Quando a pessoa com demência pede dinheiro constantemente, o desgaste surge da frequência dos pedidos. São três, quatro, cinco pedidos por dia, muitos deles por telefone, muitos deles em horário de trabalho, e todos com a mesma conversa a seguir.
O filho explica que há a água, a luz, a farmácia, que o dinheiro tem de durar até ao fim do mês. Explica que deu cem euros na segunda-feira, contados à frente dela. E ouve sempre a mesma resposta: "o dinheiro é meu, faço o que quiser dele."
Do ponto de vista legal, tem razão. É essa a parte que deixa as famílias sem saber como lidar, e é também por isso que este é um dos comportamentos que as famílias demoram mais tempo a trazer para consulta. Falam disto quase a pedir desculpa, como se fosse pequeno ao lado de tudo o resto. Depois faz-se a conta das chamadas da semana e do dinheiro que saiu em quinze dias, e percebe-se que problema pequeno nunca foi.
A capacidade de gerir dinheiro é uma das primeiras a comprometer-se na demência, e frequentemente já vinha a falhar muito antes de alguém dar por isso. Quando os pedidos se tornam impossíveis de ignorar, o processo já vai a meio.
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Pedir o próprio dinheiro é comportamento normal. Uma pessoa que trabalhou quarenta anos, que descontou, que recebe uma reforma que é dela, e que pede para ter esse dinheiro na mão, está a fazer o que qualquer adulto faz.
O dinheiro nunca foi só dinheiro. Está ancorado à ideia de independência, de autoridade, de controlar a própria vida. Quem tem dinheiro decide. Decide se compra, se oferece, se guarda, se dá a quem quer. Quando se retira o acesso ao dinheiro, o que se retira não é um meio de pagamento, é o último sítio onde aquela pessoa ainda manda.
O direito mantém-se intacto ao longo de toda a doença. O que se perde é o registo do que aconteceu ao dinheiro. Quanto entrou, onde foi gasto, quanto sobrou, se ficou esquecido no bolso de um casaco, se caiu pelo caminho, se foi dado a alguém que apareceu à porta. A pessoa continua a ter razão quando diz que o dinheiro é seu, e ao mesmo tempo já não consegue reconstruir o que lhe aconteceu. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é essa sobreposição que impede que isto se resolva com bom senso.
Daí vem o dilema que ouço em consulta com mais frequência do que qualquer outro sobre este tema. De um lado, a sensação de que não se pode recusar, porque o dinheiro é dela e recusar parece um abuso. Do outro, a obrigação de proteger, porque quem cuida sabe uma coisa que a pessoa já não consegue calcular. Aquele dinheiro pode vir a fazer falta.
E pode fazer falta a sério. Uma cuidadora algumas horas por dia, um centro de dia, obras na casa de banho, um lar mais tarde. Nada disto é barato, e nada disto se resolve com o que sobra ao fim do mês. As poupanças que hoje parecem estar ali sem destino nenhum são, muitas vezes, exatamente o que vai permitir que essa pessoa seja bem cuidada daqui a dois ou três anos. Ninguém sabe quando esse momento chega, e é por isso que se protege antes de ser preciso.
Quem está a gerir isto está a tentar respeitar e proteger ao mesmo tempo, sem manual, e quase sempre sozinho. Não há forma de resolver isto que deixe toda a gente confortável, e não vou fingir o contrário. O que existe são formas de baixar o conflito diário e de proteger o que tem de ser protegido, sem que a pessoa fique com a sensação de que lhe tiraram o que era dela.
A investigação tem mostrado que a capacidade de lidar com dinheiro é uma das primeiras competências práticas a comprometer-se, e que começa a falhar antes de a memória estar visivelmente afetada. Contas por pagar ao lado de contas pagas duas vezes, dificuldade em perceber um extrato, trocos que deixam de bater certo, o mesmo produto comprado quatro vezes na mesma semana. Isto costuma aparecer muito antes de alguém pensar em marcar uma consulta.
Durante todo esse tempo, a pessoa continua a tratar do seu dinheiro sozinha. Vai ao multibanco, levanta o que quer, gasta o que decide. Não pede nada a ninguém, porque não tem a quem pedir nem razão para o fazer.
Depois há um episódio que obriga a reorganiza-se as responsabilidades.
