Comportamentos desafiantes na demência: Guia Completo e prático para reduzir conflitos em casa

Introdução

Quando surgem comportamentos desafiantes na demência, toda a família é impactada.

A pessoa com demência pode ficar agitada ao final do dia, acusar a família de roubo, repetir a mesma pergunta dezenas de vezes, recusar o banho ou a medicação, dizer que quer "ir para casa" - mesmo estando em casa - ou isolar-se e recusar sair.

O dia a dia deixa de ser previsível. A família sente-se exausta, culpada e, muitas vezes, impotente perante comportamentos que parecem não ter lógica.

Mas há uma lógica. Não é teimosia, falta de educação nem provocação. É o cérebro a lidar com perdas de memória, orientação e processamento sensorial.

Cada comportamento desafiante na demência é uma mensagem, uma necessidade que ainda não foi compreendida nem atendida.

⚡ Resumo Rápido

Os comportamentos desafiantes na demência são mensagens de necessidades não satisfeitas
Corrigir com lógica aumenta ansiedade
Validar a emoção e ajustar o ambiente reduz conflito.
Registar padrões permite antecipar e prevenir
Cuidar do corpo antes de intervir no comportamento reduz o conflito.

⏳ Tempo de Leitura: 22 minutos

Este guia reúne os comportamentos desafiantes da demência que podemos observar com mais frequência, explicando por que acontecem e oferecendo protocolos práticos, linguagem validada e checklists aplicáveis no dia a dia.

São estratégias testadas na prática clínica que protegem a relação familiar e reduzem o conflito.

O que são comportamentos desafiantes na demência

Os comportamentos desafiantes na demência são alterações de comportamento e emoção que dificultam o cuidado e geram sofrimento para a pessoa idosa e para quem cuida.

Incluem agitação, agressividade, acusações, deambulação, repetição constante, recusas variadas (banho, medicação, alimentação, saídas), perturbações do sono e isolamento.

Resultam da interação entre três fatores: as perdas cognitivas e sensoriais causadas pela doença, o ambiente físico e social, e as necessidades básicas não atendidas (dor, sede, fome, frio, cansaço, medo).

A pergunta clínica mais útil não é "por que está a fazer isto?" mas sim: "que necessidade este comportamento está a comunicar agora?"

Quando mudamos a pergunta, muda a resposta e diminui o conflito.

Regra de ouro antes de qualquer intervenção comportamental:

- Verificar sede e hidratação
- Verificar dor e desconforto físico
- Verificar necessidade de WC
- Verificar temperatura do corpo e do ambiente

Como interpretar a mensagem por trás dos comportamentos desafiantes na demência

Cada tipo de comportamento desafiante na demência comunica uma categoria de necessidade

Segurança: comportamentos que pedem previsibilidade e proteção.
Exemplos: dizer "quero ir para casa", seguir a pessoa pela casa, agarrar objetos.

Resposta adequada: Rotinas estruturadas, Validação emocional e Redirecionamento.
Desconforto físico: sinais corporais disfarçados em recusa ou agitação.
Exemplos: agitação por dor não expressa, recusa por sede, irritabilidade por obstipação.

Resposta adequada: verificação corporal antes de qualquer intervenção comportamental.
Competências em perda: frustração perante tarefas longas, instruções complexas ou ambientes confusos.
Exemplos: abandonar tarefas a meio, irritação ao vestir, recusa de atividades.

Resposta adequada:
simplificar, dividir em etapas, dar uma instrução de cada vez. 
Sobrecarga sensorial: fuga de ambientes com demasiados estímulos.
Exemplos: agitação com TV alta, recusa de espaços com muitas pessoas, procura de silêncio.

Resposta adequada:
reduzir estímulos, criar cantos de calma, usar luz quente e constante.

Indicadores de risco - quando atuar rapidamente

Alguns comportamentos desafiantes na demência exigem avaliação clínica urgente:

Agressividade física que coloca alguém em perigo
Confusão abrupta ou desorientação súbita
Início repentino de comportamento desafiante após período de estabilidade
Agitação intensa que não responde a nenhuma estratégia habitual

Nestes casos, o comportamento pode ser um "alarme" de infeção urinária, desidratação, dor não expressa ou outro problema médico reversível.

Estes comportamentos desafiantes na demência podem ser "alarme" de causas médicas tratáveis, como infeções urinárias, desidratação, dor não expressa ou outro problema médico não reversível. 

Procure sinais físicos associados: febre, dor ao urinar, urina muito escura ou com cheiro forte, obstipação prolongada, quedas, perda súbita de marcha, engasgamentos repetidos, tosse ou voz molhada ao comer ou beber.

Método de Registo: reduzir comportamentos desafiantes na demência

Antes de abordar cada comportamento específico, é útil conhecer um método simples de registo que se aplica a qualquer comportamento desafiante na demência.

