta comunitária e disseram que precisam de alguém com experiência. Lembrei-me logo do senhor."
Se sempre cozinhou, cuidou da casa, contou histórias ou trabalhou numa área específica, apresente o Centro como um lugar onde essa experiência faz falta.
Muitas pessoas com demência sentem que perderam a sua função na família e na sociedade. Devolver-lhes um papel pode ser transformador.
Exemplo prático: "Mãe, disseram-me que precisam de alguém que perceba de costura como a senhora. Podia dar-lhes uma ajuda?"
Se participou em associações, clubes, grupos de teatro ou coral no passado, use essa ligação emocional para apresentar o Centro como algo familiar.
Exemplo prático: "Lembra-se do grupo de teatro da paróquia onde estava? Lá também fazem coisas assim. Acho que ia gostar."
Identifique o que ainda lhe dá prazer: música, leitura, jardinagem, culinária, jogos. Apresente o Centro de Dia como um espaço onde isso acontece - não como um lugar genérico para "estar".
Exemplo prático: "Hoje vão ter uma atividade de música que acho que vai gostar. Quer ir ver?"
Para quem tem hábitos bem enraizados, funciona integrá-lo gradualmente sem quebrar a rotina.
Exemplo prático: "Vamos ao café como sempre e depois passamos lá pelo Centro, que têm jornais e podemos tomar um chá." Isto normaliza o espaço antes de pedir compromisso regular.
Muitas pessoas com demência aceitam melhor quando sentem que estão a ajudar alguém ou a fazer companhia a outra pessoa.
Exemplo prático: "Mãe, a coordenadora pediu se podias lá ir fazer companhia à D. Maria, que anda mais em baixo. Queres ir só um bocadinho?"
Se existe um médico, padre, enfermeiro ou amigo de longa data em quem a pessoa confia, pode ser essa figura a sugerir a ida ao Centro.
A recomendação vinda de alguém respeitado tem peso diferente.
Exemplo prático: "O Dr. Silva disse que seria bom para si passar lá umas horas, para conviver um pouco e fazer atividades."
Se o seu familiar rejeita por achar que "é para velhos" ou "não é para mim", reforce o valor pessoal e o sentido de escolha.
Exemplo prático: "Escolheram só algumas pessoas para esta atividade e lembraram-se logo de si. Disseram que precisavam de alguém com a sua experiência."
Algumas pessoas aceitam melhor quando percebem que isso também ajuda a família - sem que isso seja usado como chantagem emocional.
Exemplo prático: "Enquanto está no Centro, eu consigo tratar das compras descansada e depois, quando voltar, estamos os dois mais tranquilos."
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Nem todos os Centros têm formação específica em demência, embora existam orientações da Direção-Geral da Saúde sobre boas práticas no acompanhamento de pessoas com patologias neurodegenerativas.
Entregue uma ficha simples com informação útil sobre quem é a pessoa: nome, profissão anterior, gostos, o que a tranquiliza ou agita, como reage quando está ansiosa, palavras ou temas sensíveis.
Isto evita mal-entendidos e cria um acolhimento mais cuidadoso desde o primeiro dia.
Não é realista esperar que a pessoa aceite logo uma frequência de vários dias por semana. O ideal é começar calmamente: primeiro uma manhã por semana, depois dois dias, depois manhãs regulares e, com o tempo, passar a dias completos.
O cérebro precisa de criar familiaridade com o espaço, com as pessoas, com as rotinas. Isso não acontece de um dia para o outro.
As primeiras semanas são sempre as mais difíceis. Não desista ao primeiro "não quero ir mais".
Ajuste horários, pessoas de referência, tipo de atividades - mas mantenha consistência.
A familiaridade constrói-se com repetição suave, não com imposição.
Se a pessoa sempre foi reservada, talvez não tolere grandes grupos ou atividades muito estimulantes. Nestes casos, negocie idas curtas, espaços mais tranquilos, ou considere alternativas como apoio domiciliário ou pequenos grupos.
Forçar pode criar trauma e piorar a resistência a longo prazo.
