Pessoa com demência anda de um lado para o outro? 9 Estratégias

Introdução

Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro durante horas, a reação mais comum é mandar sentar. A pessoa senta-se um minuto e levanta-se outra vez. O andar tem quase sempre um motivo, e enquanto o motivo não aparece, nenhuma ordem para parar resulta.

Vou contar-lhe o que vejo com frequência nas consultas: as famílias chegam exaustas, já tentaram tudo, e ninguém lhes explicou que há vários tipos de andar e que cada um pede uma resposta diferente. 

Pode ser uma rotina antiga, medo, dor, tédio, ou um efeito da própria medicação. As causas mais comuns estão neste artigo, como distingui-las, e o que fazer com cada uma.

⚡ Resumo Rápido

Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, o andar tem quase sempre um motivo.
Há vários tipos de andar, e cada um pede uma resposta diferente.
Impedir à força, mandar sentar ou usar contenção costuma piorar tudo. 
Um andar novo ou diferente do costume pode ser dor, uma infeção ou um efeito da medicação. 
Os antipsicóticos costumam piorar a perambulação e são o último recurso.

⏳ Tempo de Leitura: 13 minutos

Porque é que uma pessoa com demência anda de um lado para o outro

Visto de fora, quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, o andar parece não ter destino. É por isso que tantas famílias, e alguns profissionais, o leem como confusão sem sentido. 

Lembro-me do Sr. Henrique, que percorria a casa num circuito repetido ao fim da tarde. Tinha passado a vida no mar, e o corpo dele, àquela hora, ainda se punha a caminho do trabalho. Andava para um sítio certo de uma vida que já não existia.

O andar pode vir de a pessoa estar desorientada e à procura do caminho de volta. 

Pode intensificar-se depois de uma mudança de casa ou da ida para um sítio novo, quando a pessoa já não consegue orientar-se ali. 

Pode ser uma forma de dizer sinto-me perdido, estou à procura do que sinto que perdi. E pode ser apenas o corpo a precisar de se mexer, de gastar energia, de fazer alguma coisa.

Há ainda o andar que nasce de um mau momento. Algo assusta ou incomoda a pessoa, ela não consegue perceber o que se passa à volta, interpreta mal o que vê ou ouve, e o corpo responde deambulando. Reconhecer de qual destes andares se trata é o que permite ajudar, porque cada um pede uma intervenção diferente.



As 6 possíveis da deambulação

Nem toda a pessoa com demência anda de um lado para o outro pela mesma razão.

O andar da rotina antiga

A pessoa levanta-se sempre à mesma hora e vai sempre para o mesmo sítio, muitas vezes a porta ou a janela. 

É o corpo a cumprir o horário de uma vida, ir para o turno, buscar os filhos, abrir a loja. 

A memória de sempre resiste à doença mais do que os nomes e as datas.
Contrariar não devolve a pessoa à nossa realidade, só a assusta. O melhor é devolver-lhe tarefas e atividades que lhe sejam significativas e que representem a utilidade que desempenhava naquele horário. 

O andar que pode representar medo e ansiedade

Há alturas em que a pessoa com demência anda de um lado para o outro depressa, com o rosto tenso, a esfregar as mãos, a repetir uma frase. 

Costuma acontecer quando há barulho a mais, gente a mais, uma discussão por perto, ou uma exigência que ela não consegue cumprir. O sentimento por trás é quase sempre medo e ansiedade e o corpo anda para o descarregar. 

O andar de quem perdeu o que fazia sentido

A pessoa passou a vida a ser precisa, a tratar de uma casa, a decidir, a trabalhar, e de repente os dias esvaziaram-se. Ninguém lhe pede nada. 

O corpo, que ainda quer servir para alguma coisa, levanta-se e anda à procura de um lugar onde faça falta. É fácil dizer que ela não quer fazer nada. 

Quase sempre é o contrário: ninguém lhe ofereceu nada que fizesse sentido para quem ela é. O Sr. Henrique recusava todas as atividades até alguém lhe pôr uma corda nas mãos e ele voltar a fazer nós de marinheiro.

O andar que reflete alterações no corpo

Uma bexiga cheia anda. Uma prisão de ventre anda. Uma dor de dentes, uma dor nas costas, um sapato apertado, calor a mais, tudo isto anda. 

