Quando a pessoa com demência acorda durante a noite de forma repetida, toda a família entra numa espiral de exaustão.
A noite transforma-se num campo de batalha silencioso: a pessoa levanta-se dezenas de vezes, chama, tenta sair de casa, procura algo que não sabe nomear.
Ou, pelo contrário, passa o dia inteiro a dormir no sofá e à noite está completamente desperta.
O que a maioria das famílias faz é esperar. Espera que a pessoa fique tão cansada que adormeça. Espera que o corpo se autorregule sozinho. Espera que amanhã seja diferente.
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Mas o corpo já não se autorregula. E quanto mais se espera, mais o ciclo se desorganiza.
O erro não está em esperar demasiado tempo. Está em acreditar que o sono voltará sozinho, quando na verdade é preciso reconstruí-lo, dia após dia, com pistas externas que o cérebro da pessoa com demência já não consegue gerar sozinho.
À medida que envelhecemos, o sono torna-se naturalmente mais leve e fragmentado. É normal acordar mais vezes durante a noite e ter um sono menos profundo do que na juventude. Isto, por si só, não é doença. É uma mudança fisiológica do envelhecimento.
O problema começa quando a pessoa com demência acorda durante a noite muito agitada e confusa, quando já não consegue distinguir se é dia ou noite, ou quando o sono é tão mau que interfere com o humor, a memória, o equilíbrio e aumenta o risco de quedas.
Há situações em que o sono deixa de ser apenas "leve" e passa a ser um problema clínico que exige intervenção. Fique atento se o seu familiar com demência acorda durante a noite com estes sinais:
Uma má qualidade de sono em pessoas idosas está associada a:
Dentro do nosso cérebro existe uma região que funciona como um relógio biológico. É esta estrutura que nos ajuda a sentir sono à noite, fome a determinadas horas e mais energia durante o dia.
Na demência, especialmente no Alzheimer, na demência vascular e na demência por corpos de Lewy, este sistema começa a falhar.
O resultado é desconcertante para quem cuida. A pessoa pode estar completamente desperta às quatro da manhã, como se fosse meio-dia. Pode ficar extremamente sonolenta durante o dia, mesmo sem ter feito qualquer esforço.
E pode apresentar períodos de grande confusão e agitação ao final da tarde.
Este padrão de agitação no final do dia é tão comum que tem um nome técnico: síndrome do pôr-do-sol, ou sundowning em inglês. É uma das principais razões pelas quais a pessoa com demência acorda durante a noite desorientada.
Não é "mania". Não é "má vontade". É o cérebro a perder a capacidade de perceber quando é suposto estar acordado e quando é suposto descansar.
Por isso, quando a pessoa com demência acorda durante a noite e começa a mexer em gavetas de madrugada, a tentar sair pela porta ou a vestir-se como se fosse manhã, não é porque decidiu dificultar a sua vida.
É porque, para o cérebro dele, o corpo está a dizer que o dia começou. A desorientação temporal é real e profundamente perturbadora.
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Quando a pessoa com demência acorda durante a noite de forma repetida, a solução não passa por medicação imediata.
A chamada "higiene do sono" não é nada de complexo ou místico. São hábitos e rotinas concretas que ajudam o corpo a voltar a reconhecer o dia e a noite.
Organizámos estas estratégias por áreas práticas, para facilitar a aplicação quando o seu familiar acorda muitas vezes à noite.
O cérebro da pessoa com demência precisa de horas previsíveis, sequência previsível e ambiente previsível. Quanto mais caótico for o dia, mais confusão interna o cérebro experimenta.
Na prática, isto significa acordar sempre à mesma hora, mesmo que a noite tenha sido má. Levantar da cama, abrir as cortinas, lavar a cara e vestir a roupa de dia - não deixar a pessoa de pijama o dia todo.
Ter horas fixas para as três refeições principais. Distribuir pequenas atividades que o façam sentir-se útil ao longo do dia: dobrar panos, escolher fruta, ouvir música, regar plantas, folhear fotografias, limpar talheres... E ter uma hora de deitar relativamente consistente, mesmo ao fim de semana.
