Agitação ao final do dia na Demência: Guia Completo para acalmar a Síndrome do Pôr do Sol

Introdução

A tarde começa tranquila. Por volta das 17h, surge a típica agitação ao final do dia na demência  - um dos comportamentos mais desgastantes para quem cuida. 

A pessoa torna-se inquieta, confusa, por vezes agressiva. Quer sair de casa, procura pessoas que já não estão presentes, não reconhece a própria casa. 

Este padrão repete-se dia após dia, sempre na mesma altura.

Não está sozinho. Este fenómeno afeta 6 em cada 10 pessoas com demência e tem nome: Síndrome do Pôr-do-Sol. 

Não é birra, não é má vontade. É o cérebro em estado de alarme, incapaz de processar as mudanças naturais do dia.

⚡ Resumo Rápido

A agitação ao final do dia na demência (Síndrome do Pôr-do-Sol) afeta 6 em cada 10 pessoas
O cérebro perde a capacidade de interpretar a transição dia-noite, entrando em estado de pânico
A agitação dificilmente será eliminada por completo, mas pode ser reduzida em 60-70% com preparação estruturada
Validar a emoção é mais eficaz do que tentar explicar ou convencer com lógica

⏳ Tempo de Leitura: 10 minutos

A boa notícia: com preparação e método, pode reduzir a intensidade e duração destes episódios em 60-70%. 

Neste artigo, vou mostrar-lhe como criar um plano estruturado para gerir estas horas críticas, protegendo o bem-estar do seu familiar e o equilíbrio da família.

O que é a agitação ao final do dia na demência (Síndrome do Pôr-do-Sol)?

A agitação ao final do dia na demência, também conhecida como Síndrome do Pôr-do-Sol (sundowning, em inglês), é um padrão de confusão e ansiedade que surge sistematicamente entre as 16h e as 21h. 

Não é um comportamento isolado. É uma resposta neurológica à transição do dia para a noite. As manifestações mais comuns incluem:

Por que motivo acontece: relógio biológico comprometido

O cérebro humano regula o ciclo sono-vigília através de uma pequena região no hipotálamo. Numa pessoa com demência, esta estrutura degrada-se. 

A pessoa perde a capacidade de interpretar os sinais externos que indicam "está a anoitecer, é hora de acalmar".

Além disso, ao final do dia acumula-se:

Fadiga cognitiva das horas anteriores
Diminuição da luz natural (que desregula ainda mais o ritmo circadiano)

O resultado: um cérebro em pânico, tentando dar sentido a um mundo que já não consegue decifrar. 

É por isso que a agitação ao final do dia é tão comum na demência, não é falta de cooperação, é incapacidade neurológica.

Como reconhecer os sinais precoces da agitação ao final do dia na demência (antes da crise)

A agitação ao final do dia na demência não surge do nada. Existe uma janela de 1-2 horas antes do pico onde os sinais começam a aparecer. Reconhecê-los permite intervir antes da escalada.

Mudanças subtis no comportamento:

Olhar mais perdido, dificuldade em manter a atenção
Mexer em objetos sem propósito (abrir e fechar gavetas, dobrar panos)

Alterações na comunicação:

Frases repetidas com mais frequência
Tom de voz mais agudo ou tenso

Sinais entre as 16h-18h (zona crítica)

Aqui o padrão intensifica-se:

Levanta-se e senta-se repetidamente
Procura objetos específicos (chaves, mala, casaco)

Quando estes sinais aparecem, ative o protocolo que vou descrever mais abaixo. Esperar que "passe sozinho" raramente funciona.

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Plano passo-a-passo para gerir a agitação ao final do dia na demência (síndrome do pôr-do-Sol)

Este método baseia-se em antecipar, não em reagir. Cada passo tem uma janela horária específica e um objetivo claro. Já foi testado com centenas de famílias portuguesas.

🫡 O seu plano anti-agitação em 6 passos

Manhã: identifique gatilhos do dia (calor, visitas, consultas)
14h-16h: reconheça sinais precoces e ative o protocolo
16h-18h: reduza estímulos (TV baixa, luz suave, máx. 2 pessoas)
16h-20h: Antecipe necessidades de hora a hora (água, casa de banho, temperatura)
18h-20h: Rotina fixa (mesma música, mesma cadeira, mesma bebida)
Quando surgir confusão: Valide sem corrigir ("Tem razão, vamos a isso")

Passo 1 — Identificar os gatilhos específicos (manhã e início da tarde)

Nem todos os dias são iguais. Alguns fatores externos amplificam a agitação:

Fatores meteorológicos: dias muito quentes, mudanças bruscas de pressão atmosférica ou tempestades podem intensificar a desorientação. O cérebro com demência perde a capacidade de se autorregular.
Fatores físicos silenciosos: infeções urinárias, prisão de ventre não resolvida ou desidratação subtil criam desconforto que a pessoa não consegue expressar verbalmente.

Passo 2 — Reconhecer os sinais precoces (14h-16h)

Esta é a sua janela de intervenção preventiva.

O que observar:

Inquietação crescente (mexer nas mãos, bater com os dedos)
Olhar vago ou fixo num ponto

O que fazer

Passo 3 — Reduzir estímulos sensoriais (16h-18h)

O cérebro com demência processa informação de forma lenta e desorganizada. Demasiados estímulos simultâneos criam sobrecarga.

Ajustes práticos:

Televisão: se estiver ligada, baixe o volume para 30% do habitual. Escolha programas sem mudanças rápidas de cena (documentários de natureza, música clássica). Evite noticiários.
Iluminação: não espere até estar escuro para acender as luzes. Substitua luzes de teto por candeeiros de mesa com luz quente (2700K). Vá aumentando gradualmente a iluminação artificial à medida que a luz natural diminui.