E não é só a dificuldade em dizer. A pessoa pode ainda falar de muitas coisas e, mesmo assim, já não reconhecer o próprio desconforto. Passa-se alguma coisa, mas não sabe bem o quê. 

Acontece-nos a todos: há dias em que estamos impacientes, mal dispostos, e só mais tarde percebemos que era fome, ou sono, ou uma dor a começar. 

Na demência, isto é a regra. Uma infeção urinária, muito frequente nas pessoas idosas, dá muitas vezes a cara assim, com inquietação e um andar que não é o do costume.

Quando a pessoa com demência anda de um lado para o outro de repente e de forma diferente, o corpo é o primeiro a ser investigado.

O andar do fim da tarde

O cérebro com demência gasta ao longo do dia o pouco que tem para se orientar e para se conter. Ao fim da tarde, essa reserva tendencialmente acabou. 

A luz muda, as sombras aumentam, e a mesma pessoa que de manhã andava tranquila agora anda de um lado para o outro carregada de aflição. 

Chama-se a isto síndrome do entardecer. A hora em que a pessoa está no limite é também aquela em que quem cuida está mais cansado. E por essa razão fica mais agitado, desorientado e anda de um lado para o outro.

O andar da medicação

Este é o menos conhecido e o mais importante. Alguns medicamentos, sobretudo os antipsicóticos receitados para acalmar a agitação, provocam uma inquietação nas pernas que obriga a pessoa a mexer-se sem parar. 

Chama-se acatisia. Vejo esta sequência repetir-se: a pessoa com demência anda de um lado para o outro, lê-se como agitação, aumenta-se o antipsicótico, o medicamento provoca mais inquietação, a pessoa anda mais. 

O andar que se queria travar passa a ser alimentado pelo comprimido que se deu para o travar. Quando o andar aparece ou piora logo depois de começar ou aumentar um medicamento, fala-se com o médico antes de mexer na dose.

Quando procurar ajuda médica

Nem sempre que uma pessoa com demência anda de um lado para o outro é urgência, mas alguns sinais são. 

Quando o andar surge de repente, num dia ou dois, com a pessoa mais confusa do que o costume, pode ser um delirium, muitas vezes causado por uma infeção. 

Uma família chegou-me à consulta a descrever o pai como teimoso e agitado, com a língua inchada. Era uma infeção urinária já extensa. A confusão súbita, a agitação sem causa aparente, a urina com cheiro forte ou cor alterada, a febre mesmo baixa, são sinais que a família pode aprender a reconhecer. 

Nesses casos, vai-se ao médico no próprio dia.

😔 Sente que nada está a funcionar?

Podemos ajudar com orientação personalizada adaptada à vossa realidade. Clique no botão abaixo 👇

9 Estratégias para quando a pessoa com demência andar de um lado para o outro

1. Procurar primeiro causas orgânicas no corpo

Antes de tudo, faz-se uma verificação rápida. Perceba se este deambular aumentou nas últimas semanas ou dias.

Depois, quando foi a pessoa à casa de banho, quando comeu, quando bebeu, se está calor ou frio, se a roupa aperta, se há sinais de dor. 

Proponha a ida à casa de banho sem fazer disso uma pergunta que se possa recusar. Proponha beber água. Despiste causas orgânicas progressivamente. 

2. Deixar andar, com segurança

Depois de perceber que não existem causas orgânicas por satisfazer, se a pessoa com demência anda de um lado para o outro sem estar em sofrimento, e a casa está segura, o melhor é deixá-la andar. O andar não faz mal. Faz mal a queda, o objeto perigoso, a porta que dá para a rua. Dê-lhe um propósito para o caminhar. 

A avaliação do risco costuma ser exagerada, e a contenção deixa a pessoa mais inquieta e angustiada do que estava. Compensa mais investir a energia a libertar o caminho por onde ela anda do que a tentar impedi-la. 

3. Tornar a casa segura 

Se o seu familiar com demência anda de um lado para o outro garanta segurança em casa. 

Coloque fita antiderrapante ou retire os tapetes, que são a causa mais comum de queda. 

Deixe livre de móveis e fios o percurso que ela costuma fazer. 

Guarde à chave produtos de limpeza, facas e medicamentos. 

Um interruptor discreto impede que o fogão seja ligado sem supervisão. 

Uma família descobriu que o pai não saía de casa sem os sapatos calçados, guardou os sapatos, deixou-lhe os chinelos, e ele deixou de sair. 

