Pessoa com demência com comportamentos sexuais: Guia prático

Introdução

O seu pai apalpou-lhe o peito durante a visita. A sua sogra pediu-lhe uma coisa a meio do banho. O seu marido levanta-lhe o vestido a meio da tarde e insiste. Uma pessoa com demência com comportamentos sexuais deixa a família sem saber o que fazer e, quase sempre, sem contar a ninguém.

Ele não está a fazer aquilo contra si. Havia uma parte do cérebro que travava o impulso antes de a mão chegar lá, e essa parte já não funciona. Não decidiu deixar de ter pudor. Perdeu a zona do cérebro que o produzia, tal como perdeu a memória do que almoçou.

Trata-se de um sintoma neurológico, como o tremor ou a dificuldade em encontrar as palavras. Ninguém repreende um doente de Parkinson porque a mão treme. Aqui as famílias repreendem, castigam e escondem.

Está escrito por todo o lado que estes comportamentos são típicos da demência frontotemporal. Repetida sem contexto, a frase faz um estrago sério: quem tem um pai com Alzheimer conclui que não pode ser da doença, e se não é da doença é do homem.

Há ainda uma parte destes casos em que o comportamento não vem da demência. Vem da medicação, e desaparece quando o médico a ajusta.

Este artigo explica o que deixou de funcionar no cérebro, o que se confunde com sexual e não é, como o quadro se apresenta em cada tipo de demência, e o que fazer conforme quem recebe o gesto. Inclui o consentimento no casal e a vergonha de quem cuida.

⚡ Resumo Rápido

O comportamento é um sintoma de perda de inibição, não é intencional e não é dirigido a quem o recebe.
O Alzheimer é o tipo de demência mais frequente nestes casos, seguido da demência vascular. Não é exclusivo da frontotemporal.
Os fármacos dopaminérgicos provocam hipersexualidade e o efeito reverte com ajuste da medicação.
Levar a mão à zona genital, despir-se e levantar a saia são muitas destas vezes infecção urinária, dor, calor ou vontade de urinar.
Quem cuida pode recusar o contacto, sair da divisão e trocar de tarefa. Não é abandono.

⏳ Tempo de Leitura: 20 minutos

Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais, esta verificação vem antes de tudo o resto. Demora vinte minutos e, numa parte dos casos, resolve o problema.


Antes de qualquer estratégia, olhe para a medicação

Fármacos dopaminérgicos e controlo dos impulsos

Os agonistas dopaminérgicos são usados no tratamento da doença de Parkinson. Em Portugal, os nomes mais frequentes são pramipexol, ropinirol, rotigotina, bromocriptina e apomorfina.

Está bem descrito que estes fármacos provocam perturbações do controlo dos impulsos. A hipersexualidade é uma delas, a par do jogo, das compras compulsivas e da ingestão alimentar sem travão.

Nas séries publicadas, o comportamento era novo para quase todos os doentes. Não era um traço prévio acentuado pela idade, surgiu depois da introdução do fármaco. Há casos descritos de remissão completa após retirada ou substituição do agonista.

O pramipexol e o ropinirol são os mais associados a este efeito, pela afinidade elevada para o receptor D3, localizado no circuito da recompensa.

Estes mesmos fármacos são prescritos para a síndrome das pernas inquietas. Uma pessoa com demência com comportamentos sexuais pode estar a tomá-los há anos sem qualquer diagnóstico de Parkinson.

O ajuste é decisão médica. O trabalho da família é reunir a informação.

Como cruzar a data do medicamento com a data do comportamento

Reúna todas as caixas, incluindo as receitadas por outras especialidades. Numa folha, registe o nome de cada fármaco e a data aproximada de início. As farmácias fornecem o histórico de dispensa.

Ao lado, registe quando o comportamento começou. Não o mês em que a família o classificou como problema, mas o primeiro episódio, mesmo que na altura tenha sido desvalorizado.

Datas próximas justificam consulta antes de qualquer intervenção comportamental. O mesmo se aplica a qualquer fármaco novo, alteração de dose ou suspensão recente.

