Quando a pessoa com demência chama por pessoas que já morreram — a mãe, o marido, um irmão — a maioria das famílias faz o que parece mais natural: corrige.
"Já morreu, lembra-se?"
E o que acontece a seguir é devastador. A pessoa recebe a notícia como se fosse a primeira vez. Chora, entra em luto, sente o choque da perda. Minutos depois, volta a perguntar. O cérebro já não retém a informação, mas a emoção fica.
⏳ Tempo de Leitura: 12 minutos
Este ciclo repete-se vezes sem conta ao longo do dia, esgotando quem cuida e causando sofrimento desnecessário. Mas existem outras formas de lidar com esta situação — abordagens que protegem o bem-estar emocional de todos.
Quando a pessoa com demência chama por pessoas que já morreram, não está apenas a procurar uma resposta factual. Está a procurar conforto, segurança, uma presença que sempre representou proteção.
A demência distorce a perceção do tempo. O passado e o presente misturam-se. A pessoa pode sentir-se novamente criança, ou reviver momentos em que essa pessoa estava viva e presente.
Esta confusão temporal não é teimosia nem falta de atenção. É uma consequência direta do funcionamento do cérebro afetado pela demência. A memória recente desaparece, mas as memórias emocionais antigas permanecem vivas e intensas.
Por isso, a pergunta "onde está a minha mãe?" significa frequentemente: "onde está aquilo que me fazia sentir segura?" ou "preciso de alguém que me acalme agora".
Corrigir pode parecer o caminho honesto e respeitoso, mas na demência a verdade factual causa mais dano que benefício.
Quando diz "já morreu há muitos anos", está a forçar a pessoa a processar uma perda devastadora de novo. O cérebro não consegue guardar essa informação, mas a dor emocional fica registada.
O resultado prático: cinco minutos depois, a pessoa volta a perguntar. E você volta a ter de dar a notícia. E ela volta a sofrer. Este ciclo não tem fim, porque o problema não é a falta de informação — é a necessidade emocional que não está a ser atendida.
A abordagem que recomendamos baseia-se em validação emocional e redirecionamento suave. Não se trata de mentir por manipulação, mas de proteger o bem-estar no momento presente.
Quando o seu familiar chama por pessoas que já morreram, comece por reconhecer o sentimento
"Tem saudades da sua mãe, eu compreendo. Era muito especial para si, não era?"
Esta validação acalma porque a pessoa sente-se ouvida. Logo a seguir, redirecione a conversa para uma memória positiva ou uma ação concreta.
"Lembro-me daquele arroz doce que faziam juntas... como é que era a receita?"
Assim, a emoção é acolhida e a atenção move-se para algo que não causa sofrimento.
Evite tanto "vem já" (que cria expectativa e frustração) como "já morreu" (que causa dor).
Use frases como:
"Ela não pode vir agora, mas estava sempre consigo."
"Deve estar ocupada, mas pensava muito em si."
E imediatamente ofereça uma tarefa ou mudança de contexto: "Enquanto esperamos, pode ajudar-me a pôr a mesa?"
Este tipo de resposta não promete nem retira esperança. Simplesmente dá espaço emocional e move a atenção para o presente.
Se a pessoa pergunta sempre ao fim da tarde, esse padrão indica um gatilho emocional (síndrome do pôr do sol, cansaço acumulado, solidão).
Antecipe esse momento. Esteja por perto nessa hora. Coloque música suave que a pessoa goste. Mostre fotografias de família. Ofereça um chá ou uma tarefa simples.
Quando o ambiente está preparado, a necessidade de chamar por alguém que já faleceu muitas vezes nem surge.
A mentira terapêutica pode ser extraordinariamente útil quando o seu familiar com demência chama por pessoas que já morreram.
A mentira terapêutica não é enganar — é adaptar a resposta à realidade emocional da pessoa.
Se o marido era pescador: "Foi à pesca, deve demorar."
Se a mãe fazia turnos: "Está a trabalhar, chega mais tarde."
