Quando o seu familiar com demência inventa histórias - como afirmar que foi ao médico ontem mas não sai de casa há semanas, ou contar que falou com a mãe ao telefone quando ela faleceu há vinte anos - a primeira reação natural é corrigir.
Mostrar a realidade. Apresentar provas. Porque cuidar de alguém implica proteger, e deixar passar uma "mentira" parece errado.
Mas um cérebro comprometido não funciona assim. E insistir na verdade factual pode criar mais conflito do que a resolução. Quando a pessoa com demência inventa histórias, não está a mentir intencionalmente.
São confabulações - tentativas do cérebro de preencher lacunas de memória com fragmentos do passado, rostos familiares e emoções antigas.
⏳ Tempo de Leitura: 8 minutos
Este artigo explica o que são as confabulações, por que surgem e apresenta cinco estratégias práticas para lidar com estes episódios sem entrar em confronto e sem comprometer a vossa relação.
Porque não é possível trazer a pessoa de volta à nossa realidade, mas é possível entrar na dela e cuidar com menos desgaste.
Quando a pessoa com demência inventa histórias, está a construir narrativas para preencher falhas de memória. Não são mentiras deliberadas nem tentativas de manipulação. São o resultado direto de lesões cerebrais que afetam a capacidade de armazenar, recuperar e organizar informação.
A pessoa com demência apresenta estas histórias com convicção absoluta porque, para ela, são memórias reais. O cérebro mistura fragmentos de acontecimentos passados, informação vista na televisão, rostos conhecidos e emoções antigas. Quando surge uma lacuna na memória, preenche-a automaticamente com estes elementos.
Alguma vez teve a sensação de não saber se uma situação aconteceu mesmo ou se a sonhou? A experiência da pessoa com demência é semelhante, mas constante e sem capacidade de autocorreção.
O lobo frontal e o hipocampo são as áreas cerebrais mais afetadas pela demência. Estas regiões são responsáveis pela memória recente, pela organização temporal dos acontecimentos e pela capacidade de distinguir entre o real e o imaginado.
A Direção-Geral da Saúde reconhece a demência como uma prioridade de saúde pública, com impacto direto nas famílias portuguesas.
Quando estas estruturas deixam de funcionar corretamente, o cérebro perde a capacidade de verificar a coerência das suas próprias memórias.
Em vez de reconhecer que não sabe, preenche as lacunas com informação disponível - mesmo que descontextualizada ou datada de décadas atrás.
A pessoa com demência inventa histórias de forma mais frequente em situações de stress, cansaço, ambientes desconhecidos ou quando a pessoa se sente pressionada a responder.
Quanto mais se tenta corrigir, mais o cérebro se esforça para defender a narrativa que construiu, criando um ciclo de frustração para ambos.
Corrigir não funciona. O cérebro com demência não processa argumentos lógicos da mesma forma que processava antes da doença.
Cada tentativa de provar que a história está errada gera confusão, desconfiança e ansiedade. A pessoa não vai aceitar a correção, vai sentir-se atacada.
Quando diz "isso não é verdade" ou "já lhe disse mil vezes", está a criar uma barreira de comunicação.
A pessoa interpreta esta resposta como uma acusação de incompetência ou desonestidade, o que ativa mecanismos de defesa e pode desencadear agitação ou comportamentos desafiantes.
Em vez de corrigir, use frases que reconhecem a experiência da pessoa sem entrar em debate sobre factos:
Estas respostas não são mentiras. São reconhecimentos de que a realidade da pessoa com demência é diferente da sua, e que essa diferença não precisa de ser corrigida para que a relação continue respeitosa.
Evite completamente estas expressões:
Antes de responder a uma confabulação:
O ritmo e o volume da voz têm mais impacto do que as palavras escolhidas. A pausa evita reações automáticas de correção.
Cada confabulação tem uma emoção subjacente. Se a pessoa diz que precisa de ir buscar os filhos à escola, talvez esteja a sentir saudade de ser útil.
Se afirma que o marido está a chegar, pode estar a procurar segurança. Se conta que vai trabalhar amanhã, pode estar a expressar identidade e propósito.
A história pode não ser verdadeira, mas o sentimento é absolutamente real. É aí que deve intervir - não no conteúdo factual, mas na necessidade emocional que a narrativa revela.
Ouça a primeira frase e analise se se enquadra nestas cinco âncoras emocionais comuns:
Depois de identificar a emoção, responda a essa necessidade específica. Se for utilidade, ofereça uma tarefa simples. Se for segurança, reforce a presença. Se for saudade, valide a importância dessa pessoa.
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Em vez de contrariar, entre na narrativa. Pergunte mais. "Conte-me como foi" ou "E o que aconteceu a seguir?" Esta abordagem cria ligação emocional e, muitas vezes, ao falar sobre o tema, a pessoa descomprime e a necessidade de repetir diminui.
Entrar na história não significa alimentar delírios nem mentir. Significa reconhecer que a pessoa está a partilhar algo significativo para ela e que merece ser ouvida.