O que parece sexual e não é

Quando leva a mão à zona genital

Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais, é o gesto mais depressa classificado como sexual e o que menos vezes o é.

Causas a excluir: infeção urinária, que na demência raramente dá o quadro típico e se manifesta como confusão, agitação e comportamento novo; prurido; candidíase; dermatite associada à fralda; maceração da pele; obstipação com vários dias sem dejecção. Nos homens, fimose ou patologia prostática.

Uma pessoa que já não verbaliza a dor leva a mão ao local onde dói.

Quando se despe a meio do dia

Calor, fralda apertada ou molhada, etiqueta que pica, tecido que irrita.

O fim da tarde é um período de agitação aumentada em muitas pessoas com demência, e o despir surge associado a essa inquietação, sem conteúdo sexual.

Despir de início súbito, em dias, acompanhado de confusão superior ao habitual, investiga-se como delirium. É consulta no próprio dia, não é estratégia comportamental.

Quando levanta a saia ou o vestido

Uma mulher a levantar a saia pode estar só a dizer que precisa de ir à casa de banho.

Por isso, antes de pensar em mais alguma coisa, acompanhe-a lá. Se essa ação desaparece, estava respondido.

Quando toca em tudo o que está ao alcance

A hipermetamorfose é a necessidade de tocar em todos os objetos que entram no campo visual. A pessoa toca no mobiliário, nas cortinas, e também em quem está por perto.

Quando o toque numa pessoa integra este padrão, tem a mesma intenção que o toque numa cortina.

😔 Sente que nada está a funcionar?

Podemos ajudar com orientação personalizada adaptada à vossa realidade. Clique no botão abaixo 👇

Não acontece só na demência frontotemporal

Na variante comportamental, a degeneração inicia-se no córtex orbitofrontal e ventromedial, responsável pela inibição do impulso e pela leitura do contexto social. A desinibição é um critério de diagnóstico.

Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais de causa frontotemporal, pode ser o primeiro sinal, anos antes de qualquer falha de memória. Um estudo sueco com demência confirmada por autópsia encontrou prevalência significativamente superior de comportamento socialmente inapropriado na frontotemporal face ao Alzheimer, e refere que estes comportamentos são por vezes uma forma de apresentação da doença.

É a razão pela qual muitas famílias passam anos a atribuir a mudança ao carácter, a uma crise ou a más companhias.

Alzheimer, o tipo mais frequente nestes casos

O comportamento surge habitualmente em fase moderada a avançada, quando a degeneração atinge as regiões frontais. Aparece mais tarde do que na frontotemporal, mas em números absolutos uma pessoa com demência com comportamentos sexuais tem, mais vezes do que qualquer outro diagnóstico, doença de Alzheimer. 

A revisão sistemática de 2025 do Journal of the American Geriatrics Society encontrou esta distribuição nos casos com tipo identificado: Alzheimer em primeiro lugar, demência vascular a seguir, frontotemporal depois.

Existe uma apresentação rara com lesão concentrada na amígdala. Está publicado o caso de um homem de setenta anos com hiperoralidade, comportamento sexual desinibido, toque compulsivo e agnosia visual, diagnosticado em vida como frontotemporal. A autópsia mostrou doença de Alzheimer com lesão na amígdala lateral.

Demência vascular, quando muda de um dia para o outro

O dano atinge os circuitos frontais-subcorticais. Um enfarte pequeno em localização estratégica produz o quadro de forma abrupta.

O início súbito é ele próprio informação clínica. Um comportamento que começou numa semana identificável, sem antecedentes, leva-se à consulta como sintoma.

Corpos de Lewy e Parkinson, onde a medicação pesa mais

Nestes dois diagnósticos, doença e tratamento sobrepõem-se. A revisão de 2025 identifica as pessoas com demência da doença de Parkinson medicadas com agentes dopaminérgicos como um dos grupos de maior risco.

Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais e diagnóstico de Parkinson, a revisão da medicação precede qualquer intervenção comportamental.

