Quando a pessoa com demência diz que quer ir para casa, mesmo já estando lá, milhares de famílias portuguesas sentem-se perdidas.
O seu familiar está sentado na sala onde viveu durante décadas, rodeado dos seus móveis e fotografias, e insiste que precisa de ir para casa.
Tenta explicar com lógica. Mostra-lhe a porta de entrada, os quadros na parede, o sofá onde sempre se sentou. Nada funciona. A ansiedade aumenta.
A pessoa levanta-se, procura o casaco, fica agitada. Sente-se perdida num lugar que já não reconhece como seu.
Este comportamento desgasta profundamente as famílias que cuidam de pessoas com demência em casa.
⏳ Tempo de Leitura: 13 minutos
Não se trata de teimosia nem de falta de memória simples. É uma manifestação neurológica complexa que exige respostas diferentes das que usamos habitualmente.
Neste artigo, explicamos por que razão o seu familiar com demência não reconhece a própria casa e apresentamos dez estratégias concretas que já implementámos com sucesso junto das famílias que acompanhamos.
A demência altera profundamente a forma como o cérebro processa informação espacial e emocional. Quando o seu familiar diz "quero ir para casa", o problema não está na visão nem na memória recente isoladamente.
Está na capacidade de integrar múltiplos sinais sensoriais e emocionais que criam a sensação de "estar em casa".
O córtex cerebral responsável pelo reconhecimento de lugares familiares degrada-se progressivamente.
A pessoa pode ver a cozinha, mas não a reconhece como a sua cozinha. Vê móveis, mas não sente a ligação emocional que antes sentia. O espaço torna-se estranho, desconfortável, até ameaçador.
Para além da degeneração neurológica, existem gatilhos específicos que amplificam esta desorientação.
A luz ao final da tarde provoca sombras e mudanças de luminosidade que confundem o cérebro já fragilizado. Barulhos súbitos, muitas pessoas na sala ou alterações na rotina quebram a frágil sensação de controlo.
O conceito de "casa" na mente da pessoa com demência não é o endereço atual. Pode ser a casa da infância, a primeira casa onde viveu depois de casar, ou até um conceito abstrato de segurança que já não consegue localizar fisicamente.
Quando a pessoa com demência diz que quer ir para casa, está a dizer: "Não me sinto seguro aqui. Preciso de ir para um lugar onde me sinta eu próprio."
A pessoa não está a pedir transporte - está a pedir conforto, previsibilidade, segurança. Responder ao pedido literal ("já está em casa") ignora a verdadeira necessidade. Responder à necessidade emocional (validar, acalmar, redirecionar) resolve o conflito sem confronto.
Estas estratégias são o resultado de centenas de experimentações realizadas com famílias portuguesas cujo familiar com demência diz que quer ir para casa repetidamente.
Não são teorias abstratas – são soluções testadas, ajustadas e comprovadas na prática diária.
Antes de tentar resolver o pedido, registe quando acontece. Anote num caderno ou no telemóvel: que horas eram, o que estava a acontecer antes, quem estava presente, como estava o ambiente (luz, barulho, temperatura).
Muitas famílias descobrem padrões claros depois de uma semana de registos. O pedido surge sempre às 18h, depois do telefonema da filha, quando acaba o programa preferido ou quando há visitas em casa.
Identificar o gatilho permite agir de forma preventiva. Se o pedido surge sempre ao final da tarde, antecipe: prepare um lanche reconfortante às 17h30, coloque música suave, feche as cortinas para evitar sombras. A prevenção é mais eficaz que a gestão da crise.
A rotina é a melhor ferramenta para reduzir a frequência do "quero ir para casa".
Um dia previsível dá segurança ao cérebro confuso. A pessoa com demência não consegue planear nem antecipar, mas consegue sentir-se segura quando as coisas acontecem sempre da mesma forma.
Estabeleça rituais fixos: pequeno-almoço sempre à mesma hora e no mesmo lugar, o passeio sempre depois do almoço, o chá da tarde sempre às 17h, a mesma música antes de deitar. Use os mesmos pratos, a mesma toalha de mesa, o mesmo tom de voz.
Estas pequenas consistências criam âncoras emocionais. O cérebro reconhece padrões repetidos com mais facilidade do que reconhece espaços.
Quando a rotina é sólida, o pedido "quero ir para casa" reduz drasticamente porque a pessoa sente-se segura onde está.
Quando o seu familiar com demência diz que quer ir para casa, a resposta instintiva é corrigir: "Mas está em casa, esta é a sua casa." Esta resposta aumenta a frustração porque invalida a experiência da pessoa.
Em vez de corrigir, faça perguntas com genuína curiosidade: "De que casa está a falar? Como era essa casa? Tinha jardim? Quem vivia lá consigo?"
