Quando a pessoa com demência acusa de roubar, não é má-fé nem desconfiança real.
A pessoa não está a mentir. Não está a ser maliciosa. O cérebro perdeu a capacidade de localizar objetos, de criar memórias recentes e de reconhecer contextos familiares.
"Roubaste-me a carteira."
"Onde está o meu dinheiro?"
"Sei que foste tu."
Ouvir isto da pessoa que cuida pode ser devastador. A acusação é direta. O tom é sério. E a primeira reação é defender-se, explicar, mostrar que nunca faria tal coisa.
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Neste artigo, vou explicar-lhe exatamente o que acontece no cérebro quando o seu familiar com demência acusa de roubar, porque é que responder com argumentos piora a situação, e o que fazer na prática para proteger a relação e reduzir o sofrimento de ambos.
A demência deteriora progressivamente o hipocampo, a estrutura cerebral responsável por formar memórias recentes.
Quando o seu familiar coloca a carteira num local diferente do habitual, o cérebro não regista esse momento. Minutos depois, ao procurar a carteira no sítio esperado, não a encontra.
O que falta não é o objeto. É a memória de o ter mudado de lugar.
Para preencher esse vazio, o cérebro cria uma explicação plausível: alguém deve ter levado.
Muitas vezes, é por isso que a pessoa com demência acusa de roubar quem está mais próximo, a pessoa que cuida.
Em fases moderadas a avançadas, a pessoa com demência pode desenvolver agnosia - a incapacidade de reconhecer pessoas conhecidas.
O seu familiar pode olhar para si e não sentir a ligação emocional habitual. Vê um rosto vagamente familiar, mas o cérebro não activa a memória afectiva que diria "esta pessoa é de confiança".
Sem essa âncora emocional, qualquer explicação parece válida. Inclusive a de que você, que está ali todos os dias, pode ter levado algo.
Confabulação é o termo clínico para memórias fabricadas que o cérebro cria quando não consegue aceder a informação real. Não é mentira consciente. É o cérebro a tentar manter coerência interna.
Se a pessoa não se lembra onde colocou o relógio, o cérebro pode construir uma história: "Ele estava aqui ontem. Hoje já não está. Alguém levou."
A narrativa parece lógica para quem a vive. Por isso, insistir na verdade factual não resolve. A pessoa acredita genuinamente no que está a dizer.
Explicar que nunca roubaria, mostrar onde está o objeto, ou relembrar anos de confiança exige que o cérebro da pessoa:
Estes processos cognitivos estão comprometidos. A tentativa de convencer só gera mais confusão, porque o cérebro não consegue acompanhar o raciocínio.
Quando insiste em defender-se, a pessoa com demência pode interpretar isso como:
"Está a negar. Logo, deve ter algo a esconder."
A insistência é lida como comportamento suspeito. A ansiedade aumenta. O tom sobe. E o conflito escala rapidamente.
O que começou como uma acusação pontual pode transformar-se numa crise emocional prolongada, com gritos, choro ou recusa de contacto físico.
Ser acusado de roubo por quem ama e cuida todos os dias é profundamente injusto. A frustração acumula-se. O cansaço aumenta. E a tentação de responder com irritação torna-se cada vez maior.
Mas reagir emocionalmente piora a situação. A pessoa capta o tom alterado e interpreta-o como ameaça, reforçando a ideia de que algo está errado.
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Estas não são teorias. São abordagens testadas, ajustadas e validadas em contexto real, com famílias portuguesas a cuidar de pessoas com demência em casa.
Quando o seu familiar com demência acusa de roubar, em vez de dizer: "Nunca te roubei nada. Como podes pensar isso?"
Experimente: "Percebo que esteja preocupado. Também ficaria inquieto se não encontrasse as minhas coisas."
Esta resposta reconhece o que a pessoa está genuinamente a sentir - medo, confusão, insegurança - sem reforçar a narrativa da acusação.
A validação emocional acalma quando a pessoa com demência acusa de roubar. O facto de se sentir ouvida reduz a necessidade de insistir na acusação.
Quando o seu familiar com demência acusa de roubar, em vez de dizer: "Não fui eu. Deve ter perdido."
Experimente: "Devo ter sido eu que mexi nisso. Deve ter ficado noutro sítio. Vamos procurar juntos."
Ao "assumir a culpa" de forma ligeira e prática, remove o conflito. O seu familiar deixa de precisar de provar que tem razão. E o foco muda de "quem levou" para "onde está".
Esta técnica chama-se mentira terapêutica. Não é enganar. É adaptar a comunicação à realidade cognitiva da pessoa, priorizando o bem-estar emocional da mesma.
Se a procura pelo objeto se prolonga ou a pessoa continua a acusar de roubar, mude o foco:
"Vamos procurar mais tarde com mais calma. Agora precisava mesmo da sua ajuda lá fora." ou "Deixe-me fazer-lhe um chá enquanto pensamos onde pode estar."