Quando aparece junto com meter objetos à boca

Há um conjunto de sintomas com nome próprio, a síndrome de Klüver-Bucy, que vem de lesão nos dois lobos temporais, sobretudo na amígdala e no hipocampo. 

Junta comportamento sexual desinibido com meter objetos à boca, tocar em tudo, comer sem travão, deixar de reconhecer objetos pela visão, e uma placidez que as famílias me descrevem como não reagir a nada.

Bastam três destes componentes para se falar de quadro parcial. Está descrita depois de encefalite por vírus herpes, de acidente vascular cerebral, de traumatismo craniano, na doença de Huntington e no Alzheimer.

Se o seu familiar mete objetos à boca ao mesmo tempo que tem comportamentos sexuais, escreva este nome num papel e leve-o à consulta. Não é para fazer figura de entendida. É para o médico perceber que a família está a descrever um padrão e não uma lista de coisas soltas.

O que está a acontecer no cérebro de uma pessoa com demência com comportamentos sexuais

O lobo frontal recebe o impulso, avalia o contexto e decide se o comportamento se executa, se se adia, ou se não se executa. Todas as pessoas têm impulsos. A diferença está no intervalo entre o impulso e a ação.

Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais, esse intervalo desapareceu.

Há uma segunda falha, e explica os episódios mais difíceis. Existe uma área do cérebro dedicada ao reconhecimento de rostos, que também se deteriora. Quando falha, a pessoa mantém a leitura de categorias, mulher, jovem, familiar, mas já não identifica quem é aquela pessoa em concreto. O cérebro preenche com a informação antiga que ainda retém, que é a esposa de há quarenta anos.

A terceira peça é a mais esquecida. Perder a inibição não é perder a necessidade. A vontade de proximidade e de contacto físico mantém-se intacta e fica sem forma de se exprimir.

Uma parte do que a família interpreta como avanço sexual é procura de contacto físico com os meios que restam.

A quem o gesto é dirigido muda a resposta

Quase tudo o que está escrito sobre isto trata o comportamento sexual como se fosse uma coisa só. Não é. Perante uma pessoa com demência com comportamentos sexuais, o mecanismo por baixo pode ser o mesmo, e a resposta certa muda por completo consoante quem está do outro lado.

Filha, nora ou neta

A Inês foi almoçar a casa do pai, o Sr. Augusto, de oitenta e um anos, como faz todos os domingos. Sentou-se ao lado dele no sofá e ele passou-lhe a mão pelo peito, com a maior das naturalidades, como quem faz uma coisa de todos os dias. Ela levantou-se, foi para a cozinha e chorou de pé ao lado do lava-loiça.

Aquilo não tinha nada que ver com a Inês. O Sr. Augusto não estava a tocar na filha. Estava a tocar na mulher com quem viveu quarenta anos, e a Inês, ali sentada com a cara que a mãe tinha aos trinta, era a única informação que o cérebro dele tinha à mão. Chama-se falso reconhecimento e é frequente no Alzheimer moderado a avançado.

Tire a mão sem fazer disso um drama, diga quem é com voz calma, e mande logo o foco para outro sítio com uma tarefa concreta.

"Sou a Inês, a sua filha. Venha, vamos pôr a mesa."

Não use a frase para o corrigir nem para provar nada a ninguém. 

Diga o nome, dê a tarefa e siga.

Cuidadora ou profissional de saúde

O mecanismo é o mesmo. O que muda é que a pessoa que está a apanhar com aquilo está a trabalhar, e um comentário sobre o corpo de uma auxiliar, repetido todos os dias, é uma coisa que ela cala porque a alternativa é passar por má profissional.

Se emprega alguém em casa para cuidar de uma pessoa com demência com comportamentos sexuais, isto é um assunto seu. Diga-lhe que sabe que acontece, que a culpa não é dela, que pode dizer que não, e que quando acontecer sai da divisão e chama alguém sem ter de justificar coisa nenhuma.