A consistência é mais importante do que a perfeição. Não precisa de ser rígido ao minuto, mas a estrutura tem de existir.
A luz é o sinal mais poderoso que o cérebro recebe para "acordar". Aproveite este detalhe a seu favor. Logo pela manhã, sente o seu familiar junto a uma janela com muita luz natural durante 20 a 30 minutos.
Se for possível e seguro, faça um pequeno passeio na rua. Mantenha a casa bem iluminada durante todo o dia.
À noite, o oposto: a partir das 19h30, comece a reduzir a intensidade da luz. Desligue luzes fortes, feche cortinas, crie um ambiente mais aconchegante.
O cérebro precisa destes contrastes claros entre dia e noite para reorganizar os ciclos.
Evite refeições pesadas à noite - o desconforto digestivo pode fragmentar o sono.
Elimine café, chá preto e chá verde a partir das 14h.
Na pessoa com demência, a cafeína pode permanecer ativa no organismo durante muitas horas. Reduza ou elimine o álcool ao final do dia.
Embora o álcool possa induzir sonolência inicial, fragmenta o sono durante a noite e piora os despertares.
Opções seguras para a noite incluem chás sem cafeína (camomila, tília), leite morno ou água morna com uma colher de mel.
Não é preciso muito. Pequenas atividades já ajudam o corpo a reconhecer que o dia está a "acontecer". Inclua a pessoa nos afazeres domésticos: dobrar toalhas, descascar batatas, varrer a varanda, regar plantas - sempre de acordo com o que ela sempre fez.
O objetivo não é cansá-la até à exaustão, mas mantê-la moderadamente ativa e envolvida.
Evite o erro oposto: deixar a pessoa sentada no sofá o dia inteiro, sem qualquer estimulação. Um dia vazio cria uma noite caótica.
A sesta pode ser útil, mas tem de ser controlada. A regra prática é simples: sesta de 20 a 40 minutos, preferencialmente depois do almoço. Evite sestas muito longas. Evite sestas depois das 16h. E nunca deixe a pessoa dormir a tarde toda no sofá.
Dormir em excesso durante o dia destrói a noite. Se o seu familiar adormecer no sofá, acorde-o gentilmente, leve-o a dar uns passos, ofereça água, mude de ambiente. Mas apresente sempre um objetivo em como a pessoa o vai ajudar em alguma coisa.
A noite precisa de "pistas" que sinalizem ao cérebro que é hora de desacelerar. A partir das 19h30, comece a reduzir estímulos. Diminua a luz. Reduza o barulho. Desligue a televisão.
Se a pessoa tolerar, ofereça um banho com água morna.
Ponha música calma. Prepare o quarto: temperatura confortável, roupa de cama limpa, ambiente tranquilo. Deite a pessoa sempre mais ou menos à mesma hora.
Este ritual não precisa de ser longo ou complicado. Precisa, sim, de ser consistente e previsível. O cérebro aprende por repetição.
Muito do que parece insónia é, na realidade, desconforto físico não verbalizado. Antes de deitar a pessoa, faça uma verificação.
Verifique se há dor. Leve-a à casa de banho. Confirme se a fralda está limpa e seca. Verifique se tem frio ou calor. Certifique-se de que a roupa não está a apertar. Ofereça água. Verifique se há sinais de refluxo. Confirme se o colchão e a almofada são confortáveis.
A agitação é muitas vezes a única forma que a pessoa com demência encontra para comunicar desconforto. Aprenda a "ler" estes sinais antes que se transformem em noites impossíveis.
O cérebro da pessoa com demência consegue ainda reconhecer padrões repetidos: a luz da manhã, o cheiro do café, a cadeira que sempre utilizou, a música ao final da tarde. A rotina não é monotonia, é segurança.
É um erro comum acreditar que "pessoas idosas dormem muito por natureza". Dormir excessivamente não é normal na maioria dos casos.
Se o seu familiar passa o dia inteiro a dormir, mal se aguenta acordado à mesa, adormece em qualquer cadeira, isto pode indicar um problema subjacente que precisa de investigação médica.
