É um dia de calor intenso em Portugal. Os termómetros marcam mais de 30 graus, mas na sala de estar o seu familiar com demência veste uma camisola grossa, calça meias de lã e recusa terminantemente tirar o casaco. Se alguém sugere uma roupa mais leve, a reação é de irritação, de stress, por vezes até de agressividade.
É uma das situações mais desgastantes de quem cuida em casa. A pessoa com demência pode sentir frio no verão de uma forma que não bate certo com nada do que se vê à volta, e o choque entre o calor lá fora e a queixa constante de frio transforma-se num conflito que se repete todos os dias, à mesma hora, com as mesmas palavras.
A razão não é teimosia. Quando uma pessoa com demência sente frio no verão, está a responder a uma informação que o cérebro lhe deu de forma errada, e essa informação parece-lhe tão real como o calor parece real a quem está ao lado. Discutir com o termómetro na mão não altera nada, porque a discussão está a acontecer entre duas realidades diferentes.
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Antes das estratégias que realmente ajudam quando a demência sente frio no verão, vale a pena perceber o que se passa dentro do cérebro quando o calor lá fora e o frio que a pessoa sente parecem pertencer a dois mundos diferentes.
No cérebro existe uma pequena estrutura chamada hipotálamo, responsável por funcionar como o termostato do corpo. É ele que interpreta a temperatura ambiente e decide se o corpo deve suar para arrefecer ou tremer para aquecer. Com o avanço de patologias como a Doença de Alzheimer ou a Demência Vascular, ocorre uma disfunção autonómica. Os neurónios do hipotálamo sofrem lesões e perdem a eficácia a interpretar os estímulos térmicos. O termómetro marca 34 graus, mas a mensagem que chega ao cérebro do doente é de frio gélido.
Muitas pessoas com demência tomam fármacos para controlo da agitação, como antipsicóticos (ex: quetiapina, risperidona) ou ansiolíticos. Estes medicamentos interferem diretamente na capacidade de regulação térmica do sistema nervoso central, agravando a sensibilidade ao frio ou mascarando os sinais de calor.
O envelhecimento natural, muitas vezes acelerado pela demência devido à perda de apetite, reduz a camada de gordura sob a pele e a massa muscular. Sem esta barreira natural e com uma circulação sanguínea periférica mais lenta, o corpo perde calor mais rapidamente, gerando um desconforto físico real.
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Em vez de uma peça só, mais grossa, vista várias camadas finas de algodão ou linho. Uma camisola interior fina, uma blusa leve por cima, e só se for mesmo preciso, um casaco fino de malha aberta.
Esta técnica ajuda precisamente porque a pessoa com demência sente frio no verão de forma imprevisível, hoje pode ser mais, amanhã pode ser menos, e as camadas permitem ajustar sem grande discussão.
A vantagem está em poder retirar uma camada de cada vez, sem que pareça que se está a despir a pessoa à força. Se a pessoa insistir em dormir de manga comprida mesmo com calor, o mesmo princípio funciona à noite: escolher tecidos técnicos ou algodão fino que deixam o suor evaporar, em vez de discutir a manga comprida em si.
O que dizer: "Vamos vestir esta camisola primeiro, e depois logo vemos se precisa de mais alguma coisa."
O que evitar: "Não precisas disto tudo, está muito calor lá fora."
Se há uma peça específica à qual a pessoa com demência está agarrada, pode ser mais do que roupa, uma imagem de si própria com que já não quer deixar de se parecer. Vale a pena procurar uma peça de verão parecida na cor e na forma. Um casaco de malha fina ou de linho na mesma cor do original costuma passar despercebido no armário.
Trocar a peça sem anunciar a troca costuma resultar melhor do que explicar porque é que aquele casaco específico já não está disponível, poupando à pessoa uma explicação que o cérebro dela já não processa da forma como a demos.
O que dizer: "Olha, aqui está o teu casaco azul preferido para hoje."
O que evitar: "Este casaco de lã já não pode ser, vai morrer de calor."
Nem sempre o frio é estrutural.
Muitas vezes, a queixa deve-se a uma má circulação nas extremidades. Antes de obrigar a retirar o casaco do tronco, coloque umas meias finas de algodão (sem elástico apertado para não garrotear) e uma manta leve sobre as pernas. Ao aquecer as extremidades, a queixa global costuma desaparecer.