Uma auxiliar que sente a família ao lado dela fica. Uma que sente que tem de aguentar aquilo sozinha vai-se embora, e a família volta ao princípio com uma pessoa nova que não sabe nada das rotinas.

Quando acontece na rua ou no café

O Sr. Henrique tem setenta e sete anos e passava as tardes no café da esquina. Começou a fazer comentários sobre o corpo das empregadas de mesa, coisa que nunca fez em setenta e sete anos de vida. A família fez o que quase todas fazem, deixou de o levar ao café.

E foi aí que a coisa se estragou de vez. Sem o café, o Sr. Henrique ficou em casa o dia inteiro sem ter nada que fazer, a agitação subiu, e com a agitação subiram os comentários dentro de casa.

Não comprem guerras. Há muitas guerras que vamos ter de comprar ao longo deste processo, e fechar uma pessoa em casa para poupar a família ao constrangimento não é uma delas.

Quando se dirige a crianças

Quando uma pessoa com demência com comportamentos sexuais os dirige a crianças, seja de que maneira for, acabam os momentos a sós. Não fica sozinho com os netos, não toma conta deles à tarde, não se dá o benefício da dúvida.

E faz-se isto sabendo que ele não tem culpa nenhuma e que não está a agir com intenção. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. Proteger a criança não é acusar o avô.

14 estratégias para lidar com uma pessoa com demência com comportamentos sexuais

1. Excluir causa física antes de chamar sexual ao comportamento

Verifique por esta ordem: temperatura da divisão e excesso de roupa, estado da fralda, irritação ou assadura na virilha, sinais de infeção urinária, dias sem dejeção, sinais de dor não verbalizada.

Faça isto antes de alterar qualquer outra coisa. Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais, um quadro de início súbito ou com agravamento rápido investiga-se sempre primeiro pela causa orgânica.

2. Pôr a caixa dos medicamentos em cima da mesa

Já expliquei atrás como se faz. Fica na lista porque é a única coisa aqui que pode resolver o problema.

3. Distinguir o que é dirigido de alguém do que não é dirigido a ninguém

Observe durante alguns dias: acontece com uma pessoa específica ou com quem estiver presente?

Sempre com a mesma pessoa indica falso reconhecimento. A intervenção passa por reorientar e, se necessário, redistribuir tarefas.

Com qualquer pessoa e também com objectos indica perda de inibição. A intervenção é no ambiente e na ocupação.

4. Não corrigir, não ralhar, dar uma coisa para fazer

A primeira coisa que apetece é ralhar. E eu percebo bem, porque ralhar dá-nos a sensação de que ainda mandamos alguma coisa naquilo que acabou de acontecer. 

O problema é que uma pessoa com demência com comportamentos sexuais já não tem o raciocínio que a repreensão exige, e o que lhe chega é só que alguém de quem ela gosta está zangado sem se perceber o motivo.

O que resulta é trocar o estímulo por outro, com voz normal e com uma tarefa nas mãos.

"Venha ver esta planta comigo."

"Preciso de ajuda para dobrar isto."

"Está aqui o seu chá, ainda quente."

O que evitar:

"Isso não se faz."

"Tenha vergonha, o senhor é um homem casado."

5. Tirar a mão e dizer o que se passa sem acusar

Tirar a mão é permitido. Não é falta de amor, não é estar a rejeitar a pessoa, e não faz mal nenhum a ninguém.

Tire com firmeza calma, sem puxão, e diga qualquer coisa que devolva o contacto a uma forma que se possa aceitar.

"Assim não. Dê-me antes a mão, venha."

Aquela frase faz duas coisas ao mesmo tempo. Interrompe o gesto e oferece contacto físico em troca, que é o que interessa, porque a necessidade lá por baixo é real e não desaparece só porque foi recusada.

6. Reorientar quando há falso reconhecimento

Diga o nome e o parentesco com voz calma, sem fazer daquilo um teste.

"Sou a Teresa, a sua nora. Vamos acabar de vestir a camisola."

