Quando surgem comportamentos desafiantes na demência, toda a família é impactada.
A pessoa com demência pode ficar agitada ao final do dia, acusar a família de roubo, repetir a mesma pergunta dezenas de vezes, recusar o banho ou a medicação, dizer que quer "ir para casa" - mesmo estando em casa - ou isolar-se e recusar sair.
O dia a dia deixa de ser previsível. A família sente-se exausta, culpada e, muitas vezes, impotente perante comportamentos que parecem não ter lógica.
Mas há uma lógica. Não é teimosia, falta de educação nem provocação. É o cérebro a lidar com perdas de memória, orientação e processamento sensorial.
Cada comportamento desafiante na demência é uma mensagem, uma necessidade que ainda não foi compreendida nem atendida.
⏳ Tempo de Leitura: 22 minutos
Este guia reúne os comportamentos desafiantes da demência que podemos observar com mais frequência, explicando por que acontecem e oferecendo protocolos práticos, linguagem validada e checklists aplicáveis no dia a dia.
São estratégias testadas na prática clínica que protegem a relação familiar e reduzem o conflito.
Os comportamentos desafiantes na demência são alterações de comportamento e emoção que dificultam o cuidado e geram sofrimento para a pessoa idosa e para quem cuida.
Incluem agitação, agressividade, acusações, deambulação, repetição constante, recusas variadas (banho, medicação, alimentação, saídas), perturbações do sono e isolamento.
Resultam da interação entre três fatores: as perdas cognitivas e sensoriais causadas pela doença, o ambiente físico e social, e as necessidades básicas não atendidas (dor, sede, fome, frio, cansaço, medo).
A pergunta clínica mais útil não é "por que está a fazer isto?" mas sim: "que necessidade este comportamento está a comunicar agora?"
Quando mudamos a pergunta, muda a resposta e diminui o conflito.
Regra de ouro antes de qualquer intervenção comportamental:
- Verificar sede e hidratação
- Verificar dor e desconforto físico
- Verificar necessidade de WC
- Verificar temperatura do corpo e do ambiente
Cada tipo de comportamento desafiante na demência comunica uma categoria de necessidade
Alguns comportamentos desafiantes na demência exigem avaliação clínica urgente:
Nestes casos, o comportamento pode ser um "alarme" de infeção urinária, desidratação, dor não expressa ou outro problema médico reversível.
Estes comportamentos desafiantes na demência podem ser "alarme" de causas médicas tratáveis, como infeções urinárias, desidratação, dor não expressa ou outro problema médico não reversível.
Procure sinais físicos associados: febre, dor ao urinar, urina muito escura ou com cheiro forte, obstipação prolongada, quedas, perda súbita de marcha, engasgamentos repetidos, tosse ou voz molhada ao comer ou beber.
Antes de abordar cada comportamento específico, é útil conhecer um método simples de registo que se aplica a qualquer comportamento desafiante na demência.
Este registo sistemático permite identificar padrões nos comportamentos desafiantes na demência, antecipar gatilhos e refinar estratégias semana após semana.
O relógio biológico (circadiano) está alterado pela demência. Ao final da tarde, a luz diminui, as sombras aumentam, e o cérebro acumula a fadiga de um dia inteiro de estímulos.
A capacidade de interpretar a transição entre dia e noite fica comprometida, e o sistema nervoso entra em estado de alarme.
Este fenómeno, conhecido como Síndrome do Pôr do Sol ou sundowning, afeta uma proporção significativa de pessoas com demência e tende a ocorrer entre as 16h e as 20h.
- Iluminação prática: preferir luz quente 2700 a 3000 K.
Evitar cintilação e mudanças bruscas.
O que dizer:
O que evitar:
Quando a pessoa com demência diz "quero ir para casa", raramente se refere à morada atual ou a um endereço físico. "Casa" é um símbolo de segurança, familiaridade e pertença, um tempo e lugar onde tudo fazia sentido.
Este pedido surge frequentemente ao entardecer, em momentos de transição, ou quando a pessoa se sente perdida, insegura ou desconectada do ambiente.
Corrigir literalmente ("mas esta é a tua casa") aumenta a confusão e a angústia.
