Quando a pessoa com demência não quer comer e empurra o prato repetidamente, mesmo sem ter comido há horas, o desgaste na família é enorme.
Não se trata apenas de uma refeição perdida. É a preocupação com a fraqueza, o risco de infeções, a perda de peso que acelera o declínio.
E porque a lógica já não funciona, as tentativas de convencer tornam-se confrontos diários. "Come só mais uma colher" já foi dito tantas vezes que perdeu o sentido.
⏳ Tempo de Leitura: 10 minutos
A recusa não é birra. É o cérebro que já não processa a experiência de comer da mesma forma.
Neste artigo, explicamos por que razão a pessoa com demência não quer comer e apresentamos 13 estratégias concretas que já implementámos com sucesso junto das famílias que acompanhamos.
Quando a pessoa com demência não quer comer, muitas vezes as causas são neurológicas e/ou físicas. Podem variar consoante a progressão da doença.
A pessoa esquece-se de comer ou perde a noção das rotinas. Pode não se lembrar se já comeu ou não, e a fome deixa de funcionar como sinal de alarme interno.
Já não consegue aquecer ou preparar a refeição, mas não o assume. Pode abrir o frigorífico, olhar para os alimentos e não saber o que fazer a seguir. O gesto de cozinhar, que foi automático durante décadas, desaparece.
Dores de dentes, próteses mal adaptadas ou feridas na boca tornam a mastigação dolorosa. Muitas vezes, a pessoa não consegue verbalizar o desconforto.
Fique atento a:
Se identificar qualquer um destes sinais, agende uma avaliação dentária. Pequenas lesões explicam grandes recusas.
O risco de engasgamento aumenta. O reflexo de engolir torna-se mais lento e menos coordenado, especialmente com líquidos finos ou alimentos secos.
Sabores e cheiros tornam-se distorcidos. O que antes era apetitoso pode agora parecer metálico, amargo ou simplesmente estranho. A demência afeta os recetores sensoriais, alterando a perceção do paladar.
😔 Sente que nada está a funcionar?
Podemos ajudar com orientação personalizada adaptada à vossa realidade. Clique no botão abaixo 👇
Estas adaptações foram testadas em contexto real, com famílias que enfrentavam recusa alimentar diária. Não são truques - são ajustes que respeitam o funcionamento do cérebro com demência.
Identifique a altura do dia em que a pessoa mostra mais vontade de comer. Pode ser às 10h da manhã ou às 16h. Concentre a refeição principal nesse momento, mesmo que não corresponda aos horários tradicionais.
A rigidez dos horários não serve para a pessoa com demência. O que serve é aproveitar o momento em que o apetite está presente.
Um prato com arroz, carne, legumes e molho exige demasiadas decisões. Uma sopa cremosa ou um puré uniforme são mais fáceis de aceitar porque eliminam a sobrecarga sensorial.
Quanto menos componentes no prato, maior a probabilidade de aceitação.
Sirva a comida já pronta, morna e em porções pequenas. Retire o peso da preparação sem infantilizar. A pessoa mantém a autonomia de comer ao seu ritmo, mas sem a exigência de ter de fazer escolhas complexas.
Pequenas lesões na boca explicam grandes recusas. Vale a pena avaliar dentes, gengivas e próteses regularmente. Se a pessoa evita mastigar de um lado ou faz caras pouco habituais ao comer, pode haver desconforto físico não verbalizado.
Depois de validar, redirecione a atenção para algo que a pessoa valorize. Não force uma mudança brusca de assunto – faça uma transição suave.
Atividades eficazes: ver álbuns de fotografias da casa antiga, mexer em objetos com significado emocional (caixa de botões, lenços antigos, ferramentas), ouvir música que tocava nessa casa, dobrar roupa, fazer um chá na cozinha.
O objetivo não é distrair artificialmente. É transportar a atenção para algo que active memória positiva e dê à pessoa uma função, um propósito naquele momento. A sensação de ser útil reduz a ansiedade.
