Quando a pessoa com demência só quer comer doces e recusa sistematicamente qualquer outro alimento, a tentação é impor regras.
"Tem de comer a sopa primeiro."
"O bolo é só depois do almoço."
"Não pode comer só doces o dia todo."
Estas frases raramente funcionam. O que acontece, na prática, é que cada refeição se transforma num campo de batalha - frustração para quem cuida, ansiedade para quem é cuidado.
⏳ Tempo de Leitura: 9 minutos
A preferência exclusiva por doces não é teimosia, birra ou um comportamento infantil.
É uma consequência neurológica direta da progressão da demência, e só quando se compreende o que está a acontecer no cérebro é que se conseguem encontrar soluções realistas.
Neste artigo, vou explicar porque é que isto acontece, quais os riscos reais do consumo excessivo de açúcar numa pessoa frágil, e apresentar estratégias concretas para manter a nutrição sem eliminar o prazer de comer.
Mantenha um registo simples 7 dias com 3 colunas - “o que pediu”, “o que aceitou”, “forma/textura”. Este registo ajuda a identificar padrões sem entrar em confronto.
A resposta está na forma como o cérebro processa o paladar à medida que a demência avança.
O sistema sensorial não se deteriora todo ao mesmo tempo — há uma hierarquia de perda que segue um padrão relativamente previsível.
As papilas gustativas associadas ao doce são as últimas a degradar-se.
Enquanto o salgado se torna confuso, o azedo desagradável e o amargo intolerável, o doce mantém-se como uma experiência sensorial segura, familiar e agradável.
Nota de Nuance: embora “doce por último” seja descrito frequentemente, há alguma variação individual - observe sempre o que o seu familiar realmente aceita.
Também existe a possibilidade da pessoa já não conseguir fazer as suas próprias refeições, não saber como colocar a aquecer a comida que está no frigorifico e a tendência é ceder aos alimentos mais fáceis - que por norma são industrializados (bolachas, biscoitos, pães de leite, docinhos, fritos...).
Isto não acontece por acaso.
O doce está profundamente ligado às áreas límbicas do cérebro — as mesmas que processam memória emocional e prazer.
Quando a pessoa com demência só quer comer doces, está a procurar a única sensação alimentar que o seu cérebro ainda consegue reconhecer como algo positivo.
Tudo o resto — texturas, cheiros, aparências — deixou de fazer sentido ou tornou-se fonte de ansiedade.
Recuperar doces “afetivos” de infância mas numa versão reforçada (ex.: leite-creme proteico, papas de aveia com leite enriquecido) pode ser uma muito boa estratégia.
Este fenómeno intensifica-se em fases moderadas a avançadas.
A carne estufada pode ser difícil de mastigar. O arroz pode ser dificil de engolir, e a pessoa pode ter medo de se engasgar a beber água. Acaba por não comer tão bem nas refeições, mas o gelado? O pudim? A torrada com doce? Esses continuam a ativar circuitos de prazer que ainda funcionam e a pessoa continua a aceitar - também porque a textura, muitas vezes, facilita.
É por isso que insistir com lógica — "não podes comer só doces" — não resulta.
É importante avaliar o que estará por trás.
Compreender a preferência não significa ignorar as consequências.
Quando a pessoa com demência só quer comer doces, o impacto nutricional e metabólico pode ser grave, especialmente numa pessoa já fragilizada pela idade e pela doença.
O açúcar força o organismo a utilizar mais água para equilibrar os níveis de glicose.
Numa pessoa que já bebe pouca água e tem mecanismos de sede comprometidos, isto traduz-se em desidratação crónica.
O resultado direto: mais confusão mental, maior risco de infeções urinárias, obstipação severa.
A pele fica seca, os lábios gretam, a urina escurece. A desidratação agrava todos os sintomas da demência e pode causar delírio agudo.
Meta prática de hidratação — 6 a 8 “meias‑chávenas” ao longo do dia — via bebidas agradáveis (água aromatizada e fria, por exemplo) — e gelados caseiros.
O consumo constante de açúcar provoca picos e quedas bruscas na glicemia.
A pessoa come um bolo, tem um pico de energia seguido de uma queda abrupta que se manifesta como sonolência, apatia ou irritabilidade.