Caixa da Conforto: reunir 5 objetos-âncora permanentes (fotografia, rádio com música da época, casaco preferido, livro de imagens, chaves de casa, carteira...)
Toda e qualquer abordagem deve ser adaptada ao perfil e estadio da demência do seu familiar.
O que dizer:
O que evitar:
Com a memória recente comprometida, a pessoa com demência não consegue lembrar onde guardou objetos. O cérebro, para manter coerência interna, preenche as lacunas com narrativas - um processo chamado confabulação.
Se a carteira não está onde "deveria estar", alguém deve tê-la tirado. A pessoa acredita genuinamente no que diz. Não é manipulação nem maldade - é o cérebro a funcionar com as ferramentas que ainda tem.
Quem é acusado costuma ser quem está mais presente, precisamente porque é a pessoa mais próxima e mais disponível.
O que dizer:
O que evitar:
👉🏻 Artigo Completo: Pessoa com demência acusa de roubar: como responder sem destruir a relação
A memória recente não retém informação nova. A pessoa faz uma pergunta, recebe resposta, mas segundos ou minutos depois já não se lembra de ter perguntado nem da resposta que ouviu. O ciclo repete-se.
Muitas vezes, a repetição traduz ansiedade, necessidade de orientação ou antecipação de um acontecimento ("a que horas vem a Maria?", "quando é o almoço?", "o que fazemos agora?").
O que dizer:
O que evitar:
Aumento súbito da frequência de repetição, acompanhado de confusão intensa, febre, dor ou alterações urinárias, pode indicar infeção ou outra causa tratável. Nestes casos, procurar avaliação médica.
O banho envolve múltiplos desafios para a pessoa com demência: invasão de privacidade, exposição do corpo, sensação de frio, medo de cair, dificuldade em compreender a sequência de passos, e sobrecarga sensorial (água, ruído, luz).
A própria palavra "banho" pode desencadear resistência imediata. Muitas vezes, a recusa não é sobre higiene - é sobre medo, desconforto ou perda de controlo.
O que dizer:
O que evitar:
👉🏻 Artigo Completo: O seu familiar com demência não quer tomar banho? 8 Estratégias Práticas
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A pessoa com demência pode não compreender por que precisa de tomar comprimidos. O cérebro não processa a lógica "isto faz bem à saúde".
Além disso, mudanças na cor, forma ou sabor dos medicamentos geram desconfiança.
Efeitos secundários anteriores, dificuldade em engolir, ou simplesmente o número excessivo de comprimidos podem contribuir para a recusa.
O que dizer:
O que evitar:
Nunca partir ou triturar comprimidos sem confirmação médica. Se houver dificuldade em engolir (disfagia), pedir avaliação especializada à equipa médica que acompanha a pessoa.
👉🏻 Artigo Completo: O seu familiar com demência não quer tomar a medicação? 13 estratégias validadas
O exterior representa imprevisibilidade: ruídos desconhecidos, rostos estranhos, percursos que já não se reconhecem. A casa, pelo contrário, é previsível e controlável. A recusa de sair é, muitas vezes, uma forma de proteção contra a sobrecarga sensorial e a desorientação.
E pode surgir em fases muito iniciais da demência.
O que dizer:
O que evitar::
👉🏻 Artigo Completo: O seu familiar com demência não quer tomar a medicação? 13 estratégias validadas
O ciclo sono-vigília é regulado pelo ritmo circadiano, que está frequentemente alterado na demência. O cérebro perde a capacidade de distinguir dia de noite, e os padrões de sono fragmentam-se.
A pessoa pode acordar várias vezes, levantar-se desorientada, ou inverter completamente o horário, dormindo de dia e ficando ativa de noite.
Causas adicionais incluem dor não expressa, necessidade de urinar, sede, efeitos secundários de medicação, sestas prolongadas durante o dia, ou simplesmente um quarto demasiado quente, frio ou ruidoso.
O que dizer:
O que evitar:
👉🏻 Artigo Completo: O seu familiar com demência acorda durante a noite? 7 Estratégias Práticas
A recusa alimentar na demência pode ter múltiplas causas. O cérebro pode perder a capacidade de reconhecer fome ou de associar comida a satisfação.
