Situações em que a pessoa com demência repete histórias do passado constantemente são um dos padrões de comportamento que mais desgastam as famílias.
A sua mãe volta a contar a história do dia do casamento. Pela terceira vez hoje. Quer ouvi-la, mas já não consegue disfarçar a impaciência.
Tenta lembrá-la de que já contou isso há meia hora. Ela fica confusa. E depois, sente-se culpado(a).
Não é a história que cansa, é o desgaste de sentir que ‘nada entra’. O objetivo prático não é acabar com a repetição, é reduzir a frustração e transformar o momento em algo prazeroso para ambas as partes.
⏳ Tempo de Leitura: 12 minutos
Este é um dos padrões mais frequentes nas demências. E um dos que mais desgasta as famílias.
Não porque a história seja aborrecida, mas porque parece que a pessoa não regista nada do que acontece agora, mas tem memória fotográfica de acontecimentos de há 50 anos.
Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde, mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência em todo o mundo, e a repetição de histórias é um dos comportamentos mais comuns nas fases iniciais e intermédias.
Neste artigo, vou explicar por que acontece esta repetição constante de memórias antigas, o que está realmente a falhar no cérebro, e como pode transformar este comportamento numa ferramenta de relação em vez de um foco de frustração.
Quando a pessoa com demência repete histórias não é teimosia, distração ou manipulação. É uma consequência direta de como a demência afeta a memória.
O cérebro humano organiza as memórias por camadas temporais e emocionais. Quando falamos de demência, essas camadas começam a falhar numa ordem previsível.
Este padrão de perda de memória varia consoante o tipo de demência, e cada um afeta o cérebro de forma ligeiramente diferente. Pode conhecer melhor os diferentes tipos de demência e as suas características específicas.
O que acabou de almoçar, quem telefonou há uma hora, onde pousou os óculos. Estes eventos recentes desaparecem porque o hipocampo, a estrutura cerebral responsável por consolidar novas memórias, está danificado.
A pessoa esquece-se do que estava a fazer enquanto o faz. Fica confusa no meio de tarefas simples. Não consegue seguir conversas longas porque perde o fio condutor.
A infância, o casamento, os filhos pequenos, o primeiro emprego. Estas memórias foram consolidadas há décadas, estão armazenadas noutras regiões cerebrais (como o córtex temporal e frontal), e resistem mais tempo ao processo degenerativo.
Esta é a razão pela qual a sua mãe não se lembra do que almoçou, mas descreve ao pormenor o vestido que usou no dia do casamento.
As memórias remotas são mais resistentes porque foram repetidas, revividas e consolidadas ao longo de décadas. Têm uma carga emocional forte. Estão associadas a identidade, a pertença, a segurança.
A saliência emocional funciona como ‘cola’ para as memórias remotas. Quanto maior a carga afetiva, maior a probabilidade de serem evocadas de forma automática quando o presente é instável.
Quando o cérebro já não consegue processar o presente, recorre ao que ainda está acessível: o passado.
E fá-lo de forma automática, sem que a pessoa tenha consciência de que já contou aquela história. Para ela, é sempre a primeira vez.
Esta é a razão neurológica pela qual a pessoa com demência repete histórias do passado em vez de criar novas memórias.
Mas nem toda a repetição é ‘memória’. Às vezes é uma forma de regulação emocional disfarçada de narrativa. Responder à emoção subjacente, e não ao conteúdo literal, reduz o ciclo repetitivo.
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A reação mais natural é tentar corrigir. Afinal, sempre funcionou assim: quando alguém se esquece de algo, lembramos. Quando alguém repete, avisamos.
Quando falamos de demência, esta lógica não se aplica.
O que as famílias dizem:
O que a pessoa com demência sente:
Este tipo de resposta não reduz a repetição. Aumenta a ansiedade. E a ansiedade, por sua vez, intensifica os comportamentos repetitivos.
Quando a pessoa se sente insegura, procura ainda mais aquilo que lhe dá estabilidade: as histórias do passado. É um ciclo que se auto-alimenta.
Sublinhe padrões: repete mais quando há barulho de fundo, fome, dor, longas esperas ou mudanças na rotina? Ajustar estes fatores reduz a frequência.
A pessoa com demência não tem controlo consciente sobre a repetição. Não está a escolher ignorar o que lhe disse. O cérebro simplesmente não regista que aquela conversa já aconteceu.
Corrigir é inútil porque a memória do episódio não existe. É como tentar apagar algo que nunca foi escrito.
O que funciona não é relembrar. É validar, acompanhar e redirecionar com suavidade.
Substitua a ‘correção’ por ‘ancoragem’: 1 validação + 1 pergunta simples + 1 ação curta. Sequências previsíveis acalmam.
Quando a pessoa com demência repete histórias da juventude constantemente, a pessoa está a tentar três coisas fundamentais
O presente tornou-se confuso. As pessoas à sua volta mudaram. Os ambientes são estranhos. Mas aquela história da infância ainda existe. E ao contá-la, procura validação: "Isto aconteceu. Isto sou eu. Isto é real. Oiçam-me."
