Quando uma pessoa com demência bebe álcool, a família fica quase sempre presa no mesmo impasse. De um lado, a sensação de que o copo já não lhe faz bem. Do outro, a certeza de que tirá-lo seria mais uma perda, somada a tantas outras. E no meio, uma pergunta que ninguém respondeu de forma satisfatória: tira-se ou deixa-se?
O copo de vinho ao almoço, a cerveja ao fim do dia, o tinto que sempre fez parte da refeição. Para muita gente desta geração, e ainda mais numa cultura como a portuguesa, beber vinho à mesa nunca foi visto como beber álcool. Era comer, fazia parte do que a pessoa era. É por isso que a questão não se resolve com a frase: "faz mal, corte". Faz mal, é verdade, e mais à frente explico os motivos.
Mas tirar o copo a um homem de oitenta anos que bebeu vinho à refeição a vida inteira mexe com muito mais do que com a saúde do fígado. Mexe com quem ele ainda sente que é. Quando uma pessoa com demência bebe álcool, a pergunta útil não é como fazer para ela parar. É o que está este copo a fazer ao cérebro dela, e o que está a representar para ela. Quando a pessoa com demência bebe álcool, é da soma destas duas respostas que sai a decisão de cortar, de reduzir, ou de deixar. Quem disser que há uma regra igual para todos está a esquecer-se de que cada pessoa é diferente.
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O que se passa no corpo já não é o que era quando uma pessoa com demência bebe álcool. O fígado processa o álcool mais devagar, a água total no corpo diminui, e a mesma dose passa a circular mais concentrada e durante mais tempo. O que durante quarenta anos foram dois dedos de vinho sem qualquer consequência pode ter agora o efeito de um copo cheio. A pessoa bebe o mesmo que sempre bebeu. O que mudou foi o corpo, que aguenta muito menos do que aguentava.
A isto junta-se o que se passa num cérebro que já tem demência. O álcool não cria sintomas novos. Pega nos que a doença já provoca, a confusão, a desorientação, a dificuldade em encontrar as palavras, e piora-os durante umas horas.
A investigação ainda discute a relação entre o álcool e o risco de vir a ter demência, e sobre isso sou honesta mais à frente, mas há um ponto em que há acordo: o álcool reduz o volume da substância branca do cérebro, a parte que liga as várias zonas entre si. Num cérebro onde essas ligações já estão a falhar, retirar-lhes mais capacidade tem um custo imediato.
Como a pessoa parece a mesma, e o copo é o de sempre, e a quantidade não aumentou, ninguém liga a confusão das seis da tarde ao que se bebeu ao almoço. Já perdi a conta às vezes que ouvi, em consulta, «a medicação parece que deixou de fazer efeito» ou «piorou de repente e não percebemos porquê». E quando se olha para o dia todo, lá está o vinho da refeição, todos os dias, a fazer um trabalho silencioso que ninguém tinha contabilizado.
O primeiro instinto da família é tratar isto como uma questão de bom senso.
Diz-se «o médico disse que não pode» e espera-se que a pessoa perceba e aceite.
Não percebe, e não é por má vontade. A capacidade de pesar um risco futuro contra um prazer presente depende de zonas do cérebro que a demência atinge cedo. Pedir a alguém com demência que abdique do copo por causa de uma queda que pode vir é pedir-lhe uma operação mental que o cérebro pode já não conseguir fazer.
E há uma parte que depende inteiramente de nós, a forma como se diz.
Um «não podes beber» dito como ordem altera logo a reação, e isto vê-se sempre.
A pessoa sente que lhe estão a tirar autoridade sobre a própria vida, e a resposta natural é provar que ainda manda em si, continuando a fazer aquilo que sempre fez.
Há ainda dois mecanismos que ajudam a perceber a insistência.
O primeiro é a falha de memória. Por causa dela, a pessoa enche o copo, bebe, pousa, e passados minutos volta a enchê-lo convencida de que é o primeiro. Não está a esconder nem a abusar no sentido em que se costuma usar a palavra. É o mesmo mecanismo que a leva a repetir a mesma pergunta três vezes na mesma tarde, aplicado ao copo. Quem percebe isto deixa de discutir e passa a gerir o acesso.
O segundo é o gesto propriamente dito. Pegar no copo, levá-lo à boca, pousá-lo, faz parte daqueles movimentos tão repetidos ao longo da vida que sobrevivem quando já se perdeu coisa muito mais recente. Muitas vezes a pessoa não anda atrás do efeito do álcool, anda atrás do gesto, da hora, da sensação de ainda ser quem sempre foi.