E logo a seguir, mova a atenção: "Enquanto esperamos, vamos ver estas fotografias antigas?"
A mentira cria uma ponte entre a necessidade emocional e a ação seguinte. Não é o fim da conversa — é o início de uma solução prática.
A mentira terapêutica divide opiniões: mentir é ético? Na minha ótica, se a pessoa já está num estadio da demência em que recebe a notícia sempre como se fosse a primeira vez, pouco ético é causar-lhe esse sofrimento... dia após dia.
Quando nada parece funcionar e a ansiedade aumenta, pode simular um contacto tranquilizador.
"Acabei de falar com ela, disse que está tudo bem mas vai demorar."
Ou até pegar no telefone e "ligar": "Está a ver? Ela disse para ficar descansada, que pensa em si."
Logo a seguir, redirecione: "Vamos ver este álbum enquanto esperamos, pode ser?"
Este gesto é reconfortante porque simula a presença à distância, algo que muitas pessoas compreendem e aceitam.
Organize num espaço da casa algumas fotografias, uma manta com cheiro familiar, objectos que tenham significado afetivo.
Quando surge a pergunta "onde está?", pode dizer:
"Vamos até ao cantinho das memórias. Ela está sempre aqui connosco, nas fotografias."
Este espaço físico torna-se um lugar de conforto. A pessoa pode tocar nas fotografias, segurar objectos, sentir-se ligada às memórias sem precisar da presença física.
Depois de validar a emoção, ofereça uma tarefa simples e significativa.
"Pode ajudar-me a dobrar esta roupa?"
"Preciso que me segure nesta colher enquanto mexo a sopa."
O objetivo não é que a tarefa fique perfeita. É dar um papel, devolver identidade, ocupar a atenção com algo que faça sentido.
A sensação de utilidade acalma. E quebra o ciclo de ansiedade.
Alguns ambientes intensificam a desorientação: televisão com notícias perturbadoras, espelhos que confundem, sombras que assustam, ruídos altos.
Identifique o que aumenta a agitação. Reduza os estímulos nessas alturas do dia.
Ambiente calmo + validação emocional + redirecionamento prático = maior tranquilidade para todos.
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Nem todas as estratégias funcionam da mesma forma em todos os momentos. O estadio da demência influencia a abordagem.
Em qualquer estratégia, e especialmente na mentira terapêutica, temos sempre de entender que tudo se deve adequar à pessoa que temos à nossa frente e ao estadio da demência.
Como saber se está no caminho certo?
A pessoa acalma mais depressa. Passa menos tempo em sofrimento visível. Aceita o redirecionamento sem resistência. Consegue envolver-se numa tarefa ou conversa alternativa.
Se continua agitada, emLoop constante, ou rejeita todas as tentativas de redirecionamento, pode ser necessário ajustar.
Por vezes, a agitação não vem da memória da pessoa que faleceu, mas de dor física, fome, desconforto ou cansaço extremo. Descarte sempre causas físicas antes de assumir que é apenas confusão temporal.
Outro sinal importante: a sua própria exaustão emocional. Se sente que está constantemente a lutar contra a pessoa, algo precisa de mudar. A abordagem certa deve tornar o dia mais leve para ambos, não mais pesado.
O erro mais frequente é dizer "já morreu" sempre que a pessoa pergunta. Para si, é a décima vez que responde naquele dia. Para a pessoa com demência, é sempre a primeira vez que ouve.
O cérebro não consegue guardar a informação. Passados cinco minutos, a pessoa volta a perguntar. E você volta a dizer. E ela volta a sentir o choque, a tristeza, a perda acabada de acontecer.
Este ciclo não ensina nada. Não ajuda a "aceitar a realidade". Apenas causa sofrimento repetido sem qualquer benefício.
Outro erro comum é tentar convencer com argumentos lógicos.
"Não se lembra que fomos ao funeral?"
"Já lhe disse isto hoje de manhã."
"Tem de perceber que ela já não está cá."