Use perguntas abertas que convidam ao diálogo sem testar a memória:
Observe se a pessoa apresenta estes indicadores de descompressão emocional:
Quando estes sinais aparecem, significa que a necessidade emocional por trás da confabulação está a ser atendida. É o momento ideal para introduzir a próxima estratégia.
Quando a pessoa com demência inventa histórias, validar a emoção e introduzir uma atividade simples ajuda a mudar o foco sem criar sensação de manipulação.
A transição deve ser natural, sem pressa, sem tom de quem está a "distrair" — mas de quem está a propor algo em conjunto.
O segredo está em escolher atividades com propósito real, que façam a pessoa sentir-se útil e capaz. Tarefas que envolvem movimento suave, repetição e resultado visível funcionam melhor.
Domésticas com resultado imediato:
Domésticas com resultado imediato:
Frases de convite conjunto:
Formule o convite como um pedido de ajuda genuíno, não como uma distração óbvia:
A palavra "ajuda" é poderosa porque reforça utilidade e competência - duas necessidades emocionais centrais para pessoas com demência.
Quando a pessoa com demência inventa histórias, perguntas como "Mas não se lembra de que isso foi há muito tempo?" ou "Tem a certeza de que foi assim?" são armadilhas.
Colocam a pessoa em posição de defesa, expõem as suas dificuldades cognitivas e reforçam a sensação de falha.
Estes testes acontecem frequentemente de forma involuntária, porque as famílias ainda veem a pessoa como ela era antes da demência. Mas cada teste falhado aumenta a frustração de ambas as partes e não traz qualquer benefício terapêutico.
Quando a confabulação se repete ciclicamente, use este processo em três passos:
Este ciclo pode ser repetido quantas vezes necessário. O objetivo não é eliminar a confabulação, mas sim reduzi-la através da satisfação da necessidade emocional subjacente.
Nem todas as vezes que a pessoa com demência inventa histórias são iguais. Algumas situações exigem avaliação médica urgente porque podem indicar complicações para além da progressão natural da doença.
Procure apoio do médico assistente, contacte a linha SNS24 (808 24 24 24) para orientação ou dirija-se ao serviço de urgência se:
Estes sinais podem indicar delirium (confusão aguda reversível), infeções urinárias ou respiratórias, desidratação, efeitos adversos de medicação ou progressão acelerada da doença.
A intervenção precoce pode prevenir complicações graves.
Quando a pessoa com demência inventa histórias, ser capaz de lidar com a situação exige uma mudança de perspetiva.
Não se trata de corrigir a pessoa com demência, mas de entender que o cérebro dela funciona de forma diferente.
As histórias que conta são a forma que encontra de dar sentido ao mundo quando a memória falha.
As cinco estratégias apresentadas: não corrigir, identificar a emoção, entrar na narrativa, redirecionar com propósito e evitar testes de memória - reduzem conflito, preservam dignidade e protegem a relação entre cuidador e pessoa cuidada.
Comece por escolher uma das estratégias e aplique-a durante uma semana. Observe como a pessoa reage e como se sente durante e depois dos episódios. O cuidado sem confronto é uma aprendizagem gradual, não uma transformação imediata.
Se sentir que a sobrecarga está a tornar-se insuportável ou que precisa de orientação específica para o caso do seu familiar, procure apoio profissional especializado em demência.
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Cuidar bem de quem ama implica também cuidar de si.
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Não. As confabulações não são mentiras intencionais. São o resultado de lesões cerebrais que afetam a memória e a capacidade de distinguir entre o real e o imaginado.
A pessoa com demência acredita genuinamente no que está a contar.
Quando a pessoa com demência inventa histórias impossíveis, não precisa de concordar nem discordar. Valide a emoção por trás da narrativa sem entrar no debate sobre factos.
Frases como "percebo" ou "interessante" reconhecem a experiência da pessoa sem reforçar nem contradizer o conteúdo.
Não necessariamente. A frequência e o tipo de confabulações variam conforme a área cerebral afetada e o estadio da doença. Algumas pessoas confabulam mais nas fases intermédias e menos nas fases avançadas. Cada caso é único.
Sim, quando servem para reduzir sofrimento sem criar riscos. Se a pessoa pergunta por alguém que faleceu, pode dizer "não está aqui agora" em vez de repetir a notícia do falecimento. O objetivo é proteger o bem-estar emocional, não manipular.
Confabulações são histórias elaboradas mas geralmente calmas. Delírios vêm acompanhados de paranoia, medo intenso, agitação ou agressividade. Se houver alteração súbita de comportamento ou sinais de infeção, procure avaliação médica.
Varia muito. Pode durar minutos ou horas, dependendo da intensidade emocional e da eficácia das estratégias de redirecionamento. O importante é não alimentar o ciclo com correções ou debates prolongados.
Não se defenda nem entre em debate. Mantenha a calma, valide a emoção ("vejo que está chateado/a") e redirecione para atividade física leve. Se as acusações persistirem e causarem agitação frequente, consulte o médico para ajuste de estratégia.
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