Por isso, quando se tira o copo sem pôr nada no lugar, tira-se à pessoa um dos últimos pontos em que ela ainda se reconhece, e essa perda costuma traduzir-se em forma de irritação, de insistência, de agitação.
Vale ainda reparar a que horas a procura aparece. Quando é sempre ao fim da tarde, à medida que a luz cai, muitas vezes o que aparece não é vontade de vinho mas a agitação do fim do dia, e o copo é a forma que a pessoa tem de a acalmar.
Quando se pensa nos perigos do álcool na velhice, pensa-se logo no fígado e no coração. No dia a dia de quem cuida, o risco mais imediato é outro.
Uma pessoa com demência toma, em regra, vários medicamentos ao mesmo tempo, para a memória, para dormir, para a tensão, para o ânimo. Não vou dizer quais combinam mal com o álcool, nem nomear nenhum, porque isso depende do caso e é decisão de quem segue a pessoa.
O que deixo é a pergunta para levar à consulta: a soma do que ela bebe com tudo o que ela toma está a fazer-lhe mal?
É uma pergunta que o médico ou o farmacêutico respondem olhando para a lista.
Se a dificuldade for fazer a pessoa aceitar a própria medicação, é um problema separado, tratado em quando a pessoa com demência não quer tomar a medicação.
Depois há as quedas, que nesta fase raramente são só quedas. O álcool mexe com o equilíbrio muito antes de se notar qualquer sinal de embriaguez, e num cérebro com demência, onde a coordenação já está frágil, basta pouco para o risco de cair subir.
E uma queda pode ser a fratura da anca, o internamento, a perda de mobilidade que nunca mais se recupera. Se a pessoa anda a cair mais e bebe com regularidade, há boas razões para olhar com seriedade para a relação entre as duas coisas.
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Não há uma resposta que sirva para toda a gente, e desconfie de quem lhe der uma. A decisão pesa-se com três perguntas, e sai da soma das três.
A primeira é: Quando a pessoa com demência bebe álcool, o que está este consumo a fazer, em concreto, a esta pessoa? Há mais quedas? Há mais confusão nas horas a seguir? A medicação parece estar a ser anulada? Quando as respostas são sim, o assunto deixa de ser sobre prazer e passa a ser sobre segurança.
A segunda é sobre o que o copo significa. Quando a pessoa com demência bebe álcool, para uma é um hábito quase sem importância, que se substitui sem resistência. Para outra, é dos últimos sítios onde ainda se reconhece.
A terceira é o custo da guerra. Travar uma batalha diária pelo copo gasta a energia e a paciência que vão fazer falta mais à frente, quando chegarem problemas bem maiores do que o álcool representa no contexto em específico. Às vezes, e digo isto com cuidado, o custo de cortar à força é maior do que o de deixar beber pouco e em segurança.
Quando a pessoa com demência bebe álcool e o dano é claro, protege-se, mesmo doendo. Se o dano é pequeno, o copo significa muito e a guerra seria desgastante, faz mais sentido reduzir com inteligência e manter o prazer possível. A maioria dos casos vive neste meio-termo. O objetivo, salvo quando há um risco sério, não é fazer da pessoa um abstémio aos oitenta anos. É proteger o cérebro, baixar o risco, e guardar o que ainda houver de bom em estar à mesa.
Há situações em que reduzir não chega.
Reconhecem-se por sinais concretos: quedas que se repetem, confusão que aumentou de forma clara e que se mantém, agressividade ou agitação intensa sempre depois de beber, ou indicação direta do médico para abstinência.
Quando estes sinais aparecem, a firmeza da família passa a ser uma forma de cuidar.
Numa pessoa que bebia muito e há muitos anos, parar o álcool de um dia para o outro pode ser perigoso. O corpo habituou-se, e a retirada brusca pode provocar sintomas sérios de privação. Em quem bebia em grande quantidade, a passagem para a abstinência tem de ser acompanhada por um médico, que define o ritmo seguro.
Há aqui uma armadilha: enquanto a pessoa não está abstinente há algumas semanas, é difícil saber quanto da confusão vem da demência e quanto vem do próprio álcool ou da privação, e por isso a avaliação serena só é possível depois de o consumo parar com acompanhamento. A decisão de cortar pode ser da família, mas o ritmo, sobretudo em grandes consumidores, é do médico.