Descrição: O que aconteceu exatamente? A que horas? Em que divisão? Quem estava presente? Que comportamento surgiu?
Intensidade: Qual a gravidade do episódio numa escala de 0 a 5? Houve risco para a pessoa ou para quem cuida? Quanto tempo durou?
Contexto: O que antecedeu o episódio? Houve mudança de rotina, visita, ruído, cansaço acumulado? A pessoa tinha fome, sede, dor ou necessidade de ir à casa de banho?
Ação tomada e eficácia: O que foi feito para responder? Resultou? Parcialmente? Não resultou? O que poderia ser diferente na próxima vez?

Este registo sistemático permite identificar padrões nos comportamentos desafiantes na demência, antecipar gatilhos e refinar estratégias semana após semana.

1. Agitação ao final do dia (Síndrome do Pôr do Sol)

Por que acontece

O relógio biológico (circadiano) está alterado pela demência. Ao final da tarde, a luz diminui, as sombras aumentam, e o cérebro acumula a fadiga de um dia inteiro de estímulos.

A capacidade de interpretar a transição entre dia e noite fica comprometida, e o sistema nervoso entra em estado de alarme.

Este fenómeno, conhecido como Síndrome do Pôr do Sol ou sundowning, afeta uma proporção significativa de pessoas com demência e tende a ocorrer entre as 16h e as 20h.

- Iluminação prática: preferir luz quente 2700 a 3000 K.
Evitar cintilação e mudanças bruscas.

Sinais precoces a reconhecer

Olhar vago, inquietação motora, mexer nas mãos
Perguntas vagas sobre "o que fazemos agora?"
Procura de objetos (casaco, chaves, mala)
Desconfiança crescente ("não reconheço esta casa")
Intenção de sair, mesmo sem destino
Irritabilidade perante estímulos habituais

Protocolo Síndrome do Pôr do Sol em 6 passos

Passo 1 - 16h00: Acender luz quente de forma progressiva. Baixar volume da TV ou desligá-la. Evitar noticiários e programas com conflito.
Passo 2 - 16h30: Oferecer 3–4 goles de líquido. Acompanhar à casa de banho. Verificar se há frio ou calor excessivo.
Passo 3 - 17h00: Snack leve (fruta, bolachas, iogurte). Iniciar música calminha e conhecida em volume baixo.
Passo 4 - 18h00: Ritual fixo a fazer sempre a mesma tarefa, na mesma cadeira, com iluminação estável e ambiente calmo.
Passo 5 - 19h00: Bebida quente. Conversa curta e tranquila. Preparar o quarto para a noite.
Passo 6 - Durante todo o período 16h–20h: Validar sem corrigir. Usar frases curtas e tom calmo.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Está a arrefecer lá fora. Acendemos a luz e sentamo-nos um pouco?"
"Agora é a hora da nossa música. Senta-te aqui na tua cadeira."
"Vamos devagar. Eu estou contigo, vamos junt@s..."

O que evitar:

"Não saias agora. Já te disse que não vamos sair."
"Fica quieto, não há razão para estares assim."
"Isso não faz sentido."

Quando procurar avaliação clínica

Início súbito de agitação após período de estabilidade
Febre, dor ou alterações urinárias associadas
Agressividade que coloca alguém em risco
Alterações significativas do padrão de sono

✅ Checklist - Agitação ao final do dia

Luz quente ligada antes das 16h45
TV em volume baixo ou desligada, sem noticiários
Goles de líquido e casa de banho a cada hora (16h–20h)
Snack às 17h00
Música conhecida em volume baixo às 18h00
Ritual (atividade de cariz significativo) às 19h00
Frases de validação preparadas

2. "Quero ir para casa"

Por que acontece

Quando a pessoa com demência diz "quero ir para casa", raramente se refere à morada atual ou a um endereço físico. "Casa" é um símbolo de segurança, familiaridade e pertença, um tempo e lugar onde tudo fazia sentido.

Este pedido surge frequentemente ao entardecer, em momentos de transição, ou quando a pessoa se sente perdida, insegura ou desconectada do ambiente. 

Corrigir literalmente ("mas esta é a tua casa") aumenta a confusão e a angústia.

Sinais de que o pedido está a surgir

Inquietação crescente, especialmente ao fim do dia
Procura de objetos pessoais (carteira, casaco, chaves)
Perguntas sobre familiares do passado
Sensação de estranheza em relação ao espaço

Protocolo "Quero ir para casa" em 5 passos

Passo 1 - Validar: "Entendo a vontade", "Percebo as saudades."
Passo 2 - Perguntar e ouvir: "Como era essa casa? Quem vivia lá? Tinha jardim?" Ouvir 1–2 minutos sem interromper.
Passo 3 - Ativar símbolos de familiaridade: Manta preferida, fotografias antigas, música significativa, objeto pessoal.
Passo 4 - Ritual de conforto: Preparar lanche, redirecionar para uma tarefa que seja significativa em que a pessoa se reconheça útil. 
Passo 5 - Resposta de compromisso (se necessário): "Depois do chá vamos lá." Passeio curto de 5–10 minutos pelo exterior e regresso a uma rotina estrutrada.

Caixa da Conforto: reunir 5 objetos-âncora permanentes (fotografia, rádio com música da época, casaco preferido, livro de imagens, chaves de casa, carteira...)

