Quando a pessoa com demência não quer ir ao médico, a maioria das famílias tenta insistir, criar-lhe motivação ou usar argumentos racionais. Mas estas estratégias raramente resultam.
O seu familiar sempre foi cumpridor. Nunca faltava a consultas. Agora recusa-se, fica agitado quando se fala no assunto e/ou inventa desculpas para não ir.
A recusa em ir ao médico não é teimosia. É, muitas vezes, autoproteção.
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Quando não se entende que o facto de a pessoa não querer ir ao médico é uma reação emocional, tenta-se resolver com insistência.
Mas a insistência, neste caso, só piora tudo.
Este artigo explica por que é que a pessoa com demência não quer ir ao médico e apresenta cinco estratégias práticas para contornar esta resistência sem confrontos.
Quando a pessoa com demência não quer ir ao médico, o que está em causa não é a lógica de que "tem de ser". É o medo do que se vai descobrir
Muitas vezes, a pessoa já se apercebeu das suas dificuldades antes de todos à sua volta. Sabe que esquece nomes, que se perde nas conversas, que não consegue fazer o que fazia. Ir ao médico é confirmar o que mais teme.
A consulta médica representa perda de autonomia. Significa falar das suas falhas, expor vulnerabilidades, entregar decisões a terceiros. Para quem já sente que está a perder o controlo da própria vida, isto não é um processo fácil.
O medo não é irracional. É a antecipação de uma verdade dolorosa: que algo está errado e que não pode ser corrigido. Na demência, não querer ir ao médico funciona como barreira psicológica contra essa realidade.
A negação funciona como proteção psicológica. Se não for ao médico, não há diagnóstico. Se não há diagnóstico, não há problema. Esta lógica emocional sobrepõe-se a qualquer argumento racional.
Insistir com factos ("precisa de ir", "é importante") reforça a ameaça. A pessoa sente-se pressionada e aumenta a resistência. Quanto mais a família insiste, mais a pessoa recusa.
A negação não é má-fé nem teimosia. É uma tentativa desesperada de manter a ilusão de que tudo está bem, de que ainda tem controlo sobre a sua vida.
Muitas pessoas com demência guardam memória emocional de experiências hospitalares ou médicas negativas. Mesmo que não se recordem dos factos concretos, a emoção persiste: medo, desconforto, humilhação.
Consultas longas, salas de espera confusas, médicos apressados, procedimentos invasivos. Tudo isto deixa marca emocional que se ativa quando a palavra "médico" é mencionada.
A pessoa pode não explicar por que recusa. Pode nem se lembrar da experiência concreta. Mas o corpo lembra. E reage com recusa.
Os défices cognitivos na demência afetam a capacidade de compreender relações de causa-efeito. A pessoa pode não conseguir associar sintomas à necessidade de intervenção médica.
"Por que é que tenho de ir ao médico se me sinto bem?" Esta pergunta não é manipulação. É confusão genuína. A pessoa não processa que os esquecimentos, as tonturas ou as alterações de comportamento são sinais que exigem acompanhamento.
Explicar com lógica não funciona porque a capacidade de processar essas explicações está comprometida. É preciso contornar a explicação e trabalhar pela emoção e pela rotina.
Estas estratégias podem parecer desajustadas em alguns contextos. Pode até dar a sensação de que nunca iriam resultar com o seu familiar.
Mas posso garantir-lhe que, muitas vezes, é mais o seu receio de tentar do que a resistência do seu familiar.
Experimente. Aja com naturalidade.
Em vez de marcar uma consulta para a pessoa com demência, marque para si e convide-a a acompanhá-lo.
"Pai, tenho uma consulta médica e gostava da sua companhia. Estou com um bocadinho de receio… podes vir comigo para eu não ir sozinha?"
Esta abordagem inverte a dinâmica. A pessoa deixa de ser o "paciente" e passa a ser o "apoio". Sente-se útil, necessária, e não exposta. A resistência desaparece porque a ameaça desaparece.
Importante: nunca fale dos sintomas na presença da pessoa. Escreva num papel e entregue discretamente ao médico, ou telefone antes da consulta.
O médico conduzirá a conversa naturalmente, sem expor a pessoa.
Apresente a consulta como iniciativa externa, não como necessidade clínica.
"O centro de saúde está a fazer visitas de rotina a todas as pessoas com mais de 65 anos. Vêm cá a casa na quinta-feira medir a tensão."
