A televisão faz parte da rotina de muitas famílias. Está ligada ao pequeno-almoço, acompanha o almoço e preenche as tardes.
Para a pessoa com demência, foi durante anos uma companheira discreta, previsível, segura e habitual. Mas há um momento em que isso muda. O noticiário deixa de ser apenas informação. As discussões políticas parecem acontecer na sala de estar.
Um reality show transforma-se numa ameaça. Os apresentadores falam diretamente com ela. E a família não percebe de imediato que a agitação ao final do dia pode ter começado com algo tão simples como o telejornal das oito.
Este artigo explica porque é que a televisão pode tornar-se uma fonte de confusão e ansiedade para pessoas com demência, que sinais observar e como adaptar este hábito sem o eliminar por completo.
⏳ Tempo de Leitura: 12 minutos
A televisão moderna foi desenhada para captar a atenção de quem consegue processar estímulos rápidos, distinguir ficção de realidade e acompanhar tramas ao longo de semanas. Nenhuma destas capacidades permanece intacta numa pessoa com demência moderada a avançada.
Na demência, as áreas do cérebro responsáveis por interpretar informação sensorial e contextualizar o que vemos ficam progressivamente comprometidas.
Isto significa que a pessoa pode não conseguir distinguir entre o que acontece no ecrã e o que acontece na sala.
Estudos sobre televisão e défice cognitivo mostram que muitas pessoas com demência interpretam o que veem na TV como se estivesse a acontecer à sua volta.
Um incêndio no noticiário pode parecer um incêndio na sua rua.
Uma discussão entre comentadores pode soar como uma discussão em casa.
Um ator a olhar para a câmara pode parecer alguém a olhar diretamente para ela.
Esta confusão é uma consequência direta das alterações cerebrais que fazem parte da doença.
Muitas famílias mantêm a televisão ligada como companhia, mesmo quando ninguém está a ver com atenção.
Mas para uma pessoa com demência, este som de fundo pode funcionar como um estímulo constante que ela não consegue processar nem ignorar.
Vozes sobrepostas, mudanças bruscas de tom, publicidade ruidosa, tudo isto gera um ambiente de confusão sensorial. A pessoa pode não conseguir distinguir entre as vozes da televisão e as vozes de quem está em casa, o que contribui para uma sensação difusa de desorientação e desconforto.
O problema não é a televisão em si. É a televisão como ruído constante, sem filtro nem presença de alguém que ajude a contextualizar.
Muitas famílias notam que a agitação com a televisão acontece sobretudo ao final da tarde ou à noite. Não é coincidência.
Este padrão tem um nome clínico: síndrome do pôr do sol, ou sundowning.
À medida que o dia avança, a pessoa com demência acumula fadiga mental e torna-se mais vulnerável a estímulos que, de manhã, talvez tolerasse sem problema.
Nessa altura, há menos luz natural, mais sombras, mais dificuldade em organizar sons e imagens. O cérebro, já sobrecarregado, perde ainda mais capacidade de filtrar o que vem do ecrã.
Se juntarmos a isto o telejornal das oito, com o seu tom urgente e imagens repetidas, temos uma combinação de vulnerabilidade máxima com estímulo máximo. Não é birra. Não é mania. É uma reação previsível num cérebro que já não consegue processar o que está a receber.
Nem sempre a ligação entre a televisão e o comportamento da pessoa é evidente.
A agitação pode surgir horas depois, ou manifestar-se de formas que parecem não ter relação com o que foi visto. Ainda assim, há padrões que vale a pena reconhecer.
A pessoa vê uma reportagem sobre um acidente de viação e fica convencida de que um familiar está envolvido. Ouve falar de uma guerra e pergunta se os filhos estão em segurança. Vê imagens de um hospital e teme estar doente.
Esta tendência para personalizar informação genérica é comum em fases mais avançadas da demência. Para ela, a notícia não é sobre desconhecidos num país distante. É sobre o mundo dela, e isso gera medo.
Este é um sinal frequente e muitas vezes subestimado. A pessoa pode referir que o pivô do telejornal lhe acenou, que a apresentadora de um programa lhe fez uma pergunta ou que alguém na televisão a está a observar.
Não se trata de alucinação no sentido clínico clássico, mas de uma incapacidade de perceber que a imagem no ecrã é uma gravação, não uma presença real.
Em casos mais avançados, pode até responder às perguntas feitas na televisão, conversar com os atores ou sentir-se ignorada quando eles não respondem.