O cérebro com demência fixa-se facilmente numa ideia. Mas também é facilmente distraído. Redirecionar a atenção para algo concreto e imediato interrompe o ciclo de ansiedade.
Evite dizer: "A tua irmã também estava aqui e viu que não levei nada."
Trazer terceiros para "provar" a sua inocência pode ser interpretado como conspiração. A pessoa pode começar a desconfiar de toda a gente.
Mantenha a interação simples, direta e focada na procura do objeto, não na culpabilização.
Chaves, carteiras, óculos, telemóveis - objectos que a pessoa procura frequentemente devem ter cópias guardadas em locais acessíveis a si, mas discretos.
Quando o seu familiar acusa de roubar, pode apresentar o duplicado como se fosse o original encontrado, resolvendo a situação sem prolongar a procura.
Coloque um cesto ou caixa decorativa num local sempre igual - à entrada do quarto, na mesa da cozinha - onde a pessoa possa colocar carteira, chaves e telemóvel.
Reforce a rotina: "Vamos guardar isto aqui, como sempre fazemos."
A repetição cria memória procedimental, que resiste mais tempo que a memória episódica.
Em vez de dizer: "Guarde a carteira no sítio certo."
Faça junto: "Vamos guardar isto aqui os dois. Assim sabemos sempre onde está."
A pessoa sente que participa, mas não fica sozinha com a responsabilidade de lembrar onde colocou o objeto.
Se o seu familiar tem jóias, documentos ou dinheiro guardado, fotografe o local exacto.
Quando surgir a acusação de que algo desapareceu, pode mostrar a foto e dizer: "Está aqui nesta gaveta, como sempre. Vamos ver."
A imagem funciona como prova visual concreta, mais eficaz que a memória verbal.
"Não desapareceu nada. Está tudo no sítio."
Esta frase ignora o que a pessoa sente. E reforça a ideia de que não está a ser levada a sério.
"Outra vez com isso? Já te disse mil vezes que não levei nada."
O tom de frustração é captado imediatamente. E transforma-se em mais um motivo de desconfiança.
Se a carteira ora está na mesa de cabeceira, ora na sala, ora na cozinha, o cérebro perde a referência. E as acusações tornam-se mais frequentes.
"A tua filha também sabe que eu nunca te roubei."
Criar uma frente conjunta pode isolar emocionalmente a pessoa com demência e aumentar a paranoia.
Acusações pontuais são comuns. Mas se a pessoa começar a ver intrusos, a ouvir vozes, ou a construir narrativas complexas de conspiração, pode estar a desenvolver sintomas psicóticos.
Nestes casos, a intervenção médica é necessária. Alguns antipsicóticos de baixa dose podem reduzir estes sintomas sem comprometer excessivamente a função cognitiva.
Quando a pessoa recusa medicação, alimentação ou higiene porque "desconfia" de todos, a situação torna-se clinicamente urgente.
Fale com o médico assistente sobre ajustes farmacológicos ou estratégias comportamentais mais estruturadas.
O desgaste emocional de ser repetidamente acusado pode levar ao esgotamento. Se sentir que está a perder a paciência, a evitar contacto com o seu familiar, ou a desenvolver ressentimento, procure apoio.
Psicólogos especializados em cuidadores, grupos de apoio ou consultorias especializadas podem ajudá-lo a recuperar o equilíbrio.
Se o seu familiar com demência já o acusou de roubar ou se teme que isso aconteça, comece por criar sistemas de prevenção.
Identifique os três objectos que a pessoa procura com mais frequência. Estabeleça locais fixos para eles. E reforce essa rotina todos os dias.
Quando a pessoa com demência acusa de roubar, lembre-se: não é sobre si. É sobre um cérebro que já não consegue preencher lacunas.
Valide a emoção. Assuma a procura. Redirecione a atenção.
E proteja o mais importante: a relação com quem cuida.
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Não. Para ela, a acusação é real. O cérebro está genuinamente convencido de que algo desapareceu e de que alguém levou. Não há intenção de magoar.
Não é mentir no sentido moral. É adaptar a comunicação à realidade cognitiva da pessoa. Se assumir a "culpa" acalma a situação e permite resolver o problema, é uma estratégia válida.
Mantenha a calma. Responda com a mesma validação: "Vamos procurar juntos." Não tente defender-se publicamente. Depois, explique em privado aos outros familiares o que está a acontecer no cérebro da pessoa.
Podem aumentar em frequência nas fases moderadas e depois reduzir nas fases avançadas, quando a pessoa perde a capacidade de formular narrativas complexas. Mas cada caso é único.
Sim, especialmente dinheiro e jóias. Reduza a quantidade de objectos valiosos acessíveis. E crie locais fixos para o que a pessoa usa diariamente.
Sim. As acusações podem dirigir-se a qualquer pessoa próxima. Se isto acontecer, explique a esses familiares ou vizinhos o que está a acontecer para evitar conflitos.
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