E nunca pergunte "sabe quem eu sou?". Se ele soubesse, não tinha feito, e a pergunta só serve para lhe mostrar que falhou.

7. Sair da divisão quando o redirecionamento falha

Em alguns episódios a pessoa fica fixada e não sai daquilo.

Saia durante dois ou três minutos. Na demência, a fixação dissipa-se quando o estímulo desaparece, e o regresso à divisão funciona como recomeço.

Só se aplica se for seguro deixar a pessoa sozinha. 

Caso contrário, chame outra pessoa e troquem.

8. Adaptar a roupa em vez de andar a vigiar o dia inteiro

Peças com fecho ou botões atrás, cintos de fivela mais difícil, fatos-macaco desenhados para demência com abertura posterior. Existem no mercado e não restringem o movimento.

Adapte a roupa apenas depois de excluir desconforto real. Se a pessoa se despe por calor, roupa mais difícil de retirar agrava o problema.

9. Ver o que passa na televisão àquela hora

Verifique o que está a passar na televisão nos períodos em que o comportamento surge com mais frequência. Conteúdos com carga sexual, incluindo publicidade, funcionam como gatilho em algumas pessoas.

Basta mudar de canal antes da hora habitual. Não é necessário proibir nem desligar.

10. Encher o dia e ocupar as mãos

O comportamento aumenta nos períodos vazios e diminui com ocupação e contacto físico suficiente. Actividades com significado para aquela pessoa, objectos com textura para as mãos, mantas, almofadas com relevo, tábuas de actividades.

Programe o contacto físico como programa as refeições: abraço de manhã, mão dada durante a televisão, massagem nas mãos ao deitar. A necessidade fica satisfeita antes de encontrar a forma inadequada de se exprimir.

11. Mudar quem dá o banho, ou dar o banho a dois

Quando os episódios são sempre no banho e sempre com a mesma pessoa, mude quem o dá. Não sendo possível, faça-se a dois. A presença de uma segunda pessoa reduz a frequência e protege quem presta o cuidado.

Sempre que possível, ajuste o género de quem faz a higiene íntima à história e ao pudor da pessoa.

12. Recusar o pedido de masturbação 

O pedido de masturbação durante a higiene é mais frequente do que a literatura portuguesa sugere, e quem o recebe cala-se durante meses.

Ninguém tem de executar um ato sexual porque quem o pede tem demência. Recuse com naturalidade, sem sermão, e retome a tarefa.

"Isso não. Vamos lavar as costas, levante o braço."

A segunda parte da estratégia é igualmente importante. Masturbação em espaço privado não é um problema a resolver. Se for num espaço público, é um comportamento normal que perdeu a noção de contexto. Acompanhe a pessoa a um lugar seguro e feche a porta, em vez de proibir.

Tratar as duas situações como equivalentes retira credibilidade à família para quando for necessário intervir.

13. Ter uma frase pronta e um plano de saída

Decore uma frase curta e use sempre a mesma.

"Ele tem demência, peço desculpa."

Chega. Não explique mais, não peça compreensão, não fique ali a justificar-se. Diga e siga.

Há famílias que levam um cartão pequeno na carteira com a frase escrita, para mostrarem sem falar quando não apetece dizer aquilo à frente da pessoa.

Combinem antes qual é o sinal de saída e quem sai com quem. Quem tem plano sai calmo. Sem plano, sai-se em pânico, e o pânico vê-se de longe, inclusive por quem tem demência.

14. Continuar a sair, escolhendo melhor

Não deixe de sair. Escolha horas com menos gente, sítios onde já conhecem a situação, saídas mais curtas.

E avise antes as pessoas com quem se vão encontrar. Um sobrinho avisado reage de outra maneira, e a maior parte das pessoas, quando sabe, porta-se bem.

O casal, a intimidade e a linha que não se atravessa

A D. Glória tem setenta e nove anos e está casada há cinquenta e três com o Sr. Fernando, que tem demência. Ele levanta-lhe o vestido durante o dia, diz que quer estar com ela, e insiste. Quando ela recusa, fica magoado como um miúdo que não percebeu o que fez de mal. Um dia foi sozinho à farmácia comprar preservativos.