Mostre interesse real. Deixe a pessoa descrever. Este simples ajuste transforma o conflito em conversa.
A pessoa sente-se ouvida, a memória emocional ativa-se, a ansiedade diminui. Depois de ouvir, valide: "Percebo que tenha saudades dessa casa. Devia ser muito boa." Não está a mentir – está a validar a emoção verdadeira.
A validação emocional é a ferramenta mais poderosa que tem. Não precisa de concordar com o facto ("tem razão, não está em casa") para validar a emoção ("percebo que se sinta perdido e queira ir para um lugar seguro").
Quando valida, está a dizer: "A sua experiência é real. O que sente importa. Não está louco nem errado." Esta validação acalma o sistema nervoso. A pessoa deixa de lutar para ser compreendida.
Frases úteis:
Não são frases vazias – são reconhecimento genuíno de que a experiência emocional da pessoa é válida, independentemente da realidade factual.
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Depois de validar, redirecione a atenção para algo que a pessoa valorize. Não force uma mudança brusca de assunto – faça uma transição suave.
Atividades eficazes: ver álbuns de fotografias da casa antiga, mexer em objetos com significado emocional (caixa de botões, lenços antigos, ferramentas), ouvir música que tocava nessa casa, dobrar roupa, fazer um chá na cozinha.
O objetivo não é distrair artificialmente. É transportar a atenção para algo que active memória positiva e dê à pessoa uma função, um propósito naquele momento. A sensação de ser útil reduz a ansiedade.
Há momentos em que validar e redirecionar não basta. A ansiedade é tão intensa que a pessoa precisa de uma resposta concreta ao pedido. Nestes casos, respostas de compromisso são éticamente adequadas e clinicamente eficazes.
Exemplos:
Estas respostas não são mentiras manipuladoras. São ferramentas terapêuticas que oferecem tranquilidade imediata a um cérebro que não consegue processar tempo nem lógica.
Minutos depois, a pessoa esquece o pedido. O importante é reduzir o sofrimento naquele momento.
Muitas vezes, quando a pessoa com demência diz que quer ir para casa, está na realidade a expressar desconforto físico que não consegue identificar nem comunicar claramente.
Antes de aplicar qualquer estratégia, verifique necessidades básicas.
Tem frio? Coloque uma manta.
Tem fome? Ofereça um lanche ligeiro.
Tem dor? Observe sinais não-verbais (cara tensa, mão numa zona do corpo, postura rígida).
Precisa de ir à casa de banho? Leve com tranquilidade. Está cansado? Sugira descansar no quarto.
Depois de garantir conforto físico, se o pedido persistir, avance para validação emocional e redirecionamento. Mas nunca ignore o corpo. Muitos episódios de agitação resolvem-se com um copo de água, um casaco quente ou uma ida à casa de banho.
As estratégias eficazes variam conforme a progressão da demência. Numa fase inicial, a pessoa pode ainda responder a explicações simples e compreender que está em casa, embora a sensação emocional seja de estranheza.
Em estadios moderados, explicações já não funcionam. A capacidade de raciocínio lógico está comprometida. É aqui que validação emocional, redirecionamento e respostas de compromisso se tornam essenciais.
Em estadios avançados, a comunicação verbal perde eficácia. O tom de voz, o toque suave, a música, a presença física calma tornam-se as principais ferramentas. Não tente convencer – apenas conforte.
Adapte sempre a sua resposta ao que a pessoa ainda consegue processar. Insistir em estratégias desajustadas ao estadio atual aumenta frustração de ambos os lados.
Mesmo que a pessoa não reconheça a casa como um todo, pode reconhecer espaços específicos como seguros. Identifique qual é esse espaço – geralmente o quarto, por vezes a cozinha ou uma cadeira específica na sala.
Quando o pedido "quero ir para casa" surge, conduza a pessoa ao espaço de conforto. Diga: "Vamos descansar um bocadinho aqui." Se houver quintal ou varanda, uma breve saída seguida de regresso pode funcionar como um ritual que acalma.
Este "ritual de retorno" é eficaz: saem juntos, dão uma pequena volta, regressam.
A pessoa tem a sensação de movimento, de que algo mudou, e o ambiente parece mais seguro quando regressa. Não é lógico, mas funciona.
Há dias em que nada funciona. A confusão é demasiado intensa, a ansiedade demasiado profunda, e nenhuma estratégia traz alívio duradouro. Nestes momentos, aceite a flexibilidade e proteja a relação.
Não insista em convencer. Não se zangue. Não se sinta culpado por não conseguir resolver. Mantenha-se presente, calmo, disponível. Às vezes, a única coisa a fazer é sentar-se ao lado da pessoa, segurar-lhe a mão e esperar que a tempestade passe.