A luz cortada com dinheiro na conta. Dois mil euros levantados numa semana sem ninguém perceber para quê. Uma assinatura num contrato ao telefone. A carteira perdida pela terceira vez em dois meses. Cada família tem o seu episódio, e é quase sempre a partir dele que se fala com o banco, se muda o cartão de sítio, se passa a tratar das contas.
É aí que os pedidos começam.
Esta é a parte que quase nenhuma família vê enquanto está a acontecer. O pedido insistente não apareceu por si, como mais um sintoma que a doença trouxe pelo caminho. Apareceu porque deixou de haver outra forma de chegar ao dinheiro. Antes, quem queria dinheiro ia buscá-lo. A partir dali, quem quer dinheiro tem de o pedir a alguém, esperar que essa pessoa esteja disponível, e aceitar a resposta que vier.
Isto não significa que a família tenha feito mal. Na maior parte dos casos, se não tivesse feito nada, hoje já não haveria dinheiro nenhum para gerir. Significa que o comportamento com que a família está a lidar todos os dias é, em parte, consequência de uma decisão necessária que ela própria tomou. E que quem pede não está a ser exigente nem a querer chatear. Está a tentar chegar ao que é seu pela única via que lhe sobrou.
A pessoa recebe cem euros. Gasta 20€ no café, 30€ na mercearia e compra coisas em duplicado. Ao fim do segundo dia a carteira está vazia, e o cérebro não guardou o registo de nada disto ter acontecido. O que fica é a sensação presente: não tenho dinheiro, ou porque o gastou porque o perdeu ou não sabe onde o guardou/escondeu.
Do ponto de vista dela, essa sensação é exata. Não tem mesmo dinheiro. O que falta é a informação de onde foi parar, e essa informação já não se consegue reconstruir.
Nem sempre foi gasto. Há notas esquecidas dentro de livros, em bolsos de casacos que já não se usam, debaixo de gavetas, dentro de sapatos. Há dinheiro que cai da carteira na rua e ninguém dá por isso. Há dinheiro entregue a quem apareceu à porta com uma história inventada. Quando se pergunta em consulta quanto é que desapareceu no último ano, quase nenhuma família consegue responder.
Há uma pergunta que faço sempre em consulta e que costuma mudar a conversa. Em que é que gasta, exatamente?
A D. Amélia pedia dinheiro todos os dias para ir ao café. Não era o café que ela queria, era a mesa do café, a mulher do balcão que a tratava pelo nome, a hora em que a rua tinha gente. A filha percebeu isto quando reparou que os pedidos aconteciam sempre entre as três e as cinco da tarde, precisamente a única altura do dia em que ninguém passava por lá.
O Sr. Joaquim pedia para dar aos netos. Sempre tinha sido o avô que dava a nota à saída. Tirar-lhe o dinheiro era tirar-lhe o único gesto que ainda o punha no papel que se reconhecia como avô.
Para muita gente da geração que envelhece agora, ter dinheiro próprio não era conforto, era uma prova de esforço e de sucesso. Prova de não depender de ninguém, de ter trabalhado, de não ser um peso. Quem passou uma parte da vida a contar tostões guarda esse reflexo muito depois de já não saber contá-los e até de voltar a um tempo em que não tem o que comer.
Quando essa autonomia se perde, a perda é simbólica antes de ser prática. E é por isso que a discussão sobre trinta euros consegue ficar tão violenta como uma discussão sobre trinta mil.
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Há duas situações que se parecem por fora e que pedem respostas contrárias.
Na primeira, a pessoa ainda tem conta bancária, ainda levanta dinheiro, ainda vai ao supermercado sozinha, ainda decide o que compra. O dinheiro que pede é dinheiro que vai gastar mesmo. Aqui o problema é o orçamento a rebentar e o telefone a tocar no trabalho.
Na segunda, a pessoa já não gere nada, já não sai sozinha, já não faz compras. Pede dinheiro para pagar contas que não existem, para ir ao banco que já fechou há anos, para apanhar um autocarro que não vai apanhar. Aqui o problema é a ansiedade, a necessidade de controlar coisas e o viver num tempo que já não existe sem consciência das próprias dificuldades.
A estratégia da carteira com valor pequeno, notas antigas ou moedas, funciona bem na segunda situação e é um erro na primeira. Dar notas fora de circulação a alguém que ainda vai ao café da esquina é prepará-la para ser corrigida ao balcão à frente de toda a gente.