O que a D. Glória me perguntou foi isto: eu posso? E logo a seguir: eu tenho de?

Vou responder às duas, e começo pela segunda porque é a mais fácil. Não. Ninguém tem de manter relações sexuais com o marido ou com a mulher por essa pessoa ter demência. O casamento não deixou de ter duas pessoas lá dentro. Recusar não é abandonar, e quem cuida das vinte e quatro horas do dia de alguém não tem de dar satisfações a ninguém.

A primeira resposta é: depende. E depende de coisas concretas, que se podem observar.

A intimidade continua a fazer parte da vida de muitos casais durante anos depois do diagnóstico, e é fonte de conforto para os dois. Muda uma coisa: já não se pode presumir que ela está de acordo. Passa a ter de se ler.

Há critérios usados lá fora para avaliar capacidade de consentimento sexual, e são três. Perceber a natureza do ato e o que dele pode vir. Conseguir pensar nisso à luz daquilo em que sempre acreditou. E conseguir dizer que sim de livre vontade, sem estar a ser levado.

A esses juntam-se três verificações práticas. Saber quem está ali com ela naquele momento. Conseguir mostrar até onde está confortável. E, acima de tudo, conseguir dizer que não e travar aquilo que não quer. Num casal em que há uma pessoa com demência com comportamentos sexuais, é esta última que decide tudo.

Quem já não consegue recusar não está a consentir. Está a deixar acontecer.

Ninguém pode consentir em nome de outra pessoa neste assunto. Nem um filho, nem uma procuração, nem uma decisão de tribunal. A autorização não se delega.

A partir do momento em que ela deixa de ser capaz de recusar, a linha está atravessada, e a lei portuguesa protege quem está em situação de incapacidade precisamente por causa disso. Digo isto sem qualquer intenção de assustar o cônjuge que está a ler, porque essa pessoa quase nunca é aquela em quem a lei está a pensar. Digo-o porque a mesma proteção serve para o caso contrário, alguém de fora aproveitar-se de uma pessoa com demência, e isso acontece muito mais do que as famílias imaginam.

Se a dúvida não passa, fale com o médico assistente. É uma conversa que se pode ter, e que se tem mais vezes do que parece.

E a intimidade não se esgota no ato sexual. Há casais que acompanho que encontram outras maneiras de continuar próximos, dormir na mesma cama, tomar banho juntos sem mais nada, ficar de mão dada a ver televisão. Para muita gente com demência, é o contacto que ainda funciona e que ainda reconhece.

O que nunca fazer

Ralhar, castigar ou chamar nomes: não muda nada, porque aquilo não é intencional, e ainda acrescenta angústia a alguém que não faz ideia do que se passou.
Ralhar em público: expõe toda a gente e agita a pessoa, o que costuma esticar o episódio em vez de o acabar.
Assumir que é sexual sem investigar: já viu a lista das coisas que se confundem com isto. Caracterize antes de rotular.
Esconder do médico: é a que faz mais estrago de todas. A vergonha atrasa meses o despiste de uma infeção urinária ou a revisão de um fármaco que estava a provocar aquilo tudo.
Argumentar com lógica ou com moral: dizer que é casado, que tem netos, que sempre foi um homem respeitado. Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais, o circuito que processava esse raciocínio já não está disponível.
Fechar a pessoa em casa: agrava a apatia, agrava a agitação, e a agitação alimenta o próprio comportamento.
Reagir em pânico à frente dele: ele percebe que fez alguma coisa grave sem conseguir perceber o quê, e a reacção forte que aquilo provoca pode acabar por reforçar o comportamento.
Tratar a masturbação em privado como problema: trabalha-se o sítio, não o acto.

O nojo que ninguém diz em voz alta

Assistir a um pai a masturbar-se na sala é um choque. O corpo reage antes do raciocínio. Fica-se sem saber para onde olhar, com vontade de sair, e nos dias seguintes a imagem regressa espontaneamente.