Toda e qualquer abordagem deve ser adaptada ao perfil e estadio da demência do seu familiar. 

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Percebo a vontade de ires para casa. Fala-me dessa casa."
"Eu também tenho, tens razão. Vamos preparar um chá e ver estas fotografias."
"Depois do chá damos uma volta e vamos lá."

O que evitar:

"Mas esta é a tua casa. O que estás para aí a dizer?"
"Já estás em casa. Não vais a lado nenhum."
"Essa casa já foi vendida há 20 anos."

✅ Checklist - "Quero ir para casa"

Verificar conforto físico: sede, fome, frio, dor, necessidade de WC
Validar a emoção sem corrigir o facto
Ouvir 1–2 minutos sobre "a casa"
Ativar símbolos de familiaridade (carteira, fotos, música, terço...)
Ritual de conforto (atividade conhecida, chá, cadeira, álbum)
Resposta de compromisso se necessário
Passeio curto de 5–10 minutos e regresso a uma rotina estruturada.

3. Acusações de roubo

Por que acontece

Com a memória recente comprometida, a pessoa com demência não consegue lembrar onde guardou objetos. O cérebro, para manter coerência interna, preenche as lacunas com narrativas - um processo chamado confabulação.

Se a carteira não está onde "deveria estar", alguém deve tê-la tirado. A pessoa acredita genuinamente no que diz. Não é manipulação nem maldade - é o cérebro a funcionar com as ferramentas que ainda tem.

Quem é acusado costuma ser quem está mais presente, precisamente porque é a pessoa mais próxima e mais disponível.

Sinais de que uma acusação pode surgir

Procura repetida de objetos específicos (carteira, chaves, óculos, documentos)
Verificação frequente de gavetas e armários
Desconfiança crescente em relação a quem entra em casa
Esconder objetos em locais improváveis

Protocolo "Acusações de roubo" em 5 passos

Passo 1 - Validar o medo: "Não sabes da carteira? Compreendo, às vezes também me acontece"
Passo 2 - Assumir responsabilidade neutra: "Se calhar fui eu que mudei de sítio. Vamos procurar juntos."
Passo 3 - Procurar nos "locais fixos": Verificar os sítios habituais, sem pressa.
Passo 4 - Resolver discretamente: Se necessário, usar um duplicado previamente preparado.
Passo 5 - Prevenir: Estabelecer locais fixos etiquetados para objetos críticos. Criar duplicados discretos (carteira, documentos, chaves de casa...)
Fotografar os locais onde se guardam.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Entendo a preocupação. Deixa-me lá ver onde possa estar..."
"Se calhar ficou no cesto da entrada. Vamos lá ver."
"Eu ajudo a procurar, fui eu que mexi e não sei onde coloquei"

O que evitar:

"Eu nunca faria isso."
"Ninguém te roubou nada."
Trazer testemunhas para "provar" inocência

✅ Checklist - "Acusações de Roubo"

Validar a emoção e manter tom calmo
Assumir responsabilidade neutra sem discutir
Sugerir procura conjunta
Verificar "locais fixos" previamente definidos
Ter duplicados discretos de objetos críticos
Etiquetar cestos e gavetas com fotografias
Registar episódio para identificar padrões

4. Repetição de perguntas

Por que acontece

A memória recente não retém informação nova. A pessoa faz uma pergunta, recebe resposta, mas segundos ou minutos depois já não se lembra de ter perguntado nem da resposta que ouviu. O ciclo repete-se.

Muitas vezes, a repetição traduz ansiedade, necessidade de orientação ou antecipação de um acontecimento ("a que horas vem a Maria?", "quando é o almoço?", "o que fazemos agora?").

Sinais de que a repetição vai intensificar-se

Aproximação de consultas, visitas ou saídas
Mudanças na rotina habitual
Período de maior fadiga ou desconforto
Final do dia (associado ao sundowning)

Protocolo "Repete perguntas" em 4 passos

Passo 1 - Responder como se fosse a primeira vez: Tom calmo, resposta curta e consistente.
Passo 2 - Apontar para suporte visual: Quadro com respostas-chave, relógio grande, calendário visível.
Passo 3 - Redirecionar para atividade: "A Maria vem às 15h. Está aqui escrito. Ajudas-me a pôr a mesa enquanto esperamos?"
Passo 4 - Registar padrões: Hora, contexto e gatilhos para ajustar prevenção.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"A Maria vem às 15h. Está aqui escrito no quadro."
"O almoço é às 12h30. Queres ajudar-me a preparar?"
"Vamos ver aqui no calendário."

O que evitar:

"Já te disse mil vezes."
"Acabei de responder."
"Não te lembras de nada."

Indicadores de alerta na repetição

Aumento súbito da frequência de repetição, acompanhado de confusão intensa, febre, dor ou alterações urinárias, pode indicar infeção ou outra causa tratável. Nestes casos, procurar avaliação médica.

