O seu familiar com demência inventa histórias? 5 Estratégias Práticas

Introdução

Quando o seu familiar com demência inventa histórias - como afirmar que foi ao médico ontem mas não sai de casa há semanas, ou contar que falou com a mãe ao telefone quando ela faleceu há vinte anos - a primeira reação natural é corrigir.

Mostrar a realidade. Apresentar provas. Porque cuidar de alguém implica proteger, e deixar passar uma "mentira" parece errado.

Mas um cérebro comprometido não funciona assim. E insistir na verdade factual pode criar mais conflito do que a resolução. Quando a pessoa com demência inventa histórias, não está a mentir intencionalmente.

São confabulações - tentativas do cérebro de preencher lacunas de memória com fragmentos do passado, rostos familiares e emoções antigas.

⚡ Resumo Rápido

Confabulações não são mentiras intencionais, mas sim o cérebro a preencher lacunas de memória
Corrigir não funciona e tende a deteriorar a relação
Cada história inventada esconde uma necessidade emocional real (utilidade, segurança, saudade)
Entrar na narrativa cria ligação - contrariar cria conflito
Redirecionar com atividades práticas reduz repetição e ansiedade

⏳ Tempo de Leitura: 8 minutos

Este artigo explica o que são as confabulações, por que surgem e apresenta cinco estratégias práticas para lidar com estes episódios sem entrar em confronto e sem comprometer a vossa relação. 

Porque não é possível trazer a pessoa de volta à nossa realidade, mas é possível entrar na dela e cuidar com menos desgaste.

O que são confabulações na demência?

Quando a pessoa com demência inventa histórias, está a construir narrativas para preencher falhas de memória. Não são mentiras deliberadas nem tentativas de manipulação. São o resultado direto de lesões cerebrais que afetam a capacidade de armazenar, recuperar e organizar informação.

A pessoa com demência apresenta estas histórias com convicção absoluta porque, para ela, são memórias reais. O cérebro mistura fragmentos de acontecimentos passados, informação vista na televisão, rostos conhecidos e emoções antigas. Quando surge uma lacuna na memória, preenche-a automaticamente com estes elementos.

Alguma vez teve a sensação de não saber se uma situação aconteceu mesmo ou se a sonhou? A experiência da pessoa com demência é semelhante, mas constante e sem capacidade de autocorreção.

Por que razão a pessoa com demência inventa histórias?

O lobo frontal e o hipocampo são as áreas cerebrais mais afetadas pela demência. Estas regiões são responsáveis pela memória recente, pela organização temporal dos acontecimentos e pela capacidade de distinguir entre o real e o imaginado.

A Direção-Geral da Saúde reconhece a demência como uma prioridade de saúde pública, com impacto direto nas famílias portuguesas.

Quando estas estruturas deixam de funcionar corretamente, o cérebro perde a capacidade de verificar a coerência das suas próprias memórias. 

Em vez de reconhecer que não sabe, preenche as lacunas com informação disponível - mesmo que descontextualizada ou datada de décadas atrás.

A pessoa com demência inventa histórias de forma mais frequente em situações de stress, cansaço, ambientes desconhecidos ou quando a pessoa se sente pressionada a responder. 

Quanto mais se tenta corrigir, mais o cérebro se esforça para defender a narrativa que construiu, criando um ciclo de frustração para ambos.

💡 Sinais de que está perante uma confabulação

A pessoa com demência inventa histórias sobre acontecimentos recentes que não aconteceram
Mistura pessoas, lugares ou períodos temporais diferentes
Apresenta a história com total convicção e detalhes
Repete a mesma narrativa várias vezes seguidas
Reage com confusão ou irritação quando contrariada
Não aceita provas físicas que contradigam a versão dela

Estratégia 1: Não corrigir - nem uma vez

Corrigir não funciona. O cérebro com demência não processa argumentos lógicos da mesma forma que processava antes da doença. 

Cada tentativa de provar que a história está errada gera confusão, desconfiança e ansiedade. A pessoa não vai aceitar a correção, vai sentir-se atacada.

Quando diz "isso não é verdade" ou "já lhe disse mil vezes", está a criar uma barreira de comunicação. 

A pessoa interpreta esta resposta como uma acusação de incompetência ou desonestidade, o que ativa mecanismos de defesa e pode desencadear agitação ou comportamentos desafiantes.

Respostas que validam sem confrontar

Em vez de corrigir, use frases que reconhecem a experiência da pessoa sem entrar em debate sobre factos:

"Percebo, tinha ideia que era diferente"
"Acredito que tenha sido assim para si"
"Obrigada por partilhar, interessante"
"Não me recordo, mas pode ter acontecido"

Estas respostas não são mentiras. São reconhecimentos de que a realidade da pessoa com demência é diferente da sua, e que essa diferença não precisa de ser corrigida para que a relação continue respeitosa.

