Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro durante horas, a reação mais comum é mandar sentar. A pessoa senta-se um minuto e levanta-se outra vez. O andar tem quase sempre um motivo, e enquanto o motivo não aparece, nenhuma ordem para parar resulta.
Vou contar-lhe o que vejo com frequência nas consultas: as famílias chegam exaustas, já tentaram tudo, e ninguém lhes explicou que há vários tipos de andar e que cada um pede uma resposta diferente.
Pode ser uma rotina antiga, medo, dor, tédio, ou um efeito da própria medicação. As causas mais comuns estão neste artigo, como distingui-las, e o que fazer com cada uma.
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Visto de fora, quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, o andar parece não ter destino. É por isso que tantas famílias, e alguns profissionais, o leem como confusão sem sentido.
Lembro-me do Sr. Henrique, que percorria a casa num circuito repetido ao fim da tarde. Tinha passado a vida no mar, e o corpo dele, àquela hora, ainda se punha a caminho do trabalho. Andava para um sítio certo de uma vida que já não existia.
O andar pode vir de a pessoa estar desorientada e à procura do caminho de volta.
Pode intensificar-se depois de uma mudança de casa ou da ida para um sítio novo, quando a pessoa já não consegue orientar-se ali.
Pode ser uma forma de dizer sinto-me perdido, estou à procura do que sinto que perdi. E pode ser apenas o corpo a precisar de se mexer, de gastar energia, de fazer alguma coisa.
Há ainda o andar que nasce de um mau momento. Algo assusta ou incomoda a pessoa, ela não consegue perceber o que se passa à volta, interpreta mal o que vê ou ouve, e o corpo responde deambulando. Reconhecer de qual destes andares se trata é o que permite ajudar, porque cada um pede uma intervenção diferente.
Nem toda a pessoa com demência anda de um lado para o outro pela mesma razão.
A pessoa levanta-se sempre à mesma hora e vai sempre para o mesmo sítio, muitas vezes a porta ou a janela.
É o corpo a cumprir o horário de uma vida, ir para o turno, buscar os filhos, abrir a loja.
A memória de sempre resiste à doença mais do que os nomes e as datas.
Contrariar não devolve a pessoa à nossa realidade, só a assusta. O melhor é devolver-lhe tarefas e atividades que lhe sejam significativas e que representem a utilidade que desempenhava naquele horário.
Há alturas em que a pessoa com demência anda de um lado para o outro depressa, com o rosto tenso, a esfregar as mãos, a repetir uma frase.
Costuma acontecer quando há barulho a mais, gente a mais, uma discussão por perto, ou uma exigência que ela não consegue cumprir. O sentimento por trás é quase sempre medo e ansiedade e o corpo anda para o descarregar.
A pessoa passou a vida a ser precisa, a tratar de uma casa, a decidir, a trabalhar, e de repente os dias esvaziaram-se. Ninguém lhe pede nada.
O corpo, que ainda quer servir para alguma coisa, levanta-se e anda à procura de um lugar onde faça falta. É fácil dizer que ela não quer fazer nada.
Quase sempre é o contrário: ninguém lhe ofereceu nada que fizesse sentido para quem ela é. O Sr. Henrique recusava todas as atividades até alguém lhe pôr uma corda nas mãos e ele voltar a fazer nós de marinheiro.
Uma bexiga cheia anda. Uma prisão de ventre anda. Uma dor de dentes, uma dor nas costas, um sapato apertado, calor a mais, tudo isto anda.
E não é só a dificuldade em dizer. A pessoa pode ainda falar de muitas coisas e, mesmo assim, já não reconhecer o próprio desconforto. Passa-se alguma coisa, mas não sabe bem o quê.
Acontece-nos a todos: há dias em que estamos impacientes, mal dispostos, e só mais tarde percebemos que era fome, ou sono, ou uma dor a começar.
Na demência, isto é a regra. Uma infeção urinária, muito frequente nas pessoas idosas, dá muitas vezes a cara assim, com inquietação e um andar que não é o do costume.
Quando a pessoa com demência anda de um lado para o outro de repente e de forma diferente, o corpo é o primeiro a ser investigado.
O cérebro com demência gasta ao longo do dia o pouco que tem para se orientar e para se conter. Ao fim da tarde, essa reserva tendencialmente acabou.
A luz muda, as sombras aumentam, e a mesma pessoa que de manhã andava tranquila agora anda de um lado para o outro carregada de aflição.
Chama-se a isto síndrome do entardecer. A hora em que a pessoa está no limite é também aquela em que quem cuida está mais cansado. E por essa razão fica mais agitado, desorientado e anda de um lado para o outro.