✅ Checklist - Repetição de perguntas

Responder sempre com calma, como se fosse a primeira vez
Manter resposta curta e consistente
Quadro visível com 2–3 respostas-chave
Relógio grande e calendário acessíveis
Redirecionar para atividade onde a pessoa fique envolvida após responder
Registar hora e contexto para identificar padrões

5. Recusa ao banho

Por que acontece

O banho envolve múltiplos desafios para a pessoa com demência: invasão de privacidade, exposição do corpo, sensação de frio, medo de cair, dificuldade em compreender a sequência de passos, e sobrecarga sensorial (água, ruído, luz).

A própria palavra "banho" pode desencadear resistência imediata. Muitas vezes, a recusa não é sobre higiene - é sobre medo, desconforto ou perda de controlo.

Sinais de que a recusa vai acontecer

Tensão corporal quando se aproxima a hora habitual
Afastamento físico do cuidador
Frases como "já tomei banho", "não preciso", "amanhã"
Resistência a entrar na casa de banho

Protocolo "Recusa de banho" em 6 passos

Passo 1 - Preparar o ambiente: Casa de banho aquecida, toalhas quentes, luz confortável, cadeira ou banco, tapete antiderrapante, chuveiro de mão.
Passo 2 - Preservar privacidade: Manter roupa íntima no início. Retirar gradualmente conforme conforto.
Passo 3 - Usar linguagem neutra: Evitar "banho". Preferir "vamos refrescar-nos", "vamos arranjar-nos para o almoço".
Passo 4 - Começar pelos pés: Parte menos invasiva. Progredir gradualmente.
Passo 5 - Ritmo lento com pausas: Permitir intervalos. Não apressar.
Passo 6 - Banho por etapas: Se necessário, distribuir pela semana (um dia lavar cabelo, outro dia corpo).

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Vamos só refrescar as mãos primeiro."
"Já deixei as toalhas quentinhas."
"Fazemos fazer uma massagem nas costas com o chuveiro,  para relaxares."

O que evitar:

"Tens de tomar banho agora."
"Estás a cheirar mal."
"Não sejas teimoso/a."

✅ Checklist - Repetição de perguntas

Casa de banho aquecida e preparada com antecedência
Toalhas quentes disponíveis
Luz confortável (não agressiva)
Cadeira ou banco seguro
Tapete antiderrapante
Chuveiro de mão (não fixo)
Preservar roupa íntima no início
Começar pelos pés
Pausas frequentes
Linguagem neutra, sem usar "banho"

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6. Recusa de medicação

Por que acontece

A pessoa com demência pode não compreender por que precisa de tomar comprimidos. O cérebro não processa a lógica "isto faz bem à saúde". 

Além disso, mudanças na cor, forma ou sabor dos medicamentos geram desconfiança.

Efeitos secundários anteriores, dificuldade em engolir, ou simplesmente o número excessivo de comprimidos podem contribuir para a recusa.

Sinais de que a recusa vai acontecer

Fechar a boca, virar a cara
Cuspir o comprimido
Esconder comprimidos debaixo da língua ou na bochecha
Perguntas repetidas sobre "para que é isto?"
Desconfiança em relação ao cuidador

Protocolo "Recusa de medicação" em 6 passos

Passo 1 - Validar e reduzir estímulos: Ambiente calmo, sem pressão.
Passo 2 - Ritual previsível: Mesma hora, mesmo local, mesma sequência.
Passo 3 - Copo transparente: A pessoa vê o que vai tomar. Sem surpresas.
Passo 4 - Efeito espelho: "Vamos tomar os nossos juntos." Normalizar o ato.
Passo 5 - Linguagem de bem-estar: "É para o coração ficar forte." Evitar linguagem de doença.
Passo 6 - Recuar se necessário: Máximo 2 tentativas por hora. Se recusar, voltar 15–30 minutos depois noutro contexto.

Com a equipa médica: perguntar sobre formas alternativas (líquidos, gotas, comprimidos menores) e ajustar horários a janelas de melhor aceitação.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Tomamos os nossos juntos. Água ou chá?"
"É para ficares com energia."
"Deixa, tratamos disto depois do chá."

O que evitar:

"Se não tomares, vais piorar."
"O médico mandou, tens de tomar."
"Todos os dias a mesma coisa."

🚨 Segurança na Medicação

Nunca partir ou triturar comprimidos sem confirmação médica. Se houver dificuldade em engolir (disfagia), pedir avaliação especializada à equipa médica que acompanha a pessoa.

✅ Checklist - Recusa de medicação

Ambiente calmo, sem estímulos excessivos
Ritual previsível (mesma hora, local, sequência)
Copo transparente para o medicamento
Oferecer escolha: água ou chá
"Efeito espelho" - tomar medicação ao mesmo tempo
Máximo 2 tentativas por hora
Recuar e retomar noutro contexto se necessário
Rever formato e horário com o médico que acompanha

7. Não quer sair de casa

Por que acontece

O exterior representa imprevisibilidade: ruídos desconhecidos, rostos estranhos, percursos que já não se reconhecem. A casa, pelo contrário, é previsível e controlável. A recusa de sair é, muitas vezes, uma forma de proteção contra a sobrecarga sensorial e a desorientação.
E pode surgir em fases muito iniciais da demência. 