E o contrário também acontece. Negociar valores semanais, planos escritos e combinações com alguém que já não retém informação nenhuma é repetir a mesma reunião todos os dias, sempre do zero, sempre com o mesmo desgaste.
Antes de escolher qualquer estratégia, a pergunta é esta: onde é que este dinheiro vai ser usado, concretamente, nas próximas 48 horas? O meu familiar compreende o valor do dinheiro?
Quando se deixam vinte euros de manhã para comprar pão e ao fim da tarde não há pão nem troco, a conclusão fácil é que gastou tudo. Muitas vezes não gastou, ou não gastou tudo.
Há quatro destinos possíveis:
Foi gasto, e nesse caso interessa saber em quê e onde.
Foi guardado, e há de aparecer daqui a uns meses dentro de um livro, no bolso de um casaco de inverno, debaixo da gaveta da roupa interior.
Foi perdido, caiu da carteira na rua ou ficou em cima de um balcão.
Ou está a ser aproveitado por alguém que percebeu que ali há dinheiro e há pouca memória.
A forma de descobrir não é perguntar à pessoa, porque muitas vezes ela também não sabe e a pergunta só a deixa em falta. É ir aos sítios. Passar pelo café e pela mercearia e perguntar quanto é que ela costuma gastar ali.
Dar uma volta pela casa devagar, pelos lugares onde ela sempre guardou coisas. Reparar em quem anda por perto, quem tocou à porta nos últimos meses, quem se ofereceu para ajudar sem que ninguém tivesse pedido.
Uma semana a fazer isto muda quase sempre a estratégia que se ia adotar a seguir.
A reação natural é dar mais de uma vez, para que dure mais tempo e para não ter de voltar ao assunto. Faz todo o sentido, e é o que qualquer pessoa organizada faria com um orçamento.
O que acontece na prática é que o valor maior se gasta na mesma velocidade. Não é falta de cuidado, é que a noção de quanto tempo aquele dinheiro tem de cobrir já não está lá.
Em vez de cem euros por semana, vinte euros de dois em dois dias. Ou dez euros por dia, entregues sempre à mesma hora. A sensação de ter dinheiro na carteira mantém-se, o total do mês baixa, e as chamadas espaçam-se porque a espera é mais curta. Experimente dar moedas e uma nota de valor mais pequeno.
O que dizer: "Trago-te mais na quinta de manhã, o multibanco só tinha este"
O que evitar: "Já te dei cem euros na segunda, isso tinha de chegar até ao fim do mês."
Cem euros numa nota é uma nota.
Cem euros em notas de dez parece muito mais dinheiro.
Esta é das intervenções mais simples e das que mais rapidamente se nota. Uma carteira com várias notas pequenas dá a sensação de abundância que uma nota grande não dá, e obriga a gastar por partes em vez de partir tudo de uma vez numa compra só. A pessoa tende a preferir notas do que moedas (porque é mais fácil para as compras). Mas ainda assim, concilie uma nota de valor baixo com muitas moedas de valor baixo.
Uma carteira com peso lá dentro tranquiliza mais do que uma carteira com uma nota apenas.
Quando o telefone toca pela quarta vez, a vontade é explicar.
Explicar as contas, a farmácia, o que já se deu esta semana. E faz sentido, porque explicar é o que resolveria a situação com qualquer outra pessoa.
O problema é que a explicação não fica retida, e enquanto se explica está-se a dar conversa. A chamada alonga-se, o assunto ganha peso, e a chamada seguinte chega mais depressa e o problema não fica resolvido.
O que dizer: "Vou tentar passar aí para te deixar..." "Vou levantar e passo aí", "O multibanco não estava a funcionar mas amanhã levanto e dou-te"
O que evitar: "Não posso dar mais porque ainda tenho de pagar a luz e a água e tu já gastaste tudo outra vez."
Antes de mexer em valores, vale a pena passar uma semana a anotar duas coisas: a hora de cada pedido e o que a pessoa diz que quer comprar.
O padrão aparece quase sempre. Pedidos concentrados a meio da tarde apontam para o vazio dessas horas. Pedidos depois de uma visita dos netos apontam para o papel de quem oferece. Pedidos ao domingo apontam para a falta que faz a rotina da semana.
Às vezes não é mesmo sobre querer mais dinheiro, é sobre a sensação de ter que ter dinheiro porque quer fazer alguma coisa (ansiedade por não estar a fazer nada), achar que não tem e ligar incessantemente para obter.