Esta estratégia remove a escolha e, consequentemente, a resistência. A pessoa não se sente avaliada por ter um problema. É apenas parte de um programa geral de saúde pública.
Pode também recorrer ao médico particular ao domicílio, apresentando como uma especialidade mais bem aceite. Por exemplo, um fisioterapeuta para avaliar dores articulares ou um nutricionista para rever a alimentação.
A visita domiciliária tem vantagem adicional: elimina o ambiente clínico ameaçador. A pessoa está no seu território, sente-se segura, e a resistência diminui naturalmente.
A teleconsulta elimina a barreira da deslocação e do ambiente clínico.
"Estou a falar com um amigo por videochamada. Mãe, venha cá conhecer."
Apresente a consulta como conversa informal. Às vezes, o primeiro contacto informal abre caminho para consultas presenciais. O médico ganha a confiança da pessoa, e a resistência diminui.
Esta estratégia é particularmente útil em fases iniciais da demência, quando a pessoa ainda comunica bem mas apresenta resistência crescente a contextos médicos.
Não force a interação. Deixe que a conversa flua naturalmente. O médico habituado a lidar com demência saberá conduzir o diálogo sem pressionar.
Em vez de apresentar a ida ao médico como consequência de um problema, enquadre-a como oportunidade de reforço da saúde.
"Marcaram-me uma consulta para confirmar que está tudo bem com a tensão e o coração. É de rotina."
A pessoa sente que vai para confirmar o que está bem, e não porque está doente. Esta abordagem reduz a ansiedade e evita a perceção de perda de controlo.
Evite dizer:
Diga antes:
A mudança de linguagem parece subtil mas tem impacto profundo na reação emocional da pessoa.
Quando a pessoa com demência não quer ir ao médico, experimenta agendar a consulta próxima de algo que seja prazeroso ou familiar.
"Depois da consulta, vamos almoçar naquele restaurante... sabe? Onde se comem aquelas pataniscas..."
Associar o momento médico a uma recompensa concreta reduz a resistência. Dê mais enfoque ao almoço do que à consulta. A pessoa foca-se no prazer e não na ameaça.
Esta estratégia funciona porque ativa memória emocional positiva (o restaurante, o prato preferido) e dilui a ansiedade antecipatória da consulta.
Fale do almoço nos dias anteriores. Relembre sabores, ambiente, pessoas.
Quando chegar o dia, mencione a consulta apenas como etapa breve antes do verdadeiro evento.
"Precisa de ir ao médico porque tem de tomar a medicação certa. Se não for, pode piorar."
A pessoa com demência já não processa informação desta forma. A insistência lógica gera frustração em ambas as partes e aumenta a recusa.
O problema não é falta de compreensão. É incapacidade de processar raciocínio abstrato.
Argumente menos. Conduza mais. Use estratégias emocionais, não racionais.
"Na próxima semana tem consulta no médico."
Este aviso antecipado pode gerar ansiedade prolongada. A pessoa passa dias a remoer o medo, a inventar desculpas, a criar resistências. É melhor informar no próprio dia, poucas horas antes, com tranquilidade.
Se a pessoa perguntar nos dias anteriores, responda vagamente: "Sim, temos coisas para fazer esta semana."
"Vamos ao senhor doutor? Vai ser rapidinho, não se preocupe."
Este tipo de linguagem desrespeita a pessoa e reforça a perceção de perda de autonomia. Trata um adulto como criança. Desencadeia vergonha e resistência.
Mantenha sempre um tom adulto e respeitoso. A pessoa tem demência, não voltou a ser criança.
"Não é consulta, é só uma visita social ao centro de saúde."
Se a pessoa percebe que está a ser enganada, perde a confiança. As estratégias sugeridas neste artigo são reenquadramentos terapêuticos, não mentiras descaradas.
A diferença está na subtileza e na consistência.
Use versões credíveis da realidade. Não invente histórias impossíveis que a pessoa possa questionar ou desconfiar.
Puxar pelo braço, arrastar, empurrar para o carro enquanto a pessoa grita ou chora.
Nunca force. Além de ser desrespeitoso e potencialmente perigoso, destrói completamente a relação de confiança. Cria trauma que se reflete em todas as interações futuras.