A pessoa com demência não está a pedir factos. Está a pedir segurança emocional. Insistir na lógica aumenta a frustração de ambos os lados e não resolve o problema.
Dizer "vem já" ou "está quase a chegar" parece gentil, mas cria expectativa e ansiedade.
A pessoa fica à espera. Pergunta de novo passado pouco tempo. A frustração aumenta porque a promessa não se cumpre.
Se usar uma resposta ambígua, siga sempre com redirecionamento prático. Nunca deixe a pessoa em modo de espera indefinida.
É completamente compreensível sentir exaustão quando a mesma pergunta surge 20 vezes num dia. Mas mostrar irritação piora tudo.
A pessoa com demência capta o tom emocional, mesmo quando já não compreende as palavras. Se percebe que a incomoda, pode sentir culpa, ansiedade ou rejeição.
Quando sentir que vai perder a paciência, saia do espaço por momentos. Respire. Volte quando estiver mais calma. Cuidar de si é parte essencial de cuidar bem do outro.
Repetir a notícia da morte várias vezes por dia não ajuda a pessoa a "lembrar-se". Apenas força o cérebro a processar luto repetidamente. A memória da informação não fica. A emoção da dor fica.
Quando a pessoa com demência chama por alguém que já morreu, o instinto de dizer a verdade parece o mais honesto. Mas a demência exige outra lógica — uma lógica emocional, não factual.
Validar o sentimento, redirecionar a atenção e dar uma ação prática são os três passos que protegem o bem-estar de todos. Não se trata de esconder a realidade, mas de escolher o caminho que causa menos sofrimento no momento presente.
Com observação, paciência e ajustes constantes, é possível transformar estes momentos difíceis em oportunidades de conforto e ligação.
Se precisar de orientação ou apoio, pode contactar:
Não hesite em pedir ajuda. Cuidar de alguém com demência é desafiante e ninguém deve fazer este caminho sozinho.
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Não existe uma frequência normal — varia entre pessoas e estadios. Algumas chamam várias vezes por dia, outras só em momentos específicos (fim do dia, solidão, stress). O padrão importa mais que a frequência: se aumenta subitamente ou acontece sempre à mesma hora, identifique o gatilho.
Valide a emoção sem corrigir: "Tem saudades da sua mãe, eu compreendo." Logo a seguir, redirecione para uma memória positiva ou uma tarefa prática. Evite dizer "já morreu" porque a pessoa vai processar a perda como se fosse a primeira vez.
A mentira terapêutica não é manipulação — é proteção emocional. O objetivo não é enganar, mas evitar sofrimento desnecessário. Sempre que usar uma resposta ambígua, siga com redirecionamento prático. Assim, a pessoa move a atenção sem ficar em loop de angústia.
A demência afeta a memória recente, mas as memórias emocionais antigas permanecem vivas. A pessoa pode sentir-se novamente numa fase da vida em que essa pessoa estava presente, ou procurar a segurança que ela representava.
Depende do estadio da demência e da reação da pessoa. No estadio inicial, por vezes ainda é possível dizer a verdade de forma breve e validar a emoção. Nos estadios intermédio e avançado, validar e redirecionar funciona melhor. Observe: se a verdade causa dor prolongada, mude de estratégia.
Primeiro, descarte causas físicas: dor, fome, desconforto, cansaço. Se a agitação persistir, reduza estímulos no ambiente, ofereça contacto físico reconfortante (se a pessoa aceitar) e tente mudar completamente de espaço. Por vezes, sair para o exterior ou ir para outro cómodo quebra o ciclo.
Pode criar expectativa se não for seguido de redirecionamento. O telefonema funciona como ponte emocional, mas logo a seguir deve dar uma tarefa ou mudar de tema. Assim, a pessoa não fica à espera indefinidamente, mas sente-se tranquilizada naquele momento.
Sim, mas observe a reação. Para algumas pessoas, as fotografias são reconfortantes e trazem boas memórias. Para outras, intensificam a saudade e a confusão. Teste e ajuste. Se a fotografia acalma, use. Se aumenta a agitação, guarde.
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