Dificuldades em mastigar ou engolir (disfagia) tornam a refeição desconfortável.
Alterações no paladar e olfato mudam as preferências. A própria complexidade de um prato com vários elementos pode ser confusa.
Outros fatores incluem dentição ou próteses mal ajustadas, obstipação, efeitos de medicação, depressão, ou simplesmente cansaço.
O que dizer:
O que evitar:
Perda de peso acentuada, engasgamentos frequentes, tosse ou voz molhada ao comer, recusa total prolongada - exigem avaliação clínica. Pode haver disfagia ou outra causa tratável.
Com a progressão da demência, a memória recente deteriora-se mais rapidamente do que a memória antiga. A pessoa pode "viver" num tempo passado em que os pais, o cônjuge ou outros familiares ainda eram vivos.
Perguntar pela mãe ou pelo marido falecido não é uma simples confusão, é a realidade emocional da pessoa naquele momento.
Confrontar com a verdade ("a mãe morreu há 20 anos") obriga a pessoa a processar o luto de novo, causando sofrimento intenso e repetido.
Minutos depois, sem memória recente, volta a perguntar... e o ciclo de dor reinicia.
O que dizer:
O que evitar:
Não corrigir a realidade não é enganar, mas sim escolher o bem-estar emocional em vez da verdade factual que causa sofrimento repetido. Esta abordagem, usada com sensibilidade, protege a pessoa e preserva a relação.
Aceitar ajuda de alguém de fora é difícil. Significa reconhecer que se precisa de ajuda - algo que muitas pessoas resistem.
Para quem tem demência, há ainda outro fator: caras desconhecidas geram desconfiança, e a presença de alguém estranho altera a rotina previsível que dá segurança.
A recusa pode manifestar-se como hostilidade direta, queixas constantes, acusações ao cuidador, ou recusa de cuidados quando é essa pessoa a prestar.
O que dizer:
O que evitar:
Além dos comportamentos desafiantes na demência abordados neste guia, existem outros desafios comuns que merecem atenção. Cada um tem características próprias e estratégias específicas, desenvolvidas em artigos dedicados.
Não quer beber água: a desidratação é um risco silencioso. Quando a pessoa recusa líquidos, é preciso adaptar texturas, variar opções e criar rituais de hidratação ao longo do dia.
👉🏻 O seu familiar com demência não quer beber água? 8 Estratégias que funcionam
Recusa o Centro de Dia: a ida ao Centro de Dia pode ser vivida como abandono. A preparação, a linguagem usada e a introdução gradual fazem diferença na aceitaçã
👉🏻 O seu familiar com demência recusa o Centro de Dia? 16 Estratégias Práticas
Não quer ir ao médico: consultas médicas representam imprevisibilidade e desconforto. Há formas de preparar a pessoa e reduzir a resistência.
👉🏻 O seu familiar com demência não quer ir ao médico? 5 Estratégias Práticas
Inventa histórias (confabulação): o cérebro preenche lacunas de memória com narrativas inventadas. A pessoa acredita no que diz. Confrontar não ajuda - validar e redirecionar, sim.
👉🏻 O seu familiar com demência inventa histórias? 5 Estratégias Práticas
Repete histórias constantemente: diferente da repetição de perguntas, aqui a pessoa conta o mesmo episódio várias vezes. A resposta exige paciência e técnicas específicas.
👉🏻 O seu familiar com demência repete histórias? 4 estratégias para lidar com a situação
Só quer comer doces: alterações no paladar podem levar a preferências intensas por doces. O desafio é equilibrar prazer e nutrição sem criar conflito.
👉🏻 Pessoa com demência só quer comer doces? 11 Estratégias para equilibrar prazer e nutrição
Cuidar de uma pessoa com demência é uma tarefa muito exigente para uma só pessoa. A distribuição de responsabilidades protege a pessoa idosa e quem cuida.
Os Comportamentos desafiantes na demência são mensagens. Cada agitação, cada recusa, cada acusação comunica uma necessidade que ainda não foi compreendida.
