O seu familiar com demência não quer sair de casa? Estratégias Práticas

Introdução

Quando uma pessoa com demência não quer sair de casa, a maioria das famílias tenta insistir, criar-lhe motivação ou usar argumentos racionais ("faz-te bem", "precisas de ar"). 

Mas estas estratégias raramente resultam.

O seu familiar saía todos os dias. Ia ao café, às compras, à missa. Agora inventa desculpas: está cansado, está frio, amanhã vai. E amanhã não vai.

⚡ Resumo Rápido

A recusa em sair de casa não é teimosia
Não insista com lógica
Rotinas previsíveis são a chave
Aumentar gradualmente a duração das saídas
Torne a saída significativa para a pessoa (propósito claro e familiar).
Se houver recusa, desescale sem confronto e tente mais tarde no mesmo dia com micro‑passos.

⏳ Tempo de Leitura: 12 minutos

O problema não está na falta de vontade. Está, muitas vezes, na incapacidade de processar o que sair de casa agora exige.

Compreender os motivos pelos quais a pessoa com demência não quer sair de casa é o primeiro passo para encontrar soluções adaptadas.

Registe num caderno 3 coisas antes e depois de cada tentativa de saída - hora, como apresentou a ideia e tempo total fora. Em algumas semanas, isto mostra os melhores horários e a linguagem que funciona melhor.

Por que a pessoa com demência não quer sair de casa

Desorientação espacial e sobrecarga sensorial

Sair de casa implica processar estímulos visuais, sonoros e sociais constantemente. Os défices cognitivos na demência afetam estas capacidades de processamento e orientação. A pessoa precisa de:

Tomar decisões rápidas sobre direção e resposta
Orientar-se no espaço sem pontos de referência fixos
Relacionar-se com pessoas cujos rostos ou nomes já não reconhece
Processar múltiplos estímulos em simultâneo

Quando o cérebro já não consegue fazer isto com clareza, recua. Fica onde é previsível, onde sabe o que esperar.

Alteração na perceção de segurança

O mundo exterior deixou de ser familiar. Passou a ser imprevisível, confuso e assustador. A casa, por mais vazia que seja, é o único lugar onde o cérebro ainda se sente capaz de controlar alguma coisa.

A recusa não é teimosia. É o cérebro a proteger-se do caos.

Leve “âncoras de segurança” para a rua - casaco preferido, lenço com um aroma familiar, música calma nos ouvidos (com auscultadores). Pequenos detalhes reduzem a perceção de ameaça.

O preço do isolamento progressivo

Quando a pessoa deixa de sair, as consequências acumulam-se rapidamente:

Apatia crescente: cada dia em casa reduz ainda mais a vontade de sair.
Declínio motor: menos movimento significa mais rigidez e maior risco de quedas.
Declínio cognitivo acelerado: a falta de estímulos sociais e sensoriais deixa o cérebro ainda mais vulnerável.
Sintomatologia depressiva: a solidão e o isolamento podem desencadear ou agravar estados depressivos.

O isolamento não é apenas emocional. É neurológico e físico.

💡 Esta recusa não é uma escolha deliberada.

É uma reação automática a estímulos que o cérebro interpreta como ameaça.

Estratégias práticas para quando a pessoa com demência não quer sair de casa

Comece pelo familiar, não pelo novo

Em vez de propor "dar uma volta", proponha ir a um sítio que a pessoa já conhece bem: a padaria onde sempre comprou pão, o banco do jardim onde se sentava, a igreja onde ia há anos.

O cérebro responde melhor ao que já está mapeado na memória emocional. Comece pelos trajetos que fazem parte da história da pessoa, não pelos que parecem bons para ela.

Leve uma fotografia antiga do local ou diga “a Sra. Ana da padaria perguntou por ti” - ativa a memória afetiva e reduz a resistência.

Mas antes de intervir, verifique “condições mínimas de saída” no próprio dia: sono razoável na noite anterior, sem dor aguda, sem constipação/obstipação, sem alterações súbitas de humor, calçado confortável pronto e casaco fácil de vestir.

Se 2 ou mais estiverem em falta, ajuste a meta para uma saída mais curta ou “saída simbólica” (porta, patamar, quintal).

Crie rotinas de saída previsíveis e fixas

Não pode ser "hoje apetece-me sair". Tem de ser sempre ao mesmo dia, à mesma hora, com o mesmo ritual.

Terça-feira de manhã, depois do pequeno-almoço, vamos ao café. Quinta à tarde, passamos pelo mercado.

Repita até que deixe de ser uma decisão e passe a ser um hábito seguro. A previsibilidade reduz a ansiedade.

Roteiro de 2 semanas (exemplo):

- Dias 1–3: 5–8 min até à porta do prédio + voltar.
- Dias 4–6: 8–12 min até à esquina + 1 minuto de pausa.
- Dias 7–10: 12–18 min até à padaria e voltar.
- Dias 11–14: 15–25 min com pequeno propósito (comprar pão, recolher correio).

Avance só quando 2 dias seguidos forem confortáveis.

