Envelhecer com dignidade devia ser um direito. Em Portugal, estamos longe disso.
Trabalhamos todos os dias para mudar essa realidade
"Quereria que o tempo fosse Aquilo que agora não é Agora anda-se de carro No meu tempo andava a pé"
- Raul Dias
As raízes
Perdi a conta da quantidade de vezes que ouvi o meu avô Raul dizer esta quadra que ele próprio escreveu.
Nos últimos anos dedicou-se à escrita de mais de 3000 sextilhas, do alto dos seus quatro anos de escolaridade que anunciava com orgulho.
Eu completava sempre a última linha porque a sabia de cor, e ele sorria com aquele orgulho de quem carrega dentro de si um tempo que já não volta.
Vejo-o ainda hoje, encostado às grades da escola da Ribeira em Viseu, onde nasci: o seu Peugeot azul parado ali ao lado, as mãos atrás das costas como sempre.
Depois da escola, íamos à mercearia onde me deixava escolher o que quisesse.
A casa da Avó Ana
Em casa, a avó Ana já tinha cortado o pão que tínhamos amassado no fim de semana em fatias perfeitas.
A torrada era feita na lareira, com a ponta da faca de cabo de madeira espetada no pão, num plano inclinado para torrar no ponto certo. Posso fechar os olhos e ainda sentir o cheiro daquela casa às sete da noite, enquanto o meu avô via o Fernando Mendes na RTP1.
Foi o meu avô que me ensinou a escrever a letra mais bonita do primeiro ano.
"Tem de ser grande e redondinha" - dizia ele.
E esteve dias inteiros a repetir as letras comigo, com um ar pouco empático, como se eu já devesse saber fazer aquilo.
Páginas e páginas de "a's" e o's.
Quando a professora enviou um recado para casa a dizer que a minha letra era a mais bonita da turma, senti-o orgulhoso, e eu também fiquei.
"Olha o que é que a garota está a fazer" - dizia o meu avô para a minha avó quando me apanhava a inventar qualquer coisa.
Fui filha naquela casa, e tinha de ser "uma doutora muito grande" - era o que me dizia sempre.
O Inverno e o meu arroz de chocos
Quando o meu avô se ia deitar, eu e a minha avó assávamos castanhas debaixo das cinzas enquanto víamos novelas que nenhuma criança devia ver.
Dávamos um golpe na castanha para não estourar, mas claro que brinquei várias vezes, punha algumas sem golpe só para ver o seu salto da cadeira.
Dormi com ela até aos onze anos. Todas as noites sentia as festinhas nas costas, as pontas dos dedos com rugosidades de tanto cortar legumes, acender lume e pegar em tachos a ferver.
Aquelas mãos contavam histórias, as manchas escuras na pele e as rugas profundas eram medalhas de uma vida de trabalho.
Com ela, aprendi a fazer filhoses, rissóis, empadas e pastéis de massa tenra. Batia a massa dos bolos e as claras, segurava a batedeira até o braço doer.
Hoje talvez dissessem que era exploração infantil, mas eu continuo a ter saudades.
Aos oito anos, cozinhei sozinha pela primeira vez. Os meus avós andavam no quintal e, enquanto a avó gritava o passo a passo do lado de fora da porta, eu alimentava a ideia de que era capaz de servir o almoço.
Arroz de chocos. Ainda hoje me lembro do cheiro do alho refogado e do meu ar destemido de quem já fez aquilo centenas de vezes.
Permitir que arriscasse era também uma forma de dizer "estou aqui", e eu sentia-o.
O Verão
Os verões eram em Alfaião, uma aldeia num vale a sete quilómetros de Bragança.
Nas viagens de Viseu para Bragança, pedia ao meu avô para pôr a cassete do Rancho Folclórico e Etnográfico de Trancoso.
Eram as minhas músicas preferidas. O meu avô sabia que eu gostava e partilhávamos esse gosto enquanto eu cantava músicas que não sabia muito bem o que queriam dizer.
Às seis da manhã íamos cavar batatas ou à vindima, e foi ali que vi a curvatura daquelas costas e o desgaste das mãos encardidas de terra seca.
Foi ali que soube muito do esforço físico em cada minuto à torreira do sol para comer as batatas fritas que pedia ao almoço. E quem diz que isto não nos molda?
Talvez tenha sido aí que aprendi a língua das pessoas mais velhas, não só as palavras, mas o ritmo, os ditados e a forma de estar.
Durante todos esses anos, sem saber, estava a observar o envelhecimento de perto. Via mudanças, algumas naturais, outras que não conseguia compreender.
O que eu gostava de ter sabido
Só anos mais tarde, no mestrado no Institut Guttmann em Barcelona, é que descobri a causa do que tinha acontecido ao meu avô.
Fez-se luz.
Nunca ninguém me tinha contado e eu também não tinha feito as perguntas certas. Senti alívio por finalmente saber e guardei para mim.
Estudei em Portugal, em Barcelona e na Noruega porque queria compreender como se envelhece em diferentes culturas.