E sente-se nojo. De uma pessoa que se ama.

Sentir nojo é uma resposta do corpo, não é falha de amor. Existem regras antigas sobre contacto físico dentro de uma família, e não se desligam porque o raciocínio já percebeu que há uma doença.

O problema não é o nojo. É a culpa que vem a seguir.

A frase chega-me quase sempre igual.

"Eu não disse nada ao médico. Como é que eu ia dizer aquilo? Ele já tem tanta coisa para tratar, e depois o meu pai ficava com aquilo escrito no processo para sempre."

A sequência é sempre a mesma. Sente nojo. Sente-se culpada por ter sentido. Conclui que não pode contar a ninguém. E cala-se, incluindo com o médico, que era quem podia ter identificado a infeção urinária ou o fármaco responsável.

Enquanto não for um profissional a abrir o assunto, quem cuida continua a assumir que é a única pessoa a quem isto acontece. As estimativas variam conforme o estudo e o contexto de cuidados, e os autores da revisão de 2025 referem que o comportamento chega a atingir cerca de uma em cada quatro pessoas com demência.

Quando procurar ajuda médica

Marque consulta para uma pessoa com demência com comportamentos sexuais, sem esperar, quando:

- Aquilo apareceu de repente ou deu um salto em poucos dias. Investiga-se como infeção, dor, retenção urinária ou efeito de medicação nova.

- Houver um fármaco dopaminérgico na medicação, com ou sem diagnóstico de Parkinson.

- O comportamento se dirigir a crianças ou a pessoas mais frágeis.

- Houver agressividade pelo meio, ou risco para ele ou para outros.

- Já tiverem feito as adaptações de ambiente, de roupa e de comunicação de forma consistente durante algumas semanas e não tiver mudado nada.

- Leve escrito o que ele faz exatamente, em que situações, com que frequência, desde quando, e quem está presente. Uma folha escrita muda a consulta.

Quando não chegam, a medicação é frequentemente necessária, e isso também é verdade. Nesses casos os autores notam que as terapêuticas hormonais resultaram várias vezes em situações onde os antipsicóticos e os antidepressivos já tinham falhado. Essa decisão é do médico, com as duas coisas em cima da mesa, o que se pode ganhar e os efeitos secundários.

E vá à consulta de qualquer maneira, mesmo que não queira medicação nenhuma. Vá para descobrir a causa reversível, que nenhuma estratégia comportamental substitui.

Síntese final

O seu familiar continua a ser a mesma pessoa. O que se alterou foi a região do cérebro que decidia o que se faz, onde e à frente de quem. Ou está a passar por uma situação potencialmente reversível. Investigue sempre.

Isso não torna mais fácil receber e lidar com esta situação. Determina o que se faz a seguir, e daí depende a possibilidade de aguentar os próximos meses.

Não carregue isto sozinho. Conte ao médico e a quem cuida consigo. Ninguém o preparou para isto e não tinha obrigação de saber. 

❤️ Precisa de apoio?

Podemos trabalhar consigo para criar estratégias personalizadas que protejam o bem-estar do seu familiar sem comprometer a dignidade. Clique abaixo 👇

FAQs - Perguntas Frequentes

O meu pai apalpou-me. Ele sabe o que está a fazer?

Sabe que quer, não consegue avaliar que não deve, e por vezes nem sabe com quem está. Uma pessoa com demência com comportamentos sexuais não está a decidir contra ninguém. E na maior parte dos casos não fica com memória nenhuma do episódio, o que quer dizer que falar com ele sobre aquilo no dia seguinte não corrige coisa nenhuma e só lhe dá uma angústia sem explicação.

Isto quer dizer que ele sempre foi assim e escondia?

Não. Numa pessoa com demência com comportamentos sexuais, o que aparece é comportamento novo, produzido por dano cerebral, e não um traço antigo que finalmente veio ao de cima. Na frontotemporal isto pode aparecer muito antes de a memória dar sinal, e é por isso que tantas famílias passam a reler uma vida inteira para trás à procura de sinais que nunca existiram.