Para a porta da rua, uma tampa de plástico das que protegem crianças, encaixada na maçaneta, chega muitas vezes: quem cuida abre, a pessoa já não descobre como.

4. Baixar a intensidade dos estímulos do ambiente

Quando o andar é o do medo, ansiedade ou excesso de estímulos, reduz-se o que está a sobrecarregar o cérebro. 

Baixe o som da televisão ou desligue-a. 

Reduza o número de pessoas na divisão. 

Adie o banho ou o medicamento para quando a pessoa estiver mais calma. 

Fale devagar, pouco, num tom baixo. 

5. Acompanhar o andar em vez de o impedir

Quando a pessoa com demência anda de um lado para o outro decidida a ir para algum lado, discutir não resulta, porque, para ela, aquela realidade é verdadeira. 

Caminhe ao lado dela. Ao fim de algumas voltas, o andar em companhia acalma mais do que qualquer ordem para parar. Se ela diz que tem de ir, não negue nem confirme, traga-a de volta com algo concreto: "vamos por aqui, e ajuda-me a fazer isto..."

Uma senhora que eu acompanhava, num sítio novo, ia sempre para a porta, e cada vez que lhe gritavam para voltar entrava em pânico e apressava-se mais. 

Trocou-se o grito por alguém que se aproximava com calma e propunha ajudar em tarefas domésticas, e a insistência em fugir desapareceu.

6. Devolver um papel significativo à pessoa com demência 

Quando a pessoa com demência anda de um lado para o outro porque perdeu o que fazia sentido, distraí-la não chega. O que reduz o andar é uma ocupação que lhe devolva a sensação de ser precisa. Não serve qualquer atividade. Serve a que tem que ver com quem ela foi. O antigo carpinteiro mexer numa lixa suave. A mulher que geriu uma casa dobra a roupa, descasca as batatas do almoço, rega as plantas. 

O importante é que se sinta útil, ocupada, parte da vida que acontece à volta, não poupada dela. Uma caminhada por dia, sair, apanhar ar, ir comprar o pão, também gasta a energia que, retida, se transforma em inquietação.

7. Usar a luz e o ritmo do dia

O relógio interno que regula o sono e a vigília está, muitas vezes, afetado pela doença. 

A luz é a forma mais forte de o repor. Leve a pessoa a apanhar luz natural de manhã, nem que seja à janela. Ao fim do dia, acenda as luzes de casa mais cedo, antes de as sombras se instalarem, para reduzir a confusão que alimenta o andar do entardecer. 

E trate essa hora como uma hora frágil: aligeire o que se pede à pessoa, deixe as tarefas exigentes para a manhã. 

8. Descobrir o padrão antes de mudar o que quer que seja

Já vimos que uma pessoa com demência anda de um lado para o outro por razões diferentes, e para saber qual é a dela é preciso observar com registo.

Durante uma a duas semanas, por cada episódio, anote cinco coisas: a hora, o que acontecia antes, o que havia à volta, o que a pessoa fazia, e como acabou. 

Ponha os registos lado a lado. O padrão aparece quase sempre. É às cinco da tarde. É depois do café. É quando a casa se enche de gente. Descoberto o padrão, deixa de adivinhar e passa a agir sobre a causa.

9. Falar com o médico sobre a medicação

Depois de investigadas todas as possíveis causas orgânicas, depois de aplicadas todas as estratégias de validação e redirecionamento, se nada funcionar a agitação, ansiedade, confusão e pereambulação se mantiverem, é importante informar o médico. 

Uma dor não tratada ou uma infeção fazem andar, e aí o medicamento certo acalma. 

Um medicamento errado, sobretudo um antipsicótico, pode ser a causa do andar. 

Leve ao médico o registo dos episódios e faça as perguntas de frente: este andar pode vir de alguma dor que ela não consegue dizer? 

Pode ter a ver com algum medicamento que começou há pouco? 

A abordagem sem medicação vem sempre primeiro. 

O medicamento é o último recurso, com objetivo claro e com revisão.

O que nunca fazer quando a pessoa com demência anda de um lado para o outro

Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, há reações que qualquer pessoa cansada teria e que pioram tudo.

Não se prende a pessoa numa cadeira nem se tranca num quarto.

A contenção aumenta o medo e transforma um andar inofensivo numa luta que pode acabar em agressividade ou em queda. Numa casa de repouso, uma senhora que tentava sair era recebida com gritos de volte aqui, e cada grito a fazia entrar em pânico e correr mais depressa para a porta. No hospital, uma enfermeira aproximou-se dela com calma e propôs que ela enrolasse uma toalha. Os esforços para fugir terminaram. 