Este ciclo desrregula o humor e dificulta a participação em atividades ou rotinas estruturadas.
Associe o doce a proteína/fibra para “suavizar” picos, por exemplo, iogurte proteico com banana e canela.
A família interpreta como "mau feitio" quando na verdade é instabilidade metabólica.
Quando o açúcar substitui a proteína, o corpo perde capacidade de regenerar tecido muscular.
A sarcopenia — perda progressiva de músculo — aumenta exponencialmente o risco de quedas, fraturas e dependência funcional.
Numa pessoa com demência, manter a força muscular é essencial para preservar autonomia e qualidade de vida.
Sem um ingestão de proteína adequada, a deterioração física acelera drasticamente.
O excesso de açúcar compromete a eficácia dos glóbulos brancos, tornando o organismo mais vulnerável a infeções respiratórias, urinárias e cutâneas.
Numa pessoa idosa, isto pode significar hospitalizações frequentes e um acelerar do declínio funcional.
Priorize vitamina D, zinco e proteína nas opções doces reforçadas (ex.: iogurte grego + fruta + sementes moídas).
Se a pessoa tem diabetes ou resistência à insulina, o descontrolo glicémico agrava lesões vasculares, renais e neurológicas.
Nestes casos, o acompanhamento médico rigoroso é obrigatório e a gestão alimentar torna-se crítica.
O desafio não é eliminar os doces — seria contraproducente e aumentaria a resistência — mas encontrar formas de manter o prazer enquanto se garante aporte nutricional adequado.
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As estratégias que se seguem devem ser adaptadas ao estadio da demência, às preferências antigas da pessoa e à dinâmica da família.
Não existem soluções universais. O que funciona com uma pessoa pode falhar completamente com outra.
Frases como "não podes comer doces agora" ou "tens de comer a sopa primeiro" ativam resistência automática.
A pessoa não processa a lógica do argumento, apenas sente o bloqueio ao que deseja.
Se pede doce, reconheça o pedido: "Já sei, gosta tanto do seu docinho, não é? Olhe este pudim que eu fiz."
E apresenta uma alternativa nutritiva com sabor doce — pudim proteico, mousse de fruta, iogurte batido com banana.
Utilize frases como: “Preciso da sua ajuda para provar esta mousse nova.”
O objetivo é validar o desejo sem comprometer a nutrição.
Fruta madura tem doçura natural e valor nutricional que as bolachas industriais não têm.
Maçã assada com canela, banana esmagada, pêra cozida, compota caseira sem açúcar adicionado.
A canela e a baunilha são aliados poderosos: intensificam a perceção de doce sem necessidade de açúcar refinado.
Uma maçã assada com canela pode ser tão satisfatória quanto um bolo, especialmente se a pessoa já não consegue distinguir texturas complexas.
Iogurtes proteicos (tipo Skyr) com fruta triturada ou mel em pequena quantidade são excelentes: cremosos, nutritivos e com sabor agradável.
A proteína é essencial mas é das primeiras coisas a ser recusada.
A textura da carne, o cheiro intenso, o esforço de mastigação tornam-na pouco apetitosa para quem tem demência.
Use proteína de forma disfarçada:
Estas alternativas mantêm o prazer do doce enquanto combatem a perda muscular.
Para disfagia, ajuste textura com espessantes apropriados prescritos.
Em vez de deixar o pacote de bolachas à vista, coloque três ou quatro num frasco transparente na cozinha e reponha diariamente.
A pessoa sente liberdade de escolha, mas o consumo fica naturalmente limitado.
Evita discussões, vigilância constante e a sensação de privação absoluta. A pessoa come o que está disponível e não procura mais porque não vê mais.
Defina “rituais de docinho” , de preferência caseiros, em horas certas, sempre acompanhados de um copo de liquido que aceite bem.
Quando a pessoa com demência só quer comer doces, muitas vezes ignora completamente líquidos.
Os gelados caseiros são uma forma inteligente de hidratar.
Mantêm o sabor agradável, favorecem a hidratação — especialmente crítica no verão ou em pessoas que bebem pouca água — e são facilmente adaptáveis.
