Se o seu familiar com demência repete perguntas constantemente, este artigo vai ajudá-lo(a) a entender os motivos e a perceber como deve reagir nesta situação.
"Que horas são?" Cinco minutos depois: "Que horas são?" E outra vez. E outra.
É um dos comportamentos que mais desgastam os familiares cuidadores. Não pela pergunta em si, mas pela frequência implacável com que surge.
A mesma dúvida, dezenas de vezes ao dia, sem pausa.
⏳ Tempo de Leitura: 9 minutos
Quando a pessoa com demência repete perguntas, a tendência natural é perder a paciência - "Já lhe disse isso mil vezes."
Mas essa reação só aumenta a ansiedade do seu familiar e a frustração de ambos. O problema não está na pergunta - está no que a demência fez à memória da pessoa que cuida.
Este artigo explica por que razão o seu familiar repete constantemente as mesmas perguntas e oferece estratégias concretas, testadas em mais de mil consultas, para responder de forma que reduza a ansiedade dele e preserve a sua energia.
A resposta está no cérebro, não na teimosia. A demência afeta principalmente a memória recente — aquela que regista o que aconteceu há minutos ou horas.
A memória de longo prazo mantém-se mais preservada nas fases iniciais e intermédias.
Quando o seu familiar com demência repete perguntas e diz: "Já almoçámos?" pela décima vez, não está a testar a sua paciência.
Genuinamente não se lembra de ter almoçado há uma hora. Nem se lembra de ter feito a mesma pergunta há cinco minutos.
Para si é repetição. para a pessoa é sempre a primeira vez.
O hipocampo, estrutura cerebral responsável por formar novas memórias, é uma das primeiras áreas afetadas pela demência. Sem esta função a trabalhar corretamente, a informação nova não fica retida.
É como tentar encher um copo furado: quando a pessoa com demência repete perguntas, por mais que responda, a resposta não se fixa.
Exigir que uma pessoa com demência se lembre da pergunta que fez há minutos é como esperar que alguém sem pernas corra uma maratona.
Não é possível. E insistir nisso só gera sofrimento desnecessário.
Esquecimento normal do envelhecimento:
Perguntas repetitivas na demência:
Se as perguntas repetitivas surgiram de forma súbita ou pioraram muito em semanas, contacte o médico - pode haver uma causa tratável como infeção urinária ou desidratação.
Quando a pessoa com demência repete perguntas, a primeira estratégia é mudar a perspetiva: a pessoa não quer apenas a resposta literal. Quer segurança, orientação ou alívio de uma preocupação.
Quando pergunta "Que horas são?" repetidamente, pode estar à espera de algo — uma visita, uma consulta, a hora de jantar.
A pergunta é a forma que encontrou para expressar ansiedade.
Quando o seu familiar com demência repete perguntas, questione: "Qual a preocupação por trás desta pergunta?" e "O que estará a sentir o meu familiar?".
Esta mudança de foco permite responder não apenas à pergunta, mas à emoção subjacente.
Exemplo: se pergunta "Quando vem a Maria?" vezes sem conta, a preocupação pode não ser a hora exata, mas o receio de ser esquecido ou de ficar sozinho.
Responder apenas "às três da tarde" não resolve a ansiedade. Validar o sentimento sim.
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Estas estratégias foram implementadas com sucesso em centenas de famílias que acompanhamos. Não são truques, são formas de proteger a relação e reduzir a angústia provocada pelo esquecimento.
Mais importante do que a resposta literal é mostrar que entende a preocupação.
❌ Em vez de: "Já lhe disse, ela chega às três."
✅ Experimente: "Compreendo que esteja ansioso por saber a que horas a Maria chega. É normal querer confirmar. Ela vem às três, como combinámos."
Esta abordagem reconhece a emoção antes de dar a informação. A pessoa sente-se ouvida, não corrigida.
Para si é a décima repetição; para a pessoa com demência é sempre novidade. A sua calma evita frustração de ambos os lados.
Respire fundo. Responda com o mesmo tom neutro ou carinhoso que usaria da primeira vez.
Não demonstre irritação, impaciência ou cansaço. A pessoa capta o tom emocional mesmo quando já não compreende todas as palavras.
Quadros com perguntas e respostas frequentes, relógios grandes ou calendários visíveis reduzem a necessidade de perguntar.
Em vez de repetir verbalmente, aponte: "Veja aqui no quadro, a Maria chega às 15h."
Ou: "Já almoçámos - olhe, o prato ainda está aqui na mesa."
As pistas visuais funcionam porque a pessoa pode consultá-las autonomamente, reduzindo a dependência de terceiros e a ansiedade de esquecer.
Informações a incluir:
Formato ideal:
Depois de responder, desvie a atenção para algo positivo ou concreto.