Programas de debate político, Reality Shows com confrontos verbais ou séries com cenas de tensão podem gerar uma resposta emocional intensa, mesmo que a pessoa não consiga acompanhar o conteúdo.
Ela pode não perceber quem está a discutir nem o motivo, mas sente a hostilidade no tom de voz, no volume, na expressão facial dos intervenientes. E essa tensão transfere-se para o seu estado emocional, muitas vezes sem que a família perceba a origem.
Nem toda a programação tem o mesmo impacto. Alguns formatos são sistematicamente mais problemáticos para pessoas com défice cognitivo.
Os canais de notícias estão desenhados para criar urgência: letras grandes, barras a piscar, tons alarmistas, imagens repetidas. Para uma pessoa com demência, esta linguagem visual e sonora pode ser avassaladora.
Os eventos noticiados, sejam guerras, catástrofes naturais ou crimes, podem ativar memórias antigas ou criar medos novos que ela não consegue processar. A exposição repetida às mesmas imagens, comum nos canais de notícias 24 horas, agrava este efeito.
Se a pessoa viveu experiências difíceis no passado, como um conflito, uma perda ou um trauma, conteúdos noticiosos podem reativar essas memórias de forma confusa e angustiante.
Estes formatos partilham uma característica: apresentam pessoas reais, em contextos que parecem espontâneos, frequentemente em tom de conflito ou competição.
A pessoa com demência pode não perceber que se trata de entretenimento encenado. Para ela, as discussões são reais, as emoções são reais e, em alguns casos, pode até sentir que os participantes estão a falar sobre ela ou para ela.
Programas que envolvem gritos, insultos, confrontos físicos ou humilhação são particularmente desaconselhados.
Uma série que exige lembrar episódios anteriores, acompanhar múltiplas personagens ou interpretar subtilezas narrativas torna-se rapidamente frustrante para quem tem falhas de memória.
Se a essa complexidade se juntarem cenas de violência, suspense ou tensão emocional, o resultado pode ser confusão, medo ou agitação.
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A solução não é, necessariamente, eliminar a televisão da vossa rotina.
Para muitas pessoas com demência, ver televisão continua a ser um momento de prazer e familiaridade, especialmente se for feito com companhia e com programação adequada.
Antes de pensar no que ver, vale a pena rever como se vê.
Pequenas mudanças no ambiente podem reduzir significativamente a confusão.
A demência pode reduzir a capacidade de filtrar ruído. Um volume que parece normal para a família pode ser excessivo para a pessoa.
As mudanças bruscas de som, ritmo e imagem entre programa e anúncios são um gatilho frequente de agitação. Se possível, opte por gravações ou plataformas de streaming sem intervalos publicitários.
Se a audição estiver comprometida, as legendas dão apoio visual. Mas se distraírem ou confundirem, é melhor desligá-las.
A luz ambiente acesa reduz a confusão entre o que está no ecrã e o que está na sala. Sombras e contrastes fortes aumentam a desorientação.
Se a visão estiver reduzida, a pessoa pode perder contexto visual e sentir-se mais ansiosa. Verifique se consegue ver o ecrã com clareza, sem esforço.
O hábito de deixar a televisão ligada como fundo sonoro deve ser evitado. Se ninguém está a ver, é preferível desligar e criar um ambiente mais calmo.
Isto reduz a quantidade de estímulo sensorial que a pessoa tem de processar e permite distinguir com mais facilidade entre vozes reais (da família) e vozes gravadas (da televisão).
Programas com episódios fechados, ou seja, em que a história começa e termina no mesmo episódio, são mais fáceis de acompanhar do que séries com narrativas longas.
Formatos com ritmo pausado, poucos cortes de câmara, música suave e tom positivo tendem a gerar menos agitação. Documentários de natureza, programas de culinária sem competição, concursos de perguntas com ambiente descontraído e comédias clássicas são boas opções.
A memória remota, a memória de juventude, costuma manter-se mais preservada na demência do que a memória recente. Por isso, conteúdos que remetam para épocas passadas podem ser mais reconfortantes e mais fáceis de seguir.
Filmes antigos, séries dos anos 60 ou 70, programas de música popular ou imagens de lugares familiares ativam uma sensação de segurança e pertença que os conteúdos modernos raramente conseguem.
Estudos sobre lazer e demência sugerem que a televisão funciona melhor como atividade partilhada do que como ocupação solitária.
A presença de alguém que comenta, que ri junto, que ajuda a contextualizar o que está a acontecer transforma o momento numa oportunidade de ligação.
Pode desligar a televisão com naturalidade e propor outra atividade.