A demência retira progressivamente a noção de quem se é. A pessoa deixa de reconhecer o seu papel atual (avó, reformada, viúva) e regressa aos papéis que lhe davam sentido no passado: a filha mais velha, a professora, a mãe de bebés.
Repetir essas histórias é uma forma de se manter ligada a quem foi. E isso dá segurança.
O passado é previsível. Não muda. Não traz surpresas. Falar dele acalma porque é território conhecido.
Se entrar nesse espaço com a pessoa, em vez de a puxar para o presente, a relação mantém-se. E isso protege o mais importante: a ligação entre quem cuida e quem é cuidado.
Se a história é sempre a mesma, identifique o ‘tema emocional’ (p. ex., pertença, competência, cuidado).
Depois, leve esse tema para o presente com uma ação concreta.
Agora que entende os motivos pelos quais a pessoa com demência repete histórias, seguem quatro estratégias que já testámos com sucesso junto das famílias que acompanhamos.
Estas estratégias baseiam-se em técnicas de comunicação validadas por sistemas de saúde internacionais e aplicadas em contexto clínico.
A pessoa não se lembra de ter contado aquela história. Para ela, é sempre nova. Se reagir com impaciência ("já me disse isso três vezes"), só aumenta a confusão e a vergonha.
Em vez disso: ouça com interesse genuíno, faça perguntas, sorria. Aceite que esta conversa vai repetir-se, e que isso faz parte do processo. Pode ser cansativo? Sim. Mas é menos desgastante do que entrar em conflito.
Exemplo prático:
A sua mãe conta pela quinta vez que trabalhou numa fábrica de conservas quando era jovem.
❌ Resposta desadequada: "Mãe, já me contou isso hoje de manhã."
✅ Resposta adequada: "Era um trabalho difícil, não era? Como é que era o ambiente lá?"
Esta abordagem mantém a pessoa calma, validada e ligada a si.
Use micro‑scripts de 10–15 segundos para poupar energia mental: validação + pergunta aberta curta (‘Adoro ouvir essa parte… o que acontecia a seguir?’). Ter 3–4 scripts prontos evita exaustão.
Em vez de tentar trazê-la para o presente, entre no tempo dela.
Não force a cronologia. Não corrija datas. Não insista em que "isso foi há 60 anos". Para ela, pode estar a acontecer agora..
Perguntas úteis:
Estas perguntas abrem espaço para memórias ricas, reduzem o stress e mantêm a pessoa ligada a si de forma emocional.
Crie ‘caixas de memória’ temáticas (2–3 objetos seguros ligados à história) para mãos ocupadas enquanto conversam.
Mãos ocupadas, mente mais calma.
Organize imagens antigas com pequenas legendas escritas à mão. Não precisa de ser perfeito. Precisa de ser funcional. Crie também uma versão digital simples no telemóvel para acessos rápidos fora de casa.
O que incluir:
Este álbum serve para:
Intercale fotos neutras entre memórias muito intensas para evitar sobre‑estimulação.
Se uma imagem reativa tristeza recorrente, retire‑a temporariamente e substitua por um elemento sensorial reconfortante e/ou valide e direcione para outro assunto.
Pode guardá-lo num local acessível e usá-lo sempre que a pessoa parecer ansiosa ou perdida.
Se a pessoa fala dos filhos como se ainda fossem crianças, não a corrija dizendo "mas eles já têm 50 anos". Em vez disso, valide a emoção sem corrigir o tempo.
Exemplo prático:
💬 Pessoa com demência: "Preciso de ir buscar os miúdos à escola."
❌ Resposta desadequada: "Os seus filhos já são adultos. Não há escola nenhuma."
✅ Resposta adequada: "Os seus filhos são muito importantes para si, não são? Vamos preparar o lanche para quando eles chegarem." e fechamos a tarefa de uma forma tranquila - "está tratado; agora descansamos 5 minutos".
Esta resposta:
💬 Pessoa com demência: "Tenho de ir trabalhar amanhã cedo."
❌ Resposta desadequada: "Pai, está reformado há 15 anos. Já não trabalha."
✅ Resposta adequada: "O seu trabalho era muito importante para si. Conte-me como era um dia normal lá."
💬 Pessoa com demência: "Onde está a minha mãe? Preciso de falar com ela."
❌ Resposta desadequada: "Oh mãe, a avó já morreu há 10 anos"
✅ Resposta adequada: "Está atrasada, adoro o arroz de marisco dela. Pode explicar-me a receita?"
"Não se lembra do que falámos ontem?" Não. Não se lembra. E perguntar só a faz sentir-se incapaz.
"Isso não foi assim. Foi de outra maneira." A pessoa não tem como verificar. Sente-se desautorizada, confusa e envergonhada.