Sinais de que a recusa vai acontecer

Tensão quando se menciona sair
Procura de desculpas ("está frio", "estou cansado/a", "amanhã")
Demora excessiva a preparar-se
Ansiedade crescente à medida que a hora se aproxima

Protocolo "Não quer sair de casa" em 5 passos

Passo 1 - Micro-passos: Começar com objetivo mínimo. "Vamos só até à porta ver o tempo."
Passo 2 - Locais familiares: Padaria habitual, banco do jardim conhecido, casa de vizinho próximo.
Passo 3 - Duração curta: 5–10 minutos no início. Aumentar gradualmente.
Passo 4 - Objetos-âncora: Casaco preferido, lenço, bengala familiar. Elementos que dão segurança.
Passo 5 - Repetição nos mesmos dias e horas: Criar hábito através da previsibilidade.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Vamos só até à porta ver o tempo, 2 minutos."
"Gostava mesmo de estar contigo. Vem comigo ao café"
"Precisamos de ir buscar pão. Fazes-me companhia?"

O que evitar::

"Tens de sair, faz-te bem."
"Não podes ficar fechado/a em casa."
Longas explicações sobre benefícios de sair

✅ Checklist - Não quer sair de casa

Micro-passo definido (porta, varanda, esquina)
Local familiar e objetivo simples (pão, correio)
Duração curta (5–10 minutos)
Objetos-âncora prontos (casaco, lenço, luvas...)
Horário calmo, sem pressa
Caminhar ao lado, não à frente
Repetição nos mesmos dias e horas
Envolver comunidade (padaria, vizinhos) com cumprimentos previsíveis

8. Acorda durante a noite

Por que acontece

O ciclo sono-vigília é regulado pelo ritmo circadiano, que está frequentemente alterado na demência. O cérebro perde a capacidade de distinguir dia de noite, e os padrões de sono fragmentam-se. 

A pessoa pode acordar várias vezes, levantar-se desorientada, ou inverter completamente o horário, dormindo de dia e ficando ativa de noite.

Causas adicionais incluem dor não expressa, necessidade de urinar, sede, efeitos secundários de medicação, sestas prolongadas durante o dia, ou simplesmente um quarto demasiado quente, frio ou ruidoso.

Sinais de que a noite vai ser difícil

Sestas longas ou tardias durante a tarde
Agitação crescente ao final do dia (síndrome do pôr do sol)
Ingestão de líquidos ou cafeína ao fim do dia
Queixas vagas de desconforto antes de deitar
Mudanças recentes na medicação

Protocolo "Acorda durante a noite" em 6 passos

Passo 1 - Estruturar o dia: Atividade física e mental durante a manhã e início da tarde. Limitar sestas a 30-60 minutos, nunca depois das 15h.
Passo 2 - Preparar a noite: Reduzir estímulos a partir das 18h. Luz quente, sem ecrãs, sem cafeína. Última refeição leve - mas garantir ingestão de proteína suficiente.
Passo 3 - Ritual de deitar: Sequência previsível - casa de banho, roupa confortável, bebida morna sem cafeína, música/atividade calma.
Passo 4 - Ambiente do quarto: Temperatura amena (18–20°C), escuridão adequada, luz de presença suave no corredor para orientação, acesso fácil à casa de banho.
Passo 5 - Se acordar: Tom calmo e baixo. Verificar necessidades básicas (WC, sede, dor, frio). Acompanhar de volta à cama sem discussão. Evitar acender luzes fortes.
Passo 6 - Registar padrões: Hora do despertar, possível causa, resposta dada, tempo até voltar a adormecer. Identificar padrões ao longo de 7 dias.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Está tudo bem. Vamos ver se está tudo bem e voltar para a cama."
"Ainda é noite. Eu acompanho-te."
"Está quentinho na cama. Vamos descansar."

O que evitar:

"São 3 da manhã, tens de dormir!"
"Outra vez acordado/a?"
"Não há razão para estares de pé."

✅ Checklist - Acorda durante a noite

Sestas limitadas a 30-60 minutos, antes das 15h
Atividade física e mental durante o dia
Sem cafeína depois das 14h
Última refeição leve
Ritual de deitar previsível
Casa de banho antes de deitar
Luz de presença no corredor
Se acordar: tom calmo, verificar necessidades, acompanhar de volta
Registo de padrões durante 7 dias

9. Recusa Alimentar

Por que acontece

A recusa alimentar na demência pode ter múltiplas causas. O cérebro pode perder a capacidade de reconhecer fome ou de associar comida a satisfação. 

Dificuldades em mastigar ou engolir (disfagia) tornam a refeição desconfortável.

Alterações no paladar e olfato mudam as preferências. A própria complexidade de um prato com vários elementos pode ser confusa.

Outros fatores incluem dentição ou próteses mal ajustadas, obstipação, efeitos de medicação, depressão, ou simplesmente cansaço.