Também pode utilizar: Gelatina sem açúcar com iogurte, leite com baunilha, águas aromatizadas com fruta e/ou com saquetas de aromatização de água, chás mornos doces com canela, sopas fortificadas mas com sabor adoçicado.
A recusa do prato principal muitas vezes não tem a ver com falta de apetite, mas com confusão visual ou dificuldade de processamento.
Um prato com sopa, carne, batatas, arroz e legumes pode ser cognitivamente intimidante.
Reduza para prato único com texturas simples:
A previsibilidade visual facilita o reconhecimento e reduz a ansiedade.
A pessoa come mais porque percebe o que está no prato. E se continuar a priveligiar comida mais doce, pode sempre adicionar batata doce ao empadão, maçã cozida à sopa, pêra no puré...
Use loiça contrastante (prato com uma cor forte, sem padrões) para destacar os alimentos.
Um cérebro com demência responde melhor à previsibilidade.
Sirva as refeições sempre à mesma hora, no mesmo local, com o mesmo tipo de prato.
Se o pequeno-almoço é sempre torrada com queijo às 9h na mesma cadeira, o corpo reconhece o padrão e prepara-se para comer.
A segurança do ritual reduz ansiedade e melhora o apetite.
Evite mudanças bruscas.
Se quer introduzir alimentos novos, faça-o gradualmente, misturados com alimentos já familiares.
Quando estiver à mesa, minimize os estímulos concorrentes à hora da refeição: mantenha a TV desligada, ruído baixo, mesa apenas com o imprescindível.
O sabor doce pode ser o ponto de partida para introduzir outros nutrientes.
Se a pessoa só aceita gelado, transforme-o num alimento completo: misture iogurte proteico, fruta triturada, aveia em pó ou suplemento prescrito pelo médico.
Pode adicionar 1 colher de sopa de frutos secos moídos ou sementes moídas para aumentar a energia e micronutrientes sem alterar muito a textura.
A familiaridade do doce reduz resistência e permite aumentar o valor nutricional sem forçar mudanças drásticas.
❌ Carne + batatas + arroz + legumes = confusão visual
✅ Empadão de carne desfiada = prato único simples
Menos elementos no prato = mais comida consumida - pessoa come melhor quando reconhece o que vê.
Porções pequenas e repetidas funcionam melhor do que um prato cheio.
Nem sempre a recusa de comida sólida se deve apenas à progressão da demência.
Há situações em que pode estar a mascarar um problema físico não diagnosticado:
Dor ao mastigar, próteses mal ajustadas, cáries não tratadas e gengivas inflamadas, fazem com que a pessoa evite alimentos que exigem esforço.
Os doces macios (pudins, gelados, mousses) não causam desconforto, por isso são preferidos.
Fazer uma "inspeção oral" diária rápida e uma consulta de medicina dentária geriátrica quando possível é importante.
Dificuldade de deglutição pode estar a desenvolver-se sem sinais óbvios.
A pessoa evita alimentos sólidos porque sente que não consegue engolir com segurança, mas aceita doces cremosos porque deslizam facilmente.
Observe tosse após engolir, voz “molhada” e tempo excessivo à mesa — sinais de alerta para avaliação por terapeuta da fala.
Alguns medicamentos alteram o paladar, causam boca seca ou provocam náusea.
A pessoa pode estar a recusar comida não porque não quer, mas porque o sabor está alterado ou porque se sente mal após comer.
Pergunte ao médico sobre fármacos com efeito anticolinérgico e ajuste de horários das tomas em relação às refeições.
Gastrite, refluxo ou obstipação crónica podem fazer com que a pessoa associe refeições principais a desconforto.
Os doces, consumidos em pequenas quantidades, não provocam o mesmo mal-estar.
Se a pessoa com demência só quer comer doces e está a perder peso visivelmente, contacte o médico de família.
Uma avaliação clínica pode identificar problemas tratáveis que estão a agravar a recusa alimentar.
Eliminar totalmente o doce aumenta a frustração e a resistência.
A pessoa sente que lhe estão a tirar a única coisa que ainda lhe dá prazer. O conflito aumenta, a alimentação piora.
Estabeleça “doces estruturados” com porção e hora definidas, integrados no plano.
Usar linguagem infantil, brincar com a comida ou dar recompensas como se fossem prémios de bom comportamento é desrespeitoso e contraproducente.