Sente-se ao lado da pessoa e coma também. Quando a pessoa com demência não quer comer, o reflexo social de imitação pode ser decisivo. Ver alguém comer desencadeia o comportamento de comer.
Não precisa de dizer nada. Basta estar presente e começar a comer.
Se a pessoa só aceita pão com doce ao pequeno-almoço, ofereça. É melhor comer algo do que nada. As regras alimentares rígidas deixam de fazer sentido quando a prioridade é garantir ingestão calórica e proteica.
Respeite as preferências, mesmo que não correspondam ao que considera equilibrado.
Refeições já feitas e entregues evitam a exigência de cozinhar ou aquecer. É meio caminho para garantir que há algo acessível e apetecível. Muitas famílias recorrem a serviços de entrega de refeições adaptadas a idosos.
Ter a refeição pronta elimina uma barreira e aumenta a probabilidade de a pessoa comer.
Notas visuais no frigorífico com mensagens como "A tua sopa está aqui" ou alarmes no telemóvel ajudam a compensar a falha de memória. A pessoa pode não se lembrar de comer, mas um lembrete visual ou sonoro pode desencadear a ação.
Se a pessoa com demência não quer comer com talheres, ofereça alimentos que se comem com a mão: pedaços de fruta, ovos cozidos, pequenas sandes, queijo em cubos.
A autonomia aumenta a aceitação. Comer com as mãos não é regressão - é adaptação funcional.
Queijos suaves, purés com temperos familiares, peixe desfiado com azeite. Quando a pessoa com demência não quer comer, estimular o prazer do paladar facilita a ingestão.
A demência pode reduzir a sensibilidade ao sabor, por isso alimentos com sabor mais marcado tendem a funcionar melhor.
Pergunte a si próprio ou a outros familiares: "O que é que sempre gostou?" Regressar a sabores familiares traz conforto. Se a pessoa sempre adorou arroz doce, ofereça arroz doce. A história alimentar é uma ferramenta poderosa.
Se há um prato que funciona bem, repita-o. Nesta fase, mais vale monotonia aceitável do que variedade recusada. A previsibilidade reduz a ansiedade e facilita a aceitação.
Não é preciso inovar todos os dias. O cérebro com demência beneficia de rotinas alimentares estáveis.
Alimentos que marcaram a vida da pessoa funcionam como âncoras emocionais. Pratos da infância, receitas de família ou sobremesas tradicionais ativam memórias sensoriais profundas e aumentam a aceitação.
Quando a pessoa com demência não quer comer carne nem peixe, a integração de proteína tem de ser criativa.
No entanto, a proteína é essencial para uma alimentação saudável: manter massa muscular, reduzir o risco de quedas, fortalecer a imunidade e apoiar a recuperação após infeções.
Na sopa: adicione carne picada, peixe desfiado ou ovo cozido triturado. A textura homogénea da sopa facilita a aceitação e mascara a presença de proteína.
Em refeições fáceis de mastigar: empadão, puré, medalhões de pescada sem espinhas, massa com molho de carne, estufados bem cozidos. Alimentos macios reduzem o esforço de mastigação.
Com laticínios: ofereça iogurtes proteicos ou leite enriquecido em proteína. Muitas marcas comercializam produtos específicos para idosos com necessidades nutricionais aumentadas.
Com sobremesas: pudins, gelatinas com proteína ou batidos são alternativas frescas e agradáveis. A doçura torna-os mais apelativos e a textura suave facilita a ingestão.
Com leguminosas: feijão, grão e lentilhas bem triturados na sopa tornam-na mais nutritiva e fácil de engolir. As leguminosas são uma fonte de proteína vegetal valiosa e económica.
A regra é simples: esconda a proteína nos alimentos que já são aceites. Não force a ingestão de bife ou peixe grelhado se a pessoa os recusa. Adapte a forma de apresentação.
Estas adaptações não são "truques" para enganar a pessoa. São formas de respeitar o cérebro que já não consegue lidar com a complexidade, mas que ainda precisa de alimento para se manter forte.