A primeira reação da maioria das famílias é uma de duas. Ou se ignora, com o argumento de que «sempre bebeu e nunca fez mal». Ou se proíbe de uma vez.
Nenhuma costuma resultar. Ignorar deixa o dano a acontecer à vista de todos. Proibir gera discussão e, muitas vezes, leva a pessoa a beber às escondidas. O caminho que funciona é o do meio, feito aos poucos, um passo de cada vez.
Antes de qualquer decisão, e isto vale sempre que uma pessoa com demência bebe álcool, é preciso saber se o consumo está a interferir com a medicação ou a agravar os sintomas. Leve à consulta uma lista concreta, o tipo de bebida, a quantidade, as horas, e faça a pergunta de forma direta.
O que dizer ao médico:
«Ele bebe cerca de dois copos de vinho ao almoço. Isto pode estar a piorar a confusão da tarde?»
«Isto pode estar a anular o efeito da medicação que ela toma?»
O que evitar:
«Acha que ele devia deixar de beber?» (uma pergunta vaga só recebe uma resposta vaga)
Antes das substituições, há uma coisa a corrigir, e é de graça. Tirar a palavra ordem da conversa. «Não podes beber» é a frase que garante a resistência.
Em vez de proibir, redireciona-se sem confronto, oferece-se outra coisa, muda-se o momento. A pessoa nunca tem de ouvir que perdeu o direito ao copo. O que se faz é ir adaptando as coisas à volta dela, com discrição, sem nunca lhe apontar uma proibição.
Tentar convencer não vai resultar, acredite em mim!
Não se retira de uma vez a uma pessoa com demência que bebe álcool todos os dias.
Passa-se de dois copos para um. Servir num copo mais pequeno. Diluir com água, o que resulta melhor com branco ou rosé do que com tinto. O ritual mantém-se e a quantidade real de álcool desce, e como a memória recente está afetada, a pessoa muitas vezes nem dá pela diferença, desde que o resto se mantenha igual.
O que dizer:
«Aqui está o seu copo.» (e serve-se a versão reduzida, sem anunciar nada)
O que evitar:
«A partir de hoje só bebe metade.» (anunciar a redução transforma-a numa perda)
Quando uma pessoa com demência bebe álcool sobretudo por hábito, esta é a estratégia que tendencialmente mais resulta.
Servir sumo de uva no copo do costume, ou uma das muitas alternativas que hoje existem, vinho sem álcool nas três cores, cerveja sem álcool, espumante sem álcool, sidra sem álcool. Na aparência e no ritual é praticamente igual, e é o ritual que a pessoa procura. Se a pessoa reconhece a garrafa habitual, pode encher-se essa garrafa com a versão sem álcool ou com sumo de uva, e a transição acontece sem discussão.
Sei que isto levanta uma dúvida a muita gente, e respondo-lhe sem rodeios: não, isto não é enganar. A pessoa com demência já não vive na mesma realidade que nós, e insistir em trazê-la à força para a nossa só lhe causa sofrimento.
Adaptar o que ela vê às capacidades que ainda tem, para lhe poupar uma perda que já não compreenderia, é uma forma de a respeitar. É a mesma lógica de não corrigir alguém que pergunta por uma mãe que já morreu há trinta anos.
O que dizer:
«Provei este vinho novo, é capaz de gostar.»
O que evitar:
«Isto não tem álcool, é melhor para si.» (assim a pessoa rejeita por princípio, antes de provar)
Usar sempre o copo habitual e, com a pessoa com demência que bebe álcool por hábito, servir a bebida antes de ela a pedir, para não haver espaço para negociar.
Guardar o álcool fora da vista e deixar à mão as alternativas. E, sempre que se puder, beber o mesmo ao lado dela, porque quando todos à mesa bebem o mesmo, a pessoa aceita com mais naturalidade. Quando a pessoa com demência bebe álcool e resiste a mudanças, ajuda ainda apresentar a alternativa como um presente, e não como substituição: «Trouxeram-me isto para si, é um vinho novo que saiu agora.»
Uma bebida que chega como prenda é aceite com muito menos resistência do que uma decisão imposta de cima.
Uma pessoa com demência que bebe álcool mantém muitas vezes os percursos de sempre. O café da esquina onde toma o aperitivo, a pastelaria onde sempre parou, o restaurante de domingo. E é nesses sítios, longe da família, que o copo a mais costuma escapar ao controlo. Aqui entra uma das ferramentas mais subestimadas no cuidado, a rede de apoio do bairro.