Muitas recusas escondem a sensação de estar a ser deixado para trás ou esquecido pela família. Reforce sempre, de forma clara e calma, que não é para ficar lá definitivamente.
Exemplo prático: "Não é para ficar lá. Vai lá fazer (jardinagem/música/conversar) e depois voltamos para casa." Repetir esta mensagem ao longo do dia ajuda a reduzir a ansiedade.
Quando já existe alguma habituação, é útil apresentar a ida ao Centro como parte natural do dia - tal como o pequeno-almoço ou o passeio.
Exemplo prático: "Depois do almoço vamos lá ao Centro, tal como ontem. A D. Maria já está à sua espera e perguntou por si."
Isto reduz ansiedade e cria previsibilidade.
Em fase moderada, perguntar "quer ir ao Centro?" raramente funciona. A resposta será previsivelmente "não".
Em vez disso, dê escolhas dentro da ida - mantendo a sensação de controlo sem exigir uma decisão que já não consegue tomar.
Exemplo prático: "Vamos de manhã ou de tarde?" / "Prefere levar o lanche de casa ou comer lá?" / "Quer levar o casaco azul ou o castanho?"
Assim, a pessoa sente que continua a decidir, mesmo quando a decisão global já não está no seu alcance.
A resistência ao Centro de Dia não vai desaparecer de um dia para o outro. Mas pode transformar-se em aceitação gradual se a pessoa sentir que vai para um lugar onde ainda tem utilidade, onde é respeitada e onde continua a ser vista como alguém com valor.
As atividades realizadas no Centro importam. A forma como é acolhida importa. E a consistência da família também importa.
Comece devagar. Ajuste conforme necessário. Mantenha consistência nas primeiras semanas. E lembre-se: aceitar ajuda não é falhar - é cuidar de forma sustentável, tanto da pessoa com demência como de si próprio.
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Quando a pessoa com demência não quer ir para o Centro de Dia, não existe um prazo fixo para a aceitação. Algumas pessoas habituam-se em 2-3 semanas, outras precisam de 2-3 meses.
O importante é manter consistência e não desistir nas primeiras recusas.
Reavalie se o Centro faz sentido para este perfil específico. Se a pessoa sempre foi muito reservada, considere alternativas: apoio domiciliário, pequenos grupos, atividades ao ar livre. Se acredita que vale a pena insistir, mude completamente a abordagem: teste outro Centro, outra figura de referência, outro horário.
Não. Mentir ("vamos só dar uma volta" e depois deixar lá) pode destruir a confiança e piorar a resistência a longo prazo.
Use redirecionamento, dê escolhas dentro da ida, mas não engane. A pessoa pode não se lembrar do que disse, mas fica com a sensação de ter sido enganada.
Valide a emoção sem ceder imediatamente: "Vejo que está preocupado. Vamos só até lá, fica um bocadinho e se não gostar voltamos."
Mantenha um tom calmo, não force fisicamente, mas também não desista ao primeiro sinal de ansiedade. Muitas vezes a ansiedade diminui depois de chegar.
Observe sinais: chega mais tranquilo ou mais agitado? Fala de alguém ou de alguma atividade? Dorme melhor? Come melhor?
Se após 4-6 semanas a pessoa está consistentemente pior (mais ansiosa, mais agressiva, mais isolada), reavalie.
Se está estável ou ligeiramente melhor, continue.
Sim, e é até recomendado. Comece por 2-3 horas numa manhã, duas vezes por semana. Quando houver habituação, aumente gradualmente. Forçar dias completos logo no início aumenta resistência e sobrecarga sensorial.
Não use "pôr" na resposta - reforce que não é abandono: "Não é para ficar lá. Vai lá fazer (atividade) e depois voltamos para casa. Eu venho buscá-lo ao final da manhã."
Repetir isto com calma ajuda.
Depende. Se a infelicidade é apenas nas primeiras semanas (período de adaptação normal), vale a pena manter com ajustes.
Se após 2 meses continua consistentemente infeliz, ansioso ou com comportamentos muito desafiantes, pode não ser a solução adequada para esta pessoa. Respeitar limites também é cuidar.
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