Este é o menos conhecido e o mais importante. Alguns medicamentos, sobretudo os antipsicóticos receitados para acalmar a agitação, provocam uma inquietação nas pernas que obriga a pessoa a mexer-se sem parar.
Chama-se acatisia. Vejo esta sequência repetir-se: a pessoa com demência anda de um lado para o outro, lê-se como agitação, aumenta-se o antipsicótico, o medicamento provoca mais inquietação, a pessoa anda mais.
O andar que se queria travar passa a ser alimentado pelo comprimido que se deu para o travar. Quando o andar aparece ou piora logo depois de começar ou aumentar um medicamento, fala-se com o médico antes de mexer na dose.
Nem sempre que uma pessoa com demência anda de um lado para o outro é urgência, mas alguns sinais são.
Quando o andar surge de repente, num dia ou dois, com a pessoa mais confusa do que o costume, pode ser um delirium, muitas vezes causado por uma infeção.
Uma família chegou-me à consulta a descrever o pai como teimoso e agitado, com a língua inchada. Era uma infeção urinária já extensa. A confusão súbita, a agitação sem causa aparente, a urina com cheiro forte ou cor alterada, a febre mesmo baixa, são sinais que a família pode aprender a reconhecer.
Nesses casos, vai-se ao médico no próprio dia.
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Antes de tudo, faz-se uma verificação rápida. Perceba se este deambular aumentou nas últimas semanas ou dias.
Depois, quando foi a pessoa à casa de banho, quando comeu, quando bebeu, se está calor ou frio, se a roupa aperta, se há sinais de dor.
Proponha a ida à casa de banho sem fazer disso uma pergunta que se possa recusar. Proponha beber água. Despiste causas orgânicas progressivamente.
Depois de perceber que não existem causas orgânicas por satisfazer, se a pessoa com demência anda de um lado para o outro sem estar em sofrimento, e a casa está segura, o melhor é deixá-la andar. O andar não faz mal. Faz mal a queda, o objeto perigoso, a porta que dá para a rua. Dê-lhe um propósito para o caminhar.
A avaliação do risco costuma ser exagerada, e a contenção deixa a pessoa mais inquieta e angustiada do que estava. Compensa mais investir a energia a libertar o caminho por onde ela anda do que a tentar impedi-la.
Se o seu familiar com demência anda de um lado para o outro garanta segurança em casa.
Coloque fita antiderrapante ou retire os tapetes, que são a causa mais comum de queda.
Deixe livre de móveis e fios o percurso que ela costuma fazer.
Guarde à chave produtos de limpeza, facas e medicamentos.
Um interruptor discreto impede que o fogão seja ligado sem supervisão.
Uma família descobriu que o pai não saía de casa sem os sapatos calçados, guardou os sapatos, deixou-lhe os chinelos, e ele deixou de sair.
Para a porta da rua, uma tampa de plástico das que protegem crianças, encaixada na maçaneta, chega muitas vezes: quem cuida abre, a pessoa já não descobre como.
Quando a pessoa com demência anda de um lado para o outro decidida a ir para algum lado, discutir não resulta, porque, para ela, aquela realidade é verdadeira.
Caminhe ao lado dela. Ao fim de algumas voltas, o andar em companhia acalma mais do que qualquer ordem para parar. Se ela diz que tem de ir, não negue nem confirme, traga-a de volta com algo concreto: "vamos por aqui, e ajuda-me a fazer isto..."
Uma senhora que eu acompanhava, num sítio novo, ia sempre para a porta, e cada vez que lhe gritavam para voltar entrava em pânico e apressava-se mais.
Trocou-se o grito por alguém que se aproximava com calma e propunha ajudar em tarefas domésticas, e a insistência em fugir desapareceu.
Quando a pessoa com demência anda de um lado para o outro porque perdeu o que fazia sentido, distraí-la não chega. O que reduz o andar é uma ocupação que lhe devolva a sensação de ser precisa. Não serve qualquer atividade. Serve a que tem que ver com quem ela foi. O antigo carpinteiro mexer numa lixa suave. A mulher que geriu uma casa dobra a roupa, descasca as batatas do almoço, rega as plantas.
O importante é que se sinta útil, ocupada, parte da vida que acontece à volta, não poupada dela. Uma caminhada por dia, sair, apanhar ar, ir comprar o pão, também gasta a energia que, retida, se transforma em inquietação.
O relógio interno que regula o sono e a vigília está, muitas vezes, afetado pela doença.
A luz é a forma mais forte de o repor. Leve a pessoa a apanhar luz natural de manhã, nem que seja à janela. Ao fim do dia, acenda as luzes de casa mais cedo, antes de as sombras se instalarem, para reduzir a confusão que alimenta o andar do entardecer.
E trate essa hora como uma hora frágil: aligeire o que se pede à pessoa, deixe as tarefas exigentes para a manhã.