Caminhe ao lado, não à frente

Não arraste. Não apresse. Dê o braço. Fale sobre o que vê ao longo do caminho, não sobre o destino.

Exemplos de ancoragem no presente:

"Olha, aquela árvore já tem folhas novas"
"Este senhor cumprimentou-nos, é o senhor da loja de ferragens"
"Aquele cão é parecido com o Rex que tivemos"
“Vamos juntos, sem pressas. Tu marcas o passo.”
“Se estiver cansativo, paramos um bocadinho e voltamos.”

A ancoragem no presente reduz a ansiedade. A pressa aumenta a resistência.

Reduza a duração, aumente a frequência

Não precisa de sair uma hora. Bastam dez minutos. Mas todos os dias.

O objetivo não é cansar a pessoa. É criar a sensação de que o mundo lá fora ainda é acessível, ainda é seguro, ainda pode ser vivido.

Pequenas exposições regulares são mais eficazes do que uma grande saída ocasional que deixa a pessoa exausta. 

Escolha sempre janelas temporais de menor estímulo externo - logo após o pequeno‑almoço e a meio da tarde em ruas calmas.
Evite horas de trânsito, mercados cheios e dias de muito calor/frio.

💡 O segredo está na repetição:

Quando a saída se torna rotina, deixa de gerar ansiedade. A familiaridade com o padrão traz segurança ao cérebro.

Quando a resistência é total: progressão por etapas

Comece pela varanda, quintal ou portão

Se a resistência é absoluta, não force a rua de imediato. Construa confiança por etapas: 

Sair à varanda
Descer ao quintal
Ir até ao portão
Chegar à esquina
Dar uma volta ao quarteirão

São pequenos degraus que constroem confiança. Cada avanço consolida segurança para o próximo.

Não há problema em ficar numa etapa durante semanas, desde que não desista.

Registe a “escala de conforto” da pessoa de 0 a 5 no final de cada etapa.
Só avance quando o 3 se mantiver por 2–3 tentativas.
(0 = muito desconfortável, 5 = muito confortável)

Traga o mundo até casa quando sair não é possível

Se a pessoa realmente não consegue sair, adapte:

Convide alguém para vir tomar café em casa: um vizinho, um primo, um amigo antigo.
Organize pequenos encontros regulares.
Abra as janelas para deixar entrar sons e luz natural.
Sente-se com a pessoa à porta de casa, só a ver o movimento da rua.
Mantenha “micro‑rituais” do exterior dentro de casa: regar plantas à janela, ler jornal à porta, ouvir os sons da rua por 5 minutos. É uma boa “ponte” para futuras saídas.

Não é o ideal, mas é infinitamente melhor do que o isolamento total.


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Envolva a comunidade e crie pontes sociais

Fale com os vizinhos e comerciantes locais

Explique a situação ao dono do café, à senhora da padaria, aos vizinhos. Peça que cumprimentem, que façam uma pergunta simples, que sejam calorosos — sem colocar a pessoa em causa.

As pessoas querem ajudar, mas muitas vezes não sabem como.

Quando há uma rede de pessoas conhecidas e acolhedores lá fora, sair torna-se menos ameaçador.

Combine “papéis simples” com as pessoas - reservar o pão, cumprimentar o “bom dia” pelo nome, elogiar o casaco - isto dá previsibilidade e propósito.

Procure atividades de grupo na comunidade

Muitas juntas de freguesia e câmaras municipais têm programas para pessoas idosas: grupos de caminhada, atividades recreativas, tertúlias, bailes, ateliês de pintura, hidroginástica.

Informe-se. A Alzheimer Portugal também disponibiliza informação sobre atividades e grupos de apoio. Estas iniciativas criam rotina, socialização e propósito. E muitas são gratuitas ou de baixo custo.

Se a pessoa teve uma profissão ou hobby marcante, procure aulas ou grupos relacionados: pintura, cerâmica, costura, coro, voluntariado... Quanto mais significativo, melhor.

💡 Envolver a comunidade local transforma o ambiente externo

Um simples "Bom dia, D. Maria!" do dono da padaria pode ser o fator decisivo entre aceitar ou recusar a saída. O reconhecimento social reduz a sensação de ameaça.

Estratégias indiretas para quando o seu familiar com demência não quer sair de casa

Mude a narrativa quando houver resistência total

Se a pessoa recusa mesmo sair, adapte a forma como apresenta a saída:

"Preciso de ir ao banco, acompanhas-me para eu não ir sozinho?"
"O João pediu para irmos buscá-lo, anda comigo."
"Vamos só ver se o carro está bem fechado."
"A D. Maria convidou-nos para um café, disse que precisava de nós para a ajudar."

Não é manipulação, é adaptação. Porque às vezes, o problema não é sair — é sentir que se está a perder controlo.

Quando a saída tem um propósito prático ou é para ajudar alguém, a resistência diminui.

Utilize frases “fecha‑ciclo” para regressar sem frustração:

- “Missão cumprida, muito obrigado pela tua ajuda.”
- “Agora vamos descansar um bocadinho em casa.”

Evite avisar viagens com muita antecedência

Quando se trata de viagens ou idas temporárias, como ir à casa de família, evite avisar com semanas de antecedência.