A insistência gera conflito. A adaptação gera aceitação. Mudar a forma como apresenta a comida, quando a oferece e como a estrutura pode transformar um momento de confronto diário num momento neutro ou até positivo.
A alimentação na demência não segue as regras habituais. E não há problema nenhum nisso. O que importa é que a pessoa coma, mantenha força e não associe a refeição a tensão ou exigência.
Se o seu familiar com demência não quer comer de forma persistente, não desvalorize.
A recusa alimentar prolongada requer avaliação profissional para identificar causas tratáveis e adaptar estratégias à realidade específica da pessoa.
❤️ Precisa de apoio?
Clique no botão abaixo para desenvolvermos estratégias específicas que funcionem para o seu familiar e para a sua família 👇
A recusa alimentar na demência tem múltiplas causas: alterações cerebrais que afetam o reconhecimento da comida, perda de memória sobre refeições, alterações sensoriais (paladar e olfato distorcidos), dificuldades de deglutição, dores na boca não verbalizadas, e perda da sequência motora para comer.
Não é birra - é o cérebro que já não processa a experiência de comer da mesma forma.
Não discuta nem tente provar o contrário. Em vez de confrontar, ofereça algo leve como se fosse um lanche: "Trouxe-te um iogurte" ou "Fiz uma sopa, queres provar?". Evite usar a palavra "almoço" ou "jantar" se a pessoa insiste que já comeu. A memória falha, mas a fome continua presente.
Sim, especialmente se recusa tudo o resto. Comer doce é melhor do que não comer. Pode enriquecer as sobremesas com proteína: adicione leite proteico ao arroz doce, ofereça iogurte grego com mel, ou batidos com fruta e aveia. A prioridade é garantir ingestão calórica, não seguir regras alimentares rígidas.
Este tema é tão comum que escrevi um artigo completo sobre ele. Se o seu familiar só aceita quer comer doces e recusa refeições principais, clique aqui para ler.
Fique atento a tosse durante ou após as refeições, voz rouca depois de comer, sensação de "comida presa", ou recusa súbita de alimentos que antes aceitava. Se notar estes sinais, consulte um terapeuta da fala.
A adaptação de texturas (sopas cremosas, purés, líquidos espessados) pode ser necessária.
Aumente a densidade calórica sem aumentar o volume: adicione azeite, manteiga ou nata às sopas e purés, ofereça frutos secos triturados, use leite gordo em vez de magro.
Fraccione as refeições em 5-6 pequenas porções ao longo do dia. Se a perda de peso for superior a 5% em um mês, procure acompanhamento médico.
Não. Forçar gera ansiedade e pode criar aversão à comida. Respeite o momento e volte a tentar 30 minutos depois, ou ofereça algo diferente.
Por vezes, a recusa está ligada ao momento, não ao alimento. Se a recusa persistir por mais de 24 horas, contacte o médico.
Sim, é comum em fases mais avançadas. A pessoa pode esquecer-se da sequência motora de levar a comida à boca ou não reconhecer os talheres.
Não significa dependência total - significa que o cérebro precisa de um estímulo externo para iniciar a ação. Sente-se ao lado, comece a comer você também, e depois ofereça alternadamente.
Se a pessoa está hidratada e não mostra sinais de desconforto agudo, pode aguardar algumas horas e tentar novamente.
Mas se recusar todas as refeições durante mais de 24 horas, ou se houver recusa total de líquidos por mais de 12 horas, contacte o médico.
A desidratação em pessoas idosas progride rapidamente.
Descubra como lidar com o seu familiar com demência quando tem alucinações e acha que está a ver ou a ouvir pessoas que não existem.
Descubra como a mentira terapêutica protege o bem-estar emocional e a dignidade da pessoa com demência. Como adaptar a comunicação.
A forma como falamos com uma pessoa com demência pode desencadear resistências e conflitos. Saiba adaptar a comunicação com o seu familiar