Suspirar. Revirar os olhos. Dizer "já me contou isso mil vezes". Isto não reduz a repetição. Aumenta a ansiedade. E a ansiedade piora tudo.
Algumas famílias deixam de falar com a pessoa porque "ela já não percebe nada".
Isto é devastador. A pessoa perde o contacto humano, a estimulação cognitiva e o sentido de pertença. O isolamento social acelera o declínio.
Todas as pessoas repetem histórias ocasionalmente, sobretudo à medida que envelhecem. Mas há diferenças importantes.
Envelhecimento normal:
Sinais de demência:
Se está a observar estes sinais, deve procurar uma avaliação médica especializada.
Quando investigar
Se a repetição aumentar de forma súbita com sonolência, febre, dor, queda recente, obstipação marcada, infeção urinária suspeita ou nova medicação, procure avaliação médica — pode não ser apenas progressão da demência.
A repetição de histórias antigas faz parte do processo da demência. Não vai desaparecer. Mas pode deixar de ser um ponto de conflito.
Responda sempre como se fosse a primeira vez. Use as memórias antigas como ponte de comunicação. Evite corrigir. Valide a emoção, mesmo que o facto esteja impreciso.
Se conseguir entrar no tempo da pessoa, em vez de a forçar a vir para o seu, a relação mantém-se. E isso protege o mais importante: a ligação entre quem cuida e quem é cuidado.
Comece hoje por uma mudança pequena: da próxima vez que ouvir a mesma história, não corrija. Ouça como se fosse a primeira vez, faça uma pergunta, sorria.
Este é o primeiro passo para transformar a repetição num momento de relação, porque é uma excelente forma de conhecer melhor as experiências de vida do seu familiar - informações muito úteis à medida que a doença progride.
Acompanhe num diário os comportamentos do seu familiar: momento do dia, gatilhos, frase que funcionou, recurso que acalmou. Este mapa diminui tentativas às cegas.
Construa um ‘cantinho de orientação’ em casa com quadro visual simples: que dia é hoje, próxima atividade agradável e foto-gatilho. Ajuda nas perguntas repetitivas e baixa a necessidade de corrigir.
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Perguntas repetitivas pedem respostas curtas e consistentes + suporte visual fixo (quadro com ‘que dia é hoje’, ‘próxima visita’). Histórias pedem validação e curiosidade sobre o tema.
A demência repete histórias do passado porque o hipocampo, responsável por formar novas memórias, está danificado. As memórias recentes não se consolidam, mas as antigas (armazenadas há décadas noutras regiões cerebrais) permanecem acessíveis.
Sim, é completamente normal. A pessoa não tem consciência de que já contou aquela história porque o cérebro não regista que a conversa aconteceu. Para ela, é sempre a primeira vez. A frequência aumenta com ansiedade ou necessidade de validação. Se se concentra ao final da tarde, pode ser sintomas da síndrome do pôr-do-sol. Reduza estímulos, antecipe rotinas e acrescente luz quente indireta.
Não. A repetição é involuntária. O cérebro não regista que aquela conversa já aconteceu. A pessoa não tem controlo sobre este comportamento.
Não desaparece, mas a repetição deixa de ser compulsiva quando a emoção é acolhida e o ambiente é previsível. Procure reduzir, não eliminar.
Não é mentira. É adaptação à realidade dela. A pessoa está a viver aquela história como se fosse nova. Entrar nessa realidade é uma forma de cuidado, não de desonestidade.
Ouça com empatia. Valide a emoção ("isso deve ter sido muito difícil"). Não tente minimizar ou corrigir. Depois, redirecione suavemente para algo reconfortante: "Mas agora está aqui, está segura."
Se observar crescente sofrimento, troque para um elemento-âncora sensorial positivo previamente testado (música X, manta com cheiro familiar) antes de redirecionar.
Não existe medicação específica para a repetição de histórias. Alguns fármacos podem reduzir ansiedade ou agitação, mas têm efeitos secundários. A abordagem mais eficaz é comportamental: validação, rotinas estruturadas, redução de stress. Esteja atento a sinais de dor, sono, ansiedade e efeitos de novos fármacos com a equipa clínica; interações e desconfortos físicos amplificam repetição.
Depende do tipo de demência e da progressão da doença. Em fases mais avançadas, a pessoa pode perder progressivamente a capacidade de contar histórias completas, mas a necessidade de se relacionar e de segurança mantém-se.
Não. O objetivo não é a precisão factual, é a conexão emocional. Se a história a acalma, não importa se alguns detalhes estão alterados. O que importa é o sentido que ela está a construir.
É natural sentir-se cansado. Pode pedir ajuda a outro familiar para partilhar este peso. Pode sair da sala alguns minutos. Pode usar o álbum de fotografias como distração. Estabeleça ‘turnos de escuta’ entre familiares.
Use um temporizador discreto para pausas programadas. Cuidar de si é fundamental para conseguir cuidar do outro.
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