Avisar cedo dá tempo para que a pessoa crie ansiedade. A incerteza transforma-se em medo.

É preferível avisar apenas quando tudo já está preparado, como se fosse uma saída prática e imediata:

"Vamos resolver uma coisa à casa da aldeia."
"Temos de ir ver se o gás está desligado."
"Vamos passar uns dias para tratar de uns papéis. Se não quiseres ficar, voltamos hoje."

Esta abordagem reduz o tempo de antecipação e, com ele, a ansiedade.

Leve sempre “kit de conforto” — água, snack preferido, documento com contactos, casaco fácil de vestir, toalhetes. Reduz paragens imprevistas e sensação de descontrolo da situação.

O que evitar ao tentar que a pessoa saia

Não projete o próprio medo ou expectativa de recusa

Muitas vezes, somos nós que antecipamos a resistência antes de ela acontecer. Apresentamos a ideia com tensão, hesitação, já à espera de um "não". E isso sente-se.

A pessoa capta a insegurança e responde em conformidade.

Apresente as saídas com naturalidade, como algo que vai acontecer, não como um pedido que pode ser recusado.

"Vamos ao café daqui a dez minutos, temos de vestir o casaco. Toma."

Confiança gera confiança.

Evite discutir detalhes logísticos à frente da pessoa (“há trânsito”, “está frio”).
Traga só informação simples e positiva.

Não desista por causa de um dia mau

Se hoje conseguiu chegar até ao portão, é uma vitória. Se amanhã só conseguiu abrir a porta, também é.

O importante é não desistir. O isolamento alimenta-se da desistência. A socialização reconstrói-se com persistência.

A sobrecarga do cuidador também interfere na consistência. Se sentir que precisa de apoio, procure recursos na comunidade.

Um passo de cada vez. Sem pressão. Com paciência.

💡 Argumentos racionais dificilmente vão funcionar

Justificar com "faz-te bem", "precisas de ar" ou "vais ver que gostas" só reforça a resistência. O problema não está na lógica. Está na sensação de insegurança.

Quando notar tensão na cara/mãos ou respostas curtas, faça “pausa terapêutica” de 60–90 segundos em silêncio com respiração lenta. Reapresente a ideia depois com uma frase curta e um propósito simples.

Síntese final

Quando uma pessoa com demência não quer sair de casa, não é teimosia. É o cérebro a proteger-se de um mundo que deixou de ser previsível. 

Comece pelos locais familiares. Crie rotinas fixas. Reduza a duração, aumente a frequência. Envolva a comunidade. Use estratégias indiretas quando necessário.

Celebre cada pequena vitória. Um passo de cada vez, sem pressão, com paciência.

O isolamento alimenta-se da desistência. A socialização reconstrói-se com persistência.

Defina 3 métricas semanais simples - número de tentativas, minutos totais fora, nível médio de conforto 0–5. Se as 3 sobem ligeiramente, está no caminho certo.

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FAQs - Perguntas Frequentes

É normal a pessoa com demência recusar sair de casa?

Sim, é uma situação frequente. A recusa resulta de desorientação espacial, sobrecarga sensorial, apatia ou alteração na perceção de segurança. O cérebro recua para onde ainda se sente capaz de controlar. Se a recusa vier acompanhada de febre, dor urinária, queda recente, confusão súbita ou alteração de medicação, consulte um profissional de saúde

Devo forçar quando o meu familiar com demência não quer sair de casa?

Não. Forçar aumenta a ansiedade e reforça a recusa. É preferível adaptar o tipo de saída, o momento, a duração e usar locais familiares. Pequenos passos regulares são mais eficazes que uma grande saída ocasional.

Quando necessário, transforme a meta do dia numa “saída simbólica” (porta, varanda, patamar). Progresso é progresso.

Como saber por que a pessoa com demência não quer sair de casa?

Observe sinais físicos como tensão ou inquietação e o contexto: a recusa por medo tende a surgir em ambientes desconhecidos ou imprevisíveis. A apatia manifesta-se como indiferença generalizada, mesmo em locais familiares.

Registe horários de melhor humor/energia. A maioria das pessoas tolera melhor após o pequeno‑almoço e pior ao fim da tarde (quando há mais fadiga).

Que tipo de saídas são mais fáceis de aceitar?

Saídas curtas (10-15 minutos), em locais familiares, com baixa estimulação sensorial e motivadas por rotinas conhecidas. Exemplos: ir à padaria habitual, ao banco do jardim onde sempre se sentou, ou acompanhar alguém numa tarefa prática.

Prefira trajetos com bancos no caminho e sombras. Evite lugares muito movimentados nas primeiras semanas.

A recusa pode piorar com o tempo?

Sim. À medida que a demência progride, a desorientação e a apatia podem intensificar-se, reduzindo ainda mais a vontade de sair. Por isso é fundamental intervir cedo, criando rotinas de saída antes que o isolamento se instale completamente.
Se após 2–3 semanas não houver qualquer progresso (mesmo micro‑passos), reavalie dor, sono, efeitos de medicação e ansiedade de base com a equipa de saúde.

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