Quando a pessoa com demência bebe álcool nos sítios de sempre, vale a pena ir falar com quem atende. Pedir, com discrição, que quando a pessoa pedir o aperitivo ou o copo de vinho, respondam que hoje não há, que acabou, e ofereçam outra coisa no lugar, um sumo, uma água com gás, um café.
Na maioria dos sítios de bairro, onde se conhece a pessoa de há anos, esta conversa é recebida com cuidado e não com estranheza. A pessoa não vive a recusa como proibição, porque «acabou» é coisa que sempre aconteceu nos cafés, e segue para outra coisa sem o conflito que haveria se fosse a família a dizer que não. É uma forma de proteger sem vigiar, sem ter de acompanhar a pessoa a todo o lado nem de a confinar a casa.
O convívio é outra história, e muda quando a pessoa com demência bebe álcool entre os outros. Nas festas de família, nos almoços de domingo, há uma associação antiga e funda entre estar com os outros e levantar um copo. Transformar isso num problema à frente de toda a gente custa caro, e custa sobretudo à pessoa, que se sente apontada à mesa onde devia sentir-se em casa.
Por isso, em momentos de convívio, mantêm-se os rótulos das garrafas de sempre, serve-se o vinho com naturalidade, e não se anuncia em público que a pessoa não pode beber. Dentro da garrafa habitual pode estar a versão sem álcool ou um vinho diluído, ou o copo dela pode ser servido com menos, sem que ninguém à mesa repare. O que conta é que a pessoa continue a fazer parte do brinde e da mesa cheia, sem ser o assunto.
Durante duas semanas, vale a pena apontar num caderno o que a pessoa bebeu, a que horas, e como ficou nas horas seguintes. Houve mais confusão, mais irritação, mais quedas? Ou não se notou diferença?
Este registo mostra, em concreto, se o álcool está mesmo a agravar os sintomas naquela pessoa, ou se a família está a preocupar-se com algo que, naquele caso, tem pouco peso, porque o efeito varia muito de pessoa para pessoa. E dá um documento concreto para levar à consulta.
Se nenhuma substituição pega à primeira, vai-se com calma.
Dilui-se aos poucos, troca-se o conteúdo mantendo o copo e o contexto, antecipa-se o ritual para uma hora de menos agitação. Mas isto não pode virar uma batalha diária: se num dia a pessoa insiste e fica agitada, serve-se o mínimo, muda-se de assunto, e no dia seguinte tenta-se de novo.
E quando os sinais de alarme aparecem e é mesmo preciso cortar, retiram-se as bebidas de casa e serve-se só a alternativa, mantendo intacta a parte visual do ritual, o copo, a hora, o lugar à mesa. Na maioria dos casos, a memória recente já não permite que a pessoa exija o vinho de sempre, desde que o momento continue a parecer-lhe familiar.
Há reações que parecem certas e só pioram a situação.
A primeira é discutir e tentar convencer pela lógica.
Dizer «o médico disse que não pode» não funciona, porque a parte do cérebro que avalia riscos é justamente a que a doença danificou primeiro. Cada discussão cansa os dois e não muda nada.
Não anunciar em público, à mesa, que a pessoa não pode beber. Apontar alguém à frente dos outros gera vergonha e revolta, e estraga o convívio que se queria proteger.
Não cortar de repente a bebida de quem bebia muito, porque num grande consumidor e apreciador a retirada brusca pode ser perigosa e tem de ser acompanhada por um médico.
Não esconder a garrafa sem deixar alternativa à vista, porque tirar sem substituir costuma aumentar a procura e a agitação.
Não repreender depois de a pessoa ter bebido a mais. Ela não se lembra de ter bebido, e fica-lhe só a sensação confusa de ter feito algo errado sem saber o quê, que alimenta a agitação.
Há um ponto em que a questão do álcool, numa pessoa com demência que bebe álcool, deixa de caber dentro do que uma família consegue gerir sozinha.
Quando o consumo está ligado a quedas, quando há agressividade depois de beber, quando a pessoa bebia muito e é preciso planear uma retirada segura, ou quando todas as tentativas em casa esbarram em conflito e esgotamento, é altura de não continuar a tentar sozinho.