É importante validar o que a pessoa está a sentir, em vez de corrigir os factos. Ajustar o ambiente e a rotina para reduzir sobrecarga de estímulos. Registar o que funciona para repetir com consistência. Ajustar a comunicação verbal e não verbal. Estes são os princípios que diminuem os comportamentos desafiantes na demência e protegem a relação familiar.
Escolha hoje um cenário prioritário. Aplique o protocolo correspondente. Registe o resultado. Repita o que funciona. Pequenos passos consistentes transformam o quotidiano.
Cuidar de quem cuida é parte do cuidado. Se a sobrecarga está a crescer, pedir ajuda não é falhar - é proteger toda a família.
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Validar a emoção sem discutir os factos. Dizer "que susto, vamos procurar juntos" e verificar os locais fixos previamente definidos. Evitar trazer testemunhas para provar inocência, pois aumenta a desconfiança. Prevenir com cestos etiquetados e duplicados discretos.
Antecipar com luz quente a partir das 16h, reduzir ruído e estímulos, oferecer líquidos e snack, e manter ritual fixo entre as 18h e as 20h. Validar sem corrigir. Se o padrão mudar subitamente, procurar causas reversíveis como infeção ou dor.
Sim, de forma curta e consistente, como se fosse a primeira vez. Apontar para suporte visual (quadro, relógio, calendário) e redirecionar para atividade após responder. Preparar respostas-chave ajuda a manter a calma.
Não insistir. Preparar o ambiente (casa de banho quente, toalhas quentes), preservar privacidade, lavar por etapas começando pelos pés, e usar linguagem neutra. Mudar de horário se houver sinais de exaustão. O banho pode ser distribuído ao longo da semana.
Linguagem de bem-estar ("é para o coração ficar forte"), ritual previsível, copo transparente e "efeito espelho" (tomar juntos). Com a equipa médica, ajustar forma ou horário. Nunca triturar comprimidos sem confirmação médica.
Validar a emoção ("percebo as saudades"), ouvir memórias sobre "a casa", usar símbolos de familiaridade (manta, fotos, música) e, se necessário, resposta de compromisso seguida de mini-volta acompanhada. Evitar correções literais.
Micro-passos graduais (primeiro à porta, depois à esquina), locais familiares, duração curta, objetos-âncora e rotinas fixas de saída nos mesmos dias e horas. Envolver a comunidade (padaria, vizinhos) com cumprimentos previsíveis.
Estruturar o dia com atividade e limitar sestas. Criar ritual de deitar previsível. Manter quarto com temperatura amena e luz de presença no corredor. Quando acordar, tom calmo, verificar necessidades básicas (WC, sede, dor) e acompanhar de volta à cama sem discussão.
Verificar primeiro causas físicas (dor na boca, próteses, obstipação). Simplificar o prato, adaptar texturas, usar finger foods e aproveitar janelas de fome fora dos horários tradicionais. Comer ao mesmo tempo ajuda. Se há perda de peso ou engasgos frequentes, procurar avaliação clínica.
Não. Confrontar com a morte causa sofrimento repetido sem benefício - minutos depois, a pessoa volta a perguntar. Validar a saudade ("tens saudades, conta-me como era ela"), explorar memórias positivas e usar fotografias ou música. Não é mentir - é proteger.
Introdução gradual com familiar presente, visitas iniciais curtas, associar o cuidador a algo positivo (bolo, atividade agradável). Evitar termos como "cuidador". Manter sempre a mesma pessoa, nos mesmos dias e horas. Dar uma função ativa à pessoa idosa. Aceitar que a adaptação pode demorar semanas.
Sim. A variabilidade é característica da demência. Regressar ao último passo que resultou, reduzir a exigência, mudar um elemento de contexto (pessoa, divisão, horário) e retentar. Registar o que funciona ajuda a identificar padrões.
Quando a sobrecarga do cuidador impede rotinas consistentes, quando há risco nas transferências ou higiene, ou quando os episódios desafiantes comprometem a segurança com frequência.
Procurar avaliação médica. Pode ser necessário ajustar medicação. Enquanto isso, não confrontar nem corrigir, validar a emoção e reforçar estratégias ambientais e de comunicação.
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