Já vimos que uma pessoa com demência anda de um lado para o outro por razões diferentes, e para saber qual é a dela é preciso observar com registo.
Durante uma a duas semanas, por cada episódio, anote cinco coisas: a hora, o que acontecia antes, o que havia à volta, o que a pessoa fazia, e como acabou.
Ponha os registos lado a lado. O padrão aparece quase sempre. É às cinco da tarde. É depois do café. É quando a casa se enche de gente. Descoberto o padrão, deixa de adivinhar e passa a agir sobre a causa.
Depois de investigadas todas as possíveis causas orgânicas, depois de aplicadas todas as estratégias de validação e redirecionamento, se nada funcionar a agitação, ansiedade, confusão e pereambulação se mantiverem, é importante informar o médico.
Uma dor não tratada ou uma infeção fazem andar, e aí o medicamento certo acalma.
Um medicamento errado, sobretudo um antipsicótico, pode ser a causa do andar.
Leve ao médico o registo dos episódios e faça as perguntas de frente: este andar pode vir de alguma dor que ela não consegue dizer?
Pode ter a ver com algum medicamento que começou há pouco?
A abordagem sem medicação vem sempre primeiro.
O medicamento é o último recurso, com objetivo claro e com revisão.
Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, há reações que qualquer pessoa cansada teria e que pioram tudo.
Não se prende a pessoa numa cadeira nem se tranca num quarto.
A contenção aumenta o medo e transforma um andar inofensivo numa luta que pode acabar em agressividade ou em queda. Numa casa de repouso, uma senhora que tentava sair era recebida com gritos de volte aqui, e cada grito a fazia entrar em pânico e correr mais depressa para a porta. No hospital, uma enfermeira aproximou-se dela com calma e propôs que ela enrolasse uma toalha. Os esforços para fugir terminaram.
A contenção é sempre o último dos recursos, decidida com profissionais, nunca a primeira ideia.
Não se discute com a realidade da pessoa. Dizer-lhe que já está reformada, que o filho já é adulto, que aquela casa é a dela, não a traz de volta. Só acrescenta um choque.
Não se enche o ambiente para a distrair. Televisão mais alta, mais gente, mais conversa. Quando o andar vem do medo, mais estímulo é considerado lenha na fogueira.
Não se dá um medicamento por iniciativa própria nem se aumenta a dose sem falar com quem receitou. Nas pessoas idosas com demência, os efeitos são fortes e às vezes ao contrário do que se procura.
Cuidar de alguém com demência que anda de um lado para o outro durante horas, todos os dias, esgota de uma forma que ninguém aguenta sozinho por muito tempo, e reconhecê-lo não é fracasso nenhum.
Também faz sentido pedir ajuda quando as noites passam em claro, quando já se tentou perceber o padrão e a inquietação não baixa, ou quando o cansaço começa a tirar a paciência e a saúde.
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Porque o andar é quase sempre uma resposta a alguma coisa: uma rotina antiga que o corpo ainda cumpre, medo, tédio, uma dor que já não sabe dizer, ou um efeito da medicação. Procura-se primeiro o motivo.
Na maior parte dos casos, não. Se a pessoa não está em sofrimento e a casa está segura, deixar andar é melhor do que impedir. A contenção aumenta a angústia e transforma um andar inofensivo numa luta.
Porque ao fim do dia o cérebro já gastou a pouca reserva que tinha para se orientar, a luz muda e a confusão aumenta. É por isso que tantas vezes a pessoa com demência anda de um lado para o outro sobretudo a partir do entardecer. Acender as luzes mais cedo e reduzir o ruído nessa hora ajuda.
Sim, e é das causas mais esquecidas. Uma bexiga cheia, uma prisão de ventre, uma dor, um sapato apertado, uma infeção urinária, tudo isto faz andar. Quando o andar é novo ou diferente, o corpo é o primeiro sítio a examinar.
Pode. Alguns medicamentos, sobretudo antipsicóticos, provocam uma inquietação nas pernas chamada acatisia. Se o andar apareceu ou piorou depois de começar ou aumentar um medicamento, fale com o médico antes de aumentar a dose.
Cada pessoa e cada demência têm o seu ritmo. O andar muda de forma ao longo da doença. Adivinhar o futuro não ajuda ninguém. O que ajuda é conhecer o andar de agora, o que o dispara e o que o acalma, e ir ajustando.
Se o seu familiar com demência sente frio no verão e insiste em vestir roupa quente, veja o motivo e o que fazer sem confronto.
Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, o andar tem sempre um motivo. Perceba o que o causa e o que fazer em casa.
Quando a pessoa com demência não quer fazer nada, a família assume que a doença avançou. Mas pode ser apatia, depressão ou sobremedicação.