Quando se percebe o que está em falta, resolve-se o que está em falta. Uma visita curta de uma vizinha em duas tardes por semana já reduziu mais telefonemas do que muitas conversas sobre orçamentos.
Muitos pedidos não são para gastar, são para pagar. A ideia de que há contas em atraso, de que a luz vai ser cortada, de que a renda ficou por liquidar, é das ansiedades mais persistentes nesta doença. Não se resolve com uma explicação, porque a explicação não fica guardada.
O que a desliga é não haver contas. Água, luz, gás, telefone, condomínio, seguros, farmácia. Tudo em débito direto, tudo domiciliado numa conta a que a pessoa não tem de ir. Deixa de haver envelopes na caixa do correio, avisos em cima da mesa, papéis a servir de gatilho a cada vez que ela passa pela entrada.
Nas fases iniciais, compensa fazer isto com ela e apresentá-lo pelo que é: uma forma de não haver esquecimentos e de não se pagar duas vezes a mesma coisa. Muita gente aceita bem, porque o argumento é verdadeiro. E até é mais fácil. Há serviços que oferecem descontos se as contas forem pagas por débito direto, pode ser uma boa justificação.
O que dizer: "Já está tudo a ser pago pelo banco".
Esta é das soluções mais simples e das menos usadas.
Falar com o café, com a mercearia, com a farmácia, com o cabeleireiro. Explicar a situação, e combinar que a pessoa continua a ir, continua a levar o que sempre levou, e que a conta é acertada uma vez por mês pela família. Uns pedem só um telefonema, outros preferem um valor deixado adiantado, outros ainda apontam num caderno como se fazia antigamente.
O que isto resolve é muito maior do que parece. A rotina mantém-se, o gesto de sair de casa mantém-se, a pessoa continua a ser cliente e a ser tratada pelo nome, e deixa de precisar de dinheiro na mão para viver o dia. O motivo mais frequente do pedido, que é ter com que pagar no café, desaparece sem que ninguém lhe tenha negado nada. A justificação é que lhe oferecem o que consome. Todos os dias, igual.
Em terras pequenas costuma resultar melhor do que em cidade, mas vale sempre a pena perguntar. Muitos comerciantes já fizeram isto antes com outros clientes e não precisam que se lhes explique nada.
A informação dita não fica. A informação escrita, num sítio por onde a pessoa passa dez vezes ao dia, às vezes fica o tempo suficiente para acalmar.
Um bilhete grande, em letra de imprensa, na porta do frigorífico ou ao lado do telefone. Alguma coisa como: "Mãe, está tudo pago. A água, a luz e a farmácia. Não tens de te preocupar com nada. Passo aí na quinta." Assinado com o nome de quem escreve, porque o nome é o que dá segurança.
Há quem leia aquele papel cinco, dez vezes por dia, e de cada vez fique um bocado mais descansado. Não resolve sempre, e deixa de resolver quando a leitura já não acompanha o suficiente para a frase fazer sentido. Enquanto funciona, é das intervenções mais baratas que existem.
O que evitar: bilhetes com contas, valores ou datas de pagamento. Números em cima da mesa produzem exatamente a preocupação que se estava a tentar tirar dali.
Cortar tudo de um dia para o outro cria pânico e quebra a confiança de uma forma que depois custa muito a recuperar.
O que funciona melhor é ir estreitando. Uma conta com saldo pequeno para o dia a dia, com o cartão associado a essa conta. A conta principal noutro banco ou fora do acesso imediato. Limite diário de levantamento baixo, definido com o gestor de conta. Alertas por mensagem em cada movimento.
Assim mantém-se o cartão na carteira e a autonomia de o usar, e o que se perde é apenas a possibilidade de um levantamento grande, roubos e perdas de grandes quantias.
Esta é a estratégia que as famílias saltam e depois pagam caro.
Quem gere o dinheiro fica exposto dos dois lados. Do lado da pessoa com demência, é quem nega. Do lado dos irmãos, é quem controla, e mais tarde ou mais cedo alguém insinua qualquer coisa. Vejo isto suceder em famílias que se davam bem durante quarenta anos.
Antes de mudar seja o que for, uma conversa entre todos, com números concretos à frente. Quem entrega, quanto, com que frequência, quem tem acesso à conta, com que periodicidade se mostram os movimentos aos outros. Prioridades, possibilidades de gastos e até onde se pode ir.