Trabalhei em lares, centros de dia, fiz acompanhamento domiciliário e vivi com uma pessoa com uma doença neurodegenerativa. E não era só trabalho, nunca foi, era voltar a casa, mesmo que longe.
Especializei-me porque se eu soubesse o que sei hoje, a história do meu avô teria sido outra.
Cuidar é muito mais do que medicação, higiene e refeições
Hoje acompanhamos famílias que vivem o envelhecimento de perto. Umas chegam até nós porque começaram a notar pequenas mudanças na memória, na rotina ou na forma de estar.
Outras chegam porque estão desesperadas, sem saber o que fazer.
Muitas chegam no momento em que sentem que "algo mudou" mas que não conseguem explicar muito bem.
Quando "entramos" numa família, não procuramos sintomas isolados, mas antes padrões, porque o envelhecimento nunca acontece sozinho, acontece dentro de uma rede invisível de relações, afetos e responsabilidades.
É aqui que muitas famílias se perdem: acreditam que cuidar é apenas garantir medicação, higiene e refeições.
Mas cuidar é também interpretar sinais, antecipar necessidades, proteger a identidade, manter a dignidade, reconhecer limites e reorganizar a vida sem comprometer o vínculo.
A nossa função é ensinar a ver o que está por trás de uma recusa, a ver o que é normal e o que é sinal de alarme, a identificar quando insistir, quando pausar e quando deixar ser.
Isto não é um "sobre nós"
Procuramos entregar o que me faltou quando precisei: formas de distinguir gestos que pedem atenção de gestos que pedem cuidado, estratégias para preservar aquilo que é essencial para a pessoa e maneiras de se proteger também a si, para que cuidar não roube a vida de quem cuida.
Isto não é um "sobre nós", como diz no título desta página.
É um "sobre eles", pessoas-com-rugas-preferidas, mas também é sobre a história que as famílias partilham, sobre as dúvidas que ficaram por esclarecer e sobre as perguntas que ainda não sabem que vão ter de fazer.
Eu também queria que o tempo fosse aquilo que agora não é. E hoje sei que não era sobre o carro.
O andar a pé permite precisamente tempo para ver.
Para antecipar.
E para podermos caminhar.
Lado a lado.
- Filipa Dias
Equipa
Profissionais com experiência clínica e de terreno, que compreendem as rotinas e os desafios do cuidado.
Filipa Dias
Acompanhamento familiar e apoio ao cuidador
Licenciada em Reabilitação Psicomotora pela Faculdade de Motricidade Humana (Lisboa) e com Mestrado em Reabilitação Neuropsicológica e Estimulação Cognitiva pela Universidade Autónoma de Barcelona, realizou estágio no Hospital de Neurorreabilitação Institut Guttmann, referência internacional no tratamento de demências e lesões cerebrais.
A frequentar a Licenciatura em Psicologia pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.
Com experiência em contexto domiciliário, institucional e comunitário, tem acompanhado centenas de famílias em diferentes fases do envelhecimento e da demência, ajudando-as a transformar o cuidado diário num processo mais equilibrado, seguro e sustentável.
A sua intervenção centra-se no impacto real das patologias neurodegenerativas no quotidiano, tanto da pessoa com demência como da família cuidadora.
As suas principais áreas de especialidade incluem:
- Gestão de comportamentos desafiantes e redução do stress familiar - Orientação e implementação de planos de cuidado no domicílio - Adaptação da casa para maior autonomia, funcionalidade e segurança - Estimulação cognitiva e funcional ajustada à fase da doença e à história de vida - Apoio e estratégias de autocuidado ao cuidador principal
Viveu também com uma pessoa com Doença de Parkinson e Demência, experiência que consolidou a sua compreensão prática das exigências físicas e emocionais do cuidar.
Além da prática clínica, é formadora de cuidadores, tendo contribuído para a capacitação de equipas técnicas em instituições públicas e privadas
Sofia Figueirinhas
Acompanhamento familiar e apoio ao cuidador
Licenciada e mestre em Reabilitação Psicomotora pela Faculdade de Motricidade Humana (Lisboa), especializou-se na área do envelhecimento e das demências, com estágios nas Irmãs Hospitaleiras.
Detém também um MBA em Gestão de Organizações e Serviços de Saúde pela Universidade Fernando Pessoa e frequenta atualmente a Licenciatura em Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa.
A sua experiência profissional combina a prática clínica com a intervenção comunitária. Foi responsável pela implementação do serviço de Psicomotricidade nas Irmãs Hospitaleiras da Parede e coordenou projetos de intervenção domiciliária junto de pessoas idosas e famílias.
Colabora com a Cruz Vermelha Portuguesa no âmbito do socorrismo e emergência em eventos, integrando o voluntariado como extensão natural da sua prática.
Nos últimos anos, tem acompanhado famílias em diferentes fases do envelhecimento e da demência, tanto em contexto domiciliário como institucional, desenvolvendo estratégias centradas na pessoa, na funcionalidade e na qualidade de vida.
A vivência pessoal como cuidadora secundária do seu avô com demência marcou profundamente a sua forma de olhar o cuidado - com conhecimento técnico, mas também com empatia e humanidade.