Respostas que validam sem confrontar

Evite completamente estas expressões:

"Isso não é verdade"
"Já não se lembra de nada"
"Olhe aqui a prova"
"Não foi assim, foi assado"
"Está confuso/a outra vez"

💡 Técnica para Cuidadores

Antes de responder a uma confabulação:

1 - Conte mentalmente até três
2 - Respire fundo
3 - Baixe o tom de voz
4 - Escolha uma frase validante

O ritmo e o volume da voz têm mais impacto do que as palavras escolhidas. A pausa evita reações automáticas de correção.

Estratégia 2: Procurar a emoção por trás da história

Cada confabulação tem uma emoção subjacente. Se a pessoa diz que precisa de ir buscar os filhos à escola, talvez esteja a sentir saudade de ser útil. 

Se afirma que o marido está a chegar, pode estar a procurar segurança. Se conta que vai trabalhar amanhã, pode estar a expressar identidade e propósito.

A história pode não ser verdadeira, mas o sentimento é absolutamente real. É aí que deve intervir - não no conteúdo factual, mas na necessidade emocional que a narrativa revela.

Como identificar a emoção associada quando o seu familiar com demência inventa histórias

Ouça a primeira frase e analise se se enquadra nestas cinco âncoras emocionais comuns:

Utilidade: "Preciso de ir trabalhar" / "Tenho de fazer o jantar"
Segurança: "O meu marido vem buscar-me" / "A minha mãe está à minha espera"
Saudade: "Falei com a minha irmã hoje" / "Os meus filhos vieram cá"
Pertença: "Tenho de ir para casa" / "Este não é o meu lugar"
Medo: "Roubaram-me a carteira" / "Estou sozinho/a"

Depois de identificar a emoção, responda a essa necessidade específica. Se for utilidade, ofereça uma tarefa simples. Se for segurança, reforce a presença. Se for saudade, valide a importância dessa pessoa.

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Estratégia 3: Quando a pessoa com demência inventa histórias, utilize-as como ponte

Em vez de contrariar, entre na narrativa. Pergunte mais. "Conte-me como foi" ou "E o que aconteceu a seguir?" Esta abordagem cria ligação emocional e, muitas vezes, ao falar sobre o tema, a pessoa descomprime e a necessidade de repetir diminui.

Entrar na história não significa alimentar delírios nem mentir. Significa reconhecer que a pessoa está a partilhar algo significativo para ela e que merece ser ouvida.

Perguntas que abrem a ponte

Use perguntas abertas que convidam ao diálogo sem testar a memória:

"E quem mais estava lá consigo?"
"O que mais gostou nesse momento?"
"Como se sentiu quando isso aconteceu?"
"Conte-me mais sobre essa pessoa"
"O que fazia nesses tempos?"

Sinais de que a ponte está a funcionar

Observe se a pessoa apresenta estes indicadores de descompressão emocional:

Respiração mais calma e regular
Olhar mais estável e menos disperso
Tom de voz mais suave
Menos repetição da mesma frase
Postura corporal relaxada

Quando estes sinais aparecem, significa que a necessidade emocional por trás da confabulação está a ser atendida. É o momento ideal para introduzir a próxima estratégia.

Estratégia 4: Redirecionar com suavidade e propósito

Quando a pessoa com demência inventa histórias, validar a emoção e introduzir uma atividade simples ajuda a mudar o foco sem criar sensação de manipulação.

A transição deve ser natural, sem pressa, sem tom de quem está a "distrair" — mas de quem está a propor algo em conjunto.

O segredo está em escolher atividades com propósito real, que façam a pessoa sentir-se útil e capaz. Tarefas que envolvem movimento suave, repetição e resultado visível funcionam melhor.

Atividades de redirecionamento eficazes

Domésticas com resultado imediato:

Dobrar toalhas ou separar meias por cores
Passar um pano na mesa ou arrumar almofadas
Descascar fruta ou legumes para a refeição
Arrumar talheres ou tampas de tupperwares

Domésticas com resultado imediato:

Folhear um álbum com fotos selecionadas
Passar um pano na mesa ou arrumar almofadas
Descascar fruta ou legumes para a refeição
Arrumar talheres ou tampas de tupperwares

Frases de convite conjunto:

Formule o convite como um pedido de ajuda genuíno, não como uma distração óbvia:

"Preciso mesmo da sua ajuda nisto"
"Quer fazer isto comigo, só 5 minutinhos?"
"Mostre-me como fazia antes, sempre soube melhor"
"Enquanto conversamos, ajude-me aqui"

A palavra "ajuda" é poderosa porque reforça utilidade e competência - duas necessidades emocionais centrais para pessoas com demência.

Estratégia 5: Evitar testes de memória disfarçados

Quando a pessoa com demência inventa histórias, perguntas como "Mas não se lembra de que isso foi há muito tempo?" ou "Tem a certeza de que foi assim?" são armadilhas.

Colocam a pessoa em posição de defesa, expõem as suas dificuldades cognitivas e reforçam a sensação de falha.

Estes testes acontecem frequentemente de forma involuntária, porque as famílias ainda veem a pessoa como ela era antes da demência. Mas cada teste falhado aumenta a frustração de ambas as partes e não traz qualquer benefício terapêutico.