Decisões financeiras na demência aguentam-se muito melhor quando são decisões partilhadas. É importante todas as pessoas perceberem o ponto da situação.
- Discutir a legitimidade. Entrar na conversa sobre de quem é o dinheiro é entrar numa discussão que não se pode ganhar, porque a pessoa tem razão. O assunto é o cuidado, não o direito.
- Mentir sobre o saldo. Dizer que a conta está vazia quando não está parece resolver o momento, e resolve mesmo. O problema chega num dia mais lúcido, ou numa carta do banco em cima da mesa, e a confiança que se perde aí não volta com explicações.
- Dar mais dinheiro na esperança de que dure. Já foi tentado em quase todas as famílias que chegam a consulta, e o resultado é sempre o mesmo, com a diferença de que agora falta mais dinheiro no fim do mês.
- Cortar o acesso sem alternativa. Ficar sem nada na carteira, de repente, sem perceber porquê, é uma das coisas que mais rapidamente desencadeia agitação e desconfiança generalizada.
- Usar o dinheiro como moeda de troca. Nos dois sentidos. Nem condicionar a entrega ao comportamento, nem ceder para evitar uma cena. As duas coisas ensinam que o dinheiro é a via para conseguir o que se quer.
- Falar do assunto à frente de outras pessoas. Comentar à mesa que já não se lhe pode dar dinheiro humilha alguém que já vive com pouco controlo sobre o que lhe acontece.
Antes de qualquer passo legal, há muito que se resolve numa conversa com o gestor de conta. Limites diários de levantamento baixos, alertas por mensagem em cada movimento, bloqueio de transferências online, autorização obrigatória para operações acima de um valor.
Nas fases iniciais, compensa fazer isto com a pessoa e não às escondidas dela. A conversa é diferente do que se imagina quando o enquadramento é a proteção contra burlas, que é um risco real e que ela própria costuma reconhecer.
Cada banco terá as suas exigências, mas por norma é necessário uma declaração do médico em como a pessoa tem dificuldades na toma de decisões e, muitas vezes, é exigido uma procuração.
Antes de pensar em tribunal, vale a pena saber que muita coisa se resolve com um papel assinado numa tarde.
A procuração é o ato pelo qual alguém dá voluntariamente a outra pessoa poderes para agir em seu nome, e está prevista no artigo 262.º do Código Civil. Para efeitos bancários, tem de conferir poderes especificamente para isso e identificar a conta em concreto. Pode ser feita no próprio banco, que costuma ter impresso próprio, ou com reconhecimento de assinatura por notário, conservador, advogado ou solicitador. Não precisa de tribunal, não precisa de processo, e resolve-se em pouco tempo.
Pode ser ampla ou limitada, e compensa que seja limitada. Poderes para movimentar apenas aquela conta, apenas para determinadas operações, com prazo de validade se se quiser.
Há uma condição que decide tudo. A pessoa tem de perceber o que está a assinar no momento em que assina. A procuração é um ato voluntário, e se a compreensão já não está lá, deixa de ser uma opção. O que resta a partir daí é o caminho do tribunal.
Uma nota sobre o que a procuração não faz. Não retira à pessoa a capacidade de movimentar a própria conta. Ela continua titular, continua a poder levantar dinheiro, continua a poder assinar. A procuração acrescenta alguém que também pode, não substitui quem já podia. Para o dia a dia isso costuma bastar, sobretudo quando se junta aos limites e alertas combinados no banco.
Quando o risco para o património é sério e as soluções práticas já não chegam, existe em Portugal o regime do maior acompanhado, criado pela Lei n.º 49/2018, de 14 de agosto, em vigor desde fevereiro de 2019. Veio substituir as antigas figuras da interdição e da inabilitação.
A lógica deste regime é a de restringir o mínimo possível. O tribunal não retira a capacidade toda, define apenas as medidas necessárias àquela pessoa em concreto, e pode ir da intervenção pontual à administração de bens ou à representação. A medida é revista periodicamente, e a pessoa é ouvida pessoalmente antes de ser decidida.
O acompanhamento pode ser requerido pelo próprio, ou pelo cônjuge, unido de facto ou parente sucessível mediante autorização do próprio. Quando a pessoa já não está em condições de dar essa autorização de forma livre e consciente, o tribunal pode supri-la. O Ministério Público pode requerer independentemente de autorização. O processo corre no tribunal da área de residência.
