A escova fica na banca, seca, dia após dia. Ou a boca fecha-se assim que a escova se aproxima. Ou a pessoa senta-se com a escova na mão e fica ali parada, sem começar. Quando uma pessoa com demência não quer lavar os dentes, a família explica primeiro, insiste depois, e a insistência costuma piorar tudo.
A boca é o único sítio do corpo que alguém abre todos os dias para ser observado. Quando a escovagem desaparece, desaparece com ela a única vigilância àquela boca. Deixa de haver quem repare na afta, no dente partido, na prótese que fere. Meses depois a pessoa come menos, emagrece, cai, e a conversa com o médico passa a ser sobre quedas e peso, sem voltar atrás - até à origem: boca.
A pergunta certa não é «porque é que o meu familiar com Alzheimer ficou agressivo». A pergunta certa é «o que veio antes que eu não vi».
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Há cinco razões para uma pessoa com demência não querer lavar os dentes. Cada uma precisa de uma resposta diferente, e insistir é a única que não funciona em nenhuma.
Gengiva inflamada, afta, dente partido, prótese que fere, fungos com placas brancas na língua. Nada disto se vê de fora, e a pessoa já não diz que dói. Diz com o corpo: afasta a escova antes de ela tocar, vira a cara, aperta os lábios.
Muitas vezes a pessoa com demência não quer lavar os dentes porque já não consegue. Molha a escova e volta a pousá-la. Escova sempre o mesmo lado. Põe pasta a mais, ou nenhuma. Esta ação tem cinco ou seis passos por ordem, e a ordem é das primeiras coisas a perder-se. Não há nada a convencer, há que acompanhar.
As áreas que guardam a memória do medo funcionam muito depois de outras terem falhado. Alguém que vem por cima, por trás, depressa, com um objeto apontado à cara, é lido como perigo. A resposta é defender-se: fechar a boca, empurrar, morder. Muda com a postura e a comunicação de quem se aproxima, não com a insistência.
A menta arde. A água fria dói. Os fios da escova raspam. A espuma enche a boca de uma coisa que a pessoa já não percebe e pode disparar um engasgo. Cada uma resolve-se com uma troca de produto.
Escovar previne uma coisa que só acontece daqui a meses, e quando a noção de futuro se perde a tarefa fica sem razão. Argumentar com saúde não chega a lado nenhum. Um motivo imediato chega: sair à rua, receber uma visita, tirar o gosto do almoço.
Se o familiar com demência ficou irritável, anda a mexer na cara, empurra o prato ou dorme pior, convém olhar para a boca antes de mexer em medicação. Já aconteceu muitas vezes tratar-se com psicotrópicos uma dor de dentes que ninguém tinha visto.
Quando a gengiva sangra à escovagem, a reação natural é parar, porque parece que se está a magoar a pessoa. O que se passa é o contrário: o sangue aparece porque há placa a irritar a gengiva, e é a escovagem que a tira. Continuar, com suavidade, e marcar dentista se ao fim de duas semanas ainda sangrar.
Uma boca que dói não colabora com técnica nenhuma. Com uma lanterna, num momento calmo, ver: gengivas vermelhas ou a sangrar, aftas, dentes partidos, comida acumulada na bochecha, placas brancas na língua, feridas nos cantos dos lábios, prótese que balança. É o passo que resolve mais casos e quase sempre o que se salta, porque a recusa costuma ser lida como comportamento em vez de sintoma.
Muitos antidepressivos, anti-histamínicos, antipsicóticos e medicamentos para a incontinência reduzem a saliva. Sem saliva aparecem cáries, aftas e ardor, e a escovagem passa a doer. Levar a lista toda ao médico e perguntar o que pode sair ou ser trocado. Entretanto há géis e sprays para boca seca à venda em farmácia.
Entregar a escova já com pasta e ficar calado a ver durante trinta segundos. Se a pessoa começa e se perde a meio, falta-lhe capacidade, e o que ajuda é acompanhar. Se afasta a escova logo, o que está ali é dor ou medo. De fora as duas coisas parecem iguais e pedem respostas diferentes.