"Sim, já almoçámos. Quer ajudar-me a arrumar a mesa agora?" Ou: "Faltam duas horas para a Maria chegar. Vamos ver estas fotografias antigas enquanto esperamos?"
Se a estratégia verbal não resultar, mude a via de estímulo: mostre uma fotografia com significado, ponha uma música que a pessoa goste ou peça ajuda numa tarefa simples.
O objetivo é interromper o ciclo de ansiedade que alimenta a repetição.
Não responder ou fingir que não ouviu não resolve o problema. Agrava-o.
Imagine-se a fazer uma pergunta vezes sem conta sem obter resposta. Como se sentiria? Invisível, ignorado, assustado.
Para quem vive com demência é igual. Perguntar é sinal de que precisa de saber, de orientação ou de contacto humano.
Mesmo cansado, responda. Pode ser breve, mas responda. A sua voz e presença trazem segurança.
Anote quando, sobre o quê e em que contexto é que a pessoa com demência repete perguntas. Na maior parte das vezes, não é aleatório e existe um padrão, mesmo que não se aperceba.
Este registo permite identificar padrões. Pode perceber que as perguntas aumentam sempre ao final da tarde (síndrome do pôr do sol), antes de uma visita esperada ou quando há mudanças na rotina.
Com esta informação, pode antecipar-se e prevenir a ansiedade.
💬 Situação: O Sr. Manuel pergunta de 5 em 5 minutos "A que horas vem a fisioterapeuta?"
❌ Resposta ineficaz: "Já lhe disse três vezes! Ela vem às onze!"
✅ Resposta eficaz: "A fisioterapeuta vem às onze. Sei que está ansioso pela sessão. Olhe aqui no relógio - faltam 20 minutos. Enquanto esperamos, quer fazer os exercícios de aquecimento que ela recomendou?"
Na maioria dos casos, as perguntas repetitivas são sintoma da progressão natural da demência. Mas há situações em que podem sinalizar algo tratável.
Contacte o médico se as perguntas repetitivas:
Causas reversíveis como infeção urinária, desidratação, efeitos secundários de medicamentos ou problemas de sono podem agravar temporariamente os sintomas cognitivos.
Responder à mesma pergunta dezenas de vezes por dia desgasta. É legítimo sentir-se cansado, frustrado ou com vontade de gritar. Isso não faz de si mau cuidador - faz de si humano.
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As perguntas repetitivas não vão desaparecer. Fazem parte da progressão da demência. Mas a forma como responde pode transformar um momento de frustração mútua num momento de conexão e segurança.
Lembre-se: a pessoa não está a testar-lhe a paciência. Está a expressar uma necessidade - de orientação, de segurança, de saber que não está sozinha.
A sua resposta calma e consistente é, muitas vezes, o único ponto fixo num mundo que, para ela, mudou completamente.
Comece com uma estratégia de cada vez. Valide a emoção. Responda como se fosse a primeira vez. Use pistas visuais. Pequenas mudanças no ambiente e na comunicação podem poupar horas de desgaste e preservar a relação, que é o que mais importa.
Não. Corrigir não melhora a memória e aumenta a frustração de ambos. Se a informação errada não colocar a pessoa em perigo, deixe estar. Se for importante, redirecione com suavidade sem usar a palavra "não" ou "está errado".
Raramente. A pessoa não se lembra de ter perguntado, pelo que dizer isso soa a acusação. Gera confusão e pode fazer com que se sinta incompetente. Responda simplesmente, como se fosse a primeira vez.
Alguns medicamentos para a demência podem ter efeito moderado nos sintomas cognitivos, mas não eliminam as perguntas repetitivas. O mais eficaz é ajustar o ambiente e as estratégias de comunicação.
Fique atento a tosse durante ou após as refeições, voz rouca depois de comer, sensação de "comida presa", ou recusa súbita de alimentos que antes aceitava. Se notar estes sinais, consulte um terapeuta da fala.
A adaptação de texturas (sopas cremosas, purés, líquidos espessados) pode ser necessária.
Pode estar a captar frustração no seu tom ou a sentir-se desrespeitada. Verifique a sua linguagem corporal e tom de voz.
Responda com calma, valide a emoção ("vejo que está aborrecido") e tente redirecionar. Se a irritação persistir, pode haver outro desconforto - dor, fome, cansaço.
Rotinas estruturadas, pistas visuais claras, atividades que ocupem a mente e redução de estímulos stressantes ajudam.
Registe quando as perguntas aumentam para identificar gatilhos evitáveis.
Sim. Cada pergunta representa uma necessidade de segurança ou orientação. Se a frequência é muito elevada, o mais provável é que seja uma indicação de ansiedade extrema. Considere ajustar o ambiente ou a rotina para trazer mais calma.
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