O objetivo nunca é ganhar uma discussão lógica. É reduzir sofrimento e preservar dignidade. Se naquele dia específico não conseguiu acalmar completamente, mas manteve a ligação emocional e evitou confronto, fez o mais importante.
Quando o seu familiar com demência diz que quer ir para casa, não está a rejeitar a sua presença nem a recusar o espaço onde vive. Está a expressar uma necessidade profunda de segurança que o cérebro já não consegue satisfazer através do reconhecimento de lugares físicos.
A resposta eficaz nunca é lógica nem corretiva. É emocional, validadora e baseada em estratégias práticas que já demonstraram funcionar: observar padrões, estruturar rotinas, perguntar em vez de corrigir, validar emoções, redirecionar com suavidade, garantir conforto físico, usar respostas de compromisso quando necessário.
Nem todos os dias serão fáceis. Haverá momentos de grande confusão que nenhuma estratégia resolve completamente. Nesses dias, o mais importante é preservar a relação, manter a calma e aceitar que cuidar de uma pessoa com demência é um processo longo onde a flexibilidade é mais valiosa que a perfeição.
Se este comportamento se tornar demasiado frequente ou estiver a provocar exaustão extrema, procure apoio especializado. Não precisa de gerir tudo sozinho. Existem profissionais e serviços que podem ajudar a ajustar estratégias, rever medicação e oferecer descanso ao cuidador.
Comece a registar quando o pedido acontece. Uma semana de observação atenta mostra-lhe padrões que não via antes. E os padrões revelam os gatilhos. E os gatilhos podem ser prevenidos.
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Mantenha-se calmo, baixe o tom de voz e valide a emoção: "Percebo que queira ir para casa." Não argumente nem corrija. Redirecione suavemente para uma atividade que a pessoa valorize ou conduza-a ao espaço onde se sente mais segura (geralmente o quarto). Verifique se tem fome, frio ou dor. Se a agitação persistir, dê tempo e espaço, mantendo-se presente mas sem pressionar.
Sim, é uma resposta terapêutica eticamente adequada. Na demência, o cérebro não processa tempo nem lógica da mesma forma. Esta resposta oferece tranquilidade imediata sem causar dano. Minutos depois, a pessoa esquece o que foi dito. O importante é reduzir sofrimento naquele momento, não manter coerência factual que a pessoa já não consegue processar.
Quando a pessoa com demência diz que quer ir para casa, o padrão temporal é frequente. Em muitos casos, sim. A Síndrome do Pôr do Sol provoca aumento de confusão e agitação ao final da tarde (entre as 17h e as 20h).
Também pode acontecer depois de refeições, visitas, ou quando há mudanças na rotina. Observe e registe os padrões durante uma semana para identificar gatilhos e agir de forma preventiva.
Não explique. Explicações lógicas não funcionam porque o problema não é falta de informação – é alteração neurológica na forma como o cérebro processa segurança e familiaridade. Em vez de corrigir, pergunte: "De que casa fala? Como era?" Valide a emoção: "Percebo que tenha saudades." Depois redirecione para algo reconfortante. A validação acalma; a correção aumenta frustração.
Sim, especialmente em estadios moderados e avançados. A memória espacial e a capacidade de reconhecer lugares familiares deterioram-se progressivamente. A pessoa pode estar fisicamente em casa mas não a reconhecer como tal. Não é esquecimento voluntário nem falta de atenção – é degeneração das áreas cerebrais responsáveis por orientação espacial e memória emocional de lugares.
Sim, significativamente. Rotinas estruturadas e previsíveis criam segurança emocional. Quando o dia segue sempre o mesmo padrão (refeições, atividades, descanso nas mesmas horas), o cérebro confuso sente-se menos perdido. A pessoa pode não lembrar o que vai acontecer a seguir, mas reconhece padrões repetidos e isso reduz ansiedade. Rotinas são a base de qualquer plano de cuidados em demência.
Depende da situação e do estadio da demência. Se a pessoa ainda tem alguma autonomia e orientação, uma breve saída acompanhada pode acalmar. Se há risco de desorientação na rua, diga "vamos preparar-nos primeiro" e redirecione. Nunca deixe sair sozinha.
Se a pessoa insistir muito e houver segurança, saia com ela, dê uma volta curta e regresse.
Atividades que ativem memória emocional positiva: ver fotografias antigas, ouvir música familiar, mexer em objetos com significado (caixa de botões, lenços, ferramentas), dobrar roupa, fazer um chá, acariciar um animal de estimação.
Evite atividades que exijam raciocínio complexo. Escolha ações simples, repetitivas e reconfortantes que a pessoa consiga executar sem frustração.
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