Na pessoa com demência, a depressão manifesta-se frequentemente como cansaço extremo e apatia, não necessariamente como tristeza.
O primeiro passo é observar e registar.
Durante uma ou duas semanas, anote a que hora a pessoa se deita, quanto tempo demora a adormecer, quantas vezes se levanta durante a noite, a que horas acorda, como dorme durante o dia, se houve alterações recentes na medicação, e se há sinais de dor, apatia, irritabilidade ou confusão.
Depois, leve este registo ao médico. Não tenha receio de parecer "demasiado preocupado".
Pergunte: "Este padrão de sono é esperado nesta fase da demência?", "Alguma medicação pode estar a piorar isto?", "Devemos despistar apneia do sono, dor, infeções ou depressão?".
Muitas vezes, o problema tem solução, mas só se for investigado.
Nada disto é simples. E sem descanso adequado, ninguém aguenta meses de noites partidas. Reconhecer que está no limite não é falhar, é ser humano.
Peça ajuda sempre que possível. Divida as noites com outro familiar. Considere apoio externo em períodos críticos. Cuide do seu próprio sono e da sua saúde mental. Reconheça os sinais de exaustão antes de chegar ao colapso.
Não normalize o insustentável. Se as noites estão a destruir a sua saúde, algo tem de mudar. E mudar pode significar reorganizar horários, partilhar responsabilidades, ou procurar apoio profissional temporário.
Melhorar o sono de um familiar com demência não acontece de um dia para o outro. Não há soluções mágicas nem fórmulas universais.
Mas pequenas mudanças diárias, acordar à mesma hora, usar luz natural, criar rotinas previsíveis, verificar desconfortos, acumulam efeito ao longo das semanas.
E transformam a forma como se vive a demência dentro de casa.
O objetivo não é a perfeição. É reduzir o sofrimento. É criar condições para que tanto a pessoa com demência como quem cuida consigam descansar minimamente. É devolver alguma previsibilidade a dias que parecem caóticos.
Comece por um passo. Escolha uma estratégia desta lista e aplique-a durante uma semana. Observe. Ajuste. E continue.
A Catarina e o pai partilham como, depois de semanas sem descanso, a avó voltou finalmente a dormir durante a noite.
O que parecia um detalhe transformou-se num ponto de viragem: mais serenidade, menos desgaste e uma nova rotina que trouxe tranquilidade à casa e à família.
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Não force, não argumente, não ligue todas as luzes. Mantenha a casa escura, fale num tom calmo e baixo.
Deixe-a sentar-se numa cadeira confortável durante 15-20 minutos. Ofereça água morna ou leite morno. Depois de alguns minutos, volte a tentar com frases simples: "Vamos descansar um bocadinho na cama?".
Se resistir, não insista.
Alguma fragmentação do sono é comum no envelhecimento e na demência. Mas se a pessoa com demência acorda durante a noite de forma repetida, prolongada e acompanhada de confusão ou agitação, vale a pena investigar causas tratáveis: dor, infeções, apneia do sono ou efeitos de medicamentos.
Depende. Uma sesta curta (20-40 minutos) após o almoço pode ser benéfica. Mas se a pessoa está a dormir a tarde toda, sim, deve acordá-la gentilmente. O excesso de sono diurno compromete o sono noturno. Acorde-a, ofereça água, mude de ambiente e proponha uma tarefa com propósito.
Se a pessoa dorme a maior parte do dia, tem dificuldade em manter-se acordada durante as refeições, ou apresenta apatia extrema, isto não é "normal da idade". Pode indicar infeções, anemia, problemas de tiróide, depressão ou efeitos de medicamentos. Fale com o médico.
Alguns medicamentos para o sono podem aumentar confusão, risco de quedas e dependência, especialmente em pessoas com demência. Nunca medique por conta própria.
Se o médico prescrever, questione sobre efeitos secundários, duração do tratamento e alternativas não farmacológicas.
Geralmente, são necessárias uma a três semanas de consistência para que o cérebro comece a responder às rotinas. Não desista nos primeiros dias. A mudança é gradual, mas real. Mantenha horários estáveis e observe pequenos progressos ao longo do tempo.
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