A transição será mais fácil se houver companhia.
Quando a pessoa fica agitada com algo que viu, a tentação é explicar que não é real. Mas essa abordagem raramente funciona e pode aumentar a frustração de ambos.
Em vez disso, há três passos que ajudam a acalmar sem confrontar.
"Isto parece mesmo assustador. Estou aqui contigo."
"Agora já passou. Vamos beber água?" ou "Anda comigo até à cozinha."
Desligar a televisão e propor uma alternativa sensorial mais calma: pôr música calma, ver fotografias antigas, dobrar roupa juntos, sair à varanda e/ou distrair com uma tarefa que lhe seja significativa e que faça a pessoa sentir-se útil.
Notas adicionais
- O objetivo não é convencê-la de que estava enganada.
É ajudá-la a sair do estado de alerta e a sentir-se segura.
Há respostas bem intencionadas que, na prática, pioram a agitação em vez de a resolver.
- Tentar explicar que a televisão não é real.
- Dizer que os apresentadores não estão a falar com ela, que as notícias não são sobre a família ou que as personagens são atores raramente ajuda. A pessoa não consegue integrar esta informação e pode sentir-se corrigida, desvalorizada ou ainda mais confusa.
- Forçar uma reorientação lógica em vez de acalmar primeiro. Antes de tentar mudar o foco, é preciso baixar a ativação emocional. Se a pessoa está assustada, nenhum argumento racional vai funcionar enquanto o medo estiver ativo.
Primeiro acalmar, depois redirecionar.
- Insistir em mudar de canal à força. Se a pessoa está perturbada, a solução não é trocar de programa enquanto ela ainda está a reagir ao anterior. É mais eficaz desligar a televisão, validar o que ela está a sentir e redirecionar para uma atividade calma.
- Usar a televisão como substituto de presença. Deixar a pessoa sozinha durante horas em frente ao ecrã pode parecer uma solução prática, mas frequentemente resulta em maior passividade, sonolência diurna, insónia noturna e episódios de agitação sem causa aparente.
A televisão não precisa de ser eliminada da vida de uma pessoa com demência. Mas precisa de ser repensada.
O que antes era um hábito inofensivo pode tornar-se uma fonte de confusão, medo e agitação, sobretudo quando o conteúdo é intenso, o ambiente não está adaptado e a pessoa está sozinha.
A boa notícia é que pequenas mudanças fazem diferença.
Baixar o volume. Evitar noticiários. Escolher programas calmos e familiares. Desligar quando ninguém está a ver. E, sempre que possível, ver em conjunto.
Se a televisão deixar a pessoa mais calma e ligada ao momento, está a cumprir a sua função. Se a deixar mais ansiosa, confusa ou presa a medos que não consegue processar, é altura de ajustar.
O primeiro passo pode ser simples: da próxima vez que ligar a televisão, observe. Repare no que ela vê. Repare em como reage. E, se necessário, desligue.
O silêncio também pode ser companhia.
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Sim, desde que os conteúdos sejam adequados e o tempo de exposição seja moderado. A televisão pode continuar a ser uma fonte de prazer, especialmente com programação calma e companhia.
Porque o cérebro já não consegue distinguir entre o que é real e o que é uma imagem gravada. Para ela, a pessoa no ecrã está presente na sala. Esta confusão é frequente e não deve ser corrigida com argumentos lógicos.
É aconselhável. Os noticiários combinam um tom alarmista, imagens perturbadoras e informação repetida, três elementos que aumentam a ansiedade. Se quiser manter-se informado, opte por ver as notícias noutro momento, noutra divisão ou noutro formato.
Desligue a televisão com calma, sem discussão. Valide o que ela está a sentir com frases simples como "percebo que isto te preocupa" ou "estou aqui contigo". Proponha uma mudança de ambiente ou de atividade.
Documentários de natureza, programas de culinária sem competição, musicais, filmes antigos e séries com episódios fechados. O ideal é que o ritmo seja lento, o tom seja positivo e os rostos sejam familiares.
Ao final da tarde, a pessoa acumula fadiga mental e tem menor tolerância a estímulos. A luz natural diminui, aumentando a confusão visual. Este fenómeno chama-se síndrome do pôr do sol e torna a pessoa mais vulnerável a conteúdos intensos.
Se a perturbação persiste depois de desligar, se a pessoa fica "presa" ao tema durante horas, ou se surgem comportamentos de fuga, como querer sair de casa ou trancar portas, a televisão está a ultrapassar o limiar do tolerável.
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