Se a pessoa com demência não quer lavar os dentes ao deitar, essa é a pior altura possível, com o cansaço acumulado e o fim do dia a agravar a agitação. Passar a escovagem para logo a seguir ao jantar. De manhã, trocar a ordem: primeiro o pequeno-almoço, depois a medicação, e a boca no fim.
Não há nenhuma obrigação de escovar os dentes ao lavatório. A casa de banho é apertada, é fria, e muitas vezes já tem história de discussões. A escovagem pode acontecer com a pessoa sentada na sala, com boa luz, uma toalha ao peito e uma taça para cuspir.
Baixar-se até à altura do olhar dela, chegar pela frente, sorrir, falar devagar e dizer o que se vai fazer antes de o fazer. E se ao fim de três pedidos a pessoa com demência não quer lavar os dentes, parar ali e voltar mais tarde. É a insistência a partir daí que faz um não passar a empurrão.
A frase "vamos lavar os dentes" pode já não querer dizer nada. Mostrar costuma resultar melhor: pegar numa escova, levá-la à própria boca e escovar no ar, devagar, à frente dela. Quando as palavras deixam de chegar, a leitura dos gestos ainda funciona muito tempo.
Escovar os dois ao mesmo tempo, lado a lado ao espelho, e deixar que ela imite. Se a boca continuar fechada, passar para trás dela, sempre em frente ao espelho, e escovar por cima do ombro. Muita gente que fecha a boca a quem está à sua frente abre-a assim, porque deixa de ter alguém a vir na sua direcção.
A ideia é que a pessoa continue a fazer parte da tarefa. Dar-lhe uma segunda escova para ter na mão enquanto se escova. Ou começar o movimento e deixar que ela continue. Ou pousar a nossa mão em cima da dela e ir guiando.
Quando a resistência começa a subir, quem está a tentar já não consegue lá chegar. Havendo outra pessoa em casa, o melhor é entrar e assumir, sem discutir à frente do familiar com demência. Assim a tensão baixa e aquela cara não fica associada ao mau momento. Quem cuida sozinho sai da divisão e volta dez minutos depois.
Escova de cabeça pequena e fios ultra-suaves, ou eléctrica, cujo peso ajuda quem tem tremor. Água à temperatura ambiente, nunca fria. Quanto à pasta, a espuma vem de um detergente chamado lauril sulfato de sódio, e é essa espuma que assusta e faz engasgar. Uma que se aconselha é pasta dentífrica Elmex.
Uma quantidade do tamanho de uma ervilha, cuspir o que se conseguir, e não bochechar com água a seguir, porque a água leva o flúor embora.
Quando a pessoa com demência não quer lavar os dentes de maneira nenhuma, passa a valer mais limpar do que escovar. Bastões de esponja embebidos em elixir sem álcool, gel oral com o dedo enluvado, ou uma compressa humedecida à volta do dedo. Um dia sem escovagem completa não faz mal nenhum. Uma semana sem nada já faz.
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Quando a pessoa com demência não quer lavar os dentes e usa prótese, há quatro cuidados que evitam metade dos problemas.
A prótese sai todas as noites, sem excepção, e fica dentro de água à temperatura ambiente. A gengiva precisa de descansar da pressão, e uma prótese que passa a noite inteira na boca acaba por fazer as feridas que depois levam a pessoa a recusá-la.
Lava-se fora da boca, por cima de uma bacia com água para não partir se cair, com escova própria e sabão neutro.
A pasta de dentes normal risca a resina e deixa microfissuras onde as bactérias se instalam. As pastilhas efervescentes são um complemento à escovagem.
Mandar gravar o nome na prótese, porque num internamento ou num lar as próteses perdem-se com facilidade. E quando já não assenta, magoa, e vários dentistas tentaram sem resultado, insistir deixa de fazer sentido. Nessa altura, passar a comida mole preserva mais dignidade do que andar com uma prótese que dói.