É verdade que isto só acontece na demência frontotemporal?

Não. E se o diagnóstico do seu familiar for Alzheimer ou demência vascular e alguém lhe disser que então aquilo não pode ser da doença, não aceite. Peça que o comportamento seja avaliado à mesma.

A minha mãe toca-se constantemente. É sexual?

Comece por assumir que não é. E a verificação faz-se durante a higiene do costume, a olhar para a pele, para a fralda e para a urina, não a inspeccionar a senhora como quem faz uma revisão ao carro. A diferença entre as duas coisas é toda a dignidade que ela ainda tem.

Pode ser da medicação?

Pode, e há um pormenor que leva as famílias a excluir esta hipótese cedo demais. Aquilo nem sempre aparece nos primeiros dias. Pode surgir meses ou anos depois de o fármaco ter entrado, ou depois de uma subida de dose que ninguém ligou a nada. Leve a informação ao médico e não suspenda nada por sua conta.

Posso dizer que não ao meu marido?

Pode, sempre, e não deve satisfações a ninguém. Ajuda é a recusa não ficar sozinha. Recusar e oferecer outra coisa ao mesmo tempo, ficar de mão dada, deitar-se ao lado, é recebido de outra maneira, porque aquilo que ele anda a pedir por baixo não desaparece por lhe ser negado.

Sinto nojo do meu pai. Sou má pessoa?

Não. O corpo tem reações que a cabeça não manda, e esta é uma delas. E a imagem voltar sozinha nos dias a seguir também é normal. Agora, se começar a tirar-lhe o sono, ou se der por si a adiar as visitas, procure alguém com quem falar sobre isso.

Devo contar ao médico?

Deve. E se não conseguir dizê-lo em voz alta à frente do seu familiar, escreva num papel e entregue no início da consulta. Os médicos recebem bem, e resolve o problema de ter de descrever aquilo com ele sentado ao lado.

A minha sogra pede-me coisas durante o banho. O que faço?

Recuse e volte à tarefa. E conte a mais alguém da família nesse mesmo dia. Se estiver a fazer isto como profissional, registe por escrito e comunique a quem a contratou. O que faz estas situações apodrecerem é ficarem entre duas pessoas dentro de uma casa de banho.

Ele masturba-se na sala à frente das visitas. Proíbo?

Não proíba, e não o arranque dali a meio, que isso costuma dar agitação. Mude as visitas de divisão com naturalidade e acompanhe-o ao quarto a seguir. Uma frase chega: "Vamos todos para a cozinha, o café está feito."

Devo deixar de o levar a lados?

Não. E o critério para reduzir as saídas não é o constrangimento da família, é o mal-estar dele. Enquanto o seu familiar não estiver a sofrer com a reação das outras pessoas, o problema é de quem está à volta e resolve-se avisando quem vos recebe.

Artigos Relacionados

Estratégias e explicações simples para o dia a dia de quem cuida de um familiar com demência, escritas para quem precisa de respostas práticas, não de teorias.

Consultoria de Envelhecimento Agendar Consulta Pessoa com demência com comportamentos sexuais: Guia prático Introdução O seu pai apalpou-lhe o peito durante a visita. A sua sogra pediu-lhe uma coisa a meio do banho. O seu marido levanta-lhe o vestido a meio da tarde e insiste. Uma pessoa com demência com comportamentos sexuais deixa a família sem saber o que fazer…

Quando a pessoa com demência não quer lavar os dentes, a causa costuma ser dor ou já não saber como. 12 estratégias

Luto em vida na demência: sentir saudades de quem ainda está ao lado. O que se vive, e como voltar a chegar à pessoa.

Para quem não quer cuidar às cegas...

Uma carta por semana com estratégias práticas para lidar com os desafios reais de cuidar de um familiar com demência, diretamente no seu email, todas as terças.

Política de Privacidade

Copyright 2025 © Filipa da Fonseca Dias - Consultoria de Envelhecimento - Unipessoal, Lda

E178616