A contenção é sempre o último dos recursos, decidida com profissionais, nunca a primeira ideia.

Não se discute com a realidade da pessoa. Dizer-lhe que já está reformada, que o filho já é adulto, que aquela casa é a dela, não a traz de volta. Só acrescenta um choque.

Não se enche o ambiente para a distrair. Televisão mais alta, mais gente, mais conversa. Quando o andar vem do medo, mais estímulo é considerado lenha na fogueira.

Não se dá um medicamento por iniciativa própria nem se aumenta a dose sem falar com quem receitou. Nas pessoas idosas com demência, os efeitos são fortes e às vezes ao contrário do que se procura.

Síntese final

Cuidar de alguém com demência que anda de um lado para o outro durante horas, todos os dias, esgota de uma forma que ninguém aguenta sozinho por muito tempo, e reconhecê-lo não é fracasso nenhum.

Também faz sentido pedir ajuda quando as noites passam em claro, quando já se tentou perceber o padrão e a inquietação não baixa, ou quando o cansaço começa a tirar a paciência e a saúde.

Um gerontólogo, o médico de família, uma equipa que conheça demência, ajudam a ler o comportamento, a rever a medicação e a organizar apoios.

❤️ Precisa de apoio?

Podemos trabalhar consigo para criar estratégias personalizadas que protejam o bem-estar do seu familiar sem comprometer a dignidade. Clique abaixo 👇

FAQs - Perguntas Frequentes

Porque é que a pessoa com demência anda de um lado para o outro sem parar?

Porque o andar é quase sempre uma resposta a alguma coisa: uma rotina antiga que o corpo ainda cumpre, medo, tédio, uma dor que já não sabe dizer, ou um efeito da medicação. Procura-se primeiro o motivo. 

Devo impedir que o meu familiar ande de um lado para o outro?

Na maior parte dos casos, não. Se a pessoa não está em sofrimento e a casa está segura, deixar andar é melhor do que impedir. A contenção aumenta a angústia e transforma um andar inofensivo numa luta.

Porque é que a pessoa com demência anda mais ao fim da tarde?

Porque ao fim do dia o cérebro já gastou a pouca reserva que tinha para se orientar, a luz muda e a confusão aumenta. É por isso que tantas vezes a pessoa com demência anda de um lado para o outro sobretudo a partir do entardecer. Acender as luzes mais cedo e reduzir o ruído nessa hora ajuda. 

Pode ser dor a fazer o meu familiar andar?

Sim, e é das causas mais esquecidas. Uma bexiga cheia, uma prisão de ventre, uma dor, um sapato apertado, uma infeção urinária, tudo isto faz andar. Quando o andar é novo ou diferente, o corpo é o primeiro sítio a examinar.

A pessoa com demência andar de um lado para o outro pode vir de um medicamento?

Pode. Alguns medicamentos, sobretudo antipsicóticos, provocam uma inquietação nas pernas chamada acatisia. Se o andar apareceu ou piorou depois de começar ou aumentar um medicamento, fale com o médico antes de aumentar a dose.

Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, vai piorar com o tempo?

Cada pessoa e cada demência têm o seu ritmo. O andar muda de forma ao longo da doença. Adivinhar o futuro não ajuda ninguém. O que ajuda é conhecer o andar de agora, o que o dispara e o que o acalma, e ir ajustando.

Artigos Relacionados

Estratégias e explicações simples para o dia a dia de quem cuida de um familiar com demência, escritas para quem precisa de respostas práticas, não de teorias.

Se o seu familiar com demência sente frio no verão e insiste em vestir roupa quente, veja o motivo e o que fazer sem confronto.

Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, o andar tem sempre um motivo. Perceba o que o causa e o que fazer em casa.

Quando a pessoa com demência não quer fazer nada, a família assume que a doença avançou. Mas pode ser apatia, depressão ou sobremedicação.

Para quem não quer cuidar às cegas...

Uma carta por semana com estratégias práticas para lidar com os desafios reais de cuidar de um familiar com demência, diretamente no seu email, todas as terças.

Política de Privacidade

Copyright 2025 © Filipa da Fonseca Dias - Consultoria de Envelhecimento - Unipessoal, Lda

E178616