Quem cuida de uma pessoa com demência tem estas reações por instinto, e são elas que agravam a recusa da próxima vez:
Marcar de manhã, evitar salas de espera, ir com a pessoa de maior confiança, e avisar o consultório antes de que há demência e que são precisos alguns cuidados anunciados e pausas.
Existe cheque-dentista para pessoas idosas beneficiárias do Complemento Solidário para Idosos e inscritas no Serviço Nacional de Saúde, até dois por cada doze meses.
Pede-se ao médico de família no centro de saúde, e a lista de dentistas aderentes está na Direção-Geral da Saúde. Está previsto um cheque para próteses a partir de 2027, com critérios ainda por regulamentar.
Quando a deslocação já não é possível, há medicina dentária ao domicílio em várias zonas do país. Perguntar no centro de saúde e procurar por consulta domiciliária de medicina dentária na zona de residência.
Febre, inchaço na cara ou no pescoço, dificuldade em engolir, recusa de comida que antes comia, mau hálito persistente, ou sangramento que não pára ao fim de duas semanas. Qualquer um destes sinais pede avaliação médica em vez de mais uma tentativa de escovagem.
Uma pessoa com demência não quer lavar os dentes por cinco razões, e nenhuma delas se resolve a insistir. Pode estar com dor que já não sabe dizer onde é. Pode ter perdido a ordem dos passos e ficar à espera que alguém comece. Pode estar assustada com quem se aproxima. Pode ter a boca sensível de mais para aquela pasta e para aquela água. Ou pode já não perceber para que serve escovar os dentes.
Quem insistiu até aqui fez o que qualquer pessoa faria. Insistir resulta com toda a gente, e durante a vida inteira resultou também com aquela pessoa. Ninguém avisa as famílias de que, a partir de certa altura, a insistência começa a trabalhar contra elas. E quem já desistiu da escovagem também não fez nada de mal, porque tinha à frente o banho, a medicação e as noites, e a boca parecia a coisa mais pequena da lista.
O que costuma mudar a situação é perceber qual das cinco razões está em cima da mesa naquela casa, e responder a essa, em vez de tentar mais uma técnica. A mesma escova, na mesma boca, com a mesma pessoa a segurá-la, resulta ou não resulta conforme a hora, o sítio e a maneira como alguém chegou ao pé dela.
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Morder ali é um reflexo. Não puxar, porque puxar faz apertar ainda mais. O que resulta é esperar, massajar a bochecha e o maxilar até a boca abrir, e ter uma segunda escova à mão para continuar do outro lado.
As pastas de criança têm menos flúor, e uma pessoa idosa com boca seca e com gosto por doces está no maior risco de cárie que existe, por isso tirar-lhe flúor agrava o risco. O que há a resolver aqui é a espuma. Quanto a engolir um bocadinho de pasta de adulto, isso não tem numa pessoa adulta o efeito que tem nas crianças, porque os dentes já estão formados.
Sim. As gengivas, a língua e o céu da boca precisam de limpeza diária com uma compressa humedecida ou uma escova macia. Uma boca sem dentes continua a acumular fungos e bactérias.
Pode ser, mas raramente é a primeira explicação. Quando uma pessoa com demência não quer lavar os dentes de um dia para o outro, ou piora muito em poucas semanas, isso aponta primeiro para dor, infecção ou medicação.
Escovar com a pessoa sentada e direita, com pouquíssima pasta, e limpar o excesso com uma compressa em vez de lhe pedir que cuspa. Nos dias piores, bastão de esponja com elixir sem álcool. Em alternativa, usar uma pasta com pouca espuma que se pode engolir sem problema em quantidade pequena.
Não muda nada. Um familiar com Alzheimer não quer lavar os dentes pelas mesmas cinco razões, e as estratégias são as mesmas. O mesmo para quem cuida de uma pessoa com demência vascular, de corpos de Lewy ou frontotemporal.
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