O seu familiar com demência não quer tomar a medicação? 13 estratégias validadas

Introdução

O seu familiar com demência não quer tomar a medicação. Recusa o comprimido, afasta o copo, fica agitado. E a família não sabe o que fazer.

Este é um dos desafios mais frequentes e desgastantes no cuidado. Não é teimosia. Não é má vontade. É, muitas vezes, o cérebro que já não processa a informação da mesma forma e que, perante algo que não compreende, entra em modo de defesa.

Muitas famílias chegam ao desespero. Tentam convencer, insistir, esconder a medicação na comida. E mesmo assim, o comprimido fica por tomar. 

O objetivo é duplo: aumentar a adesão quando faz sentido e reduzir conflito e risco, sempre com apoio do(a) médico(a) ou farmacêutico(a) na revisão do esquema terapêutico.

⚡ Resumo Rápido

A recusa não é teimosia
O cérebro pode já não ter capacidade para processar a informação
Insistir só vai piorar a situação
Adaptar a abordagem é a única solução
Rever o plano de medicação com o médico pode simplificar tomas e reduzir efeitos adversos.
Nunca administrar de forma encoberta sem orientação clínica e acordo documentado.

⏳ Tempo de Leitura: 8 minutos

O conflito instala-se. A relação desgasta-se. E o medo de consequências clínicas aumenta.

Este artigo mostra-lhe como transformar esse momento num ato de cuidado, sem pressão, sem confronto e com maior probabilidade de sucesso. As estratégias que aqui encontra baseiam-se na prática clínica com famílias cuidadoras e podem ser adaptadas à realidade do seu familiar.

Por que é que o seu familiar com demência não quer tomar a medicação

Quando uma pessoa com demência não quer tomar a medicação, o problema raramente está na mensagem. Está na capacidade do cérebro para a processar.

Frases como "tens de tomar, é para o teu bem" ou "o médico disse" não chegam à pessoa. O cérebro já não consegue interpretar a lógica da necessidade. E quando sente pressão, ativa mecanismos de defesa: desconfiança, medo, resistência.

A recusa não é um ato deliberado de oposição. É uma resposta neurológica a algo que a pessoa não compreende ou que percebe como ameaçador. Compreender isto muda tudo. 

Porque deixamos de tentar convencer e passamos a adaptar a forma como apresentamos a medicação.

Outros fatores frequentes: dor não reconhecida, boca seca, próteses mal adaptadas, alterações visuais/auditivas, delírio, depressão, efeitos secundários (enjoo, tonturas) e maior confusão ao final do dia (‘sundowning’).

Validar a emoção antes da explicação reduz resistência.

⚠️ ATENÇÃO: Segurança

Não triture nem parta comprimidos de libertação prolongada, gastro‑resistentes ou cápsulas sem confirmação explícita.

Alguns perdem eficácia. Outros tornam-se perigosos. Em caso de dúvida, contacte:

Médico assistente
Farmácia de referência
Linha SNS 24: 808 24 24 24

Antes de alterar qualquer medicação, confirme sempre com o médico ou farmacêutico.

Não corte adesivos transdérmicos; respeite a duração e o local da pele recomendados.

Medicação crítica como anticoagulantes, antiepiléticos, antibióticos e insulina exige contacto médico rápido se houver recusas.

Se existir disfagia, siga as recomendações de terapia da fala (ex.: texturas, postura, espessantes).

13 estratégias práticas para quando o familiar com demência não quer tomar a medicação

1. Investigue as causas subjacentes

Antes de tentar novas abordagens, observe com atenção. A pessoa tem desconforto ao engolir? O medicamento mudou de cor ou formato? Há feridas na boca ou boca seca?

Por vezes, a solução está num problema físico simples que estava a passar despercebido.

Pergunte-se também: há desconfiança? O sabor é desagradável? Houve alterações na rotina? A pessoa acha que não precisa de medicação?

Sugestão prática: mantenha um diário durante uma semana. Anote quando há resistência e quando a medicação é aceite. 

Verifique dor (escala observacional, p. ex., expressão facial), boca seca/feridas, próteses, náuseas, tonturas na ortostatismo, alterações recentes de fármacos, luz/ruído no ambiente.

Procure padrões. Isso pode orientá-lo melhor do que qualquer estratégia genérica.

2. Identifique os momentos mais favoráveis

Observe quando a recusa acontece. É de manhã? Depois do almoço? Ao final do dia?

E quando corre bem? O que estava a acontecer nesse momento? Que abordagem foi usada?

Se o problema surge sempre à mesma hora, fale com o médico. Pode ser possível ajustar os horários, unificar doses ou reduzir o número de tomas diárias.

Tudo o que simplifica, protege. Descubra o momento em que o seu familiar está mais recetivo e adapte a rotina a esse padrão.