A pessoa não é uma criança, é um adulto com uma doença neurodegenerativa.
Se a pessoa come sempre a mesma coisa ao pequeno-almoço e isso funciona, não force mudanças.
A previsibilidade é reconfortante. Introduza novos alimentos apenas se houver necessidade nutricional real.
Quando a pessoa com demência só quer comer doces, é fácil esquecer que também precisa de líquidos.
O açúcar desidrata, e a desidratação agrava confusão e comportamentos desafiantes.
Ofereça líquidos frequentemente, mesmo que em pequenas quantidades.
Um prato muito cheio é visualmente intimidante. Sirva porções pequenas e reponha se a pessoa pedir mais.
É mais eficaz do que um prato grande que fica pela metade e gera culpa ou frustração.
Utilizar pratos e taças pequenos aumentam a perceção de sucesso e reduzem a ansiedade.
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Quando a pessoa com demência só quer comer doces, a solução não passa por proibir, confrontar ou infantilizar.
Passa por compreender a base neurológica da preferência, respeitar a necessidade sensorial e encontrar formas criativas de manter prazer e nutrição em equilíbrio.
O primeiro passo é sempre aceitar que o sabor doce não é teimosia. É uma das últimas pontes sensoriais que o cérebro ainda consegue atravessar, mas que pode ter muitas outras razões por trás.
Se essa for a razão, o segundo passo é transformar essa ponte num caminho para a nutrição adequada, usando o doce como aliado, não como inimigo.
Cada família terá de adaptar estas estratégias à sua realidade. O que resulta hoje pode não resultar daqui a três meses e deve ser sempre aconselhado por profissionais especializados na área da Nutrição da pessoa idosa.
A flexibilidade, a observação atenta e a vontade genuína de preservar a dignidade da pessoa são mais importantes do que qualquer protocolo.
Se sentir que está a perder o controlo da situação ou que a pessoa está a deteriorar-se nutricionalmente, peça ajuda profissional.
Não há mérito em carregar sozinho um peso que pode ser partilhado.
Não completamente, mas também não deve proibir. O equilíbrio está em substituir doces industriais por alternativas nutritivas (fruta, iogurtes proteicos, mousses caseiras sem ovos crus) e usar o doce como reforço positivo, não como campo de batalha.
Defina porções “padrão” e combine com líquidos.
O consumo excessivo de açúcar contribui para inflamação crónica, resistência à insulina e disfunção vascular, fatores que podem acelerar o declínio cognitivo.
No entanto, eliminar totalmente o açúcar pode causar mais stress do que benefício. O objetivo é moderação inteligente, não restrição absoluta. Priorize a qualidade do doce e contexto (com proteína/fibra).
Depende da tolerância individual. Alguns adoçantes como estévia ou eritritol são bem tolerados, mas outros como aspartame podem causar desconforto gastrointestinal.
Teste com pequenas quantidades e observe a reação da pessoa. Varie fontes de doçura natural — fruta madura, baunilha, canela, leite de coco.
Transforme o gelado num alimento completo: misture iogurte de proteína, fruta triturada, aveia em pó ou suplemento nutricional prescrito.
Se o gelado é o único alimento aceite, otimize o seu valor nutricional em vez de o proibir.
Ajuste a textura com espessantes se houver disfagia.
Sinais de alerta: perda de peso visível, roupa a ficar larga, cansaço extremo, feridas que demoram a cicatrizar, quedas frequentes, apatia prolongada. Monitorize peso 1x/semana e ingestão de proteína aproximada por dia.
Se suspeita de desnutrição, peça avaliação médica urgente.
Se recusa sistematicamente vegetais, não force. Pode escondê-los em sopas cremosas, molhos ou empadões.
O importante é garantir fibra e micronutrientes, não necessariamente através de vegetais visíveis no prato. Use leguminosas bem trituradas como fonte de fibra e proteína.
Varia. Algumas pessoas sentem-se pressionadas quando observadas e comem melhor sozinhas. Muitas comem melhor com "alguém em espelho” — comerem juntos o mesmo alimento, no mesmo ritmo, sem comentários.
Outras precisam de companhia para se manter focadas. Teste as várias situações e ajuste conforme a resposta.
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