Sinais de que a noite vai ser difícil

Deixar comida no prato repetidamente
Brincar com a comida sem comer
Cuspir alimentos
Dizer que já comeu (quando não comeu)
Afastar o prato ou virar a cara
Engasgos ou tosse durante as refeições

Protocolo "Recusa Alimentar" em 7 passos

Passo 1 - Verificar causas físicas: Dor na boca, próteses desajustadas, obstipação, náuseas, disfagia. Excluir antes de intervir no comportamento.
Passo 2 - Simplificar o prato: Um ou dois alimentos de cada vez. Cores contrastantes. Prato simples, sem padrões.
Passo 3 - Adaptar texturas: Consistência adequada à capacidade de mastigação e deglutição. Se há engasgos, avaliar com profissional.
Passo 4 - Aproveitar janelas de fome: A pessoa pode ter mais apetite fora dos horários tradicionais. Flexibilizar.
Passo 5 - Finger foods: Alimentos que se comem com as mãos (pedaços de fruta, queijo, croquetes, tiras de pão) reduzem complexidade e aumentam autonomia.
Passo 6 - Comer junto: O "efeito espelho" funciona também à mesa. Comer ao mesmo tempo normaliza. 
Passo 7 - Pequenas porções, mais vezes: Em vez de 3 refeições grandes, 5–6 pequenas ao longo do dia.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Prova só duas colheradas desta sopa."
"Está aqui o teu preferido."
"Comemos juntos. Eu também vou comer."

O que evitar:

"Tens de comer tudo."
"Não comes nada, vais ficar fraco/a."
"Já não queres a comida que eu fiz?"

🚨 Sinais de alerta na alimentação

Perda de peso acentuada, engasgamentos frequentes, tosse ou voz molhada ao comer, recusa total prolongada - exigem avaliação clínica. Pode haver disfagia ou outra causa tratável.

✅ Checklist - Recusa Alimentar

Verificar boca, próteses e conforto
Prato simples com 1–2 alimentos
Cores contrastantes entre prato e comida
Textura adaptada à capacidade de mastigação
Finger foods disponíveis
Refeições em ambiente calmo, sem TV
Comer ao mesmo tempo (efeito espelho)
Flexibilizar horários conforme apetite
Registar o que aceita melhor

10. Chamar por pessoas que já faleceram

Por que acontece

Com a progressão da demência, a memória recente deteriora-se mais rapidamente do que a memória antiga. A pessoa pode "viver" num tempo passado em que os pais, o cônjuge ou outros familiares ainda eram vivos. 

Perguntar pela mãe ou pelo marido falecido não é uma simples confusão, é a realidade emocional da pessoa naquele momento.

Confrontar com a verdade ("a mãe morreu há 20 anos") obriga a pessoa a processar o luto de novo, causando sofrimento intenso e repetido. 

Minutos depois, sem memória recente, volta a perguntar... e o ciclo de dor reinicia.

Sinais de que a noite vai ser difícil

Referências frequentes a tempos antigos
Confusão sobre a própria idade
Não reconhecer familiares atuais ou confundi-los com outros
Perguntas sobre "onde está" alguém do passado

Protocolo "Chama por pessoas que já faleceram" em 5 passos

Passo 1 - Não corrigir: Evitar dizer que a pessoa morreu. Não é mentir - é proteger de sofrimento repetido sem benefício.
Passo 2 - Validar a emoção: "Tens saudades da mãe." "Gostavas muito dela."
Passo 3 - Explorar memórias: "Como era a mãe? Conta-me uma história." Redirecionar para recordações positivas.
Passo 4 - Usar símbolos: Trazer conforto através da familiaridade de objetos e atividades significativas (Que sempre fez!).
Passo 5 - Resposta de compromisso (se necessário): "Ela agora não pode vir, mas logo falamos com ela." Redirecionar para outra atividade.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"Tens saudades. Fala-me sobre a mãe."
"Ela gostava muito de ti."
"Vamos ver esta fotografia dela?"

O que evitar:

"A mãe morreu há 20 anos, não te lembras?"
"Já te disse que ela faleceu."
"Não podes ligar-lhe porque já não está cá."

🚨 A questão ética da "mentira terapêutica"

Não corrigir a realidade não é enganar, mas sim escolher o bem-estar emocional em vez da verdade factual que causa sofrimento repetido. Esta abordagem, usada com sensibilidade, protege a pessoa e preserva a relação.

✅ Checklist - Chamar por pessoas que já faleceram

Não corrigir nem confrontar com a morte
Validar a saudade e a emoção
Perguntar sobre memórias positivas
Ter fotografias acessíveis para mostrar
Usar música ou objetos da época
Resposta de compromisso se necessário
Redirecionar para atividade após validar

11. Recusar cuidadores

Por que acontece

Aceitar ajuda de alguém de fora é difícil. Significa reconhecer que se precisa de ajuda - algo que muitas pessoas resistem. 

Para quem tem demência, há ainda outro fator: caras desconhecidas geram desconfiança, e a presença de alguém estranho altera a rotina previsível que dá segurança.

A recusa pode manifestar-se como hostilidade direta, queixas constantes, acusações ao cuidador, ou recusa de cuidados quando é essa pessoa a prestar.