O que dizer: "Deixa-me aconchegar-te os pés primeiro com estas meias, e vemos se ficas melhor."
A primeira reação de quem cuida é quase sempre corrigir, dizer que está calor, mostrar o termómetro, insistir com factos. E faz sentido reagir assim, o bom senso diz que a temperatura é a mesma para toda a gente na sala. O problema é que, quando a demência sente frio no verão, discutir números só confirma à pessoa que ninguém está a ouvir o que ela diz que sente.
O que costuma funcionar melhor é reconhecer o que a pessoa diz que sente antes de propor qualquer mudança. Não é preciso concordar que está frio lá fora, só é preciso não negar o que a pessoa sente.
O que dizer: "Percebo perfeitamente que estejas com frio. Deixa-me ajudar-te a ficar mais confortável."
O que evitar: "Estás maluco? Estão 34 graus na sala!"
Pedir diretamente para tirar o casaco transforma o momento num pedido que pode ser recusado. É mais fácil quando a troca acontece a meio de outra tarefa qualquer, lavar as mãos antes do lanche, por exemplo, e a manga sai naturalmente enquanto se ajuda com o sabonete. A pessoa fica poupada ao momento de sentir que está a ceder numa discussão, quando na verdade só está a ser ajudada com outra coisa qualquer.
Arregace as mangas, sugira tirar o casaco "para não o molhar" e pouse-o de lado.
O que dizer: "Deixa-me experimentar o teu casaco, é tão giro!"
Pedir para tirar o casaco é um pedido que só tem duas respostas possíveis, sim ou não, e não é possível prever qual vai vir.
Oferecer duas peças diferentes, ambas leves, muda a pergunta, já não se trata de tirar ou não tirar, trata-se de escolher entre duas coisas que a pessoa pode aceitar, mesmo sabendo que a pessoa com demência sente frio no verão e vai continuar a sentir depois da escolha feita.
A escolha continua a ser de quem cuida, as duas opções já foram pensadas com cuidado, mas a pessoa sente que teve uma palavra a dizer sobre o que vai vestir.
O que dizer: "Preferes usar o casaco azul ou este verde mais fininho?"
O que evitar: "Tira imediatamente esse casaco de lã."
A roupa está ligada à autoestima.
Mude o foco da conversa do calor para a estética. Elogie a combinação de cores ou o padrão da blusa que está escondida por baixo do casaco pesado.
O que dizer: "Essa blusa florida fica-te tão bem. Vamos tirar o casaco para se ver bem?"
A queixa de frio nem sempre corresponde ao que está mesmo a acontecer no corpo, e confirmar isto é essencial porque a demência sente frio no verão mesmo quando o corpo, por dentro, está a suar. Tocar na nuca ou no peito, por baixo da roupa, dá uma informação mais fiável do que perguntar. Se a pele está húmida ou quente ao toque, o corpo está a suar, mesmo que a pessoa continue a dizer que tem frio.
Esta verificação simples ajuda a decidir se a prioridade é insistir mais um pouco na troca de roupa, ou se já é hora de arrefecer a pessoa por outros meios, água fresca, uma divisão mais fresca, um pano húmido na nuca.
- Discutir com factos e números. Tentar argumentar só deixa a pessoa mais defensiva e mais convencida de que ninguém a está a ouvir.
- Tirar a roupa à força ou de surpresa. Para quem já não reconhece bem o próprio corpo no espaço, sentir alguém a puxar uma manga sem aviso pode ser vivido como uma ameaça física, não como ajuda.
- Comentar ou ridicularizar à frente de terceiros. "Olha que ele anda de casaco com este calor" pode parecer inofensivo, mas humilha alguém que já vive com pouco controlo sobre o próprio corpo.
- Ignorar sinais de suor excessivo só porque a pessoa continua a dizer que tem frio. A queixa e o que o corpo está mesmo a fazer podem ser duas coisas diferentes ao mesmo tempo.
Manter um casaco de lã vestido num dia de calor tem custos precisamente porque a pessoa com demência sente frio no verão a ponto de ignorar o suor e o calor real do corpo por baixo das camadas de roupa. O corpo vai continuar a tentar arrefecer, suando por baixo de roupa que não deixa esse suor evaporar. É aqui que começa uma cadeia que se deve vigiar.
O suor retido num tecido grosso cria as condições ideais para assaduras, dermatites e infeções fúngicas nas dobras da pele. E porque o corpo perde líquido através desse suor extra, a desidratação instala-se mais depressa.