Passo 4 — Antecipar necessidades básicas (de hora a hora)

A pessoa com demência perde a capacidade de reconhecer e comunicar necessidades físicas. O desconforto transforma-se em agitação.

Checklist horária (16h-20h):

Hidratação: ofereça água a cada hora. 3-4 goles, não um copo cheio. Use sempre o mesmo copo. Não pergunte "quer água?". Diga "vamos beber um pouco" e aproxime o copo.
Temperatura corporal: verifique se as mãos estão frias ou quentes. Vista ou retire uma peça. As pessoas com demência perdem a perceção de calor/frio.

Passo 5 — Implementar rotinas de segurança (18h-20h)

O cérebro com demência procura padrões previsíveis. A repetição cria âncoras de segurança.

Elementos fixos diários:

Passo 6 — Validar sem corrigir (quando a confusão aparecer)

A lógica racional não funciona com um cérebro em pânico. Argumentar intensifica a agitação.

Em vez de corrigir: "Está em casa, não precisa de ir a lado nenhum."
Experimente validar: "Tem razão, está na hora de irmos. Vamos buscar o casaco?" (e dê uma volta dentro de casa ou no jardim).
Em vez de negar: "Já jantou há uma hora, é impossível ter fome."
Experimente reconhecer: "Tem razão, hoje atrasei-me. Enquanto preparo algo, quer ajudar-me a pôr a mesa?"
Em vez de confrontar: "Essa pessoa não vem cá há 20 anos."
Experimente acompanhar: "Também gostava de a ver. Vamos ver se ela telefona ainda hoje."

A validação não é mentir. É entrar no mundo emocional da pessoa, reconhecer o que ela sente, e reduzir o pânico.

Os erros mais comuns que agravam a agitação ao final do dia na demência

Mesmo com o protocolo implementado, certos erros podem desfazer todo o trabalho.

Erro 1: Tentar explicar ou convencer

"Não precisa de ir trabalhar, está reformado há 15 anos." Esta frase, por mais verdadeira que seja, não tem impacto num cérebro que perdeu a noção de tempo. Aumenta apenas frustração.

Erro 2: Deixar a pessoa sozinha "para acalmar"

O isolamento intensifica o pânico. A presença física calma, mesmo em silêncio, funciona como regulador emocional.

Erro 3: Introduzir novidades ao final do dia

Visitas novas, roupas diferentes, divisões reorganizadas. Qualquer mudança ao final do dia é processada como ameaça.

Erro 4: Responder com irritação ou impaciência

A pessoa com demência lê o tom emocional, mesmo quando já não compreende as palavras. Se detetar tensão, a agitação aumenta.

Erro 5: Tentar "cansar" a pessoa durante o dia

"Se andar mais, à noite dorme melhor." Na demência, o excesso de estímulo não cansa, esgota. E o esgotamento manifesta-se como agitação.

Quando a agitação ao final do dia na demência requer de avaliação médica

Nem toda a agitação ao final do dia na demência significa Síndrome do Pôr-do-Sol. Alguns sinais indicam causas que exigem intervenção clínica.

Procure avaliação médica se:

A agitação surge subitamente após semanas/meses de estabilidade
Há sinais de dor que a pessoa não consegue expressar (gemer, tocar repetidamente numa zona do corpo)

Estes sinais podem indicar infeção, efeitos secundários de medicação, dor crónica ou progressão da demência que exige ajuste terapêutico.

O que fazer a partir de agora

A Síndrome do Pôr-do-Sol não vai desaparecer. Mas pode tornar-se mais leve.

Comece por um passo: esta semana, implemente apenas o Passo 3 (redução de estímulos). Observe o que muda. 

Na semana seguinte, adicione o Passo 4 (necessidades básicas). Construa o protocolo gradualmente.

Não procure a perfeição. Procure reduzir o sofrimento de todos, do seu familiar e o seu.

E lembre-se: os dias maus vão existir. Não medem a sua competência como cuidador. Medem apenas a natureza imprevisível da demência.

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FAQs - Perguntas Frequentes

A agitação ao final do dia na demência desaparece com a progressão da demência?

Não necessariamente. Pode manter-se, agravar-se ou, em fases muito avançadas, diminuir quando a pessoa perde a mobilidade e fica mais sedentária. Cada caso evolui de forma diferente.

Posso usar medicação para controlar a agitação ao final do dia na demência?

Apenas sob orientação médica rigorosa. O controlo ambiental deve ser sempre a primeira linha. Se a medicação for necessária, deve ser reavaliada frequentemente.

Se a pessoa insiste em sair de casa à noite, devo deixar?

Nunca sozinha. O risco de desorientação, queda ou acidente é elevado. Valide a intenção ("vamos ver lá fora") e acompanhe numa volta curta e segura. Se o comportamento se tornar sistemático e perigoso, contacte o médico.

A agitação ao final do dia na demência pode ser prevenida completamente?

Não. É uma resposta neurológica à degeneração cerebral. O objetivo realista é reduzir intensidade e duração, não eliminar. Esperar controlo total gera frustração desnecessária.

E se num dia nada resultar?

Vai acontecer. Não é falha sua. A demência é imprevisível. Nos dias maus, priorize segurança (sua e da pessoa), minimize danos, e peça ajuda se precisar. A perfeição não existe neste contexto.

A agitação ao final do dia na demência é sempre Síndrome do Pôr-do-Sol?

Não. Pode ser dor, infeção, efeito de medicação ou simplesmente um dia mau. Se o padrão mudar (horário diferente, sintomas novos), procure avaliação médica.

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