Substituições inteligentes

Em vez de "Lembra-se?", experimente: "Como era para si quando…?"
Em vez de "Tem a certeza?", experimente "Conte-me mais sobre isso"
Em vez de "Já esqueceu?", experimente "Vamos fazer juntos"
Em vez de "Ontem disse outra coisa", experimente "Que interessante essa perspetiva"

Se a pessoa insistir na mesma história

Quando a confabulação se repete ciclicamente, use este processo em três passos:

Validar a emoção: "Percebo que isso é importante para si"
Uma pergunta aberta: "O que sentia quando isso acontecia?"
Redirecionar para atividade: "Enquanto conversamos, ajude-me aqui com isto"

Este ciclo pode ser repetido quantas vezes necessário. O objetivo não é eliminar a confabulação, mas sim reduzi-la através da satisfação da necessidade emocional subjacente.

Quando procurar ajuda profissional

Nem todas as vezes que a pessoa com demência inventa histórias são iguais. Algumas situações exigem avaliação médica urgente porque podem indicar complicações para além da progressão natural da doença.

Sinais de alerta

Procure apoio do médico assistente, contacte a linha SNS24 (808 24 24 24) para orientação ou dirija-se ao serviço de urgência se:

As confabulações vierem acompanhadas de agitação intensa, agressividade física ou delírios persecutórios persistentes
Houver alterações súbitas do estado mental, como sonolência excessiva, desorientação agravada ou falta de resposta a estímulos
A pessoa apresentar febre, tremores ou outros sinais de infeção
Houver recusa total de alimentação ou medicação durante mais de 24 horas
A situação estiver a gerar exaustão extrema no cuidador, com impacto na sua própria saúde mental

Estes sinais podem indicar delirium (confusão aguda reversível), infeções urinárias ou respiratórias, desidratação, efeitos adversos de medicação ou progressão acelerada da doença. 

A intervenção precoce pode prevenir complicações graves.

Cuidar sem conflito é possível

Quando a pessoa com demência inventa histórias, ser capaz de lidar com a situação exige uma mudança de perspetiva

Não se trata de corrigir a pessoa com demência, mas de entender que o cérebro dela funciona de forma diferente. 

As histórias que conta são a forma que encontra de dar sentido ao mundo quando a memória falha.

As cinco estratégias apresentadas: não corrigir, identificar a emoção, entrar na narrativa, redirecionar com propósito e evitar testes de memória - reduzem conflito, preservam dignidade e protegem a relação entre cuidador e pessoa cuidada.

Comece por escolher uma das estratégias e aplique-a durante uma semana. Observe como a pessoa reage e como se sente durante e depois dos episódios. O cuidado sem confronto é uma aprendizagem gradual, não uma transformação imediata.

Se sentir que a sobrecarga está a tornar-se insuportável ou que precisa de orientação específica para o caso do seu familiar, procure apoio profissional especializado em demência

A Alzheimer Portugal disponibiliza uma linha de apoio para orientar famílias em situações de crise.

Cuidar bem de quem ama implica também cuidar de si.

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FAQs - Perguntas Frequentes

Quando a pessoa com demência inventa histórias, está a mentir de propósito?

Não. As confabulações não são mentiras intencionais. São o resultado de lesões cerebrais que afetam a memória e a capacidade de distinguir entre o real e o imaginado.

A pessoa com demência acredita genuinamente no que está a contar.

Devo fingir que acredito em histórias completamente impossíveis?

Quando a pessoa com demência inventa histórias impossíveis, não precisa de concordar nem discordar. Valide a emoção por trás da narrativa sem entrar no debate sobre factos.

Frases como "percebo" ou "interessante" reconhecem a experiência da pessoa sem reforçar nem contradizer o conteúdo.

As confabulações vão piorar com a progressão da demência?

Não necessariamente. A frequência e o tipo de confabulações variam conforme a área cerebral afetada e o estadio da doença. Algumas pessoas confabulam mais nas fases intermédias e menos nas fases avançadas. Cada caso é único.

Posso usar mentiras terapêuticas para lidar com confabulações?

Sim, quando servem para reduzir sofrimento sem criar riscos. Se a pessoa pergunta por alguém que faleceu, pode dizer "não está aqui agora" em vez de repetir a notícia do falecimento. O objetivo é proteger o bem-estar emocional, não manipular.

Como distinguir confabulação de delírio?

Confabulações são histórias elaboradas mas geralmente calmas. Delírios vêm acompanhados de paranoia, medo intenso, agitação ou agressividade. Se houver alteração súbita de comportamento ou sinais de infeção, procure avaliação médica.

Quanto tempo dura normalmente um episódio de confabulação?

Varia muito. Pode durar minutos ou horas, dependendo da intensidade emocional e da eficácia das estratégias de redirecionamento. O importante é não alimentar o ciclo com correções ou debates prolongados.

O que fazer se a confabulação envolver acusações contra mim?

Não se defenda nem entre em debate. Mantenha a calma, valide a emoção ("vejo que está chateado/a") e redirecione para atividade física leve. Se as acusações persistirem e causarem agitação frequente, consulte o médico para ajuste de estratégia.

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