A urina fica mais concentrada, o que aumenta o risco de infeção urinária, e numa pessoa com demência, uma infeção urinária é uma das causas mais comuns de um surto súbito de confusão, o chamado delirium. Aquilo que começou como um casaco de lã pode acabar numa mudança brusca de comportamento que ninguém liga de imediato à roupa.
Há ainda uma consequência menos falada. Uma pessoa que sente um desconforto físico constante, mas não consegue explicá-lo por palavras, tende a evitar situações que pareçam agravar essa sensação, sair de casa num dia quente, ir a uma festa de família ao ar livre. O corpo está a pedir para ficar num sítio onde o desconforto é mais previsível, o que é diferente de perder a vontade de conviver.
E quem cuida, para evitar a luta das camadas de roupa ou os olhares na rua, acaba muitas vezes por reduzir também as próprias saídas. O termostato que falhou dentro de uma pessoa pode assim ir isolando a família inteira, um dia de calor de cada vez.
Nem sempre o frio no verão é apenas um sintoma da demência. Se o seu familiar nunca teve este comportamento e começou a queixar-se de frio intenso repentinamente, ou se treme mesmo agasalhado, verifique imediatamente os seguintes sinais:
Febre: Meça a temperatura com um termómetro digital. Nas pessoas idosas uma infeção (urinária ou respiratória) manifesta-se frequentemente através de tremores de frio e calafrios, antes mesmo de a febre subir muito.
Alterações Clínicas Crónicas: O frio extremo e a apatia podem ser sinais de hipotiroidismo não controlado ou de anemia severa.
Vale a pena procurar ajuda médica com alguma urgência se, além da queixa de frio, aparecer confusão que não é a habitual da pessoa, sonolência fora do normal, urina muito escura ou pouco frequente, pele quente e seca ao toque em vez de suada, ou uma queda súbita na tensão arterial.
Estes sinais juntos podem apontar para desidratação ou para uma infeção a instalar-se, e nesses casos a prioridade deixa de ser convencer a pessoa a mudar de roupa e passa a ser arrefecer o corpo e procurar avaliação médica.
Isto é o que significa, na prática, que a demência sente frio no verão: o termostato interno que durante décadas disse à pessoa com precisão quando vestir mais ou vestir menos já não está a fazer esse trabalho como fazia. A queixa de frio a 34 graus não é uma opinião a corrigir, é a única informação que o cérebro consegue dar sobre o que sente.
A tarefa de quem cuida não é vencer a discussão sobre quantos graus estão lá fora.
É responder ao corpo que se vê à frente, o suor por baixo da camisola, as mãos frias, o casaco que não sai, com estratégias que não exigem que a pessoa concorde com a lógica de quem cuida dela.
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Porque a demência sente frio no verão através de um mecanismo cerebral que já não interpreta bem os sinais de temperatura que chegam de fora, e por isso a pessoa pode sentir frio mesmo com calor a sério.
Dentro de casa, com sombra ou ar condicionado, geralmente não. Ao sol, num dia de mais de 30 graus, sim, porque aumenta o risco de suor excessivo, desidratação e, nalguns casos, infeção urinária.
Não costuma funcionar. Discutir com factos e temperaturas exige uma comparação lógica que a demência já dificulta, e normalmente só aumenta a resistência.
Observe se há sinais como confusão fora do habitual, sonolência, pele quente e seca em vez de suada, ou urina muito escura. Se aparecerem, procure avaliação médica em vez de insistir na troca de roupa.
Não necessariamente. Mãos e pés gelados costumam ser circulação, mais comum com a idade, e resolvem-se com meias finas e uma manta. Já quando o corpo inteiro pede agasalho, é sinal de que a demência sente frio no verão de forma mais ampla, não só nas extremidades.
Recuar é a resposta mais segura. Baixe o tom de voz, garanta que ninguém vai tirar a peça à força, e tente de novo passados trinta a quarenta minutos, quando o momento de maior tensão tiver passado.
Se o seu familiar com demência sente frio no verão e insiste em vestir roupa quente, veja o motivo e o que fazer sem confronto.
Quando uma pessoa com demência anda de um lado para o outro, o andar tem sempre um motivo. Perceba o que o causa e o que fazer em casa.
Quando a pessoa com demência não quer fazer nada, a família assume que a doença avançou. Mas pode ser apatia, depressão ou sobremedicação.