Se existir sintomas de ‘sundowning’, antecipe tomas para períodos de maior lucidez e reduza estímulos ao final da tarde.

3. Mostre a orientação médica de forma concreta

Crie uma receita médica simulada, escrita de forma simples e visível:

"Comprimido amarelo às 16h"
"Tomar o do coração ao pequeno-almoço"

Isto dá autoridade e segurança. Muitas vezes, a resistência não é contra o comprimido. É contra quem o está a dar.

Quando a indicação vem "do médico" de referência, com quem já existe confiança, a aceitação aumenta significativamente.

Pode usar um plano terapêutico com pictogramas e foto do comprimido.
Ter o nome e contacto da unidade de saúde visível aumenta confiança.

4. Use linguagem positiva e próxima

Quando a pessoa com demência não quer tomar medicação, nunca diga que é "para a demência" ou "para o problema que tem".

Comece por validar (‘Percebo que isto é chato’) e só depois convide (‘podemos tratar do coração agora?’)

Prefira frases como:

"É para o coração ficar com mais força."
"É para recuperar a energia."
"É para continuar a andar firme..."
"É para não deixar o coração cansar-se."
"É para não ter...(doença que a pessoa sempre teve medo de vir a ter)"

Ou inverta a lógica: "É para não ter aquela doença de que sempre teve medo."

Evite linguagem de doença. Use linguagem de bem-estar. O cérebro reage melhor ao que é familiar e tranquilizador.

5. Ajuste o formato da medicação

O problema pode estar na forma, não na intenção. Um comprimido inteiro pode ser difícil de engolir.
Considere alternativas: xarope, adesivo transdérmico, comprimidos orodispersíveis, líquidos ou adesivos, quando clinicamente indicadas.

Atenção
: só triture ou parta medicamentos depois de confirmar com o farmacêutico ou médico. Alguns perdem eficácia. Outros tornam-se perigosos.

Confirme com profissional de saúde sobre espessamento de líquidos e utensílios de deglutição se houver tosse/engasgos.

😔 Sente que nada está a funcionar?

Podemos ajudar com orientação personalizada adaptada à vossa realidade. Clique no botão abaixo 👇

6. Formas indiretas de apresentar a toma

Para pessoas em fases iniciais que ainda compreendem mensagens escritas, pequenos lembretes estratégicos podem ajudar:

"Cuidar do nosso corpo é cuidar de nós como merecemos."
"A Dra. [Nome] refere: Cuide de si, [Nome], merece!"

Este tipo de abordagem funciona bem em casas de banho ou junto à mesa da cozinha, locais onde a rotina medicamentosa pode ser integrada naturalmente.

7. Dê-lhe controlo

Se o seu familiar com demência não quer tomar a medicação, experimente colocar-lhe o comprimido na mão e dizer: "Toma quando quiseres."

Mesmo que demore, esta abordagem reduz desconfiança, agitação e agressividade. A autonomia é, muitas vezes, um antídoto poderoso contra a resistência.

Atenção: Certifique-se de que a pessoa engoliu e não escondeu ou deitou fora a medicação.

8. Use copo transparente

Nada de copos opacos. A pessoa precisa de ver o que está a beber. Se quiser cheirar ou examinar, deixe.

Não saber o que está a ingerir promove desconfiança. O ideal é apresentar sempre no mesmo copo ou caneca, da mesma forma, à mesma hora.

Esta estratégia costuma funcionar também quando existe recusa para beber água.

Evite palhinhas se houver suspeita de disfagia, salvo indicação da terapia da fala.

9. Crie um ritual previsível

Sempre à mesma hora, sempre da mesma forma. 

Ancore a toma a hábitos existentes (após escovar dentes, depois do café) e mantenha os mesmos objetos (copo, tabuleiro).

O que é familiar não assusta. A previsibilidade dá segurança.
A rotina estruturada protege.

10. Use o efeito espelho

Tome algo ao mesmo tempo. "Vamos tomar os nossos juntos."

Se for o cônjuge a fazê-lo, ainda melhor. Reduz a sensação de "só eu é que estou doente".

Mesmo que não tenha medicação para tomar, invente. Compre rebuçados ou vitaminas e tome em simultâneo. O efeito espelho funciona porque copiar é mais fácil do que compreender.

11. Associe a algo que a pessoa gosta

Durante uma conversa sobre o neto. Enquanto ouve a sua música preferida. Tente associar a toma sempre a algo que a pessoa gosta ou em que está entretida.

O prazer desarma defesas.

Use reforço positivo imediato e consistente (‘Isto é mesmo importante para continuares a ter força nas pernas...’)

💬 Frases que funcionam (e as que deve evitar)

"Vamos tomar os nossos juntos."
"É para o coração ficar forte."
"A tua amiga Maria também toma."
"O Dr. Silva deixou isto para ti."
"Toma quando quiseres."
"Este ajuda-te a andar melhor."
"Tens de tomar."
"É para a tua doença."
"Se não tomares, vais piorar."