Se a resistência for extrema, pare. Respire. Tente noutra altura com estratégia diferente. A urgência médica raramente justifica violência psicológica ou física.
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Quando a pessoa com demência não quer ir ao médico, mas existir risco imediato — quedas repetidas, confusão súbita intensa, recusa de medicação essencial para doença cardíaca ou diabetes — contacte o médico de família e explique a situação.
Muitos médicos podem prescrever com base em informação da família ou realizar consulta domiciliária urgente.
Em casos graves, contacte a linha Saúde 24 (808 24 24 24) para orientação.
Não deixe que a recusa médica ponha em risco a vida da pessoa. Nestes casos, a intervenção pode ter de ser assertiva, mas sempre com respeito.
Se experimentou várias ao longo de semanas e a resistência persiste, procure apoio de psicólogo clínico especializado em demência ou consulta de apoio ao cuidador.
Não desista. Mas também não insista sozinho até à exaustão. Peça ajuda.
Se as tentativas de levar a pessoa ao médico estão a criar conflito permanente, agressividade ou ruptura emocional, pare.
A relação é mais importante que a consulta. Procure mediação de terceiros (assistente social, enfermeiro de família, psicólogo) que possam assumir o papel de convencer a pessoa sem desgastar a relação familiar.
Às vezes, a pessoa aceita de um profissional o que recusa da família. Não é rejeição pessoal. É dinâmica de poder e controlo.
A recusa em ir ao médico é uma reação emocional de autoproteção, não é teimosia ou uma provocação. A pessoa com demência muitas vezes tem medo do diagnóstico, antecipa perda de controlo e usa a negação como escudo psicológico.
Estratégias que funcionam: tornar a consulta necessidade sua, apresentar como visita comunitária de rotina, usar teleconsulta informal, escolher foco positivo em vez de problema, transformar em experiência social com recompensa.
Estratégias que pioram: insistir com argumentos lógicos, avisar com muita antecedência, infantilizar a pessoa, mentir de forma óbvia, forçar fisicamente ou emocionalmente.
O primeiro passo prático: identifique qual das cinco estratégias se adequa melhor ao perfil e à relação que tem com o seu familiar. Experimente com naturalidade e calma.
Se não resultar, não insista — tente abordagem diferente.
E se nenhuma destas estratégias resultar após múltiplas tentativas, procure apoio profissional especializado. Não desista, mas também não se esgote sozinho.
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Contacte o médico de família e explique a situação. Muitos médicos podem prescrever com base em informação detalhada da família ou realizar consulta domiciliária urgente. Em casos graves, contacte a linha Saúde 24 (808 24 24 24) para orientação profissional imediata.
As estratégias apresentadas não são enganos mas reenquadramentos terapêuticos. O objetivo não é manipular mas reduzir ansiedade desnecessária que impede cuidados de saúde essenciais. A diferença está na intenção: proteger a pessoa, não controlá-la.
Procure apoio de psicólogo clínico especializado em demência, enfermeiro de família ou consulta de apoio ao cuidador. Existem técnicas comportamentais mais avançadas e, em último caso, o médico pode avaliar prescrição baseada apenas em informação familiar.
A pessoa com demência pode guardar memória emocional de experiências desagradáveis mesmo que não se recorde dos factos. Mude de médico, de local ou de formato (teleconsulta, domicílio). Reconstrua a confiança gradualmente, sem pressão.
Depende da relação da pessoa. Se existe alguém particularmente próximo ou respeitado, essa pessoa pode ter mais sucesso. Mas coordene a abordagem – mensagens contraditórias de diferentes familiares aumentam confusão e resistência.
Caso sinta que precisa de ajuda para si próprio(a), existem algumas alternativas na comunidade.
Pelo menos 48 horas. Insistir no dia seguinte reforça a associação negativa e aumenta a resistência futura. Use o tempo intermédio para tentar abordagem diferente ou envolver outra pessoa de confiança.
Porque a ameaça não é a saída em si, mas o contexto médico. A pessoa associa médicos a diagnósticos, medicação, perda de autonomia. Saídas sociais ou compras não têm essa carga emocional ameaçadora.
Telefone antes da consulta e explique: a pessoa não sabe que vem a consulta ou está ansiosa. Peça que evite perguntas diretas sobre memória ou confusão no início. Sugira abordagem conversacional empática. Informe sobre a estratégia usada (ex: "a consulta é minha").
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