Duas notas práticas. A primeira é que compensa começar cedo, enquanto a pessoa ainda pode participar na decisão sobre quem a acompanha. A segunda é que este é terreno para advogado ou para uma ida ao Ministério Público do tribunal da residência, não para se resolver com o que se lê num artigo.
Existe ainda a possibilidade de qualquer adulto deixar escrito, antecipadamente, quem quer que trate dos seus interesses se um dia for preciso. Feito a tempo, evita muito do que vem depois. Na maioria das vezes, este processo não é necessário e resolve-se com uma procuração detalhada.
Há situações em que o pedido de dinheiro deixa de ser só uma questão de gestão.
Se os pedidos surgiram de forma súbita, em poucos dias, em alguém que antes não os fazia, vale a pena despistar causas agudas. Infeção urinária, dor não verbalizada, obstipação, medicação nova. Qualquer uma destas se manifesta em pessoas com demência sob a forma de agitação e insistência, e nenhuma estratégia comportamental as resolve.
Se aparecerem acusações de roubo associadas, com convicção firme e dirigidas a alguém em concreto, o quadro é outro e tem uma abordagem própria.
Se houver sinais de que alguém se está a aproveitar, dinheiro que desaparece sem explicação, pessoas novas com acesso a casa, transferências que ninguém sabe explicar, isso não é gestão do dia a dia, é proteção, e há passos concretos a dar.
E se o desgaste de quem cuida já estiver a instalar-se, com noites mal dormidas e a relação a azedar de cada vez que o telefone toca, isso também merece consulta. Não da pessoa com demência. De quem está a segurar tudo.
Quando a pessoa com demência pede dinheiro constantemente, o que está em cima da mesa raramente é dinheiro. É a última prova de autonomia que ainda restava, uma sensação de falta que o cérebro não consegue explicar, e frequentemente uma necessidade completamente diferente que ficou a pedir por ali porque não tinha outra forma de aparecer.
A dificuldade real não está em escolher entre respeitar e proteger, está em fazer as duas coisas ao mesmo tempo. O dinheiro continua a ser dela e ninguém lho pode retirar por decisão de família. Ao mesmo tempo, é frequentemente esse dinheiro que vai pagar a ajuda de que ela vai precisar, e quem cuida é a única pessoa em posição de o ver.
A tarefa de quem cuida não é ganhar a discussão sobre de quem é o dinheiro, nem convencer com contas e extratos. É reduzir o tamanho do problema até ele caber no dia: valores pequenos e frequentes, uma resposta curta sempre igual, horas previsíveis, e a conta principal fora de alcance.
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Porque o registo de ter recebido não ficou guardado. A sensação presente é a de não ter nada na carteira, e essa sensação corresponde à realidade dela naquele momento. Repetir quanto se deu e quando não altera nada, porque essa informação também não vai ficar retida. A pessoa não se lembra que recebeu, que gastou ou guardou. Só sabe que não o encontra.
Nem sempre foi gasto. Há quatro destinos possíveis: gasto, guardado num sítio de que a pessoa não se lembra, perdido pelo caminho, ou aproveitado por alguém. Descobre-se indo aos sítios onde ela costuma ir, procurando pela casa com calma, e reparando em quem tem andado por perto nos últimos meses.
Depende inteiramente do que ele ainda faz sozinho. A regra que funciona melhor é um valor pequeno com frequência alta, em notas pequenas, em vez de um valor maior de uma só vez. Comece por perceber quanto tempo dura o que se entrega hoje e ajuste a partir daí.
Depende da fase, e a diferença não é pequena. Em alguém que já não sai sozinha nem faz compras, uma carteira com moedas ou notas antigas reduz a ansiedade sem custo nenhum. Em alguém que ainda vai ao café ou ao supermercado, pode não ser o mais adequado.
O dinheiro é dele e ninguém lho pode retirar por decisão de família, a menos que haja um registo claro em como não tem capacidade de gestão financeira nem para tomar conta da própria vida. Proteger quem já não consegue avaliar as consequências das próprias decisões financeiras é uma forma de cuidar. O caminho não passa por recusar, passa por reduzir a exposição sem cortar o acesso, com valores pequenos e frequentes e a conta principal fora de alcance.
Costumam mudar de forma. À medida que a doença avança, o pedido tende a deixar de ser por dinheiro para gastar e a passar a ser por dinheiro para segurar, e nessa altura as estratégias que resultam são outras. O que raramente resolve é esperar que passe sozinho.
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