A forma como comunicamos faz toda a diferença. Palavras positivas e familiares reduzem resistência.

12. Mostre que outros também o fazem

Se outros que conheço tomam, deve ser seguro. É assim que o cérebro funciona, especialmente quando está confuso.

Use prova social ética e verdadeira; evite comparações que envergonhem. Mencione o profissional de referência.

"A tua amiga Maria também toma."
"É igual ao que o teu irmão toma."
"É igual àquele que eu estava a tomar na semana passada."
"Este medicamento é aquele que a Dra. X recomenda para os ossos"

13. Quando nada resulta, recue e volte depois

Resistência total? Pare. Fale do tempo. Mostre uma fotografia. Ligue a televisão. Saia e volte daqui a 15 minutos como se nada fosse.

Mude um elemento do contexto na nova tentativa: local, pessoa que convida, narrativa ou sequência.

O cérebro "esquece" a resistência anterior e pode aceitar na próxima tentativa. Recuar também é uma estratégia.

Erros comuns quando a pessoa com demência não quer tomar a medicação

Quando o seu familiar com demência não quer tomar a medicação, misturar medicação em alimentos sem orientação médica pode ser perigoso. Alguns medicamentos não podem ser triturados. Outros perdem eficácia. E se a refeição não for consumida na totalidade, a dose fica incompleta.

Insistir repetidamente com argumentos racionais também não funciona. O cérebro já não processa a lógica da necessidade. Insistir só aumenta a resistência.

Alterar frequentemente a forma de apresentar a medicação confunde. A previsibilidade é essencial. Sempre que possível, mantenha o mesmo ritual.

❌ O que não fazer

Estes comportamentos aumentam a resistência e pioram a situação:

Insistir repetidamente
Usar argumentos racionais complexos
Forçar ou segurar a pessoa
Misturar sem autorização médica
Alterar horários constantemente
Envolver muitas pessoas na toma
Elevar o tom de voz
Negociar com ameaças (‘se não tomares, vais piorar’) - aumenta medo e recusa.
Mudar repetidamente de narrativa confunde. A coerência da história ajuda o cérebro a confiar.

Se se identificou em algum destes pontos, não se sinta culpado(a). Fazemos o melhor que conseguimos com as ferramentas que temos. O importante é temos cada vez mais ferramentas.

O seu familiar com demência não quer tomar a medicação: quando procurar ajuda médica?

Se a recusa se tornar persistente e impossibilitar a toma de medicação essencial, fale com o médico. Existem alternativas: ajuste de horários, redução de tomas, mudança de formato (líquido, adesivo, injetável).

Se a recusa vier acompanhada de agitação intensa, agressividade ou sinais de desconforto físico, procure orientação médica urgente.

Em alguns casos, a recusa pode ser sinal de outro problema: dor ao engolir, infeção urinária, desidratação, efeitos secundários ou depressão. Um médico pode identificar e resolver essas causas.

🚨 Procure ajuda médica urgente se:

Recusa persistente há mais de 3 dias
Perda de peso, desidratação, sinais de infeção.
Agitação ou agressividade intensa
Sinais de dor ou desconforto físico ao engolir
Surgimento súbito de recusa sem causa aparente
Engasgos repetidos, tosse ou voz molhada ao engolir.
Faltas a medicação crítica: anticoagulantes, antiepiléticos, antibióticos, insulina, corticoides em desmame.
Alteração no estado geral da pessoa

Não espere. Contacte o médico assistente imediatamente.

O que fazer quando o familiar com Demência não quer tomar a medicação: Síntese Final

Estas estratégias podem parecer simples. E são. Porque é disso que precisamos: simplicidade.

Não se trata apenas de garantir que o comprimido é tomado. Trata-se de manter a paz em casa, preservar a relação e reduzir o stress de todos.

Lembre-se: cada pessoa é única. O que resulta com a sua mãe pode não resultar com o seu pai. O que funcionou ontem pode falhar hoje. Seja flexível. Seja criativo. E principalmente, seja paciente consigo próprio também.

Porque no fim do dia, o que importa não é se a medicação foi tomada às 8h em ponto. O que importa é que conseguimos cuidar sem magoar, ajudar sem humilhar, e manter alguma paz neste caminho tão difícil.

Sempre que possível, simplifique o esquema (menos tomas, formatos mais fáceis) e alinhe objetivos de cuidado com a equipa clínica, sobretudo em demência avançada.

📞 Recursos de Apoio

Se precisar de orientação ou apoio, pode contactar:

Centro de Saúde: da sua área
Ajuda Médica: médico de família ou enfermeiro de referência

Peça avaliação de terapia da fala se houver suspeita de disfagia, e do(a) farmacêutico(a) para revisão de interações e alternativas de formato.