O médico de família e o médico que segue a demência são o primeiro recurso, sobretudo para a medicação e a abstinência acompanhada. Mas há também o lado da gestão do dia a dia, das estratégias, da forma de comunicar, em que um acompanhamento de quem trabalha com demência poupa meses de tentativa e erro.
Quando uma pessoa com demência bebe álcool, a pergunta nunca foi como a fazer parar. Foi o que está aquele copo a fazer ao cérebro dela e o que está a representar para ela, e toda a decisão sai daí. Se o dano é claro, protege-se, ainda que custe.
O confronto, a ordem e a proibição à frente dos outros quase nunca resultam.
O que costuma resultar é mudar o conteúdo e manter o copo, reduzir sem anunciar, pôr o café do bairro do lado de quem cuida, servir o vinho com naturalidade nos almoços sem fazer disso um problema. É um passo a passo, e quase tudo se joga na forma como se faz, mais do que na bebida em si.
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O caminho que melhor resulta passa por substituir o conteúdo mantendo o ritual, em vez de proibir. Usar o copo do costume, servir uma alternativa sem álcool, reduzir a quantidade sem anunciar, apresentar as novidades como oferta. Quando uma pessoa com demência bebe álcool por hábito, é o gesto que ela procura, e o gesto pode manter-se quase intacto.
O melhor é não lho dizer como ordem. Um «não podes beber» faz a pessoa querer provar que ainda manda em si, e a resistência aumenta. Em vez de proibir, redireciona-se, oferece-se outra coisa, muda-se o momento. A adaptação acontece à volta da pessoa, sem que ela tenha de ouvir que perdeu o direito ao copo.
A investigação ainda discute a relação entre o álcool e o risco de vir a ter demência, e há estudos a apontar em sentidos diferentes. O que está mais assente é que o consumo excessivo está ligado a maior risco, e que o álcool reduz o volume da substância branca do cérebro. Numa pessoa que já tem demência, o efeito que mais se vê no dia a dia recai sobre as quedas, a confusão das horas seguintes e a resposta à medicação.
Use a rede do bairro. Vale a pena falar com o dono do café ou da pastelaria do costume e pedir, com discrição, que respondam que hoje não há ou que acabou quando a pessoa pedir o aperitivo, oferecendo outra coisa no lugar. Num sítio onde a conhecem há anos, isto costuma ser bem recebido, e a pessoa aceita um «acabou» do café sem o conflito que haveria com a família.
Sim, e não é enganar. Numa demência, adaptar o que a pessoa vê às capacidades que ainda tem, para lhe poupar uma perda que já não compreenderia, é uma forma de cuidar. Servir vinho sem álcool no copo do costume, ou na garrafa habitual, costuma permitir manter o ritual sem o dano que o álcool traria.
Mantenha os rótulos das garrafas de sempre e sirva o vinho com naturalidade, sem anunciar à mesa que a pessoa não pode beber. Dentro da garrafa habitual pode estar a versão sem álcool ou um vinho diluído. O que conta é que a pessoa continue a fazer parte do brinde e da mesa sem ser o assunto.
Retire o álcool do alcance e deixe alternativas bem à vista, porque esconder sem substituir costuma aumentar a procura. Depois, perceba se o beber escondido está ligado a inquietação a certas horas, e trabalhe essa inquietação com rotina e com bebidas calmantes ao fim da tarde, em vez de travar a guerra apenas na bebida.
Não sem falar primeiro com o médico. Em quem bebia muito durante muitos anos, parar de repente pode provocar sintomas de privação perigosos. A retirada é o caminho certo quando há dano, mas o ritmo seguro tem de ser definido por um profissional de saúde.
É um sinal de alarme que merece atenção. Agitação ou agressividade que aparecem sempre depois de beber estão entre as situações em que reduzir já não chega e a abstinência passa a ser o caminho. Fale com o médico.
Como tirar a carta de condução a um familiar com demência: quem decide, o que a lei permite e o caminho mais simples.
O seu familiar com demência parece bem à frente das pessoas mas em casa é outro? Explico-lhe porque acontece e 3 passos concretos para agir.
Consultoria de Envelhecimento Agendar Consulta Pessoa com demência bebe álcool? 8 Estratégias Práticas Introdução Quando uma pessoa com demência bebe álcool, a família fica quase sempre presa no mesmo impasse. De um lado, a sensação de que o copo já não lhe faz bem. Do outro, a certeza de que tirá-lo seria mais uma perda, somada a tantas outras. E…