Sinais de que a recusa vai surgir

Tensão quando se menciona a vinda do cuidador
Perguntas repetidas sobre "quem é essa pessoa"
Comparações negativas com familiares ("prefiro que sejas tu")
Queixas infundadas após a visita do cuidador
Recusa de tarefas apenas quando é o cuidador a fazer

Protocolo "Recusa cuidadores" em 7 passos

Passo 1 - Introdução gradual: Primeiras visitas curtas, em presença do familiar. O cuidador vem "ajudar a família", não "cuidar" da pessoa.
Passo 2 - Associar a algo positivo: O cuidador traz algo agradável (bolo, revista, música) ou participa numa atividade prazerosa.
Passo 3 - Linguagem neutra: Evitar "cuidador" ou "ajudante". Usar "a pessoa que vem ajudar em casa" ou o nome próprio.
Passo 4 - Manter consistência: Mesmo cuidador, mesmos dias e horas, mesma rotina. Reduzir imprevisibilidade.
Passo 5 - Familiar afasta-se gradualmente: Começar presente, depois sair por períodos curtos, aumentar progressivamente.
Passo 6 - Dar função à pessoa: "Podes mostrar a casa?" "Ajudas a fazer o chá?" Manter sensação de controlo.
Passo 7 - Aceitar tempo de adaptação: Pode demorar semanas. Não desistir após primeiras recusas.

Linguagem: o que dizer e o que evitar

O que dizer:

"A Maria vem ajudar-me com umas coisas em casa."
"Ela é muito simpática. Trouxe um bolo para o lanche."
"Eu volto já. A Maria fica contigo a fazer companhia."

O que evitar:

"Vem uma cuidadora tomar conta de ti."
"Eu preciso de descanso, por isso ela vem."
"Tens de aceitar ajuda."

✅ Checklist - Recusa Cuidadores

Introdução gradual, com familiar presente
Visitas iniciais curtas (30–60 minutos)
Cuidador associado a algo positivo
Evitar termos como "cuidador" ou "ajudante"
Mesmo cuidador, mesmos dias, mesma hora
Familiar afasta-se progressivamente
Dar função ativa à pessoa idosa
Aceitar período de adaptação de várias semanas
Registar o que facilita a aceitação

12. Outros comportamentos desafiantes na demência

Além dos comportamentos desafiantes na demência abordados neste guia, existem outros desafios comuns que merecem atenção. Cada um tem características próprias e estratégias específicas, desenvolvidas em artigos dedicados.


Não quer beber água: a desidratação é um risco silencioso. Quando a pessoa recusa líquidos, é preciso adaptar texturas, variar opções e criar rituais de hidratação ao longo do dia.

👉🏻 O seu familiar com demência não quer beber água? 8 Estratégias que funcionam


Recusa o Centro de Dia: a ida ao Centro de Dia pode ser vivida como abandono. A preparação, a linguagem usada e a introdução gradual fazem diferença na aceitaçã

👉🏻 O seu familiar com demência recusa o Centro de Dia? 16 Estratégias Práticas


Não quer ir ao médico: consultas médicas representam imprevisibilidade e desconforto. Há formas de preparar a pessoa e reduzir a resistência.

👉🏻 O seu familiar com demência não quer ir ao médico? 5 Estratégias Práticas


Inventa histórias (confabulação): o cérebro preenche lacunas de memória com narrativas inventadas. A pessoa acredita no que diz. Confrontar não ajuda - validar e redirecionar, sim.

👉🏻 O seu familiar com demência inventa histórias? 5 Estratégias Práticas


Repete histórias constantemente: diferente da repetição de perguntas, aqui a pessoa conta o mesmo episódio várias vezes. A resposta exige paciência e técnicas específicas.

👉🏻 O seu familiar com demência repete histórias? 4 estratégias para lidar com a situação


Só quer comer doces: alterações no paladar podem levar a preferências intensas por doces. O desafio é equilibrar prazer e nutrição sem criar conflito.

👉🏻 Pessoa com demência só quer comer doces? 11 Estratégias para equilibrar prazer e nutrição

Integração familiar e proteção do cuidador

Cuidar de uma pessoa com demência é uma tarefa muito exigente para uma só pessoa. A distribuição de responsabilidades protege a pessoa idosa e quem cuida.

Distribuir tarefas: Quem lidera higiene? Quem organiza medicação? Quem prepara refeições? Quem faz as saídas?
Criar "Central Familiar": Documentos partilhado com contactos, rotinas, protocolos impressos e quadro de registos.
Reconhecer sinais de sobrecarga: Irritabilidade persistente, insónia, isolamento social, perda de interesse. Pedir ajuda não é falhar.
Rede de apoio: Familiares, vizinhos, centro de dia, equipa clínica. A consistência entre todos protege a pessoa idosa e reduz o conflito.

Síntese final

Os Comportamentos desafiantes na demência são mensagens. Cada agitação, cada recusa, cada acusação comunica uma necessidade que ainda não foi compreendida.