Não hesite em pedir ajuda. Cuidar de alguém com demência é desafiante e ninguém deve fazer este caminho sozinho.

❤️ Precisa de apoio?

Clique no botão abaixo para desenvolvermos estratégias específicas que funcionem para o seu familiar e para a sua família 👇

FAQs - Perguntas Frequentes

O que fazer quando a pessoa com demência não quer tomar a medicação?

Primeiro, identifique a causa: desconforto físico, desconfiança, horário inadequado. Depois, adapte a abordagem: use linguagem positiva, crie rituais previsíveis, associe a toma a algo agradável. Se persistir, recue e tente mais tarde.

O que fazer quando a pessoa cospe o comprimido?

Mantenha a calma, limpe, mude o contexto e tente mais tarde com outra narrativa ou formato aprovado (p. ex., orodispersível). Evite insistir naquele momento. Registe o ocorrido para discutir com o(a) médico(a).

Posso misturar a medicação na comida sem avisar?

Só com autorização médica formal. A administração encoberta é excecional e requer prescrição, registo na equipa clínica e acordo do representante legal. Alguns fármacos perdem eficácia quando triturados ou tornam‑se perigosos. Se a refeição não for totalmente consumida, a dose fica incompleta. Confirme sempre com médico(a) ou farmacêutico(a).

Por que é que o meu familiar com demência não quer tomar a medicação nuns dias e aceita noutros?

A demência afeta a capacidade de processar informação de forma inconsistente. Fadiga, ansiedade, alterações na rotina ou no ambiente podem influenciar. Mantenha um diário para identificar padrões e ajustar a abordagem.

Como registar padrões de aceitação/recusa?

Use um diário simples: hora, contexto, quem administrou, narrativa usada, formato, resultado e reações. Leve ao médico para otimizar o plano.

Devo forçar a toma se a medicação for essencial?

Não. Forçar aumenta agitação e desconfiança e dificulta tomas futuras. Se a recusa persistir e a medicação for crítica, contacte o médico para alternativas: ajuste de horários, redução do número de tomas, formatos alternativos (líquido, orodispersível, transdérmico) ou desprescrição quando clinicamente adequado.

Quanto tempo devo esperar antes de tentar novamente dar a medicação?

Entre 10 e 30 minutos. Volte como se nada tivesse acontecido, mudando um elemento do contexto. Evite mais de 2 tentativas na mesma hora para não escalar o stress.

Quantas vezes devo tentar no mesmo período?

No máximo 2 tentativas numa janela de 1 hora. Se houver recusa firme, recuar e retomar noutra janela favorável. Persistindo por mais de 3 dias, fale com o médico.

A recusa de medicação pode ser sinal de outra coisa?

Sim. Pode indicar dor ao engolir, infeção urinária, desidratação, efeitos secundários, obstipação, dor crónica ou depressão. Se a recusa surgir de repente ou com ‘voz molhada’ ao engolir, tosse/engasgos, febre, sonolência extrema ou confusão súbita, procure avaliação médica.

E se há suspeita de disfagia?

Pare de experimentar formatos por conta própria. Procure avaliação de terapia da fala. Sinais de alerta: engasgos repetidos, tosse durante/apos deglutição, ‘voz molhada’, perda de peso, pneumonias de repetição.

Como dar gotas oftálmicas ou inaladores?

Prepare o material, explique em linguagem simples, demonstre em si (‘efeito espelho’), peça para fechar os olhos após a gota.
Para inaladores, use espaçador quando indicado e verifique técnica com o profissional de saúde.

Como envolver outros familiares ou cuidadores nesta estratégia?

Partilhe o que funciona: horário, narrativa, ritual, formato. Mantenha consistência. Combine quem convida e quando. Registe sucessos/insucessos num diário simples para levar à consulta.

Artigos Relacionados

Estratégias e explicações simples para o dia a dia de quem cuida de um familiar com demência, escritas para quem precisa de respostas práticas, não de teorias.

Descubra como lidar com o seu familiar com demência quando tem alucinações e acha que está a ver ou a ouvir pessoas que não existem.

Descubra como a mentira terapêutica protege o bem-estar emocional e a dignidade da pessoa com demência. Como adaptar a comunicação.

A forma como falamos com uma pessoa com demência pode desencadear resistências e conflitos. Saiba adaptar a comunicação com o seu familiar

Para quem não quer cuidar às cegas...

Uma carta por semana com estratégias práticas para lidar com os desafios reais de cuidar de um familiar com demência, diretamente no seu email, todas as terças.

Política de Privacidade

Copyright 2025 © Filipa da Fonseca Dias - Consultoria de Envelhecimento - Unipessoal, Lda

E178616