É importante validar o que a pessoa está a sentir, em vez de corrigir os factos. Ajustar o ambiente e a rotina para reduzir sobrecarga de estímulos. Registar o que funciona para repetir com consistência. Ajustar a comunicação verbal e não verbal. Estes são os princípios que diminuem os comportamentos desafiantes na demência e protegem a relação familiar.

Escolha hoje um cenário prioritário. Aplique o protocolo correspondente. Registe o resultado. Repita o que funciona. Pequenos passos consistentes transformam o quotidiano.

Cuidar de quem cuida é parte do cuidado. Se a sobrecarga está a crescer, pedir ajuda não é falhar - é proteger toda a família.

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FAQs - Perguntas Frequentes

O que fazer quando a pessoa com demência acusa alguém de roubo?

Validar a emoção sem discutir os factos. Dizer "que susto, vamos procurar juntos" e verificar os locais fixos previamente definidos. Evitar trazer testemunhas para provar inocência, pois aumenta a desconfiança. Prevenir com cestos etiquetados e duplicados discretos.

Como lidar com a agitação ao final do dia?

Antecipar com luz quente a partir das 16h, reduzir ruído e estímulos, oferecer líquidos e snack, e manter ritual fixo entre as 18h e as 20h. Validar sem corrigir. Se o padrão mudar subitamente, procurar causas reversíveis como infeção ou dor.

A pessoa repete a mesma pergunta constantemente. Devo responder sempre?

Sim, de forma curta e consistente, como se fosse a primeira vez. Apontar para suporte visual (quadro, relógio, calendário) e redirecionar para atividade após responder. Preparar respostas-chave ajuda a manter a calma.

Recusa tomar banho todos os dias. Devo insistir?

Não insistir. Preparar o ambiente (casa de banho quente, toalhas quentes), preservar privacidade, lavar por etapas começando pelos pés, e usar linguagem neutra. Mudar de horário se houver sinais de exaustão. O banho pode ser distribuído ao longo da semana.

Recusa a medicação. O que funciona?

Linguagem de bem-estar ("é para o coração ficar forte"), ritual previsível, copo transparente e "efeito espelho" (tomar juntos). Com a equipa médica, ajustar forma ou horário. Nunca triturar comprimidos sem confirmação médica.

Diz que quer ir para casa mesmo estando em casa. Como respondo?

Validar a emoção ("percebo as saudades"), ouvir memórias sobre "a casa", usar símbolos de familiaridade (manta, fotos, música) e, se necessário, resposta de compromisso seguida de mini-volta acompanhada. Evitar correções literais.

Não quer sair de casa. Como desbloquear?

Micro-passos graduais (primeiro à porta, depois à esquina), locais familiares, duração curta, objetos-âncora e rotinas fixas de saída nos mesmos dias e horas. Envolver a comunidade (padaria, vizinhos) com cumprimentos previsíveis.

A pessoa acorda várias vezes durante a noite. O que posso fazer?

Estruturar o dia com atividade e limitar sestas. Criar ritual de deitar previsível. Manter quarto com temperatura amena e luz de presença no corredor. Quando acordar, tom calmo, verificar necessidades básicas (WC, sede, dor) e acompanhar de volta à cama sem discussão.

Recusa comer ou come muito pouco. Como agir?

Verificar primeiro causas físicas (dor na boca, próteses, obstipação). Simplificar o prato, adaptar texturas, usar finger foods e aproveitar janelas de fome fora dos horários tradicionais. Comer ao mesmo tempo ajuda. Se há perda de peso ou engasgos frequentes, procurar avaliação clínica.

Pergunta pela mãe ou por alguém que já faleceu. Devo dizer a verdade?

Não. Confrontar com a morte causa sofrimento repetido sem benefício - minutos depois, a pessoa volta a perguntar. Validar a saudade ("tens saudades, conta-me como era ela"), explorar memórias positivas e usar fotografias ou música. Não é mentir - é proteger.

A pessoa recusa os cuidadores. Como facilitar a aceitação?

Introdução gradual com familiar presente, visitas iniciais curtas, associar o cuidador a algo positivo (bolo, atividade agradável). Evitar termos como "cuidador". Manter sempre a mesma pessoa, nos mesmos dias e horas. Dar uma função ativa à pessoa idosa. Aceitar que a adaptação pode demorar semanas.

Funcionou ontem e hoje já não funciona. É normal?

Sim. A variabilidade é característica da demência. Regressar ao último passo que resultou, reduzir a exigência, mudar um elemento de contexto (pessoa, divisão, horário) e retentar. Registar o que funciona ajuda a identificar padrões.

Quando devo considerar apoio domiciliário ou centro de dia?

Quando a sobrecarga do cuidador impede rotinas consistentes, quando há risco nas transferências ou higiene, ou quando os episódios desafiantes comprometem a segurança com frequência.

Surgem alucinações ou delírios com grande sofrimento. O que fazer?

Procurar avaliação médica. Pode ser necessário ajustar medicação. Enquanto isso, não confrontar nem corrigir, validar a emoção e reforçar estratégias ambientais e de comunicação.

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